Documentos internos para o Congresso Nacional do PT apontam falência do partido e perda do significado histórico da legenda que governa o país.

Lula, líder sindical e presidente.

Lula, líder sindical e presidente.

Os documentos das principais tendências políticas do Partido dos Trabalhadores (PT) – sete, ao todo -, destinados a orientar as discussões no 5º. Congresso Nacional da legenda, a se realizar em junho, revelam sem disfarces a crise vivida pela agremiação que está no poder desde 2002. Os textos mostram que o partido se burocratizou e perdeu a orientação ética e moral de seus fundamentos. Estaria agora em uma “encruzilhada dramática”. “Os partidos não são eternos”, assegura uma das tendências. O PT, na verdade, ao chegar ao governo central do país, cometeu uma infinidade de erros fatais.

Fundado em 1980, nos últimos anos do regime militar, a partir do movimento sindical operário paulista, o PT tinha clara inclinação socialista e se tornou o ícone da esquerda brasileira, especialmente a partir da anistia de 1979, promulgada pelo último general do ciclo militar, João Baptista de Oliveira Figueiredo. Obteve apoio dos intelectuais, da classe artística, estudantes e professores, acadêmicos e dos segmentos renovadores da Igreja Católica. Para a esquerda egressa da luta armada contra a ditadura, era o “Partido Estratégico”, destinado a continuar o processo revolucionário em curso nos anos 1960/70.

Lula e Dilma.

Lula e Dilma.

O Partido dos Trabalhadores cresceu nas campanhas populares pela anistia, as “Diretas Já”, a eleição de Tancredo Neves e o fim da ditadura. Ergueu a bandeira da ética na política. Mas as ironias da história brasileira desabaram sobre seus ideais: Tancredo jamais chegou à Presidência da República; quem governou foi José Sarney; a primeira eleição direta para Presidente quem venceu foi Fernando Collor, que renunciou; e quem governou foi Itamar Franco; depois, Fernando Henrique Cardoso. Sob o peso do revés histórico, quando Lula se elegeu em 2002, o PT foi obrigado a pensar além de seus ideais. E aí cometeu seus erros mais dolorosos.

Sabia que para se manter no poder – ou, pelo menos, no governo –, precisava mudar o discurso. Já na “Carta aos Brasileiros”, de Lula, durante a eleição crucial, garantia que o PT não iria romper com a ordem legal do país e que respeitaria as regras do jogo democrático. Essas regras pressupunham a aceitação do modo capitalista, a independência dos poderes, o cumprimento dos contratos e a constituição de uma base política para governar. E nessa base política residia o problema maior: negociar com um Congresso conservador e alheio aos clamores populares.

E o que fez o PT? Comprou a base de apoio no Congresso, por meio de vantagens e privilégios. Especialmente, por meio da aprovação das chamadas emendas parlamentares ao orçamento da União, que destina bilhões de reais a obras duvidosas nas bases políticas dos partidos aliados. Algo como fazer o mal para obter o bem. Daí, as origens do “mensalão”. E daí, as origens do “petrolão”. Ao longo desse processo, danificou irremediavelmente a imagem do partido e se “rendeu” ao modo de “toma-lá-dá-cá” que caracteriza a vida partidária brasileira. Ou seja: virou uma coisa como outra qualquer na política brasileira.

Espantosamente, os documentos internos do PT questionam as eleições diretas para a liderança partidária. Numa legenda que apoiou as “Diretas Já”, parece um contrassenso. Mas os críticos petistas avaliam que a eleição direta está subordinada a “filiações em massa”, baseadas no poder econômico e na corrupção. Isso quer dizer: nas entranhas do partido, ocorre o mesmo que vemos na política oficial.

E o PT cometeu outro erro básico: acreditar que a gestão da coisa pública, o próprio modo de governar, poderia substituir a política. Assim, o partido se burocratizou dentro da máquina governamental. Aparelhou entidades e instituições, distanciando-se do movimento social real. Por outras palavras, abandonou a própria política. Sob Lula, deu certo temporariamente. Sob Dilma, faliu. A isto se somou o bombardeio sistemático da grande mídia, focado na questão econômica, que serviu para articular a oposição de classe ao governo petista, consolidando o empresariado, a banca, os investidores nacionais e estrangeiros. Nas eleições de 2014, o Brasil se viu dividido entre ricos e pobres. Quer dizer: a velha luta de classes, que parecia desaparecida desde o fim da Guerra Fria, aí pelos idos de 1991.

Dilma Rousseff, reeleita presidente por pouco (apenas 3,27% dos votos válidos para uma coligação de centro-direita, capitaneada por Aécio Neves, do PSDB), ganhou, mas não levou. Quase não consegue governar. Suas medidas de ajuste econômico esbarram num Congresso dominado por supostos aliados, que querem ver o circo pegar fogo. Ela mesma não tem força de convencimento, apostando em figuras oriundas da banca multinacional, como o Ministro da Fazenda, Joaquim Levi, que virou articulador político do governo no Congresso. E contra os interesses dos trabalhadores.

Agora, as tendências políticas internas do PT procuram uma saída. Parece tarde demais. Vozes internas do próprio partido dizem que ele pode desaparecer.

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