Evo Morales e o crime organizado na Bolívia

O presidente Evo Morales

O presidente da Bolívia, Evo Morales, acaba de sancionar uma lei federal que legaliza (ou oficializa, ou anistia) o roubo de veículos em seu país. O decreto-lei número 133, de 8 de junho de 2011, baseado “no direito de todos a ter um carro”, estabeleceu que podem ser emitidos documentos de registro para veículos sem discutir a propriedade anterior e a origem. Com isso foi criado o maior entreposto de carros e caminhões roubados das Américas.

Só nos primeiros três dias de vigência da nova lei, segundo o repórter José Casado, de O Globo, 40 mil veículos foram legalizados. Como sabemos, a maior parte dos carros, ônibus e caminhões roubados no Brasil têm como destino final o Paraguai e a Bolívia. São negociados à luz do dia, em agências e “concessionárias” abertas ao público, muitas das quais empresas de fachada do crime organizado. Além do mais, esses veículos (preço variando entre 60 e 400 mil reais) são moedas de troca para o contrabando de armas e o narcotráfico. E aqui, em terras tupiniquins, se discute a proibição da venda de armas aos cidadãos de bem e o direito a realizar passeatas a favor da maconha, como se tais manifestações afetassem o tráfico e o mundo do crime. Sou a favor da liberdade de expressão, podemos fazer passeata para qualquer coisa, mas não podemos perder tempo com esses assuntos enquanto o crime organizado está instalado entre nós e não tem mais fronteiras.

O assunto das passeatas da maconha chegou à Suprema Corte, depois que a polícia reprimiu violentamente uma manifestação na Avenida Paulista, inclusive agredindo jornalistas. O STF, corretamente, garantiu o direito de opinião. Mas, no caso da nova lei boliviana, houve apenas alguns protestos no Congresso, todos inúteis até agora. E o que o Brasil poderia fazer? Poderia, por exemplo, proibir a venda regular de armas para a Bolívia, como forma de pressão. Vendemos pistolas automáticas, fuzis, granadas e veículos militares aos nossos vizinhos andinos. Pelo menos um terço das armas de mão voltam clandestinamente ao Brasil – e são frequentemente apreendidas com traficantes do Rio e de São Paulo. A proibição, inúmeras vezes proposta e sempre rejeitada, nos daria a base para uma negociação em posição bem forte. Vamos fazer? Duvido!

Pouco depois de tomar posse, em 22 de janeiro de 2006, Evo Morales mandou o exército ocupar duas refinarias da Petrobras na Bolívia, que acabaram desapropriadas a preços ridículos. O empresário Eike Batista também teve o mesmo problema com suas empresas de mineração no país vizinho. À época, o presidente Lula chegou a dizer que a Bolívia era um pequeno país pobre que devia ser ajudado. A reação brasileira à desapropriação das refinarias não foi além de um tímida diplomacia. Evo Morales se aproveitou da diferença de tamanho para valorizar uma de suas promessas de campanha, a de defender as riquezas minerais bolivianas. Tudo bem. Engolimos essa. Mas, e agora?  O que fazer diante da medida oportunista de legalizar os veículos roubados? É um incentivo ao crime lá e cá. Ao oficializar o roubo, que muitas vezes resulta em perda de vidas, os bolivianos vão receber cerca de 2 mil dólares em taxas e impostos, para cada veículo registrado. Se considerarmos que há 100 mil veículos roubados na Bolívia (40 mil já foram apresentados), Evo Morales arrecada 20 milhões de dólares. Na Bolívia, é muito dinheiro. O governo chileno, que também se sentiu atingido, quer arrastar o Itamaraty para uma posição mais agressiva nesse episódio. Mas estamos resistindo bravamente. Aparentemente, Brasília prefere não fazer nada.

Morales foi o primeiro representante de índios plantadores de coca (os cocaleros) a chegar ao poder. Em seu gabinete de trabalho, em La Paz, ele ostenta um retrato de

Ernesto “Che” Guevara, feito de folhas de coca coladas sobre uma tela. Logo após ser eleito, Evo Morales declarou que na Bolívia não haveria uma política de “coca zero”, como tentaram – e fracassaram – seus vizinhos colombianos, envolvidos numa guerra civil que já dura meio século. As lavouras de coca bolivianas fornecem matéria-prima para a indústria farmacêutica (medicamentos para doenças circulatórias e respiratórias) e também para o narcotráfico (pasta básica da cocaína). São parte fundamental do PIB do país. A Bolívia exporta mão de obra clandestina para o Brasil, armas militares e drogas. Tudo isso alimenta a violência em nosso país. E o que fazemos?

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3 respostas para Evo Morales e o crime organizado na Bolívia

  1. Roberto Santos de Carvalho disse:

    Olá, Carlos ! Muito oportuno e esclarecedor este seu texto. Mas tenho a impressão que você não posta muito por aqui no seu site, porque prepara material para outro livro, confere?

    Depois se tiver tempo dê uma olhada neste nestes dois endereços, onde também me detenho nesta questão do Morales e da decisão do STF:

    STF libera passeata da maconha
    http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3042329

    Zorra Total: Evo Morales legaliza carros roubados no Brasil
    http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/index.php

    Acho você ” O Cara”, espero que nos proporcione mais oportunidades de le-lo por aqui e também ganhe os prêmios e dividendo de participar dos importantes concursos citados no outro post. Sucesso !

    [ ]

    Roberto

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    • Carlos Amorim disse:

      Roberto,
      De fato, não escrevo muito no site. Meus posts são longos e
      precisam de uma certa reflexão. Além disso, não tenho tido
      muito tempo disponível. Além das minhas pesquisas, tenho
      outras ocupações profissionais: trabalho para a TV Brasil, sou
      autor de uma série policial na FOX (9mm:São Paulo, exibida no
      Brasil e outros países, incluindo o Japão), estou desenvolvendo
      um grande projeto de Internet. Ou seja: infelizmente, falta
      tempo. E – sim – você tem razão: estou iniciando o trabalho
      para um novo livro, já contratado pela Ed. Record, que deve
      sair no fim do ano que vem.
      Estou escrevendo sobre a guerrilha do Araguaia – não exatamente
      sobre o evento, mas sobre as pessoas envolvidas de todas as
      partes.
      Forte abraço,
      Camorim

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  2. carlos amorim disse:

    Roberto,
    vou ler a história e depois falamos.
    Abs
    Camorim

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