Morreu de câncer, aos 83 anos, o coronel linha-dura Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de sequestro, tortura e morte de presos políticos no regime militar. Em Brasília, o “Major Curió”, também idoso e doente, confessa a execução de prisioneiros durante a Guerrilha no Araguaia.

O coronel Brilhante Ustra, condenado por torturas na ditadura.

O coronel Brilhante Ustra, condenado por torturas na ditadura.

Comandante do DOI-CODI em São Paulo, entre 1970 e 1974, os anos mais duros da repressão política do regime militar, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra morreu de causas naturais na manhã de ontem (15 out), após demorada luta contra um câncer. A causa oficial foi uma pneumonia aguda e falência múltipla dos órgãos. Ele foi acusado de sequestro, tortura, morte e desaparecimento de 45 prisioneiros que passaram pelos porões da ditadura em São Paulo. Foi o único comandante militar condenado após a redemocratização do país: em outubro de 2008, o juiz Gustavo Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, condenou o coronel por crimes de tortura. No DOI-CODI, era conhecido pelo codinome de “Dr. Tibiriçá”. Por que um oficial superior do Exército precisaria de um nome frio? Ustra recorreu daquela sentença, mas perdeu no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Entra para a história como torturador.

Ustra, nos tempos do DOI-CODI paulista.

Ustra, nos tempos do DOI-CODI paulista.

A morte silencia uma das mais importantes testemunhas das violências cometidas durante a ditadura.

A confissão de Curió

Em depoimento à juíza Solange Salgado, da 1ª Vara Federal de Brasília, o coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o “Major Curió”, 77 anos, reformado do Exército e promovido por antiguidade e bravura, confessou ter executado dois prisioneiros durante a Guerrilha do Araguaia. Foi na última quarta-feira (14 out). Ele tentou escapar do interrogatório apresentando um atestado médico, mas a juíza mandou a Polícia Federal trazê-lo assim mesmo. O depoimento começou à uma da tarde e só foi terminar às onze da noite.

A identidade falsa do

A identidade falsa do “Major Curió” no Araguaia.

Pressionado pelos procuradores do MPF, entre os quais Ivan Marx, um conhecedor dos fatos ocorridos no Araguaia, o “Major Curió” acabou admitindo o assassinato de dois ex-guerriheiros do PCdoB: Antônio Theodoro Castro, o “Raul”, e Cilon Cunha Brum, o “Simão”. O coronel reformado disse à Corte que os prisioneiros tentaram fugir e foram fuzilados. Ou seja: não teria sido uma execução. Nem as crianças do primário acreditam nessa tese. Sebastião Rodrigues de Moura esclareceu que mandou um camponês enterrar os corpos. E forneceu à juíza a localização exata dos restos mortais.

O militar está protegido pela Lei de Anistia de 1979. Em anos recentes, a Suprema Corte (STF) assentou que a anistia ampla, geral e irrestrita funcionou como uma espécie de perdão para todos os crimes políticos ocorridos no regime militar. Tanto do governo militar e seus agentes – quanto da esquerda e suas organizações de resistência armada. No ambiente jurídico, porém, muitos acreditam que esse tipo de confissão e algumas sentenças cíveis abrem caminho para que as famílias de mortos e desaparecidos obtenham reparações, como indenizações por danos morais.

Cilon Cunha Brum, executado na guerrilha pelo

Cilon Cunha Brum, executado na guerrilha pelo “Major Curió”.

O “Major Curió”, que durante a guerrilha do Araguaia comandava um destacamento de informações, quando era capitão, usava documentos falsos fornecidos pelo governo federal. Tinha o nome de Marco Antônio Luchinni, suposto funcionário do Ministério da Agricultura. Era mais conhecido como “Dr. Luchinni”. Seus companheiros de farda costumam dizer que ele inventou uma lenda a respeito da sua atuação na luta armada no sul do Pará. E – de novo – a pergunta: por que um oficial do Exército precisaria de uma falsa identidade?

Na verdade, ficou bem mais famoso quando, após o fim da guerrilha, em janeiro de 1975, liderou uma multidão de miseráveis no Garimpo de Serra Pelada, um crime ambiental sem precedentes na história do país. Chegou a fundar uma cidade com o seu próprio apelido: Curianópolis, em meio à zona garimpeira que reuniu 80 mil flagelados de todos os matizes em busca do ouro farto da região, que era cavado com as mãos. Imagens de Serra Pelada percorreram o mundo, inclusive o presidente Figueiredo sendo carregado nos ombros dos garimpeiros, após o massacre no Araguaia.

O livro, deste autor.

O livro, deste autor.

Este Curió ainda não desembarcou dessa história.

E para quem deseja conhecer os detalhes desta tragédia, não custa conferir “Araguaia – Histórias de amor e de guerra”, publicado pela Editora Record, indicado ao Prêmio Jabuti 2015, da Câmara Brasileira do Livro (CBL). O autor já foi premiado duas vezes.

Trata-se de obra jornalística e apartidária, sem qualquer tipo de financiamento privado ou governamental.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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2 respostas para Morreu de câncer, aos 83 anos, o coronel linha-dura Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de sequestro, tortura e morte de presos políticos no regime militar. Em Brasília, o “Major Curió”, também idoso e doente, confessa a execução de prisioneiros durante a Guerrilha no Araguaia.

  1. Curió é um herói. Assassino é che guevara; que matou milhares sem e nem piedade, e ainda é adorado pelo PT e companhia.

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  2. Celio menezes disse:

    Foi Heroi e tirou proveito enquanto pode !
    Ate ser desmascarado pelos proprios “garimpeiros ” de Serra Pelada , e depois afastado de sua cidade ” que ajudou a fundar por corrupção

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