Libertados reféns da guerrilha na Colômbia

Deu certo: a missão humanitária brasileira na Colômbia salvou a vida de dez militares e policiais que estavam como “prisioneiros de guerra” das FARCs há mais de dez anos. A libertação dos reféns, supervisionada pela Cruz Vermelha Internacional, ocorreu apenas um dia após a chegada da força brasileira (ver o post anterior). Foi a quarta operação de resgate do Brasil no país vizinho, que há meio século vive uma sangrenta guerra civil.

Apesar do sucesso da missão, ainda existem centenas de civis em poder das FARCs. Mas a ação humanitária do Brasil abre novas portas para negociações de paz na Colômbia.

Publicado em Violência e crime organizado | 2 Comentários

Missão brasileira está na Colômbia para libertar reféns

Trinta e cinco oficiais, sargentos e soldados do Exército partiram neste sábado (31 de março) da base aérea de São Gabriel da Cachoeira, a 850 quilômetros de Manaus, para a Villa Vicendo, pequena cidade na Colômbia, onde vão participar da libertação de 10 prisioneiros das FARCs, que são mantidos como reféns há mais de dez anos. A missão humanitária brasileira, autorizada pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff, é a quarta operação de resgate das nossas forças armadas em solo colombiano. Com os militares, seguem outros 25 brasileiros, entre eles membros da Cru Vermelha Internacional, médicos e diplomatas. O governo colombiano prometeu suspender todos os combates na região, para facilitar a soltura dos reféns.

Os 10 prisioneiros das FARCs são soldados e policiais colombianos, os últimos militares do país vizinho mantidos como reféns pela guerrilha comunista. No entanto, centenas de civis ainda estão em poder das FARCs, que os considera “prisioneiros de guerra” e muitas vezes exige resgate em dinheiro por sua libertação. O encontro da missão brasileira com as FARCs e com os reféns deve acontecer na segunda-feira (2 de abril).  Os contatos com a guerrilha foram feitos pela ONG Colombianos pela Paz.

Fica aqui a nossa torcida para que tudo dê certo e vidas sejam poupadas.

Publicado em Violência e crime organizado | Deixe um comentário

Entra em ação o novo fuzil brasileiro de assalto: o IA2

O novo fuzil IA2

As Forças Armadas brasileiras já dispõem de um novo fuzil automático leve, para aposentar o velho FN FAL 7.62, em serviço há 48 anos. O Imbel IA2 é a nova arma, disponível nos calibres 5.56mm (padrão) e 7.62mm (para emprego diferenciado). O novo fuzil foi inteiramente desenvolvido com tecnologia e peças nacionais, sendo fabricado pela Indústria de Material Bélico (Imbel) na cidade de Itajubá, Minas Gerais. É dos mais modernos do mundo, equiparando-se ao A1, o fuzil de assalto que agora abastece as forças armadas dos Estados Unidos e que teve seu teste de fogo no Iraque e no Afeganistão.

Menor e mais leve do que o FAL, o IA2 tem carregador de 30 balas (formato 5.56mm), é à prova dágua e tem dispositivos para adaptação de miras especiais a laser ou termoguiadas. Também pode ser utilizado como lançador de foguetes e granadas. A munição de alta velocidade tem precisão de disparo até 400 metros de distância, mas com facilidade alcança o dobro disso. O novo fuzil pode disparar tiros individuais (modo de repetição), rajadas curtas ou “full auto”, que libera toda a munição disponível no pente. A velocidade inicial do disparo é superior à do som (440 metros por segundo) e a cadência de tiro é superior a 600 projéteis por minuto. Trata-se de um grande avanço da indústria militar brasileira e representa um passo importante na direção da independência do país em matéria de armamentos de infantaria.

O IA2 também estará disponível para as polícias militares e federais e será exportado para governos e exércitos estrangeiros. O velho FAL era fabricado no Brasil, desde 1964, sob licença dos construtores belgas, que desenvolveram a série FN após a Guerra da Coréia.

Publicado em Violência e crime organizado | 7 Comentários

Brasil negocia libertação de reféns das FARCs

A presidente Dilma Rousseff está ajudando a negociar a libertação de reféns capturados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), tendo autorizado o Itamaraty e o Ministério da Defesa a fazer contato com os guerrilheiros colombianos para pôr fim a este triste capítulo na guerra civil do país vizinho. Recentemente, os líderes da guerrilha anunciaram a libertação de dez militares e policiais capturados há mais de dez anos. Um comunicado do Alto Comando das FARCs, publicado na Internet (farcep.wordpress.com) confirmou a participação brasileira nas negociações. Neste mesmo comunicado, a guerrilha anunciou que havia desistido dos sequestros como forma de atuação política.

Os meios de comunicação internacionais, inclusive brasileiros, especulam que ainda há entre 400 e 700 civis reféns das FARCs, escondidos em acampamentos no interior da selva colombiana (região amazônica) e nas montanhas. O grupo, fundado em 1964 por Manuel Marulanda Vélez, o “Tiro Fijo” (Tiro Certeiro), chegou a controlar um terço do país, instalando “governos revolucionários” locais. Atualmente, opera em metade da Colômbia, mas sofreu sérios revezes, incluindo a morte de seus principais dirigentes, como o próprio Marulanda, vítima de um infarto fulminante. Raul Reis, o número dois das FARCs, morreu num ataque aéreo na região de fronteiras entre a Colômbia e o Equador. Ivan Rios, o número três, foi fuzilado em seu próprio acampamento. E o último comandante conhecido das FARCs, Alfonso Cano, também morreu num bombardeio.

Em seus melhores momentos, o grupo guerrilheiro chegou a ter 20 mil homens e mulheres, além de um contingente desconhecido de colaboradores e simpatizantes. Agora tem em torno de 14 mil, de acordo com um representante das FARCs que atua em nosso país como uma espécie de “embaixador” e cuja presença entre nós é tolerada desde o segundo governo FHC. No entanto, o exército colombiano tem obtido seguidas vitórias contra a guerrilha, especialmente em razão do Plano Colômbia, um acordo militar com os Estados Unidos, que investiram mais de 5 bilhões de dólares no país e forneceram instrutores e pilotos, à semelhança do que aconteceu no início da guerra do Vietnã.

O governo brasileiro não classifica as FARCs como grupo terrorista, como preferem os americanos, que também as chamam de “narcoguerrilha”, denominação adotada pela mídia. Para os nossos governantes, a guerrilha é considerada “parte beligerante”, ou “parte de guerra”, o que para a diplomacia significa que é uma das partes envolvidas num conflito aberto, merecendo tratamento igual às outras partes. Washington critica a posição brasileira, mas é ela que nos dá os instrumentos de negociação com os guerrilheiros, de um ponto de vista humanitário. Nossa política externa é pela “autodeterminação dos povos” e pela neutralidade, participando exclusivamente de missões de paz, como no Haiti e no Timor Leste. Libertar reféns na Colômbia, fornecendo helicópteros e tripulação militar, faz parte dessa política.

Acreditar na derrota militar das FARCs foi um sonho de George W. Bush, criador do Plano Colômbia. Ao tomar posse, os assessores de Barak Obama recomendaram o abandono do projeto, considerado “um fracasso total”. Mas a pressão do Pentágono fez com que o presidente dos Estados Unidos mantivesse o programa, agora ampliado com a construção de bases aéreas em território colombiano. Observadores independentes afirmam que serão sete bases – outros garantem que serão quinze. Parece que os americanos não aprenderam as lições do Vietnã.

As FARCs são a última guerrilha comunista das Américas. Os guerrilheiros, autointitulados “Exército do Povo”, se definem como “revolucionários marxistas-leninistas e bolivarianos”. A bandeira do grupo, com dois fuzis AK-47 cruzados, traz retratos pintados de Karl Marx e Lênin, além de uma estrela vermelha com a foice e o martelo. Num documentário que fiz para a Band (pela primeira vez uma câmera e um repórter brasileiros iam ao coração da guerrilha), o comandante Ivan Rios dizia: “somos uma alternativa legítima de poder na Colômbia”. Ele morreu anos depois – mas a guerrilha continua. Para nós, que temos uma ex-guerrilheira como presidente, eleita democraticamente e com os maiores índices de aprovação da história, tudo isso soa como um anacronismo. Somos a 6ª. economia do mundo, com os maiores programas de incluso social do planeta. Mas, para os miseráveis colombianos, talvez o discurso das FARCs soe diferente.

Nas fotos abaixo, guerrilheiras das FARCs (centro) em foto publicada pela revista Veja. À esquerda, o comandante Raul Reys. À direita, o comandante Cano Acima do post, uma visão do “exército do povo”..

 

Publicado em Violência e crime organizado | 2 Comentários

Fracassa o mutirão para esclarecer homicídios

Impunidade total.

Um mutirão da Justiça, do Ministério Público e das polícias fracassa ao tentar concluir 143 mil inquéritos de homicídio e tentativa de homicídio em todo o país. Os inquéritos estavam abandonados e sem conclusão. Mas a força tarefa, que atuou em quase todo o território brasileiro, envolvendo centenas de agentes públicos, não deu em nada. Pior: os resultados foram todos negativos. Vinte por cento dos inquéritos (cerca de 28 mil) foram arquivados sem que os culpados fossem apontados. De todos os 143 mil casos, só 4.652 (3%) resultaram em denúncias formais contra criminosos. Desastre total.

No Brasil, apenas um por cento dos crimes cometidos acabam em condenações e penas de prisão. Até recentemente, havia setenta milhões de processos parados nos tribunais, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Depois de enorme esforço do CNJ, apenas 5,7% desses processos (aproximadamente 4 milhões) retomaram o curso normal no judiciário. É o reino da impunidade. Como se isso não bastasse, ainda tem o problema de classe: só preso pobre vai para a cadeia. Ou não?

Tá lá o corpo estendido no chão

Publicado em Violência e crime organizado | 5 Comentários

“Fabinho FB”, chefão do tráfico, na cadeia

 

FB, líder do Comando Vermelho

 

Fabiano Atanázio da Silva, o “Fabinho FB”, uma das principais lideranças do Comando Vermelho, 35 anos, foi preso na semana passada por um grupo de policiais do Rio de Janeiro, durante uma operação secreta em São Paulo. “FB” foi localizado numa casa alugada em Campos de Jordão, cidade de veraneio para gente muito rica a 173 quilômetros da capital paulista. Fabiano comandava um grupo de 500 homens armados no Complexo do Alemão onde era responsável pelo movimento de venda de drogas em três grandes favelas em torno da Vila Cruzeiro, com faturamento de muitos milhões de reais por ano. Segundo a polícia, o bando dispunha de 300 fuzis automáticos, metralhadoras, inclusive antiaéreas de calibre 30, granadas e foguetes. Foi “FB” que mandou derrubar um helicóptero da PM durante combates entre o CV e o Terceiro Comando, facções rivais, no Morro dos Macacos.

“Fabinho” era um entusiasta por tecnologias modernas. Falava com seus cúmplices através de Skype e havia montado um circuito fechado de câmeras para vigiar seu território no Alemão. Durante a ocupação militar no complexo, protagonizou aquela fuga espetacular por uma estrada de terra, mostrada ao vivo pelo helicóptero da TV Globo. Depois, sumiu. Assim como sumiram todos os demais traficantes do bando. Mas a polícia passou um ano seguindo o bandido e grampeando suas ligações telefônicas. Ao todo, foram mil horas de gravações. Num dos telefonias, “FB” aparece negociando com PMs a compra de “bicos” (fuzis): “se for AR-15 ou AK-47, pago 30 mil cada um”. Foram gravações como essa que levaram os policiais até o refúgio de Fabiano em Campos de Jordão.

“Fabinho FB” era um dos principais elementos de ligação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o PCC paulista. As duas organizações criminosas negociam drogas e armas no exterior, por meio de um grande acordo comercial firmado por Fernandinho Beira-Mar. “FBM”, como é conhecido o maior traficante brasileiro, sonhava com a criação da Federação Brasileira do Crime Organizado, que unificaria todo o tráfico de drogas sob uma mesma bandeira, a exemplo do que tentou fazer na Colômbia o megatraficante Pablo Escobar. Se a “Febraco” virou realidade, ninguém sabe com certeza. Mas o fato é que hoje existe uma ampla articulação nacional do tráfico envolvendo o CV, o PCC, o Comando Vermelho Nordeste (nas áreas de lavoura de maconha) e a Organização Plataforma Armada (a OPA, de Salvador).

Ao ser preso em Campos de Jordão, “Fabinho FB”, que também tinha uma casa de praia em Peruíbe, estava acompanhado de Luís Cláudio Correa, o “CL”, chefe da segurança do traficante. E a surpresa: também estava na casa um homem chamado Elton Leonel Rumich, apontado como “do alto escalão do PCC”, confirmando a parceria entre as duas organizações. “FB” recebia ordens diretamente de Fernandinho Beira-Mar, através de bilhetes e telefonemas. Como e sabe, Fernandinho está preso em um presídio federal de segurança máxima.

E, agora, “FB” também.

Publicado em Violência e crime organizado | 1 Comentário

Os resultados da primeira UPP paulista

Um flagrante dos "nóias".

Tenho acompanhado com interesse a chamada Operação Cracolândia, que a cada dia fica mais parecida com o modelo de ocupação policial-militar das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro. Independentemente das divergências teóricas – os especialistas estão divididos quanto à eficácia da ação – a limpeza da Cracolândia tem angariado simpatias na opinião pública. Aquela multidão de viciados se drogando na via pública, além de um desrespeito à lei, era uma vergonha inenarrável.

É curiosa a timidez dos governantes paulistas, que parecem recear um fracasso. Ao contrário deles, no Rio, o governador Sérgio Cabral foi para a frente das câmeras defender com unhas e dentes o projeto das UPPs. Em São Paulo, parece haver mais dúvidas do que certezas, enquanto a mídia destaca o desencontro entre as polícias e as autoridades. Os resultados da operação não são de grande monta: poucas pessoas foram presas e acusadas de tráfico e os “nóias”, como são conhecidos os dependentes do crack, se espalharam pelos bairros em torno do centro da capital. O grande acerto – a decisão política de acabar com a Cracolândia – parece subestimado pelo governador Alckmin e pelo prefeito Kassab.

Do noticiário de jornais, revistas, rádio e televisão, separei alguns números importantes:

  1.  A população de “residentes” na Cracolândia era de 400 pessoas. Cerca de 20% delas viviam ali há mais de dez anos. Do total, 60 eram menores de idade e havia 20 mulheres grávidas. Setenta traficantes agiam (ou agem) na área de dez quarteirões que forma o território dos “nóias”. Fora os moradores de rua, é impossível saber o número total de usuários.
  2. O consumo de drogas é avaliado em 50 mil pedras de crack por mês. De uma só vez, na semana passada, a polícia apreendeu 16 mil dessas pedras. Um delegado do Denarc disse aos telejornais que isso abasteceria a Cracolândia por “apenas alguns dias”.
  3. Ao preço variável de 5 a 10 reais por pedra, o movimento, considerando o valor médio, representava um faturamento superior a 350 mil/mês. Ou 4,2 milhões de reais por ano, o que é tido como uma avaliação conservadora, porque não inclui a maconha e a cocaína. Trata-se de um montante muito superior ao rendimento de 80% das pequenas e médias empresas do país. E sem impostos, a não ser a propina e a fiança.  Para quem acha os números exagerados, basta lembrar que o faturamento do comércio de drogas na Rocinha era superior a 4 milhões de reais por semana. É pouco? Então segura essa: em todo o mundo, as 250 maiores organizações criminosas movimentam 1 trilhão de dólares com o narcotráfico a cada ano.

4. Um estudo da PUC de São Paulo mostra que 64% dos “nóias” têm apenas o ensino primário. No entanto, 30% concluíram o ensino médio e 6% têm diploma universitário. Sessenta e um por cento deles têm trabalho fixo ou eventual. Cerca de 84% dos viciados são homens e a média de idades é de 33 anos. A  maioria dos usuários está entre 25 e 34 anos. Mas 9% deles têm idade avançada, 44 anos ou mais. De todo o contingente dos “nóias”, 66% são negros ou pardos. Brancos são 22%. Sessenta e quatro por cento dos viciados consomem até dez pedras de crack por dia. O crack tem ação rápida – e seus efeitos diminuem à medida que o vício se intensifica, o que faz  o cara consumir cada vez mais.

5. Ainda de acordo com o levantamento da universidade paulista, 65% dos frequentadores da Cracolândia também usam outras drogas: 43%, maconha; 30%, cocaína; 15 por cento, álcool. Curiosamente, só 9% fumam cigarros.

 

Os números do circo das drogas no centro de São Paulo são estarrecedores.

 

Mãe e filhos na Cracilândia.

Publicado em Violência e crime organizado | 2 Comentários