Delação premiada da Odebrecht vai sacudir Brasília. A maior construtora do país subornou centenas de funcionários públicos, políticos e partidos. O acordo já está fechado com os investigadores da Lava-Jato.

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Marcelo Odebrecht está preso em Curitiba. Foto DPF/CTA.

                                    A edição online do jornal O Globo de hoje (25 out) mostra que os investigadores da Lava-Jato aceitaram a delação premiada de Marcelo Odebrecht e outros 50 executivos e funcionários da empreiteira. O empresário, detido em Curitiba, deve ser beneficiado com prisão domiciliar, se a colaboração dele for homologada pela justiça. Como sabemos, a empreiteira pagava tanta propina a políticos, que foi necessário criar um departamento clandestino na empresa, atendendo por nome singular, destinado a administrar o mar de lama: Departamento de Operações Estruturadas. Observadores da cena política especulam que as denúncias podem atingir 300 políticos e funcionários de alto escalão, em Brasília e nos estados. Pegam em cheio o Congresso, o governo Temer e as atuais oposições. A delação vai sacudir o mundo político.

                                   O acordo dará início à fase mais dramática da Lava-Jato. Abala os alicerces da República. Os depoimentos devem começar em novembro e durar até o início do ano que vem. Uma fonte dos investigadores disse a O Globo que a Odebrecht pagava subornos “democraticamente”, sem levar em conta posições políticas ou ideológicas. Ou seja: não vai ficar ninguém de pé. Pior: a Odebrecht tem provas. Daí pode resultar a maior devassa já vista no país. É por isso que deputados e senadores se apressam em aprovar uma lei de “abuso de autoridade”, para pôr freios na Lava-Jato. Infelizmente, no cenário atual, é para isso que serve o Congresso Nacional: proteger o interesse pessoal e econômico de seus integrantes.

                                   Marcelo Odebrecht é a caixa-preta da bandalheira política no país. A delação dele vai mostrar: quem manda aqui é o poder econômico. Este subtrai do brasileiro a própria democracia. Vence eleições quem é apoiado pela farta grana que financia – criminosamente – as campanhas políticas. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao proibir o financiamento empresarial de campanhas, afirmou: o poder econômico desconstrói o princípio constitucional da igualdade de oportunidades. Essa é a verdade. Ganha quem tem dinheiro para se promover eleitoralmente, sufocando pequenos candidatos, partidos e representantes de minorias. Principalmente, impedindo o crescimento político daqueles que pretendem representar o interesse popular.

                                   A compra da democracia por empreiteiros é secundada por uma lei eleitoral oportunista. Partidos “nanicos” são “alugados” para coligações, fazendo aumentar o tempo de exposição dos candidatos escolhidos pelo poder econômico, aumentando a presença deles no rádio e na televisão. Fornece dinheiro para subornar eleitores com promessas de melhorias no modo de vida – ou até mesmo em troca de 150 reais. Mas, por que empresas investem bilhões de reais em candidatos? Os políticos brasileiros, conforme uma antiga pesquisa de opinião, foram comparados aos ratos. Nessas últimas eleições, quase 22 mil candidaturas foram impedidas na justiça, por desvios de conduta de todos os tipos. Então, por que as empresas dão dinheiro para eles? Porque querem cobrar depois, sendo beneficiadas com toda sorte de falcatruas destinadas ao lucro. E os políticos, que precisam se submeter a novas eleições, se tornam reféns dessa elite econômica. E o resto é bobagem!

                                   A delação premiada de Marcelo Odebrecht pode revelar a gravidade desse câncer chamado de corrupção política. Pode demonstrar que são eles que mandam. E finalmente ficaremos sabendo quem são “eles”. A menos que algo surpreendente aconteça, como a lei do “abuso de autoridade”, que pretende impedir que o Ministério Público tenha poderes para fazer investigações independentes. Os gênios do crime, em Brasília, dão tratos à bola para descobrir um modo de acabar com a Lava-Jato. Enquanto a vítima era só o PT, tudo certo. Agora, quando se aproxima da maioria conservadora, virou obsessão. Renan Calheiros, presidente do Congresso e do Senado, vocifera. Ele tem medo. Os 160 deputados indigitados por Eduardo Cunha, também.

                                   E se Cunha também resolver delatar? Aí o mundo acaba!         

                                  

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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