Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu: duro golpe no tráfico

 

Antônio Bonfim, o Nem

 

O Governo do Rio acertou um golpe mortal no tráfico ao ocupar as favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu. A operação, envolvendo cerca de 1.500 policiais, com helicópteros do Exército e blindados da Marinha, foi realizada sem um único tiro. Uma das principais – senão a principal – estrutura da venda de drogas foi desmontada. O negócio, avaliado em 100 milhões de reais por ano, era controlado pelo Terceiro Comando e pela ADA, organizações criminosas rivais do Comando Vermelho, responsáveis por cerca de 40% do movimento no Grande Rio. A instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), com 700 homens nas três comunidades, pretende consolidar a retomada dos territórios controlados pelo tráfico há mais de 30 anos.

Os traficantes cometeram o erro primário de esperar até o último momento para abandonar as favelas, quando todos os acessos já estavam cercados pela tropa de choque da PM. O líder dos criminosos, integrante do núcleo dirigente das organizações, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi apanhado dentro do porta-malas de um carro. Outro erro: o automóvel de luxo chamou a atenção da polícia ao deixar a Rocinha à noite. Nem estava acompanhado de dois advogados e um sujeito que se apresentou aos policiais como diplomata da República do Congo. No interior do porta-malas, desarmado, Nem carregada enorme quantia em dinheiro vivo. Os jornais chegaram a falar que era um milhão de reais, além de dólares e euros. Caíram também os dois gerentes das bocas-de-fumo da Rocinha e o chefe da segurança, um ex-PM, e mais 11 supostos traficantes.

Poucos dias depois da ocupação das favelas, Nem e seus três comparsas já estavam recolhidos ao presídio federal de segurança máxima em Mato Grosso do Sul. Celas individuais, uma hora de banho de sol por dia, três refeições e nenhum contato com o exterior. Tranca dura! Ao que consta, é impossível fugir de lá. Na Rocinha e no Vidigal, a polícia apreendeu enorme quantidade de drogas, principalmente maconha, 70 fuzis e armas menores, explosivos e granadas. Um laboratório de refino de cocaína foi descoberto e uma prensa de mais de uma tonelada teve que ser retirada da favela por meio de um poderoso helicóptero. Como os bandidos conseguiram levar a máquina, que fabricava tijolos de maconha, até o alto do morro?

A ocupação da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu deu vida nova ao projeto das UPPs. Não vai acabar com o tráfico, certamente, nem mesmo nas áreas ocupadas, mas produzir resultado extraordinário na opinião pública nacional e na vida dos moradores, que festejaram. Rompeu-se o pacto de silêncio: a população colaborou com a polícia (mais de mil ligações para o Disque-Denúncia), o que levou à prisão da “noiva” do Nem, conhecida como “xerife da Rocinha”, e do principal líder comunitário da favela. Uma moradora entregou às autoridades cenas gravadas, por celular, onde aparece o tal líder negociando um fuzil AK-74 russo (a mais nova versão) com o chefe do tráfico. Esse homem trabalhava como assessor parlamentar de uma vereadora do PSDB. Seu cúmplice na venda da arma, avaliada em 50 mil reais, era funcionário da Assembleia Legislativa.

A cidade do Rio de Janeiro, especialmente os moradores das zonas sul e oeste, respiram aliviados. Só que o tráfico, que já estava de mudança para o asfalto, vai intensificar a busca por meios alternativos de continuar operando. Mas o baque foi forte!

 

A "xerife da Rocinha"

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