As marginais de São Paulo: novo cenário do conflito

As vias expressas de São Paulo, as chamadas marginais Tietê e Pinheiros, que acompanham os rios homônimos, se tornaram o novo cenário da crise de violência urbana da maior capital do país, cuja região metropolitana já reúne quase 20 milhões de habitantes. Sobrecarregadas de tráfego (a capital tem 7 milhões de veículos), populações pobres que vivem ao longo das vias agora se dedicam a saquear os motoristas nos engarrafamentos. São bandos de até 20 meninos e adolescentes que saem das favelas e atacam os motoristas nas horas de maior movimento, por volta das seis da tarde e até as oito da noite. Usando pedras e objetos metálicos, quebram os vidros dos carros e roubam bolsas e notebooks. O alvo principal são mulheres desacompanhadas e veículos com vidros claros, sem o famoso (e ilegal) insulfilme.

Na quinta-feira 28 de julho, por volta de cinco e meia da tarde, vinha eu de táxi pela Marginal Pinheiros quando o trânsito parou. Foi na região da Ponte Estaiada, uma obra monumental que serve de cenário para os telejornais locais da TV Globo. Foram 40 minutos para avançar dois ou três quilômetros. Começamos a ouvir sirenes da polícia e o barulho indescritível do helicóptero Águia, da PM, voando a poucos metros da pista. Estávamos em meio a um ”arrastão” e não sabíamos. Policiais da Rocam (equipes de motociclistas) passavam ao lado dos carros e gritavam: “Fechem os vidros, fechem os vidros”. Não era em nenhum país conflagrado – era São Paulo. Nenhuma Faixa de Gaza – era Sampa! Ainda com a luz do dia. Pouco adiante, vimos cinco ou seis motoqueiros ajoelhados, com as mãos na cabeça, cercados por policiais armados. Provavelmente, não eram responsáveis pelo “arrastão”, mas deviam ter cometido outros delitos, como falta de documentos, motos roubadas etc.

Mais um dia na metrópole bandida. Em São Paulo, o telefone da PM toca 20 milhões de vezes por ano. Está quase impossível viver aqui. No entanto, nessa mesma semana, o governo do estado divulgou uma estatística afirmando que o número de homicídios estava em queda. Ganhou primeira página dos grandes jornais paulistas, como a Folha e o Estadão. Curiosa estatística: se você conseguir ler nas entrelinhas, vai perceber que aumentou o número de latrocínios (roubo seguido de morte), onde estão embutidos outros homicídios. Também aumentou o número de lesões corporais graves, seguidas de morte. Ou seja: outros homicídios. Que conta é essa, afinal? Diminuiu a violência em São Paulo? Não! Certamente, não!

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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7 respostas para As marginais de São Paulo: novo cenário do conflito

  1. Eliel Weiss disse:

    Amorim,

    Sou Eliel Weiss, Policial Rodoviário Federal, lotado atualmente na Delegacia de Cascavel, Paraná (centro de convergência das cidades de fronteira Guaira e Foz do Iguaçu). Exerço a função de Chefe Operacional desta Delegacia.
    Quero aproveitar este espaço para externar minha indignação contra um comentário lacunoso (não quero acreditar em maldade) feita por um jornalista conhecido e respeitado nacionalmente, inclusive admiro muito o trabalho desenvolvido por este profissional.
    Vamos aos fatos: no mês de junho uma de nossas equipes realizou mais uma apreensão de droga na nossa Unidade Operacional de Laranjeiras do Sul (BR 277 – cidade de Lj. do Sul). O fato é que foi encontrado um video amplamente divulgado pela imprensa onde os traficantes sombam das forças de segurança que atuam em Foz do Iguaçu (Ponte da Amizade) e neste video comemoram a passagem de droga para o território brasileiro, vibram gritando primeiramente mais uma tonelada e depois quinhentos quilo de maconha. Acontece que comemoraram antecipadamente sendo interceptados pelos policiais e presos – ou relatar os fatos da prisão – um de nossos policiais rodoviarios federais abordou o primeiro veículo que era o batedor (havia no veículo um casal) durante a entrevista desconfiou da história – nossos policiais são especialistas em entrevista e para ter noção das técnicas até o cheiro do hálito do entrevistado é analisado, uma pessoa com medo de ser descoberta cometendo crime fica com o hálito mais forte), diante da desconfiança este policial passou a observar o movimento de veículos na rodovia e percebeu um carro suspeito entrando num posto de combustivel e juntamente com outro policial foi la é flagrou mais um casal em outro carro e após fiscalização minuciosa foi localizado maconha(fiscalização minuciosa é uma técnica criada pela PRF e faz parte do treinamento dos policias para localização de drogas, armas, munições qualquer outro ilícito escondido em veículos, o criador e instrutor desta matéria é policial desta Delegacia e neste dia integrava a equipe que fez as prisões). Neste momento avistaram um outro veículo estacionado e tentaram localizar o proprietário no posto, não sendo localizado iniciaram a verificação do veículo encontrando o restante da droga apreendida. Ato contínuo passaram a fazer diligências em hotéis da região conseguindo prender os ocupantes do veículo abandonado, mais um casal. Ou seja, o melhor serviço policial que já tive conhecimento na minha vida profissional, então vejamos: três policiais prenderam seis pessoas e três carros com droga; tudo isso em menos de uma hora e sem apoio de técnicas e tecnologia investigativa (escutas, espera, etc…).
    Agora voltemos ao comentário do jornalista: a apreensão foi de pouco mais de 250 quilos e os marginais comemoraram 500 quilos e o jornalista disse algo parecido como: os traficantes comemoraram no video 500 quilos e a policia apreendeu 250 ou eles fumaram 250 quilos durante o percurso de aproximadamente trezentos quilometros ou a droga evaporou. Ou seja, este comentário, no mínimo gerou duvida na atuação da policia, só que o referido jornalista não conhece os policiais, não conhece a Delegacia da PRF de Cascavel e acredito que também não conhece e não sabe o que a PRF representa para segurança publica brasileira e a repressão de crimes (alem da nossa atuação constitucional na seara do Trânsito).
    Friso que a Delegacia de Cascavel e as demais Delegacias da PRF situadas em região de fronteira são responsáveis pela maioria das apreensões de drogas e que infelizmente nos deparamos com uma conta que não fecha – diminuição do efetivo e aumento das apreensões – exceto se considerarmos o constante aperfeiçoamento dos nossos bravos policiais. Esta declaração é uma grande inversão de valores, pois o jornalista descredenciou a apreensão dos policiais para tornar como verdadeira uma filmagem feita por transgressores da lei.

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  2. Eliel Weiss disse:

    Esses policiais são responsáveis por dar proteção a sociedade evitando a entrada de drogas no nosso País. Analise que neste caso em tela a droga tinha destino São Paulo, mais já apreendemos drogas que tinham como endereço inumeras cidades do Brasil. Não queremos agredecimento dos moradores destas localidades pois estamos cumprindo com nossa obrigação, mais o que queremos é o respeito pela atividade que exercemos e ficamos decepcionados qual ocorre tal comentário feito por um formador de opinão. Por fim, acho que os responsáveis por divulgar a informação deveria conhecer um pouco melhor dos fatos antes de opinar, dentre eles que: Policia Rodoviaria Federal – PRF é diferente de Policia Federal; que toda apreensão feita pela PRF é encaminhada para Policia Federal, Civil ou Receita Federal e que com isso a mairia das estatisticas envolvendo segurança publica neste País esta errada – o que a PRF apreende entra na contabilização das apreensões de outros órgãos (digo isso porque para combater nosso inimigo devemos conhece-lo e como conhecer os assuntos de segurança com dados furados).
    Por fim quem quiser conhecer mais da PRF pode acessar o site combateaocrime.com.

    Peço desculpa por não ter feito a correção do texto mais procurei ser fiel ao meu pensamento.

    Fica o Protesto.

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  3. renato sodré disse:

    Gostaria de sugerir um assunto: na reportagem policial muitas vezes o que é noticiado serve de informação util para os bandidos; outro dia uma tv mostrou o quanto são vulneráveis as delegacias do interior, obrigadas a guardar muitas armas, que servem de prova em processos criminais; aí as imagens mostram o verdadeiro arsenal que existe lá dentro, com pistolas automáticas, inclusive; mostra também um cadeadinho de nada, e coisas do tipo. Outra reportagem mostrou como os ladões tem feito roubos com ganchos, a chamada pesca em vitrines de loja, à noite. Quando surge uma droga nova, ou nova maneira de traficar, já contam o truque; idem se ladrões descobrem como tirar a tinta rosa das notas de caixas automáticos estourados. É engraçado que não fazem reportagens do tipo – “olha como é fácil assaltar esta rua, ou estabelecimento”. Deixar um link que achei interessante sobre segurança pública http://www.slideshare.net/cipasap/midia-e-violencia

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    • Carlos Amorim disse:

      Renato,
      esse é um dilema antigo. O papel da imprensa é revelar informações, inclusive sobre a fragilidade do Estado. Mas o seu comentário faz pensar.
      Obrigado pela participação no site, Continue colaborando, divulgue, fale com os amigos.
      Abs
      Camorim

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  4. Dulc disse:

    Os numeros de diminuição de assasinatos que a secretaria apresenta, são comparados com numeros do ano anterior, onde já se fazia essa divisão entre homicídio e latrocínio. Portanto comparam-se coisas iguais

    É verdade que anos atrás, quando surgiu esta divisão entre latrocínio e assassinato, em termos de lavratura de BOs, deturpou-se mesmo a comparação de números – já que no ano anterior era computado tudo junto, morte por latrocinio e homicidios – o que de fato dava a falsa impressão de um grande exito na diminuição de homicídios.

    Acho que sua analise, já que se refere á números e políticas públicas, deveria ir além da ” sensação ” de que as coisas à volta contradizem os dados oficiais.

    Seu artigo se atem apenas a este aspecto e não avalia as ações de segurança articulada com ações sociais, ou se as policias de fato estão mais bem treinadas e equipadas, assim como se a retirada de armas das ruas, melhora no nivel da educação e crescimento demográfico, de fato podem ter influido ou não nesta queda.

    Guiar-se pela sensação é valido mas desde que se faça uma anlise conjuntural, pois se pensarmos só por aquilo que vemos nar ruas nem perceberemos que o Judiciário e legislativo tem papel crucial na questão da impunidade e aumenta a sensação de algo de muito errado.

    Sempre muitos roubos ao redor provocam mais sensação de insegurança. Mas existe muito mais a considerar. Nesta equação das politicas de segurança pública também aumenta a sensação de insegurança se o combate a roubos e furtos vier acompanhado de forte crescimento da violência policial. Em 2010 isso representou um número de mortes 40% superior às cometidas por PMs no mesmo período de 2009. Mas, esse número de “mortos em confronto” caiu entre 15 a 20 % no segundo semestre de 2010, não tenho aqui os numeros de 2011 para mostrar, mas a estatística mostra que a polícia pode ser eficiente e menos violenta.

    Para políticos de esquerda, que acham que se investe demais em segurança, do que no social, uma virgula já serve de motivo para dizer que está tudo errado e que o exito deste governo não só não convence como engana. Já para partidarios do PSDB procura-se é verdade dourar a pilula. Sobra no meio de campo quem gostaria de saber o quanto são confiáveis ou não a pretação de contas apresentada. Como muito dinheiro é destinado para esta área, se a analise dos resultados da politica do governo é injusta então que se faça justiça ao menos ao fato que tem se gastado muito. O que não quer dizer que tem se gastado bem. Tem politico e gente ideologicamente comprometida que nunca vai dar o braço a torcer, mesmo reconhecendo o sucesso.

    Nós leitores que sabemos disso queremos portanto informação que nos “desenrosque” da politica ou das posições ideologicas, espero que você ocupe este espaço, como fez ao contar a história do crime nos morros. ..

    Sei que é um texto de um blogue, que não pretende apresentar um estudo, e é mais um treino – tipo o ” um dois ” do futebol – mas se tratando de uma pessoa meticulosa e formador de opinião o que voce escreve merece também uma leitura atenta. .

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    • Carlos Amorim disse:

      Caro,
      obrigado pelo comentário e pelas opiniões. Este site se destina à livre discussão sobfre os temas da segurança pública, da violência urbana e do ctimer organizado.
      Obrigado pelo comentário e informações úteis.
      Abs
      Camorim
      .

      Curtir

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