Justiça americana começa a julgar “El Chapo”, o maior traficante do mundo. O tribunal federal de Nova Iorque quer a prisão perpétua para o mexicano. Ele acumulou uma fortuna de 18 bilhões de dólares vendendo drogas nos Estados Unidos.

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“El Chapo” preso por militares mexicanos. Imagem do portal EFE.

                                   Joaquin “El Chapo” Guzmán, chefe do cartel mexicano de Sinaloa, uma das maiores organizações criminosas do mundo, está sendo julgado no tribunal federal do Brooklyn (NYC). É acusado de 36 homicídios nos EUA e de ser responsável por ao menos 30% de todas as drogas consumidas em território do Tio Sam. As autoridades americanas acreditam que ele é responsável, direta ou indiretamente, por mais de 10 mil mortes na guerra das drogas que o México enfrenta há 30 anos, particularmente desde a morte de Pablo Escobar e a destruição dos cartéis de Cali e Medelín, na Colômbia. Os mexicanos assumiram por atacado a produção da cocaína colombiana.  

                                   Os cartéis mexicanos são inimigos mortais na disputa pelo contrabando de drogas para os Estados Unidos, os maiores consumidores mundiais. Um negócio crescente, que só pode ser medido em bilhões de dólares. “El Chapo”, preso várias vezes, costumava sair de penitenciárias de segurança máxima pela porta da frente, vestindo uniformes de funcionários. Tinha dinheiro suficiente para comprar todo o sistema penal do país dele. A última fuga foi de dentro da própria cela: seus comparsas construíram um túnel, verdadeiro prodígio de engenharia, que saia dentro do banheiro.

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Sean Penn e “El Chapo”. Imagem do portal da Rolling Stones.

                                   Vaidoso, como vaidosos são todos os chefões do crime organizado, “Chapo” resolveu que a carreira dele no crime deveria ser eternizada no cinema. Pediu a uma famosa e belíssima atriz mexicana, Kate del Castillo (ver o post de 12 de jan de 2016), apontada como amante do traficante, protagonista da série “A rainha do tráfico” (exibida no Brasil pela NET), que organizasse a filmagem.  Kate procurou um superastro de Hollywood, o ator Sean Penn. O traficante achava que Penn poderia representá-lo bem nas telas.

                                   Ocorre que a negociação foi monitorada pelo DEA, a agência americana antidrogas, com apoio da CIA. Supostamente, Sean Penn não sabia de nada. Foi marcado um encontro em Los Mochis, pequena cidade em Sinaloa, interior do México, no dia 2 de outubro de 2015. Sean Penn e “El Chapo” (uma gíria mexicana para “tampinha”, porque ele é bem baixo) se encontraram, apertaram as mãos e combinaram detalhes para o filme. Algum tempo depois que Penn e Kate foram embora, um grupo de elite da Marinha mexicana atacou o traficante. O tiroteio durou quase uma hora. Houve mortos e feridos. Mas “El Chapo” foi preso. Sean Penn publicou um artigo na revista Rolling Stones contando a versão dele para o encontro. 

                                   O governo mexicano, de saco cheio das estripulias do traficante, resolveu extraditá-lo para os Estados Unidos. Agora está no banco dos réus em Nova Iorque. Prisão perpétua.

                                       

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Ficou feio demais: indicação de Moro a superministro de Bolsonaro lança sombras sobre o destino da Lava Jato e do combate à corrupção. De repente – não mais que de repente – o herói nacional ficou nu.

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Juiz e acusador ao mesmo tempo.

 

                                   Aconteceu tudo muito rápido. Até demais. Três dias após o segundo turno, em um encontro que durou apenas 40 minutos, Sérgio Moro e Jair Bolsonaro firmaram um pacto que transformou o “Xerife da Lava Jato” em um dos mais importantes ministros do novo regime. O magistrado não tinha grandes questões a apresentar ao presidente eleito? Ou já tinham um acordo tácito à distância? Será que se identificavam tanto, que bastariam 40 minutos de entendimento? Nem as crianças do primário acreditam nisso.

                                   O trabalho de Moro à frente da maior devassa anticorrupção da história deste país deu a ele a maior credibilidade entre todos os brasileirinhos. Muitas pesquisas o apontavam como a personalidade de destaque. Foi capa de jornais e revistam ao redor do mundo. Poderia ser eleito para qualquer cargo público. Venceria disparado. Mas o próprio Sérgio Moro descartou solenemente tal hipótese, dando a entender, em várias entrevistas, que isto desmoralizaria o magistrado dele. No entanto, rapidamente, numa conversa de pouco mais de meia hora, o juiz abandonou a judicância e entrou de cabeça na política. Jogou fora 22 anos de carreira e um salário nada desprezível, que inclui uma série de mordomias que faltam ao trabalhador ordinário.

                                   Aqui, neste site, o juiz já foi elogiado, pela rapidez na condução dos processos e pela dura aplicação da lei. Condeno 140 pessoas na Lava Jato, entre as quais o político mais popular do país, Lula. Com o passar do tempo, fomos percebendo que Moro tinha – digamos – uma predileção por acusados ligados ao PT e às causas populares. Era só uma impressão. Agora há sombras sobre tudo isso.  Então, o tempo todo, Moro concordava com a plataforma ultraconservadora e militarista de Bolsonaro? O capitão é contra pesquisas com células-tronco embrionárias; contra o direito da mulher em relação ao aborto; contra os casais homoafetivos; contra a liberdade de expressão e a mídia que não o interessa; pela redução da maioridade penal (eu também); pela liberação da venda e porte de armas (acho que o cidadão tem direito de possuir uma arma, mas não de portá-la); acha que o homossexualismo é uma doença que pode ser curada pela fé, contrariando a ciência; diz que o Brasil não é um Estado laico, mas cristão.

                                   Ao que tudo indica, Sérgio Moro é um adepto dessas ideias. Caso contrário, não teria aceitado tão rapidamente o convite para ser o arquiministro da Justiça e da Segurança Pública. Salvo chuva e salvo engano, Moro não sabe nada de (in)segurança pública. Nunca andou em favelas e periferias. Não viu de perto a cara do povo. Não faz ideia do poder das facções criminosas, que, aliás, nunca foram citadas pelo novo líder. Mesmo assim, concordou com o projeto em meia hora. Pode isso?

                                   O capitão Bolsonaro, ao atrair Sérgio Moro para o novo regime, marcou um gol de placa. O cara é popular e verdadeiramente adorado nas classes médias, que, historicamente, definem os rumos da política no Patropi. Tem cara de bom moço, cabelinho bem cortado, é branco e com diploma universitário. O tipo ideal para se tornar um sucessor no novo regime. Os generais que apoiam Bolsonaro são velhos, feios e mal encarados. Todos com um pezinho na ditadura militar que infelicitou o país. Moro, não!

                                   Esse é o cara!

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Sérgio Moro põe a corda no pescoço: convidado por Bolsonaro a ocupar o Ministério da Justiça, diz que se sente honrado e promete pensar.

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Moro e Aécio, tratam do inimigo comum, o PT. Foto portal IstoÉ.

                                    O controverso juiz federal Sérgio Moro, mais conhecido como o “Xerife da Lava Jato”, foi convidado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro a ocupar o Ministério da Justiça. É bom lembrar: uma semana antes do primeiro turno das eleições, Moro quebrou o sigilo das delações de Antônio Palocci contra Lula, com cobertura exclusiva do Jornal Nacional. Outro mar de lama sobre o petista preso em Curitiba. Foi tão escandaloso, que a corregedoria da Justiça Federal intimou Sérgio Moro a prestar esclarecimentos.

                                   Obviamente, a denúncia tinha alvo certo: desmoralizar ainda mais a campanha do PT. É claro que o partido tem enorme parcela de erros a espiar – e o próprio Lula não é mais nenhum inocente. Até as pedras do calçamento sabem disso. Mas um juiz federal – ícone da mídia – tomar tal iniciativa cheira a algo podre. Pior: é convidado a integrar o ministério do arqui-inimigo de Lula. E promete pensar, honrado pelo chamamento pátrio. Em qualquer lugar do mundo civilizado, já teria sido suspenso da função judicante.

                        O juiz é escravo da lei, como Bolsonaro se disse escravo da Constituição. Mas o juiz é um ser humano como outro qualquer e tem direito à interpretação subjetiva do rigor penal. Isto também está escrito nos códigos. Pode moderar as penas, pode considerar circunstâncias individuais de vida. Pode assentar: o sujeito roubou um quilo de arroz porque estava com fome. Mas interferir no processo eleitoral é muito diferente. Supostamente, Sérgio Moro é um cara esclarecido. A ele não cabe tal tipo de “engano”. Tanto não cabe que foi intimado a se explicar. Mas, como sabemos, a maior punição que pode ser imposta a um magistrado é a aposentadoria com todos os vencimentos. Trata-se de uma casta de intocáveis.

                                   Honrado pelo clamor bolsonarista, Sérgio Moro pode abandonar a magistratura e entrar na política. Seria um excelente sucessor do capitão. Aclamado pelo povo!  

  

 

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Vitória de Bolsonaro foi menor do que se esperava. Obteve 57 milhões de votos válidos, mas 42,4 milhões de eleitores não apareceram para votar ou votaram branco e nulo. Somando os votos em Haddad, chega-se a 89,3 milhões que não aprovaram o candidato do PSL.

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Bolsonaro vitorioso. Imagem do Portal Tribuna do Ceará.

                             Jair Messias Bolsonaro venceu. É o novo presidente do Brasil. Ele conseguiu uma vitória quase inacreditável. Começou sozinho, não era apoiado por nenhum grande partido. Só tinha 8 segundos de tempo de TV no primeiro turno e teve que se virar nas redes sociais. Atravessou todas as dificuldades porque o discurso ultraconservador dele caiu no gosto de 34,6% dos 147,3 milhões de brasileiros e brasileiras aptos para votar. Pelo entusiasmo da campanha do PSL no segundo turno, arrastando multidões para as ruas mesmo sem a presença do candidato, tinha-se a impressão de que haveria uma vitória arrasadora. Não foi o que se deu.

                            O capitão ganhou, mas o resultado do pleito mostrou a ele e a seus auxiliares que é preciso baixar a bola, moderar o tom, porque ele não é uma unanimidade nacional. No discurso da vitória, que teve ares de culto evangélico, Bolsonaro mostrou a Bíblia, a Constituição e um livro que lembrava uma biografia de Winston Churchill. Uma curiosa combinação. Mas Bolsonaro assegurou ao país que será presidente de todos os brasileiros e que as leis e os direitos civis e políticos serão respeitados. Jurou por Deus: a Carta da República será cumprida e preservada. Muita gente respira aliviada.

                            O resultado da votação, ao contrário do que parecia, não teve nada muito diferente de outros embates recentes. Bolsonaro obteve cerca de 11 milhões de votos a mais do que o petista Fernando Haddad. Lula, em 2006, ficou mais de 20 milhões de votos à frente de seu desafiante do PSDB, Geraldo Alckmin (60,8% contra 39,1%). A história das eleições pós-regime militar mostram um cenário muito parecido: dois terços dos eleitores estiveram contra ou não se interessaram pelos vencedores. Portanto, a eleição de domingo, que teve 31 milhões de ausentes, não mostra nada muito diferente. A soma de brancos, nulos, ausentes e votos petistas no segundo turno (89,3 milhões) sinaliza o presidente eleito que ele tem muito trabalha pela frente para consolidar o apoio do povo. Hoje o capitão tem apenas um voto em cada três.

                                   De outro lado, é preciso dar uma olhada no campo do adversário. O PT não foi destroçado como se podia imaginar. As urnas deram ao partido, além do bom desempenho presidencial, a maior bancada na Câmara dos Deputados (56 cadeiras), seis senadores (o PSL fez 4) e 4 governadores (o PSL fez 3). O PT vai governar 30,6 milhões de pessoas. Mas apanhou feio no centro-oeste, no sudeste e no sul do país. As vitórias estão concentradas nas regiões norte e nordeste. Em termos econômicos, ficou ainda mais caracterizado como partido dos mais pobres. Além disso, os demais partidos do campo progressista também obtiveram resultados: outros 6 governadores eleitos pelo PSB, PDT e PCdoB; outros 9 senadores, dos quais 5 da REDE; outros 80 deputados. Tudo isso soma um bocado de votos.

                                   Jair Messias Bolsonaro não vai ter vida fácil.                                  

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Para tentar se reeleger na presidência da Câmara, Rodrigo Maia faz acenos a Bolsonaro. Oferece colocar em votação, já em janeiro, o projeto de lei que facilita a venda e o porte de armas de fogo.

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Rodrigo Maia: vai vender a alma? Imagem da TV Cultura.

                                    Rodrigo Maia (DEM-RJ) quer continuar presidindo a Câmara dos Deputados, que o torna o terceiro homem na sucessão ao Planalto. Para tanto, precisa pacificar o “centrão” e se aproximar do PSL, o crescente partido bolsonarista. Como moeda de troca, deseja oferecer ao capitão colocar em votação o projeto de lei que flexibiliza o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003. E isso já em janeiro. Com o gesto generoso, Maia atende a uma das principais propostas de campanha de Bolsonaro: armar a população contra o crime. Em um país em que matamos 63.880 pessoas no ano passado, parece que o projeto dá início à guerra civil que os radicais tanto esperam.

                                   O projeto de lei 3722/2012, do deputado Rogério Peninha (MDB-SC), já foi aprovado em uma “comissão especial” da Câmara. Mas vem sendo mantido em banho-maria por Rodrigo Maia. Agora parece ter chegado a ocasião mais oportuna, em troca da qual Maia e o “centrão” esperam se beneficiar com cargos e vantagens. É o famoso toma-lá-dá-cá que Bolsonaro jurou extinguir. Se a lei for aprovada, o que muda?

1.      A idade mínima para a compra de armas de fogo cai de 25 para 21 anos. O comprador não poderá ter antecedentes criminais, mas fica dispensado o exame psicológico para saber se o sujeito pode ter uma arma nas mãos.

2.     O registro da arma na Polícia Federal se torna permanente, enquanto hoje vale por apenas 3 anos. O proprietário ainda tem que comprovar atividade profissional e residência fixa. Mas poderá adquirir várias armas de diferentes calibres (revólveres, pistolas, carabinas e rifles), com a munição regulada em cotas anuais.

3.     Para obter o porte de arma (ou o direito de sair armado na rua), terá que apresentar uma justificativa à Polícia Federal. Mas isto também pode ser “flexibilizado” durante a votação, porque muitos deputados da “bancada da bala” acham que, se o comprador cumpriu as exigências na aquisição do armamento, fica dispensado de novas obrigações para obter o porte.

4.     O artigo 78 da nova lei revoga expressamente o Estatuto do Desarmamento e cria o Estatuto de Regulamentação das Armas de Fogo.

Ao contrário do que pensam alguns otimistas, este não é um povo ordeiro e pacífico. Os fatos históricos e a epidemia de violência desmentem a tese. Em números absolutos, somo o país que mais mata violentamente no mundo, a cada ano. Sessenta e tantos mil homicídios, 40 mil desaparecidos e outras dezenas de milhares no trânsito, que também é uma forma de violência. Somos o segundo maior consumidor de cocaína em pó do planeta, o primeiro em crack. O narcotráfico é uma praga incontrolável, envolvendo particularmente as elites do país, incluindo os altos escalões da República, como já afirmou Fernando Henrique Cardoso, em entrevista a O Estado de S. Paulo, durante o segundo mandato dele.

                                   As facções criminosas são uma realidade assustadora, controlando o sistema penal e organizando a atividade criminal nas ruas. Elegem representantes pelo voto dos mais carentes e corrompem a polícia. Governam comunidades pobres onde vivem milhões de brasileiros. Contra esse estado de coisas não vemos políticas públicas. Um ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, durante o “levante” do PCC, em 2006, declarou à imprensa que quem sustenta o crime organizado é “a burguesia e a pequena-burguesia”. Ou seja: a elite econômica e a alta classe média.

                                   Se o crime organizado está nos altos escalões da República – vide as denúncias da PGR contra Lula, Dirceu, Temer e dezenas de parlamentares e ministros-, como resolver o problema armando a população? O bandido carrega armas todo o dia. Alguns assaltantes realizam até 10 ações por dia. São experientes, corajosos, muitas vezes por causa de drogas e álcool. Em 70% dos casos de crimes violentos, drogas e álcool estão presentes. Como o cidadão comum vai enfrentar esse tipo de agressão?

                                   De outra parte, precisamos examinar quem se beneficia com a escalada bélica proposta por Bolsonaro. Certamente, a indústria de armamentos. Aqui temos 3 delas: a Taurus (revólveres, pistolas e metralhadoras), a CBC (fabricante de munição) e a Imbel (produtora de armas militares). Na bolsa de valores, após o crescimento da candidatura do capitão do PSL e seus filhos agitados, as ações da Taurus se valorizaram 140% este ano, segundo o site Negócios. O capital estrangeiro correu para comprar. A aprovação da nova lei nos coloca em uma posição parecida com a dos Estados Unidos, onde a venda de armas é quase liberada. Mas resulta em atos terroristas e massacres nas escolas.

                                   Em um país repleto de contradições sociais, marcado pela desigualdade, o que será de nós?

    

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Com a mão na faixa, Bolsonaro continua sem projeto de governo. Os aliados dele assustam o país com declarações estapafúrdias e ameaças à democracia e ao bem-estar social. Mas o capitão continua liderando as intenções de voto em todas as regiões.

 

                                   O PT espera uma “virada difícil, mas não impossível” na votação do próximo domingo. Pela pesquisa divulgada hoje (CNT-MDA), o capitão tem 57% dos votos válidos e Haddad tem 43%. Algo como 18 milhões de votos de diferença. Faltando cinco dias para a votação, é uma situação arrasadora para o único candidato sobrevivente da esquerda. Tal sobrevivência, aliás, é quase um prodígio. Mas o PT errou – de novo – ao insistir no culto à personalidade de Lula, foi incapaz de negociar uma candidatura única do campo progressista, que poderia ter virado o jogo logo de saída. E não fez nenhuma autocrítica convincente das lambanças perpetradas nos últimos anos.

                                   No entanto, o candidato do desconhecido PSL e seus aliados assustam o país com ameaças e declarações cada vez mais perigosas para a estabilidade política e social do Patropi. Jair Bolsonaro já disse que, pelo voto, não se vai resolver nada no país e que era preciso uma guerra civil com uns 30 mil mortos. Disse que se devia fuzilar a “petralhada”. O filho dele, Eduardo, declarou em uma palestra: para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) não precisava nem de um jeep. Bastaria “um cabo e um soldado”. A truculência militarista causa espanto na parte do Brasil que ainda pensa. E essa parte, a se confiar nas pesquisas, representa 43% dos brasileiros votantes. Após a divulgação da ameaça, o ministro Alexandre de Morais, do STF, disse que se tratava de uma afirmação irresponsável e pediu à PGR a abertura de um inquérito contra Eduardo Bolsonaro, com base na Lei de Segurança Nacional.   

                                   A divisão de opiniões políticas, morais e ideológicas no país iniciou-se com os grandes protestos populares de junho de 2013. Resultaram em 4 mortos, dezenas de feridos e centenas de prisões. Ali o PT deveria ter acordado para o fato de que havia um enorme descontentamento entre os cidadãos e o sistema. Aquele era o ponto para uma repactuação política, abrir o governo para o segmento progressista. O PT insistiu em reeleger Dilma Rousseff, em 2014. Venceu por apenas 3,27% dos votos válidos, especialmente no Nordeste. E o PSDB de Aécio Neves, hoje apoiador de Temer e aderente a Bolsonaro, ao pedir a recontagem dos votos, inaugurou a crise política que resultou no impedimento de Dilma e na assunção de Temer, o pior governo da República, na avaliação popular.

                                   O descontentamento popular com a política em geral, agora corporificado em Jair Bolsonaro, altera a balança política no país. Antes era Lula e FHC. Ou o PT e o PSDB, entre a esquerda e a centro-esquerda. Agora é entre a extrema direita e uma esquerda dividida, quase muda. Lula já era. FHC já era. Aparece o tal do PSL, que açambarca o descontentamento popular.

                                   E ninguém sabe muito bem, fora as ameaças, o que Jair Bolsonaro pretende para o país.

                                            

                                                                       

  

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Teremos 2º turno, mas a onda conservadora varre o país. O eleitor jogou fora figuras execráveis da política – e elegeu outras parecidas. O desejo de mudança pode ter saído pela culatra. A nota mais forte da eleição é o antipetismo. Verdadeiro plebiscito.

 

                                   Antes de mais nada, o voto popular, livre e independente, graças a Deus, se manifestou sem conflitos e sem violência. A vontade das urnas, em um país dividido, apontou o desejo de resolver a eleição para presidente em dois turnos. Bolsonaro e Haddad vão se reencontrar no dia 28 deste mês. O Brasil volta a dar uma demonstração ao mundo de ser o país que apurar mais rapidamente uma eleição que envolve 144 milhões de votantes. Tudo em ordem. Trata-se de uma marca do amadurecimento da democracia em nosso país.

                                   Mas a voz das urnas é rouca.

                                   Jair Bolsonaro, militar da reserva do Exército, com uma plataforma radical de direita, defensor de políticas extremistas, obteve 46% dos votos. Em um país assolado pela corrupção, com uma violência epidêmica, ele conseguiu catalisar o sentimento popular de impotência e revolta. Provavelmente, a seguir as coisas como estão, será o novo chefe do governo brasileiro. Não se sabe muito bem quais são as propostas dele para o país, já que não apareceu no horário político e foi vítima de um atentado terrorista que o feriu gravemente. Por pouco não morreu. Evitou o debate público. Não é um orador convincente. Costuma fazer mais ameaças do que propostas. O silêncio tem sido a melhor estratégia do capitão Bolsonaro.

                                   No campo oposto está Fernando Haddad, candidato do PT, tido como sucessor de Lula, o líder popular mais famoso do Brasil. Professor universitário, ex-prefeito de São Paulo, Haddad consegui 29% dos votos válidos, garantindo o 2º turno nas eleições. Mas o candidato é visto como um espantalho de Lula. E o antipetismo é o sentimento mais forte no cenário eleitoral. O PT, subordinado ao culto à personalidade de Lula, atrasou o lançamento da candidatura de Haddad por semanas, comprometendo o resultado. Chegar ao 2º turno é uma proeza que se deve ao desempenho do próprio candidato e ao fato de os governos petistas terem beneficiado o povo pobre, especialmente no Nordeste, única região onde Haddad venceu. A memória coletiva em relação à Era Lula foi fundamental.

                                   É preciso fazer uma reflexão relacionada com o fato de um candidato medíocre como Bolsonaro ter alcançado um resultado tão significativo. A grande maioria silenciosa da classe media, cheia de rancores e ódios de classe, finalmente encontrou uma forma de expressão. Primeiro nas redes sociais, onde podia falar quase anonimamente. E – depois – por meio de um político que representava os seus interesses de revanchismo contra aquele bando de petistas, sindicalistas e comunistas de um modo geral. Como se ainda existissem comunistas no Brasil. (Você conhece algum?) O fato é que Bolsonaro se tornou o porta-voz de toda essa gente. A maioria silenciosa, cheia de rancores, encontrou uma expressão política.

                                   É quase impossível barrar esse movimento.                                  

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