Incapacidade de negociar da esquerda coloca Bolsonaro com um pé na rampa do Planalto. Quem vai para o segundo turno em primeiro lugar, neste país, vence!

bolsonaro

Com a mão na maçaneta do palácio. Imagem Portal do Amazonas.

                                   Se o IBOPE de ontem (1º de outubro) não estiver mentindo, o capitão Jair Messias Bolsonaro está com a mão direita na maçaneta do palácio presidencial. Abriu uma diferença de 10 pontos em relação ao segundo colocado, Fernando Haddad. Cresceu no eleitorado feminino (?!) e aumentou as intenções de voto no Nordeste (?!). Aumentou a simpatia dele na classe média (reduto histórico do PT) e fez o mercado comemorar com elevação da bolsa e queda do dólar. O resultado da pesquisa deixa o campo progressista de boca aberta.

                                   A subida meteórica de Haddad, segundo o instituto de pesquisas, foi interrompida e a rejeição ao petista disparou. Na história da Nova República, quem vai para o segundo turno em primeiro lugar, ganha o jogo. É claro que o IBOPE tem uma carreira controversa. Já errou tão grosseiramente, que sempre levantou a suspeita de manipulação dos resultados. Se estiver certo desta vez, a vaca foi para o brejo. Como entender a corrida eleitoral?

                                   Em primeiro lugar, a consolidação de uma candidatura ultraconservadora se explica pela bandalheira instalada no poder. A classe política, quase sem exceção, saqueou o bem público e indignou a sociedade, provocando uma revolta que inflou um candidato de origem militar com um discurso revanchista e radical. Os militares ainda são vistos como um segmento imune à corrupção. A epidemia de violência que assusta o brasileiro deu espaço para o discurso das armas como solução, coisa que a história da humanidade já desmentiu inúmeras vezes. Mas um povo acuado, vítima do crime em todas as esferas, termina acreditando em uma “violência justa do Estado”. Uma espécie de vingança.

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Haddad teve crescimento meteórico. Imagem do Portal Rondônia ao Vivo.

                                   O PT, destroçado pelos escândalos, e com alvíssaras da grande mídia, atraiu para si uma rejeição inédita e um ódio de classe quase insuperável. Além do mais, cometeu um erro grave: o culto à personalidade de Lula atrasou o início da campanha do partido. Se tivesse começado antes, talvez Haddad estivesse agora em primeiro lugar. E o que explica o bom desempenho do PT? Na memória coletiva dos brasileiros ficaram os avanços sociais realizados pelos governos petistas, especialmente na era Lula. O projeto de desenvolvimento com distribuição de renda deixou marcas profundas, particularmente entre os desfavorecidos.             

                                   No entanto, repetindo cenários históricos, a esquerda e as forças progressistas mostram mais uma vez  incapacidade de negociar e constituir uma frente política para enfrentar o atraso e a ignorância. Se Haddad, Ciro, Manuela e Boulos estivessem juntos em uma mesma candidatura, o resultado seria diferente. Mas cada um puxa a brasa para a sua sardinha. No debate da TV, Ciro atacou Haddad, Boulos atacou todo mundo. Marina Silva, rampa abaixo nas pesquisas, preferiu ficar numa posição olímpica. O PSDB de Alckmin, ao gastar toda a munição no PT, abanou Bolsonaro. Pode até perder em São Paulo, coisa que não acontece há mais e duas décadas.

                                   Os otimistas argumentam: ainda podemos nos unir no segundo turno. Não será tarde demais?

 

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Uma resposta para Incapacidade de negociar da esquerda coloca Bolsonaro com um pé na rampa do Planalto. Quem vai para o segundo turno em primeiro lugar, neste país, vence!

  1. José Antonio Severo disse:

    Há um ditado dos Exércitos: ”como na Cavalaria, rápido e mal feito”. Arma de ruptura, a Cavalaria, nas batalhas antigas, ia na frente, abrindo as linhas inimigas, mas deixava o serviço completo para a Infantaria, que vinha atrás, consolidando a vitória e ocupando o território. Esse chiste é sempre lembrado quando o general Mourão faz das suas, como candidato a vice-presidente na chapa do capitão Bolsonaro.
    A pior comparação do irrequieto general veio do candidato do PDT, Ciro Gomes, que o cognominou de “jumento de carga”, metáfora do animalzinho usado nos campos de batalha para levar alimentos e munições para os combatentes na linha de frente. Indiferentes às balas e estrondos de bombas e canhões, os asininos chegam onde outros carregadores não vão. Entretanto, um chiste que poderia ser um elogio no interior de uma caserna, soou como uma ofensa aos ouvidos leigos do eleitorado, dando a entender que Mourão carregaria humildemente seu capitão Jair às costas.
    Entretanto, para um político, pior que uma carga de cavalaria é uma ex-mulher na rua. Mesmo mudando de lado deixam tantas arestas que ficam impossíveis de aplainar. Como neste caso da ex de Bolsonaro, Ana Cristina: ela mudou de lado outra vez, recuperou o nome dele, mas deixou para trás um processo escabroso com todas aa baixarias inconvenientes neste momento. Pior que a diabruras do general Mourão.
    Bolsonaro é o segundo capitão a pontificar na política brasileira. O primeiro foi o gaúcho Luiz Carlos Prestes, da arma de Engenharia. Bolsonaro, sessentão, parece confirmar o estigma e a imagem histórica dos capitães, pois era firme e desassombrado, tal como o candidato do PSL de nossos dias. O legendário “Cavaleiro da Esperança” (epíteto que lhe foi atribuído pelo escritor Jorge Amado) faleceu nonagenário, irrequieto, como um autêntico capitão, intransigente e audaz como se estivesse comandando uma carga de seus guerreiros na legendária Coluna Prestes.
    Prestes deixou um legado: ele foi o personagem seminal da esquerda brasileira. Por mais que os partidos e facções divirjam ideologicamente, todos mantêm uma postura inspirada no Castilhismo do capitão, que constitui o etos dessas correntes. Sua postura é atribuída erroneamente, por algumas semelhanças, ao stalinismo do comunismo dos anos 40/50. Prestes já era assim como sempre foi muito antes de se converter ao comunismo. Deixou para seus pósteros uma esquerda castilhista.
    Essa doutrina do caudilho gaúcho é uma visão própria do positivismo (assim como Lênin fez sua interpretação do marxismo), a mesma de Bolsonaro, oficial de artilharia como Floriano Peixoto, Hermes da Fonseca e Ernesto Geisel.
    O “Marechal de Ferro” foi parceiro de Júlio de Castilhos na paz e na guerra. O governador gaúcho, com sua Brigada Militar (que em 1893 era uma milícia do Partido Republicano), foi o sustentáculo da repressão aos levantes dos maragatos, no Rio Grande, e da Armada, na baia da Guanabara. Floriano, por seu turno, assegurou a Castilhos a continuidade da vigência de sua constituição singular, diferente daquela da nascente Estados Unidos do Brasil. A constituição de 14 de Julho, do Rio Grande do Sul, não tinha três poderes (o executivo mandava em tudo) e permitiu cinco reeleições (quatro sucessivas) do seu sucessor Borges de Medeiros. Bolsonaro é o herdeiro desse positivismo adulterado.
    Entre ditadores e presidente, a Infantaria deu três (Dutra, Castello e Costa e Silva), a Cavalaria de dois (Médici e Figueiredo). Com Bolsonaro podem ser quatro da Artilharia.
    Outra comparação que se faz de Bolsonaro é com seu colega paraquedista Hugo Chávez, da Venezuela. Os dois vêm dessa nova especialidade dos soldados alados, tipos de índole arrojada, impetuosos, temerários, preparados para lutar atrás das linhas inimigas. Com isto, diz-se que Bolsonaro vai tirar a pele de cordeiro e se projetar como um nacionalista ferrenho, tal qual Chávez, que assumiu se lançou na política com imagem de golpista de direita, foi eleito presidente pelos liberais e conservadores e depois deu meia-volta à esquerda. Também pode haver uma certa analogia, pois assim como Bolsonaro, o ditador venezuelano não era general, mas um simples tenente-coronel. Não foi por isto que os generais de seu país lhe negaram continência.
    A grande diferença entre os dois seria o legado histórico que cada qual teria no campo da política externa. O Brasil é um País de índole pacifica, mas que nunca deixou barato aos que lhe profanaram o território. Solano Lopez e Adolf Hitler que o digam.
    Já Chávez julgava-se herdeiro do fundador do pan-americanismo, com deveres e obrigações com os demais povos de nosso subcontinente latino-americano. Como Simon Bolívar, o libertador da metade norte da América do Sul, ele arvorou-se a cumprir o legado de seu antecessor, criando o bolivarianismo. Naquela época da conferência do Panamá, o Brasil não aderiu ao Libertador. Pelo contrário, o patriarca venezuelano considerava o Brasil um corpo estranho na América Espanhola. Chávez perdoou os falantes lusitanos, deixando de fora apenas os anglo saxões. Menos mal.
    Por fim a questão da hierarquia militar. Não obstante nada impeça um capitão de ser comandante em chefe das Forças Armadas, se a Lei lhe conferir esse poder, soa estranho para o público leigo um general fazer continência para baixo, como se diz. Seria humilhante. Isto não é verdade em quaisquer sentidos, pois nas Forças Armadas o que há de mais importante é a antiguidade. Nesse quesito, Jair Bolsonaro é da mesma turma dos generais do alto comando presente. Se tivesse continuado no Exército, feito tudo direitinho, estudado e se comportado de acordo com os regulamentos, poderia hoje ser um quatro estrelas. Então também não há continência para baixo. Bolsonaro trata seus generais por “você”, como a qualquer colega de turma na Academia e nos primeiros passos da vida profissional.

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