Complexo do Alemão: a batalha continua

O Exército no Morro do Alemão

Domingo, 4 de agosto de 2011. Fim de noite no Morro do Alemão, zona norte do Rio. Uma patrulha do Exército, que ocupa a favela desde o fim do ano anterior, decide acabar com uma festa de moradores. A trilha sonora é o funk “proibidão”, que faz elogios ao mundo do
tráfico. Indignados, os participantes reagem com insultos e jogam garrafas na
tropa. Os soldados devolvem a agressão com bombas de gás lacrimogêneo, granadas
de efeito moral e balas de borracha. Várias pessoas ficam feridas, inclusive
mulheres e crianças. O conflito é filmado com telefones celulares. No dia
seguinte, as imagens estarão em todos os telejornais do país.

Segunda-feira, 5 de agosto. A força militar de ocupação do complexo de favelas, também chamada  “força pacificadora”, é atingida por tiros de fuzil e metralhadoras que partem de quatro pontos diferentes nas favelas em torno do Alemão. Balas traçantes deixam riscos de luz azulada no céu da Penha. Os disparos vem de mais de um quilômetro de distância e a tropa não responde – não há como definir os alvos. De novo, imagens para os telejornais. Repórteres fazem a cobertura usando coletes a prova de balas e capacetes Klevar, como no Afeganistão ou na Líbia. Nesta mesma segunda-feira, os
militares ocupam as favelas de onde partiram os tiros, usando blindados da
Marinha e do Exército, além de helicópteros de combate. Um laboratório de
refino de cocaína é estourado, granadas, fuzis e pistolas são apreendidos.

Terça-feira, 6 de agosto. Um veículo blindado da Polícia Militar – o famigerado “caveirão” – enguiça bem no meio da favela de Manguinhos, a oito quilômetros do Morro do Alemão. Quando chega o reboque, uma chuva de balas cai sobre os policiais. Dois PMs são atingidos. Um deles leva um tiro de 9mm no braço; o outro é ferido no tórax por um fuzil automático. A resposta da polícia resulta em cinco prisões.
Os atiradores não foram encontrados.

A violência no Rio volta ao noticiário – inclusive internacional – com toda
força. É o triste cenário a que nos acostumamos nos últimos vinte anos. Mesmo
com as UPPs, criadas em 2008 (são 14 unidades para um total de 1.200 favelas),
a coisa continua. Os últimos episódios, inclusive, deixam à vista a fragilidade
da própria política de segurança do governo Sérgio Cabral. Autoridades e especialistas
dizem à imprensa que as UPPs não acabam com o tráfico, apenas o tornam mais
discreto e cuidadoso. Acabam com aquele desfile humilhante de garotos armados e
com a luta aberta entre facções criminosas nas comunidades ocupadas, mas o
poder do narcotráfico dá mostras de atividade.

É uma pena, porque os moradores das favelas e bairros pobres anseiam por um pouco de tranquilidade. (“Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasci” – diz a letra de Claudinho & Bochecha”.) Na verdade, todos os brasileiros desejam a paz nessas comunidades, mas o conflito está longe de terminar.

As "forças pacificadoras"

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4 respostas para Complexo do Alemão: a batalha continua

  1. leo silva disse:

    este é um assunto na mesma linha das UPPs ( uso de expressões e procedimentos para tornar a ação policial mais leve aos olhos da população ): os coletes à prova de bala da PM Paulista – mais leves para dar mais conforto do policial, mas usado debaixo da farda para tornar menos agressiva a imagem do policial; em Londre não sei se os policiais ainda não usam revolver por razões parecidas, mas era assim, pelo menos antes desta onda de violência por lá.

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  2. Carlos Amorim disse:

    Leo,
    por causa da intensidade dos conflitos, as poíícias do Rio estão militarizadas. Usam coletes, capacetes, botas pesadas e armamento de guerra. A presença é sempre assustadora.
    Na Inglaterra, a polícia continua desarmada, a não ser os grupos de choque e os investigadores.
    Obrigado pelo comentário. Continue participando.
    abs
    Camorim

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  3. Pablo disse:

    “Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer,
    Com tanta violência eu sinto medo de viver.
    Pois moro na favela e sou muito desrespeitado,
    A tristeza e alegria que caminham lado a lado.
    Eu faço uma oração para uma santa protetora,
    Mas sou interrompido à tiros de metralhadora.
    Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela,
    O pobre é humilhado, esculachado na favela.
    Já não aguento mais essa onda de violência,
    Só peço a autoridade um pouco mais de competência.”

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  4. Flora disse:

    Thanks for spending time on the cpomteur (writing) so others don’t have to.

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