Governo paulista reage contra a Cracolândia

Usuário de crack imita os policiais na Cracolândia

O governo de São Paulo – finalmente – dá sinais de reagir contra a Cracolândia, uma área no centro da capital onde se concentram viciados e traficantes. Uma grande operação da Polícia Militar e da Prefeitura, que deve durar um mês, está desalojando os usuários de drogas. As ruas estão sendo lavadas e os entulhos retirados.

Em dois dias, apenas quatro pessoas foram presas e acusadas de tráfico, com as quais se apreendeu pequena quantidade de crack e cocaína. Mas o fato importante é que as ruas estão sendo devolvidas a seus moradores. É uma parte do centro da cidade que volta ao cidadão pagador de impostos.

Até as pedras da Cracolândia sabem que por ali há depósitos de drogas e outros materiais ilegais, mas a polícia ainda não conseguiu encontrar nenhum deles. Isso, no entanto, requer três condições: inteligência, infiltração e policiais honestos. Recursos não faltam – e policiais corretos também não!

O viciado mostra o cachimbo do crack

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STF decide se libera uso de drogas no país

Viciado na Cracolândia paulista

O Supremo Tribunal vai julgar, no início de 2012, se usar drogas é crime ou um direito individual, da mesma forma que o tabagismo ou o consumo de álcool. A ação foi proposta pela Defensoria Pública de São Paulo e já entrou na pauta do STF. Esta será a primeira vez que a instância máxima do judiciário vai se pronunciar sobre o assunto. A decisão terá “efeito vinculante” – ou seja: terá de ser seguida por todas as cortes do país.

Uma sentença favorável pode ter enorme impacto sobre o uso de entorpecentes, produzindo uma explosão de consumo. Na prática, uma vez que não haverá punições, representa a liberação total da maconha, da cocaína, haxixe, crack, drogas sintéticas como o LSD, medicamentos restritos etc. O uso de substâncias tóxicas deixaria a esfera criminal e se deslocaria para a da saúde pública, justamente como acontece com o fumo e o álcool. Hoje no Brasil há um forte movimento pela descriminalização da Canabis, que envolve intelectuais, políticos, artistas e usuários. O próprio Fernando Henrique Cardoso, duas vezes presidente da República, já deu entrevista à Veja defendendo a liberação da maconha.

A própria incapacidade dos governantes no enfrentamento do problema (a Cracolândia de São Paulo é o exemplo mais dramático, com centenas de pessoas se drogando publicamente) já “libera” as drogas em certa medida. A polícia passa e não faz nada – até porque não se tem recursos para tratar os viciados, nem onde prendê-los, se fosse o caso. Além do mais, na Cracolândia são todos miseráveis – e ninguém se importa com eles.

Quatro décadas atrás, o uso de drogas era privilégio das elites, que trocavam (ou misturavam) cocaína com uísque ou champanhe. O preço era inacessível ao populacho em geral. A partir dos anos 1980, no entanto, a ação do crime organizado democratizou o uso de entorpecentes, despejando toneladas de pó branco sobre a juventude mundial. O aumento vertiginoso da produção levou ao barateamento das drogas, que invadiram todas as camadas sociais. Com a chegada do crack, a raspa do tacho onde é feita a cocaína, os pobres também entraram na dança. Uma pedra de crack provoca uma hora e meia de loucura e custa apenas 5 reais.  Com o consumo frequente, o efeito diminui e o cara tem que fumar mais, cada vez mais. É uma droga tão terrível (a presidente Dilma chama de “epidêmica”) que o PCC (Primeiro Comando da Capital), a partir de 2002, proibiu o seu uso nas cadeias. Nas palavras do chefão Marcos Herbas Camacho, o Marcola, “o crack degrada a condição humana”.

O que temos a ganhar com a decisão do STF? Num país que luta contra a pobreza e a desigualdade, com um dos maiores índices globais de criminalidade, a descriminalização das drogas ajuda ou atrapalha? A Defensoria Pública de São Paulo argumenta que processar um jovem apanhado com um BK (cigarrinho de maconha, o famoso baseado) custa um dinheirão e não resulta em nada. Pelas leis atuais, o usuário é indicado a tratamento ou à prestação de serviço social, mas sofre um dano grave em seu currículo. Muita gente diz que a maconha é menos prejudicial do que o álcool, mas a medicina afirma que os alcaloides da Canabis geram dependência física e psíquica. Criminalistas, sociólogos e outros especialistas insistem que as drogas devem ser enfrentadas com educação e restauração dos laços familiares – e isso não aparece milagrosamente nos códigos legais.

O mundo tem cerca de 300 milhões de usuários de drogas, dos quais 200 milhões de apreciadores da maconha, a droga mais difundida. A demanda estimula a produção – e quem controla a produção são os barões do crime organizado. Trata-se de um negócio que gira 1 trilhão de dólares por ano, sem impostos, a não ser a propina  paga às autoridades. Estudiosos garantem que de 10 a 15 por cento do movimento global do tráfico vão para ditos “agentes da lei”. O traficante Nem (Antônio Delfim Lopes, da organização criminosa Terceiro Comando) declarou que metade do faturamento da Rocinha ia para a polícia.

Será que os ministros da Suprema Corte têm resposta para isso?  Deveriam as mentes brilhantes do STF se preocupar mais com a situação criminosa da saúde,  educação, moradia ou da alimentação para todos?

A folha de Canabis Sativa

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Folha de S. Paulo confirma investigação da PF

Foto da PF flagra negociação entre policiais e bandidos

Nova reportagem da Folha (edição de 13.12.11, caderno Cotidiano) reafirma, com novos detalhes, a denúncia de que 12 policiais do Deic e do Denarc estavam envolvidos em um esquema de extorsão contra integrantes de uma organização internacional do tráfico de drogas. Para continuar em liberdade, os criminosos teria pago 3 milhões de reais aos agentes. A reportagem é de André Caramante. Leia a íntegra da matéria, que teve como título “PF apreende 350 mil do tráfico que, segundo escuta, era para a polícia”:

‘A Polícia Federal apreendeu R$ 350 mil que, segundo escuta telefônica autorizada pela Justiça, serviriam para pagar a policiais civis de São Paulo. ‘Meu Deus do céu, eu estava contando com esse dinheiro. Tenho que dar 350 mil para a polícia essa semana’, afirma João Alves de Oliveira, o Batista, em conversa com o comparsa Euder de Souza Bonethe, eu lhe dá a notícia em 30 de setembro de 2010.

“Batista é apontado como o chefe de uma quadrilha internacional de traficantes de drogas que pagava policiais paulistas para evitar que seus integrantes fossem presos.

“Relatório da Polícia Federal revelado na sexta pela Folha (na semana passada) diz que a quadrilha pagou R$ 3 milhões a ao menos 12 policiais civis do Deic e do Denarc. Oficialmente, eles ainda não foram identificados.

“Os achaques ocorreram, segunda a investigação federal, em pelo menos três ocasiões, entre agosto de 2010 e março deste ano. A suspeita de extorsão foi considerada ‘grava’ pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). A Corregedoria Geral da Polícia Civil investiga os crimes. Bonethe, que nas escutas da PF dá a notícia da apreensão do dinheiro a seu chefe, é conhecido como Primo. Ele é apontado como braço da organização no Nordeste. Ele era o responsável pelo envio de R$ 349.410 a São Paulo.

“ Investigações preliminares levaram a PF a um Fiesta Sedan, que acabou interceptado pelos agentes em Milagres, Ceará. Quem dirigia o carro era Antônio Gomes Braga, conhecido como Velhinho.

“Velhinho acabou liberado, porque naquele momento não havia provas de sua ligação com os traficantes. O dinheiro ficou apreendido porque Velhinho não tinha como declarar sua origem.

“No dia seguinte a PF captou a conversa em que Bonethe dá a notícia a Batista.

“A investigação da PF prendeu 105 pessoas, entre elas Batista e Bonethe, e nova toneladas de drogas. O inquérito foi remetido para a Justiça Federal. A parte que envolve os policiais seguiu para a Corregedoria da polícia paulista.”

A matéria da Folha também comenta a nota oficial da PF. O jornal diz que “dados sigilosos contradizem” a nota.

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Investigação da PF detona grupo de elite em São Paulo

Juan Carlos Abadia

A Polícia Federal investigou, durante um ano, 12 policiais do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) e do Departamento de Narcóticos (Denarc) de São Paulo. Motivo: o grupo de elite paulista estava prendendo traficantes e “vendendo” a liberdade dos criminosos, todos procurados. O relatório da PF, com cerca de 1.700 páginas, afirma que os policiais faturaram 3 milhões de reais com o esquema. Os negócios do grupo eram realizados na própria sede do Deic, onde os traficantes ficavam em cárcere privado. Os federais gravaram, com autorização judicial, centenas de horas de telefonemas entre os policiais e representantes dos bandidos, quase sempre advogados e parentes dos sequestrados. Fotografaram e filmaram os acertos, que se realizavam numa rua atrás do prédio da polícia. Escândalo monumental, denunciado pela Folha de S. Paulo.

O governador Geraldo Alckmin, em entrevista à televisão, disse que o caso era “grave” e prometeu “expulsar da polícia e prender” os corruptos, se a culpa fosse provada. Nenhum dos policiais acusados foi preso até o dia de hoje, passadas 94 horas da denúncia. Na verdade, o caso é gravíssimo, uma vergonha para a segurança pública, um acinte contra a sociedade. É inacreditável que tais bandidos com distintivo continuem livres e armados. O Denarc, especialmente, já foi alvo de incontáveis denúncias. Certa vez, sumiram do depósito do órgão vários quilos de cocaína apreendida. E disseram à imprensa que os ratos tinham comido a droga. Ratões muito doidos, que usam terno e gravata!

No dia 7 d agosto de 2007, os federais prenderam em São Paulo o maior produtor colombiano de cocaína, Juan Carlos Abadia, chefão do Cartel del Norte. Ele declarou que havia pago 2 milhões de reais a policiais do Denarc para continuar em liberdade. Abadia morava tranquilamente, com mulher e filhos, na Aldeia da Serra, bairro de luxo nos arredores de São Paulo, reduto de artistas e empresários – e, pelo jeito, de traficantes. Só foi preso porque o FBI e o DEA norte-americanos enviaram ao governo brasileiro a localização exata do bandido. Juan Carlos Abadia agora cumpre pena no presídio federal do Brooklin, em Nova Iorque, onde também estão alguns presos da Al Qaeda.

Abadia foi extraditado do Brasil em tempo recorde, apenas algumas semanas. Ninguém queria esse cara por aqui. Falava muita bobagem!

A casa de Abadia na Aldeia da Serra

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“Assalto ao Poder” ganha o Prêmio Jabuti 2011

Autor recebe o prêmio na Sala São Paulo

“Assalto ao Poder”, último livro da minha trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil, foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2011. Ficou em segundo lugar na classificação geral da categoria reportagem, logo atrás de “1822”, de Laurentino Gomes. Esse ano, mais de duas mil obras disputaram o Jabuti. Trata-se da maior premiação literária do país, que consagrou Ferreira Gullar e Laurentino Gomes como autores do ano.

Essa foi a segunda vez que mereci o prêmio (a primeira, em 1994), mesmo escrevendo sobre tema tão áspero. O Jabuti 2011 – certamente – estimula a prosseguir.

O trofeu na categoria "Reportagem"

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Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu: duro golpe no tráfico

 

Antônio Bonfim, o Nem

 

O Governo do Rio acertou um golpe mortal no tráfico ao ocupar as favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu. A operação, envolvendo cerca de 1.500 policiais, com helicópteros do Exército e blindados da Marinha, foi realizada sem um único tiro. Uma das principais – senão a principal – estrutura da venda de drogas foi desmontada. O negócio, avaliado em 100 milhões de reais por ano, era controlado pelo Terceiro Comando e pela ADA, organizações criminosas rivais do Comando Vermelho, responsáveis por cerca de 40% do movimento no Grande Rio. A instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), com 700 homens nas três comunidades, pretende consolidar a retomada dos territórios controlados pelo tráfico há mais de 30 anos.

Os traficantes cometeram o erro primário de esperar até o último momento para abandonar as favelas, quando todos os acessos já estavam cercados pela tropa de choque da PM. O líder dos criminosos, integrante do núcleo dirigente das organizações, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi apanhado dentro do porta-malas de um carro. Outro erro: o automóvel de luxo chamou a atenção da polícia ao deixar a Rocinha à noite. Nem estava acompanhado de dois advogados e um sujeito que se apresentou aos policiais como diplomata da República do Congo. No interior do porta-malas, desarmado, Nem carregada enorme quantia em dinheiro vivo. Os jornais chegaram a falar que era um milhão de reais, além de dólares e euros. Caíram também os dois gerentes das bocas-de-fumo da Rocinha e o chefe da segurança, um ex-PM, e mais 11 supostos traficantes.

Poucos dias depois da ocupação das favelas, Nem e seus três comparsas já estavam recolhidos ao presídio federal de segurança máxima em Mato Grosso do Sul. Celas individuais, uma hora de banho de sol por dia, três refeições e nenhum contato com o exterior. Tranca dura! Ao que consta, é impossível fugir de lá. Na Rocinha e no Vidigal, a polícia apreendeu enorme quantidade de drogas, principalmente maconha, 70 fuzis e armas menores, explosivos e granadas. Um laboratório de refino de cocaína foi descoberto e uma prensa de mais de uma tonelada teve que ser retirada da favela por meio de um poderoso helicóptero. Como os bandidos conseguiram levar a máquina, que fabricava tijolos de maconha, até o alto do morro?

A ocupação da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu deu vida nova ao projeto das UPPs. Não vai acabar com o tráfico, certamente, nem mesmo nas áreas ocupadas, mas produzir resultado extraordinário na opinião pública nacional e na vida dos moradores, que festejaram. Rompeu-se o pacto de silêncio: a população colaborou com a polícia (mais de mil ligações para o Disque-Denúncia), o que levou à prisão da “noiva” do Nem, conhecida como “xerife da Rocinha”, e do principal líder comunitário da favela. Uma moradora entregou às autoridades cenas gravadas, por celular, onde aparece o tal líder negociando um fuzil AK-74 russo (a mais nova versão) com o chefe do tráfico. Esse homem trabalhava como assessor parlamentar de uma vereadora do PSDB. Seu cúmplice na venda da arma, avaliada em 50 mil reais, era funcionário da Assembleia Legislativa.

A cidade do Rio de Janeiro, especialmente os moradores das zonas sul e oeste, respiram aliviados. Só que o tráfico, que já estava de mudança para o asfalto, vai intensificar a busca por meios alternativos de continuar operando. Mas o baque foi forte!

 

A "xerife da Rocinha"

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PF usa “avião fantasma” na Copa e nas Olimpiadas

O "avião fantasma"

A Polícia Federal vai utilizar o avião não tripulado Heron 1 (da categoria “Predator”, fabricado em Israel) para proteger os jogos da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. O brinquedinho eletrônico, uma das mais modernas armas de espionagem militar, com a infraestrutura necessária, custa cerca de US 27 milhões cada um. Ao todo, a Polícia Federal pretende comprar 12 dessas aeronaves, no valor de US 324 milhões. No Brasil, o “avião fantasma”, cuja presença não é percebida a olho nu e dificilmente captado por radares, foi batizado de Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado). Tornou-se arma importantíssima nas operações militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Tanto como observador do movimento dos inimigos, quanto de ataque, porque dispõe de canhões e mísseis.

Na semana passada, a PF testou um dos Vants na região da Tríplice Fronteira, entre Brasil, Paraguai e Argentina. No primeiro voo, o espião localizou três rotas clandestinas de contrabando de armas e drogas. Aviões Super Tucanos, da FAB, destruíram pistas ilegais orientados pelo “olho eletrônico”. As pistas do narcotráfico foram destruídas por bombas de profundidade Paveway, orientadas por laser, que abrem crateras de até 15 metros de profundidade, inviabilizando a sua utilização por muito tempo. A compra dos aviões espiões é extremamente importante para a segurança nacional – e pode fazer diferença na luta contra o crime organizado em nossas fronteiras.

Um grupo de oito pilotos da Polícia Federal. com supervisão de técnicos israelenses, está sendo treinado para utilizar os Vants também em áreas urbanas, com vistas à proteção dos jogos da Copa e das Olimpíadas. O objetivo é prevenir atos terroristas, acompanhar delegações estrangeiras chamadas de “sensíveis” (Estados Unidos, Israel etc) e monitorar ações do narcotráfico, principalmente no Rio de Janeiro.

Os Vants conseguem filmar em detalhes cenas que ocorrem a 40 quilômetros de distância da proa do avião, transmitindo as imagens, ao vivo, para um centro de controle em Brasília. Podem voar a 15 mil pés de altura (aproximadamente 5.000 metros), mas costumam trafegar a 7.500 pés (ou 2.500 metros de altura) sem serem percebidos. O controle dos aparelhos é semelhante a um vídeo game, por meio de monitores de alta definição e joystick. É mesmo um joguinho de guerra.

A nova ferramenta pode se transformar numa arma decisiva contra o crime. Pode ficar 37 horas no ar sem reabastecimento – e pode monitorar um complexo de favelas ou rodovias sem chamar atenção.

Uma arma decisiva

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