Ataques do crime organizado atingem quatro estados brasileiros e desafiam a segurança pública. Governo e polícia se mostram incapazes de impedir a violência. Por trás da onda de atentados, um consórcio de organizações criminosas. Os candidatos não estão nem aí. E o povo que se dane.

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Por trás da onda de violência que atinge várias regiões do país, um consórcio de organizações criminosas semeia o pânico e releva a fragilidade dos sistemas de segurança pública brasileiros. No Rio de Janeiro, especialmente nas zonas norte e oeste da capital, grupos armados atacam as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), criadas para retomar os “territórios livres” do narcotráfico, um projeto de repressão ao crime organizado que já dura vários anos e que conta com apoio de forças federais, incluindo Exército e Marinha. Durante a noite e a madrugada, os “soldados” do tráfico, filiados ao Comando Vermelho (CV), agem diretamente contra as forças de segurança. Pelo menos dois comandantes de UPPs foram vítimas de atentados a bala. Os criminosos usam fuzis automáticos, metralhadoras, inclusive antiaéreas, granadas e foguetes.

Em São Luís do Maranhão e em Goiânia (GO), a poucos quilômetros de Brasília, a capital do país, os alvos são o transporte público e as bases da Polícia Militar. Ônibus são incendiados. Bases policiais são atingidas por tiros e bombas molotov.  A situação é mais grave no estado de Santa Catarina, sul do país, uma das quadras mais ricas e produtivas. Lá – em aproximadamente um mês -, foram realizados 110 atentados a tiros e bombas. Dezenas de ônibus foram queimados. Escolas e universidades fecharam as portas. A população se trancou dentro de casa. Um toque de recolher informal foi estabelecido após as sete da noite, porque as empresas de transporte coletivo retiraram seus veículos de circulação. Os ataques são assinados pelo Primeiro Grupo Catarinense (PGC), organização ligada, ou associada, ao PCC paulista, o Primeiro Comando da Capital, a maior organização criminosa do país.

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Tudo isso acontece durante o processo eleitoral para a escolha do novo presidente do país. Os candidatos tratam apenas lateralmente do problema da violência. Aécio Neves (PSDB), que aparece como favorito nas pesquisas, mas com apenas 2% de preferência sobre a atual presidente, Dilma Rousseff, do PT, defende a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Ele mesmo não tem certeza disso – e está negociando o item em seu programa de governo, com vistas a atrair aliados. Dilma não tem propostas a esse respeito.

Enquanto isso, só nos últimos dias, quase 50 policiais militares do Rio foram detidos por envolvimento com o crime organizado. Fala-se de corrupção na Petrobras, a maior empresa estatal brasileira, mas não se discute a corrupção entre as forças de segurança. Nos últimos anos, 76% das Unidades de Policia Pacificadora do Rio foram acusadas de corrupção e maus tratos aos moradores das áreas pobres onde atuam. Nenhum dos candidatos se referiu a isso. E parece que nada vai mudar.

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No imaginário popular, ganhe quem ganhar a presidência da República, a máxima continua: só pobre, preto e favelado merece levar porrada nesse país. De fato, não importa quem ganhe.

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2 respostas para Ataques do crime organizado atingem quatro estados brasileiros e desafiam a segurança pública. Governo e polícia se mostram incapazes de impedir a violência. Por trás da onda de atentados, um consórcio de organizações criminosas. Os candidatos não estão nem aí. E o povo que se dane.

  1. José Antonio Severo disse:

    O assunto é crime organizado no Brasil, mas vou falar de califado. De certa forma, são processos parecidos, pois tanto o califado médio oriental como as facções criminosas brasileiras demonstram a falência dos estados no antigo Terceiro Mundo, deixando as populações civis ao léu. O ocidente está ainda digerindo a morte do voluntário britânico Alan Henning, o último degolado pela faca de um jihadista inglês (sotaque londrino) nalgum ponto do deserto iraquiano pelo Estado Islâmico (EI), nome do Daech, na sigla em árabe; também já apresentou a imagem do próximo na fila da “gravata colorada”, o norte-americano Peter Kassing. Na falta de jornalistas para sacrificar, que provocam reações iradas da mídia internacional, os degoladores do califado estão sangrando voluntários de grupos humanitários que se arriscaram trabalhar as áreas conflagradas. O objetivo é atrair uma ação mais efetiva das potências ocidentais para, com isto, criar uma onda de pressão de opinião pública que force os governos cristãos a aprofundar a intervenção no conflito, conseguindo produzir elementos para sedimentar unidade entre o feixe de forças islâmicas que operam nesse conflito.
    A participação de forças ocidentais alimenta a propaganda para recrutamento de jihadistas nos países desenvolvidos e, no mundo sunita, reforça a unidade (arrecadação de contribuições) para a luta contra o inimigo externo. Embora o combate às forças das demais confissões islâmicas produza ódio suficiente para manter acesa a chama da luta armada, o confronto contra os “cruzados” tem muito mais vigor para inflamar a guerra santa. Se a luta contra os “cruzados” robustece a adesão de indiferentes, o extermínio de xiitas é o argumento para captar vultosas somas de milionários e príncipes do Golfo Pérsico, que identificam no Irã a grande ameaça à hegemonia waabita (linha radical seguida na Península Arábica) no mundo islâmico. Ou seja, lutar contra ocidentais aglutina o povão e bater-se contra xiitas e abre o bolso dos potentados do petróleo que temem os aiatolás de Teerã.
    Alguns cálculos, entretanto, não deram certos. No espaço islâmico, o governo de Bagdá não lançou uma contraofensiva empegando tropas xiitas, limitando-se a conter o avanço do EI sobre a capital, evitando o confronto sectário entre as seitas rivais. Pressionas pelas potências ocidentais, as monarquias sunitas não tiveram como fazer vistas grossas ao fluxo financeiro e de combatentes voluntários, enviando seus aviões para bombardear os jihadistas no solo iraquiano (apenas ocidentais atacam em solo sírio). As monarquias ainda não estancaram a ajuda financeira, mas isto pode ocorrer a qualquer momento, fechando a torneira de dinheiro para o Estado Islâmico. Por fim, os governos acidentais não se deixaram arrastar para o confronto terrestre, o que frustra enormemente a mobilização da opinião pública maometana.
    Se o plano norte-americano e iraquiano der certo, se as lideranças dos governos envolvidos tiverem paciência e determinação política para seguir o projeto que costuraram se não perderem a cabeça afrontando a tradição muçulmana, poderão encurralar o EI e desgastá-lo, juntando forças para poderem derrotar o califado no campo de batalha. Entretanto, isto levará tempo.
    O confronto militar no terreno, atualmente desempenhado pelos curdos sunitas, é outra história. Para derrotar o Estado Islâmico serão necessários 100 mil homens bem treinados e armados, todos de tradição sunita. Leva tempo, meses ou anos, para montar esse exército. O emprego contido da ajuda estratégica das potências ocidentais e a preparação dessa legião é o que se trama nos bastidores da crise médio oriental.

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    • Carlos Amorim disse:

      Obrigado pelo comentário. A comparação entre jihadistas e criminosos brasileiros faz um certo sentido. Num dos meus livros, o “Assalto ao Poder”, explico que os soldados no narcotráfico costumam se chamar de “Guerreiros Bin Laden”.
      Continue participando,
      abs
      Camorim

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