Rio “faxina” polícia para salvar UPPs

Há entre as pessoas no Rio de Janeiro, principalmente na zona sul da cidade, opinião quase unânime de que a nova política de segurança do Estado, baseada nas Unidades de Polícia Pacificadora (as UPPs), deu certo. Todos se sentem mais seguros, o número de
turistas estrangeiros aumentou, a noite está mais agitada. Nas áreas em torno
das favelas ocupadas (apenas 14 num universo de 1.200) a criminalidade avulsa
diminuiu, especialmente assaltos contra pedestres e roubo de carros. Aparentemente,
temos aqui uma política pública bem-sucedida.

No entanto, os confrontos armados entre traficantes e com a polícia recrudescer am. Em Manguinhos e na área das favelas da Maré, os enfrentamentos são diários. Mesmo
no Complexo do Alemão, ocupado pelas forças armadas, os bandidos estão de
volta. Fabinho FB, jovem líder do Comando Vermelho na região, não foi
encontrado até hoje. O traficante Nem (Antônio Francisco Delfim Lopes), chefe
da venda de drogas na Rocinha, o maior entreposto do narcotráfico no Rio
(faturamento de 48 milhões de reais por ano), também não foi localizado. De um
modo geral, a ocupação dos territórios do tráfico não resulta em prisões dos
líderes, porque a ação policial militar é anunciada pela mídia dias antes. “É
um modo de evitar a morte de civis”, já explicou o governador Sérgio Cabral.

Sucessos à parte, as UPPs são uma séria dor de cabeça para os governantes, na medida em que se tornaram uma via para a corrupção e porque são acusadas de desmandos contra os moradores. No Morro do Alemão, 30 militares do Exército, incluindo um oficial, foram afastados por saquear os moradores. Outros 22 da PM seguiram o mesmo caminho. Na UPP de Santa Teresa, 30 policiais e o próprio comandante da unidade foram afastados, sob acusação de receber dinheiro do tráfico e por uma série de outras facilitações e cumplicidade. Ao todo, já são 84 punidos. (O tenente afastado do Morro do Alemão foi acusado de levar para casa dois aparelhos de ar condicionado subtraídos aos moradores.) Todos respondem a processos administrativos – e até agora não há notícias de condenações.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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6 respostas para Rio “faxina” polícia para salvar UPPs

  1. Genaro Moreli disse:

    Estaria boa a analise dentro de uma visão permeada só pela perspectiva da luta de classe, onde a policia é a expressão do aparelho repressivo do Estado a serviço da classe dominante, contra a classe mais pobre. Neste caso bastaria enfocar o problema como fruto do desmando da policia contra os moradores, dispensável reconhecer que muito da desordem e origem deste conflito está no fato dos traficantes obrigarem parte da população do morro a praticar vários atos, que representam afronta sistematica à policia e à lei – como tocar os proibidões em alto volume, enquanto acesso às favela são obstruídos – a população jogada contra a polícia.

    Quanto a corrupção policial, embora exista mesmo muitos policias corruptos, ainda assim eles são minoria, por sinal desprezados por toda corporação, sendo que no presídio para policiais, quando chega a hora do banho de sol, os que são corruptos são hostilizados e alijados do grupo.

    É injusto não lembrar dos incontáveis policiais que se arriscam a cada dia, e se prestam a ser aalvos fixos para os fuzis dos traficantes, isso para combater o maior flagelo social que existe na cidade.

    Faltou no seu texto dizer qual a solução que você, reconhecido estudioso do tema, apontaria como solução para que isso não estivesse ocorrendo desta maneira.

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    • Carlos Amorim disse:

      Genaro,
      obrigado pelo comentário e por reafirmar o necessário papel das forças de segurança e destacar suas dificuldades e heroismo.. Não há dúvidas a respeito do risco que esses homens e mulheres correm a todo momento, especialmente numa cidade conflagrada como o Rio de Janeiro.
      Em 1990, fui agraciado com o título de grão-mestre da Ordem do Mérito Policial Militar do Estado do Rio, na categoria Comendador, por ter livrado sete policiais da prisão em país estrangeiro. Portanto, quando critico, é por dever do ofício de jornalista, mesmo compreendendo as agruras do quadro real – e justamente por isso.
      Não podemos desconhecer o câncer da corrupção e da violência quando praticadas por homens em uniforme, que deveriam justamente fazer o oposto. O combate a essas mazelas, infelizmente, faz parte do aperfeiçoamento das instituições. E aí não vai nenhuma apologia à luta de classes,
      As punições contra 84 militares do Exército e da PM ocorreram mesmo. Não foram fruto da minha imaginação. Nessa matéria da segurança pública, os temas são controversos e há opiniões muito diferentes. Desse debate, incluindo a sua contribuição aqui no site, pode surgir a luz. E que a luz seja benvinda.
      Um forte abraço,
      Camorim . . .

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      • genaro disse:

        Parabéns pela merecida condecoração. Dizem que face a imagem de um homem de braço esticado, apontando o dedo para o alto, podemos ver tanto de maneira limitada – neste caso a ponta do dedo de quem aponta para o alto – ou então a lua que o homem de fato aponta. Neste caso prudente seria ver as duas coisas, afinal o dedo sujo da policia é o que mais se vê mesmo. Curiso que os morros carioca começaram a ser ocupados por soldados que vieram de canudos ( procede? ) e agora se confunde tudo por lá. Depois vou fazer um comentario sobre os filmes que vi de 9mm e quem sabe trocar uma ideia sobre uma história, pois fiquei motivado a ver se eu conseguiria conta-la como vi na primeira serie.

        Bom domingo

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  2. genaro disse:

    e por favor nos conte a historia dos policias no estrangeiro e o que aconteceu; sei que sua modestia por te impede de contar o episodio, por sua própria inciciativa, mas como o assunto surgiu naturalmente então por favor.

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    • Carlos Amorim disse:

      Caro Genaro,
      o episódio da condecoração envolve uma série de questões reservadas. E não me cabe comentar.
      Sobre o 9mm: terei muito prazer em ouvir a história.
      De novo, obrigado pela colaboração.
      Abs
      Camorim .

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  3. Genaro disse:

    Carlos, a história abaixo eu também não podia contá-la, mas como se passa na Finlândia …

    Vou deixá-la neste link dois dias só para que você a leia; fiz algumas observações no final.

    Um abraço

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