61.689: este é o número de homicídios cometidos no país no ano passado. Um recorde histórico. Motivos: redução do investimento público em segurança; aumento das desigualdades; desemprego.

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Ocupação policial-militar das comunidades pobres. Imagem da TV Globo.

                                   O número de assassinatos, divulgado hoje (30 out) pelo Anuário Estatístico da Violência no país, revela que batemos um recorde histórico, disputado apenas por nós mesmos. Este é o país que mais mata no mundo. O número corresponde ao ataque nuclear americano contra a cidade de Nagasaki, no Japão, que pôs fim à Segunda Guerra Mundial. É bem maior do que os americanos mortos no Vietnã (57 mil). Mais do que um Vietnã por ano! E ainda dizem que o brasileiro é um povo pacífico e ordeiro. Só se for em relação aos políticos e governantes.

                                   São cerca de 170 homicídios por dia. Algo como 29 crimes fatais para cada grupo de 100 mil habitantes, três vezes o que é recomendado pela ONU. É um país bandido. Os números divulgados hoje também revelam que o governo federal deixou de investir 1 bilhão de reais na segurança pública, enquanto Temer gasta mais de 10 bilhões em emendas parlamentares para continuar no cargo. Ele mesmo, que é acusado pela PGR de comandar uma organização criminosa e de obstruir a justiça. A imensa maioria dos mortos na estatística são jovens entre 17 e 29 anos. São pretos, pobres e favelados. Mas só a violência contra a classe média e as elites sai nos jornais e na TV. E só esses crimes são investigados. No meio jurídico, há que diga que apenas 1% dos crimes resulta em condenação. E as prisões estão lotadas.

                                   A sociedade brasileira está criminalizada de alto a baixo: vai da “cervejinha” para o guarda de trânsito ao caixa 2 das grandes empresas e à sonegação de impostos dos bancos, montadoras e emissoras de TV. Na reforma da previdência pretendida pelo governo Temer, não há uma linha a respeito dos sonegadores. Estes somam bilhões e bilhões de reais descontados dos empregados e não pagos ao governo. Em um país que não constrói escolas e hospitais, como queremos estar seguros nas ruas?

                                   E o exemplo vem de cima. Da casa grande. Se as elites políticas e econômicas são o mau exemplo, roubando e espoliando o patrimônio público, como imaginar a redução da violência entre os pobres? E são justamente os pobres as maiores vítimas da violência.         

                                    

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Espetáculo vergonhoso na Câmara: deputados rejeitam segunda denúncia da PGR contra Temer em meio a chantagens, barganhas e outras patifarias.

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Oposição protesta na Câmara. Imagem do portal da Veja.

 

                                   As oposições e os dissidentes precisavam de 342 votos para derrubar o governo mais impopular da história recente do país. Só conseguiram 233. Para se livrar das acusações de obstrução de justiça e crime organizado, Michel Temer deveria merecer apenas 172 votos, coisa fácil de obter em razão da maioria de que dispõe na Câmara. Mesmo assim, ficou com uma votação inferior àquela que teve na primeira denúncia: 263, na primeira; 251, na segunda. O governo, de novo, sai desgastado pelos discursos virulentos da oposição, transmitidos ao vivo pela TV e o rádio.

                                   Durante toda a quarta-feira (25 out), parlamentares do “centrão” fizeram todo tipo de chantagens contra Temer, recusando-se a dar quórum à sessão na Câmara. Queriam mais dinheiro, mais cargos. O preço deles subiu. E ficou patete que o governo é refém do grupo de 12 partidos mais desqualificado do país. Com as oposições obstruindo os trabalhos, ao que se soma a rebelião dos oportunistas da ala conservadora, a votação só começou à noite, obrigando a TV Globo a cancelar o capítulo da novela “O outro lado do paraíso”. Prejuízo milionário para a emissora.

                                  As barganhas e patifarias foram de tal ordem, que Temer, sem dormir direito nos últimos dias, passou mal e teve que ser hospitalizado com uma crise renal. E foi justamente para o hospital do Exército, onde o generalato o vê como um grave problema para o país. Muitos desses oficiais-comandantes desejam o fim deste governo. Mas Temer saiu do hospital a tempo de aparecer no Jornal Nacional, acompanhado da bela Marcela, a primeira-dama.

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Temer comemora vitória esperada, porém duvidosa.

                                   Tudo mostra que o governo, apesar das gravíssimas acusações, formuladas pelo procurador Rodrigo Janot, vai até o fim. À custa de mais benesses – e talvez alguma corrupção adicional em favor do “centrão”. O dinheiro jogado fora para manter o mandato daria para construir centenas de escolas, postos de saúde, creches e aprimorar a segurança pública. O episódio confirma, pela enésima vez, que esses mandatários da República desejam firmemente que o povo se dane. E há – também – alguns deputados com vocação para palhaços de circo. Fazem discursos capazes de envergonhar as pedras do calçamento. (Me perdoem os verdadeiros palhaços, que levam alegria ao povo.) Os comediantes da Câmara representam o pior que há na história do Parlamento brasileiro. Nunca se viu uma legislatura tão vagabunda. 

                                   Não há nada mais espantoso do que a conduta dessa maioria parlamentar, formada a partir do impedimento de Dilma Rousseff. Quer impor ao Brasil um retrocesso de 50 anos. Ou mais!               

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Tropa de choque da PM mata turista espanhola e reabre crise na Rocinha. O Rio tem um tiroteio a cada duas horas. Prefeito Crivella pede ação das Forças Armadas. Inútil!

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Forças Armadas na Rocinha. Imagem Agência Brasil.

   

                                   Na manhã desta segunda-feira (23 out), a turista espanhola Maria Esperanza Gimenez, 67 anos, resolveu visitar a favela da Rocinha, campo de batalha entre facções criminosas. Aparentemente, contratou o tour em uma agência de viagens. Estava em um carro particular, sem qualquer sinal de que se tratava de um veículo de turismo. O motorista, supostamente, teria se recusou a parar em um bloqueio da tropa de choque da PM, no Largo do Boiadeiro, localidade movimentada da favela. E o que fizeram os policiais? Abriram fogo de fuzis automáticos contra o carro. Esperanza morreu a caminho do hospital.  

                                   Meia hora antes do incidente, que ganhou repercussão mundial, já tinha havido um violento enfrentamento entre policiais e traficantes, que resultou em dois PMs e um suspeito feridos. Quase ao mesmo tempo, dois outros tiroteios sacudiam o Morro do Chapadão e o Vidigal. Cenas da guerra civil no Rio de Janeiro, onde ocorre um enfrentamento armado a cada duas horas. O próprio ministro da Defesa, sem medir as palavras, já disse que tiroteio em favela é coisa do cotidiano das comunidades pobres. Como se a conflagração armada na segunda maior cidade do país não tivesse qualquer relevância. Raul Jugmann (PPS-PE, partido originário do antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB, hoje aliado de Temer) quer nos fazer acreditar que essas coisas são “normais”.  

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Violência nas ruas. Um país em guerra civil não declarada. Imagem da TV Brasil. ,

                                   A política de segurança no Rio afundou de modo espetacular. As Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), criadas há quase uma década, e que pretendiam recuperar os territórios ocupados pelo narcotráfico, fracassaram redondamente. Não passaram de um pequeno Estado de Sítio sobre as comunidades, no qual direitos civis básicos foram violados. Em 70% dos casos, houve denúncias de corrupção e maus tratos contra moradores. Os casos mais emblemáticos foram o sequestro, a tortura e o desaparecimento de Amarildo, na Rocinha, e o de um tenente do Exército que decidiu levar para casa dois aparelhos de ar-condicionado de um morador do Complexo do Alemão. Ou seja: não adiantava ocupar o quintal dos traficantes com uma polícia bandida. Não que a instituição seja criminosa, mas está povoada por maus elementos. Com o dedo leve no gatilho. 

                                   Há no Rio de Janeiro cerca de 1.300 favelas e bairros muito pobres. Segundo o ministro Jugmann, 850 deles são dominados pelo crime organizado. Uma população de 1.3 milhão de pessoas estaria sob o jugo do narcotráfico. Só este ano, mais de 100 policiais militares foram assassinados no Rio. Não sei o número exato de “civis” tombados no conflito, mas são centenas e centenas. Só em 2017, 632 pessoas foram atingidas por balas perdidas, de acordo com a Folha de S., Paulo, incluindo mulheres e crianças. Além do mais, pesquisas de opinião pública revelam que os pobres têm mais medo das forças da lei do que dos bandidos. É o caos!

                                   Com os incidentes de hoje, o prefeito do Rio, o bispo evangélico Marcelo Crivella, voltou a pedir ações das Forças Armadas contra a violência que assola a cidade. Os políticos acham que os militares estão aí para dar uma desculpa pública para o desgoverno. Isto não só desagrada a caserna, como não tem tido resultados. Na verdade, os militares estão de saco cheio de agir para salvar a aparência de políticos pouco cofiáveis, que comprometem a imagem pública das Forças Armadas, especialmente o Exército e a Marinha.

                                   É bom lembrar que o ex-governador Sérgio Cabral está preso por deslavada corrupção e que o Estado deve salários aos funcionários públicos. Se não construímos escolas e hospitais, seremos capazes de cuidar de quartéis e de tropas? O que falta mesmo são políticas de bem-estar social e redução das desigualdades. Sem isso, não há segurança que aguente, particularmente em um país onde o presidente e alguns ministros são acusados – justamente – de formação de quadrilha.    

     

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Temer usa todos os recursos (alguns bem sujos) para se manter no poder. Abre o cofre aos aliados e publica decretos duvidosos para obter votos que garantam o mandato.

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Temer e Gedel caiu. As mesmas acusações. Foto Agência Brasil.

                                    O governo Temer está em liquidação. Faz qualquer negócio para sobreviver. Tentou extinguir a reserva do Renca, na Amazônia, em troca de votos da bancada do Norte. Está liberando bilhões de reais em emendas parlamentares ao orçamento da União, de modo a beneficiar aliados. Em edição madrugal do Diário Oficial, publicou decreto alterando a legislação de combate ao trabalho escravo, provocando a grita de instituições nacionais e internacionais. Troca integrantes da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara a seu bel prazer. Chega ao cúmulo de aceitar rever o plano de privatizações para alegrar a festa de um partido amigo, contrariando a equipe econômica. E se conforma com o programa de refinanciamento de dívidas com a Receita Federal, facilitando a vida de dezenas de deputados devedores.

                                   Agora está exonerando ministros que têm mandato parlamentar para que voltem à Câmara e garantam mais 8 votos para salvar a pele do presidente. É um escândalo sem tamanho. E o nome disso é corrupção pura e simples. Trata-se de um governo que não governa. Os aliados de Temer arrotam uma tal de recuperação econômica, quando o crescimento do PIB deste ano está estimado em 0,3% e há 13 milhões de desempregados. A inflação caiu, forçada pela estagnação econômica: pouca gente vende e menos gente ainda compra. Com ela, caíram os juros oficiais, a Selic. Mas a taxa regula apenas a dívida pública, não tendo quase nada a ver com a economia real, onde os bancos cobram até 300% ao ano. Ou mais.

                                   A “recuperação” é usada como marketing do governo: por que tirar um presidente que está dando certo? Certo para quem, cara pálida? Outro arrufo de Temer é o saldo na balança comercial, modestamente positivo. Este é outro sinal da crise, uma má notícia. O saldo comercial está positivo porque o empresariado parou de importar bens de capital, como máquinas e motores. É assim o blefe de Temer, que só os tolos engolem.

                                   Parece claro que Michel vai ter os votos na CCJ que o livrem das acusações de obstrução da justiça e de chefiar uma organização criminosa. Esse governo, sem governar, pode ir até o fim, produzindo danos cada vez maiores ao país. Enquanto seus aliados acumulam fortunas, como os 51 milhões encontrados no apartamento usado por Gedel Vieira Lima, homem de confiança de Temer. A descoberta foi tão emblemática, que virou cena do penúltimo capítulo da novela de Glória Perez, “A Força do Querer”, exibida na TV Globo.

                                   Trata-se de um país habitado por um povo paciente, muito paciente!       

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Nem o massacre em Las Vegas (até agora 59 mortos e 517 feridos) consegue convencer os americanos a rever as leis de acesso às armas. Trump foi à TV chorar pelas vítimas, mas não tocou no problema.

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Pânico em Las Vegas. Imagem CNN.

                                    Os Estados Unidos têm uma longa história de atentados a tiros. Em escolas, bares, empresas, universidades. Tudo em plena luz do dia. Nada se compara ao que aconteceu em Las Vegas: um terrorista solitário, de 64 anos de idade, do alto de um hotel na capital dos cassinos, abriu fogo de fuzis automáticos contra uma multidão de mais de 20 mil pessoas que assistia a um show de música sertaneja americana. Matou dezenas e feriu centenas. Quando a polícia chegou ao quarto de onde ele disparava, foi recebida com rajadas de balas. O cara se matou antes de ser apanhado.

                                   O atirado, que não tinha antecedentes criminais, mas era filho de um famoso ladrão de bancos, tinha em seu poder 16 armas de guerra e farta munição, além de explosivos. A polícia local supõe que ele disparou 300 tiros. Ninguém sabe como entrou em um dos hotéis mais luxuosos de Las Vegas com tamanho arsenal. O topetudo Donald Trump, na manhã seguinte, foi à TV lamentar o massacre. Nem uma única palavra sobre o controle da venda de armas. Nos Estados Unidos, 300 milhões de armas estão nas mãos de civis. Dá para comprar até em supermercados. Dez por cento da força de trabalho americana está empregada na indústria de defesa e na produção de armamentos. O interesse econômico, como aqui no Patropi, compra a maioria dos congressistas. E la nave va.

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As forças de segurança agiram em minutos.

                                   O FBI e a CIA se apressaram em afirmar que o atirador de Las Vegas não tinha ligação com grupos terroristas. Nem precisava: esse tipo de atentado é corriqueiro na América. Trata-se de gente alucinada – e armada até os dentes. Na casa do assassino em massa foi encontrado outro arsenal. E o lobby da indústria armamentista vai impedir uma discussão mais séria sobre o tema.

                                   Alguma semelhança com o Brasil?    

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Tributo ao repórter: Marcelo Rezende foi um bom companheiro e um jornalista preocupado com o sentido social da profissão. Depois fez outras escolhas. Na minha memória, é o velho Tela Cheia de sempre.

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O repórter Marcelo Rezende. Imagem Record TV.

 

                                   Esta semana publiquei um artigo em Notícias da TV, no portal do UOL dirigido por Daniel Castro. Contei duas histórias que compartilhei com Marcelo Rezende na TV Globo. Reproduzo, a seguir, o texto original.    

“Marcelo Rezende gostava de aventuras e de correr perigo.

 Marcelo Rezende era um tanto gordo, até barrigudo. O rosto redondo e os cabelos ralos justificavam o apelido que demos a ele: Tela Cheia. Era um repórter agressivo, de voz rouca, em português rústico. Mas a aparência, um tanto grosseira, escondia um jornalista determinado e consciente do papel social da profissão.

Nos conhecemos em O Globo, onde ele cuidava de assuntos ligados ao esporte. No diário carioca, ele desenvolveu uma linguagem simples, mas sempre focada em notícias explosivas. Marcelo tinha esta mania de exclusividade nas coisas que fazia. Anos depois, nos reencontramos na TV Globo.

Fui diretor de jornalismo da emissora no Rio de Janeiro, no início dos anos de 1990, quando ele trabalhava diretamente comigo em reportagens especiais. Por ocasião do sequestro do empresário Roberto Medina, dono da Artplan e criador do Rock in Rio, Marcelo protagonizou uma caçada implacável aos sequestradores.

Certo dia, após a exibição do JN, o repórter sentou-se na minha frente, na Editoria Rio, e me contou uma história extraordinária: havia descoberto o paradeiro dos sequestradores de Medina. Os detalhes da investigação eram extremamente complexos e não cabe detalhar aqui todos as ranhuras da investigação, por que a história seria longa demais.

Marcelo, me olhando fixamente, como era de seu estilo, me disse: “Os sequestradores estão em Assunção do Paraguai e eu tenho o endereço. Quero ir até lá com uma equipe de policiais e um cinegrafista. Preciso de um avião fretado e que tudo fique em segredo absoluto”. Eu peguei o telefone e liguei para o diretor da Central Globo de Jornalismo, à época, Alberico de Souza Cruz. Disse ao nosso chefe maior que sabíamos onde estavam os sequestradores, em busca de autorização para gastar uma boa grana e realizar uma operação clandestina, não reconhecida pelos governos brasileiro ou paraguaio.

Era mesmo uma aventura, que poderia ter resultados desastrosos, como de fato teve. Mesmo assim, fui autorizado a prosseguir na empreitada. Marcelo Rezende e o cinegrafista, além dos policiais civis do Rio, chegaram em um voo fretado. A falta de uma justificativa para a viagem, despertou o interesse das autoridades paraguaias.

Quando ele e a equipe chegaram ao aeroporto de Assunção, faziam de conta que não se conheciam. Andavam separados. Mas o destino conspirou contra eles: a primeira pessoa que Marcelo Rezende viu no saguão de desembarque foi exatamente um dos sequestradores. E o cara disse para ele: “Eu conheço você. É um daqueles repórteres da TV Globo”. Ele desconversou e disse que estava de férias. O encontro se desfez rapidamente.

Marcelo, o cinegrafista e os policiais se hospedaram em um pequeno hotel próximo ao endereço conhecido dos criminosos, num bairro residencial de Assunção. Combinaram que o ataque seria no dia seguinte, pela manhã. Deu tudo certo. Aparentemente.

A equipe da polícia do Rio, totalmente desarmada, invadiu o endereço dos sequestradores e deteve três deles. No grito. Os homens não ofereceram nenhuma resistência. Mas o projeto estava totalmente prejudicado. A guarda nacional paraguaia, comandada pelo General Sanches, já havia apreendido o avião no aeroporto, prendido o piloto da TAM e seguia discretamente o grupo de brasileiros.

Quando todos eles voltavam para o aeroporto, foram cercados por um enorme grupo de policiais paraguaios. Receberam voz de prisão e foram levados para uma instalação militar desconhecida do grande público, onde a ditadura do governo de Alfredo Strossner, já havia cometido muitas atrocidades. No quartel, o General Sanches, os acusou de terrorismo, pirataria aérea e sequestro.

A partir deste momento, criou-se um enorme impasse diplomático entre Brasília e Assunção: uma equipe da TV Globo, acompanhada de policiais, desaparecera na capital do Paraguai. Um jato da TAM estava arrestado e a tripulação presa. Quando soube do desaparecimento de todos eles, entrei em contato com a alta direção da Globo para tentar algumas providências.

A emissora falou com o então presidente Fernando Collor sobre o incidente e eu fiz contato com o governador do Paraná, Álvaro Dias, para iniciar uma negociação que trouxesse de volta nossos repórteres e os policiais cariocas. O governador Álvaro Dias, até pela proximidade das fronteiras, mantinha estreitas relações com o governo paraguaio. Toda esta gestão diplomática resultou na liberação dos brasileiros, na permissão de que os presos fossem libertados e que os sequestradores fossem repatriados ao Brasil, sem nenhum processo de extradição. Foi um acordo entre governos.

Mas o general Sanches, comandante da Guarda Nacional, não ficou nada satisfeito. Mandou apreender todas as fitas gravadas, desde a saída no Rio de Janeiro, até a prisão dos criminosos. Só que no Paraguai não havia, naquela época, equipamentos de reprodução de áudio e vídeo Sony Beta. Então a polícia aceitou a entrega de algumas fitas sem saber o que havia dentro delas. Marcelo Resende entregou ao general Sanches alguns shows da Xuxa e arquivos sem nenhum valor. Todas as gravações daquela aventura sobreviveram.

Marcelo Resende, câmera, os policiais e os presos chegaram ao Rio de Janeiro na madrugada de sábado para domingo, a bordo do jatinho da TAM, também liberado. O meu problema era editar o extenso material gravado e colocar no ar no Fantástico daquele domingo. Ninguém dormiu naquela noite.

O material, com 26 minutos de duração, foi exibido. Mas só ficou pronto quando o Fantástico já estava indo ao ar. Foi uma das maiores audiências já registradas, além de um furo de reportagem notável. O trabalho exigiu nervos de aço, como diria Lupicínio Rodrigues na música famosa.

Mas esta não foi a única vez que eu e Marcelo Rezende tivemos aventuras na TV Globo. Em 1991, quando participei da direção do Rock in Rio II, tive a ideia de abrir a cobertura do festival com uma imagem aérea do Maracanã, onde havia um anel de luzes de neon azul sobre o estádio. A imagem seria mostrando de helicóptero, justamente com o repórter Marcelo Rezende, que diria no ar: “Vai começar o maior show de rock do planeta”. Alguns minutos antes da transmissão, onde eu fazia o controle mestre do evento, com o Roberto Talma e Boninho, encarregados do corte do show, o repórter Marcelo Rezende me informou pelo rádio que havia uma pane hidráulica no helicóptero. Respondi: “Só preciso que vocês fiquem aí por mais 30 segundos”.

E Marcelo acrescentou, num tom dramático: “Nós vamos cair”. Naquela eletricidade de abertura do festival, eu disse a ele: “Se cair, caia gravando”. Deu tudo certo na abertura do Rock in Rio II. Mas o helicóptero fez um pouse de emergência no aeroporto Santos Dumont. De fato, havia o risco de um desastre.

Esse foi o Marcelo Rezende que conheci. O cara gostava do perigo. Foi autor de reportagens notáveis na Globo. Depois fez escolhas diferentes. Mas, na minha memória, é o velho Tela Cheia de sempre”.   

 

 

 

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Gilmar Mendes toma goleada no STF: por 10 votos a favor e 1 contra (do Gilmar), Suprema Corte manda seguir denúncia de Janot contra Michel Temer. Acusação: obstrução à justiça e crime organizado. É a primeira vez que o chefe do governo é acusado de comandar uma facção criminosa.

 

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O general Augusto Heleno.

Quando publiquei “Assalto ao Poder” (Editora Record, 2010), afirmei que o crime organizado pretende a tomada do poder. Fui chamado de exagerado. Agora a Procuradoria-Geral da República diz que Michel Temer, presidente do Brasil, comanda uma organização criminosa. A decisão do STF, tomada na tarde de hoje (21 set), dá prosseguimento à denúncia feita por Rodrigo Janot. E dá a entender que faz sentido e merece ser investigada. Ou seja: o crime organizado pode já ter  chegado ao poder na terra brasilis.

                                   A decisão da Suprema Corte, quase unânime, se não fosse pelo voto de Gilmar Mendes, será enviada ainda hoje para a Câmara dos Deputados. Pela Constituição Federal, os deputados têm que autorizar o processo criminal contra Temer. O mais provável é que não autorizem, porque a maioria temerista na Câmara deve rejeitar as acusações, sem investigá-las. Só que isso aumenta o desgaste político do governo e a rejeição da opinião pública. E muitos deputados governistas temem a reação dos eleitores no ano que vem. Precisam do mandato para estar protegidos da justiça.

                                   E já começou a barganha de cargos e vantagens para rejeitar a segunda denúncia da PGR. É o famoso toma-lá-dá-cá. Confirmando a tese de que é dando que se recebe. Atestando o total apodrecimento do sistema político. Um presidente postiço, que fez aquele discurso patético na ONU, sobre um país das maravilhas que não existe no mundo real, vai sobreviver às novas acusações. Em troca da liberação do dinheiro público para uma classe política que nos envergonha.

                                   Enquanto isso, cresce a agitação no meio militar. Os generais Antônio Mourão e Augusto Heleno, que representam o pensamento das casernas, fizeram pronunciamentos públicos ameaçando uma intervenção das Forças Armadas se o judiciário não for capaz de lidar com os corruptos. O próprio comandante-em-chefe do Exército, o general Villas-Bôas, em entrevista a Pedro Bial, na TV-Globo, disse que não haveria punições para esse tipo de manifestação de opinião política. De forma lateral, endossou tais opiniões.

                                   E qual seria o projeto golpista dos militares? Na minha opinião, seria o seguinte: afastam Temer, Rodrigo Maia e Eunício de Oliveira; dão posse à presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Carmem Lúcia. Em seis meses, ela convocaria eleições diretas. Mas este parece ser um cenário de ficção. Na realidade, Michel Temer deve concluir o mandato. Só que não governa nem mesmo a própria base aliada.   

 

       

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