O Natal do Alemão

No último domingo, 19 de dezembro de 2010, vi na TV Globo que o programa Fantástico teria a primazia de inaugurar a árvore de Natal do Complexo do Alemão. Com transmissão ao vivo, uma Regina Casé insegura e gaguejante, com um Menino Jesus negro nas mãos, fez uma contagem regressiva de cinco segundos para acender as centenas de luzes azuis da árvore. Logo em seguida o programa se retirou da comunidade, indo cuidar de outras coisas da sua pauta de variedades. Houve uma festa em seguida? Ninguém sabe. Eu estava em Brasília e não fiquei sabendo.

A inauguração da árvore de Natal do Alemão encerrou duas semanas de trapalhadas e declarações confusas das autoridades públicas a respeito do combate ao tráfico de drogas na região. O presidente Lula declarou à imprensa que o exército não ficaria indefinidamente nas favelas: “Isso não é possível!”. Depois, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao assinar acordo de cooperação entre as forças federais e estaduais, na presença do governador do Rio, disse que não havia data definida para a retirada das tropas. Nesse mesmo período, o comando da Polícia Militar baixou uma ordem proibindo os soldados de usar mochilas, porque estavam saqueando os moradores e escondendo o furto (na verdade, o roubo a mão armada) dentro delas. E o próprio governador Sérgio Cabral deu entrevista sugerindo a liberação das “drogas leves”.

Naqueles dias, o jornal Folha de S. Paulo promoveu um debate em seu auditório reunindo especialistas em segurança pública. A conclusão, destacada em manchete, foi a de que o problema do Rio de Janeiro não eram as drogas, mas as armas contrabandeadas. Enquanto isso, os traficantes continuavam desaparecidos, a não ser por umas poucas prisões avulsas. Os líderes do movimento também continuavam em local incerto e não sabido. Há quem diga que estão na Baixada Santista, protegidos pelo PCC. Segundo essas fontes, haveria uma rota de fuga do Alemão, em vias secundárias, que sairia direto na rodovia Rio-Santos. E o governo de São Paulo, como sabemos, não está muito interessado em provocar seus terroristas locais – e muito menos em colaborar com os esforços federais. Para o PSDB, as lembranças do levante armado de 2006 ainda são dolorosas.

Mas vamos observar outras questões:

Sérgio Cabral propôs a liberação das “drogas leves”. E quais são elas? A maconha e o crack, as mais consumidas no país? O crack, resto do tacho de fabricação da cocaína, reúne a maior quantidade de impurezas, como soda cáustica, ácidos, acetona, gasolina e coisas mais. Pode matar ao primeiro uso, se o cara tiver problemas cardíacos não conhecidos. O vício no crack é quase irremediável. Em pouco tempo, é hospital, hospício ou cemitério. E a velha e boa maconha do tempo dos hippies, aquela que animou o Festival de Woodstock, em 1968? Esta foi alterada geneticamente pelos produtores, de modo a concentrar as substâncias alcaloides, ampliando em 16 vezes o seu efeito. Ainda é uma “droga leve”? Ou será que Cabral se referia às drogas sintéticas, laboratoriais, como o LSD, o GRB ou a Super K, os “docinhos” que animam as baladas das elites?

Na verdade, há uma grande confusão entre descriminalização do uso de drogas e a liberação das drogas. Uma coisa é gastar dinheiro público com os processos judiciais contra garotos apanhados com uma pequena quantidade de drogas – e que não vão dar em nada – e outra é imaginar a liberação das drogas. Liberamos a maconha, e como vamos levá-la ao mercado consumidor? As companhias de cigarros compram por atacado a maconha paraguaia, fruto do crime organizado? Compram aqui mesmo, no nordeste? Como resolvemos isso? Países mais desenvolvidos do que nós, como a Holanda e a suécia, tentaram e desistiram. Temos uma fórmula brasileira para essa questão?

E o problema do Complexo do Alemão? São 14 favelas, reunindo quase meio milhão de moradores. Como peixes na água, os traficantes se misturaram e sumiram. Eles não são uma força invasora, nasceram ali, continuam como residentes. Estão em casa, com seus familiares, prestes a comemorar o Natal em família.

A conclusão, perversa, é a de que não temos uma política de segurança. Fazemos esforços na mídia, mas não temos resultados a apresentar para o populacho em geral. Sou um crítico dessas coisas, na contra mão dos pronunciamentos oficiais e daquilo que é publicado.

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