Israel ajudou o Hamas a crescer e a se contrapor à OLP de Yasser Arafat. E a CIA financiou o Tabibã durante a guerra com os russos no Afeganistão. Ou seja: foi o Ocidente que estimulou o terrorismo islâmico.

Militantes do Hamas.

Militantes do Hamas.

Quem lê o longo título acima há de pensar: será possível isso? Não só é possível, como é uma afirmação fartamente comprovada pela história dos conflitos entre o Ocidente e a resistência islâmica. Estados Unidos e Israel deram todo apoio aos grupos muçulmanos fundamentalistas, para que combatessem os comunistas russos e os socialistas árabes. Não acredita? Então siga o desenrolar dos fatos:
Durante a ocupação russa no Afeganistão (1979-1989), quando a União Soviética já andava mal das pernas, o governo americano aprovou a maior e mais cara operação de inteligência da CIA. Entre 1983 e 1989, o Pentágono, a Agência Central de Inteligência e o serviço secreto paquistanês desenvolveram a “Operação Ciclone”, destinada a fornecer armas, munições e tecnologia de combate aos afegãos que enfrentavam as tropas soviéticas. Entre os “mujahidins”, rebeldes muçulmanos conhecidos como “guerreiros de Deus”, um grupo se destacava. Era formado por estudantes do nível médio e alguns universitários, entre eles Mohammed Omar, líder da milícia islâmica conhecida como Talibã. No dialeto pachto, isso quer dizer “estudantes”.
O apoio militar ao Talibã foi decisivo para o fim da guerra e uma das causas da queda do domínio soviético na Ásia Central. O “mulah” Omar tomou Cabul, a capital do Afeganistão, em 1996. Ao invés de instituir um governo pró-ocidental, criou o “Emirado Islâmico do Afeganistão”, um regime de terror que executou milhares de pessoas, expulsou os estrangeiros, proibiu o rádio, a televisão e a literatura e impediu as mulheres de frequentar qualquer instituição escolar.
Entre os mujahidins que enfrentaram os russos, havia um saudita chamado Mohammed Bin Osama Bin Laden. Esse dispensa apresentações. Mas é importante notar: o grupo que ele comandava, o “Destacamento Islâmico Árabe”, também foi financiado pela CIA. Aliás, 25 parentes de Osama viviam nos Estados Unidos. O resto dessa história você já conhece.
Mas, e o Hamas?
Durante a “Guerra dos Seis Dias” (1967), Israel derrotou forças militares conjuntas do Egito, Jordânia e Síria. Ocupou grandes áreas de território árabe, que agora conhecemos como Cisjordânia e Faixa de Gaza. Após o conflito, o principal inimigo do Estado Judeu aparece com o nome de Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Este grupo reunia uma série de pequenas organizações de resistência à ocupação israelense, quase todas de orientação socialista, com destaque para o Partido Fatah, liderado pelo engenheiro egípcio Yasser Arafat (1929-2004). Em árabe, numa tradução aproximada, Fatah significa movimento. Ou seja: o movimento para a libertação da Palestina, a terra ocupada por Israel. A organização Al-Fatah desencadeou uma intensa campanha contra Israel, recorrendo com frequência ao terrorismo: atentados, sequestros, assassinatos. Uma forma de guerra irregular que dura até hoje.
O jornal The Washington Post, um dos mais importantes do mundo, traz recente artigo do jornalista Ishaam Thardoor, com a seguinte afirmação:
“Na época, o principal inimigo de Israel era o partido Fatah, do falecido Yasser Arafat, que funcionava como o coração da Organização de Libertação da Palestina (OLP). O Fatah era secular (não religioso) e inspirou outros movimentos guerrilheiros esquerdistas e revolucionários que travaram insurreições em outras partes do mundo, durante a Guerra Fria. A OLP realizou assassinatos, sequestros e, embora reconhecida por países árabes vizinhos, foi considerada uma entidade terrorista por Israel e seus agentes nos territórios ocupados enfrentaram repressão brutal nas mãos do Estado a da segurança israelenses”.
Para enfrentar seu principal inimigo, a OLP, os israelenses utilizaram a máxima de Maquiavel: dividir para reinar. Procuraram nos territórios ocupados um líder que pudesse fazer frente a Arafat. Encontraram um clérigo islâmico chamado Sheikh Yassim, líder de uma comunidade religiosa que desenvolvia trabalho de assistência social e caridade nos territórios ocupados. Israel decidiu financiar o líder fundamentalista islâmico. Foi uma decisão de governo. Vou recorrer mais uma vez ao artigo do Washington Post:
“Israel começou a apoiar o clérigo Sheikh Yassin, que montou uma ampla rede de escolas, clínicas e bibliotecas. Yassin formou o grupo islâmico al-Islamiya Mujama, oficialmente reconhecido pelo governo israelense como uma instituição de caridade e, em seguida, em 1979, como uma associação (política e religiosa). O país também aprovou a criação da Universidade Islâmica de Gaza, que agora considera como um viveiro da militância (contra Israel). A universidade foi um dos primeiros alvos atingidos pelos aviões israelenses na Operação Chumbo Fundido, em 2008”.
Então, o “aliado” se transforma no novo inimigo. O grupo de Yassim vira o Hamas. Em 2004, o governo israelense decide matar o “aliado”, que é atingido por um foguete disparado do ar. Em 2007, o Hamas vence eleições livres, com voto direto, em Gaza. Agora, em 2014, Israel quer “desmilitarizar” o Hamas, começando uma nova guerra, onde a maioria das mais de 1.400 baixas (cerca de 80%) são civis, mulheres e crianças.
E você, leitor, o que acha disso? Pura hipocrisia, a custo de vidas humanas?

Yassim e Arafat, líderes opostos da mesma rebelião.

Yassim e Arafat, líderes opostos da mesma rebelião.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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