Tribunal de Justiça de São Paulo deve mandar para a prisão – de novo – o advogado Sérgio Brasil Gadelha. Ele matou a própria mulher, a secretária-executiva Hiromi Sato, no apartamento do casal em Higienópolis, bairro nobre da capital paulista. Morte brutal e ainda impune.

O advogado, preso em flagrante, confessou.

O advogado, preso em flagrante, confessou.

Sérgio Brasil Gadelha, assassino confesso da própria mulher, Hiromi Sato, secretária-executiva de uma empresa chinesa de investimentos, será julgado novamente pela 6ª Câmara Criminal do TJ paulista, na próxima quinta-feira. O crime, verdadeiro filme de terror, foi no apartamento do casal, na Rua Pará, Higienópolis, bairro de classe média alta no centro da capital. Hiromi sofreu tamanha agressão, que a autópsia não foi capaz de determinar a causa exata da morte. Estrangulamento, hemorragia interna, hematomas, espancamento generalizado foram registrados pelos médicos legistas.

O marido, o tal do Sérgio Gadelha, 74 anos quando cometeu o crime, foi preso em flagrante. Quando a polícia chegou, ele estava sentado na sala, assistindo à TV. Um sargento da PM, chocado, declarou à imprensa: “Parecia tudo normal, um fato como qualquer outro”. A médica do SAMU, convocada para atestar o óbito, achou que tinha errado de apartamento, tamanha a tranquilidade do assassino. Ele disse para a médica, cujo depoimento foi registrado no 1º Tribunal do Júri: “Ele falou: foi aqui mesmo, ela está ali”, apontando para o quarto do casal.

Resumindo: Sérgio Gadelha matou a mulher. Não havia nele qualquer sinal de drama. Foi levado à delegacia policial do bairro. Confessou. Disse ao delegado que foi por ciúmes, violenta paixão: “perdi os limites”. E quais foram os limites? Espancamento generalizado, estrangulamento. Ficou preso durante umas 30 horas num distrito policial. Um juiz disse que o criminoso merecia a “prisão domiciliar”. Mas o advogado não atendia aos requisitos da lei. Não tinha 80 anos. Não era paciente de doença grave. Não tinha dependentes inválidos. Não era arrimo de família. Parentes e amigos de Hiromi Sato, além de ativistas dos grupos contra a violência familiar, realizaram inúmeros protestos de rua, basicamente contra a impunidade.

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                      Os protestos – e a repercussão na mídia – aparentemente sensibilizaram o Judiciário. A 6ª Câmara Criminal mandou o infeliz para a cadeia. Sérgio Gadelha, por ter curso superior, foi confinado a uma “sala de estado-maior”, em um regimento de cavalaria da Polícia Militar. Prisão especial, mesmo tendo matado Hiromi daquela forma. Os desembargadores, em decisão unânime, por 5 a zero, resolveram que ele era perigoso e merecia a prisão preventiva até o julgamento final. Não foi o que aconteceu. Ficou menos de um ano no Regimento de Cavalaria 9 de Julho.

A Defensoria Pública entrou com um recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília. Alegou que não tinha sido intimada para o julgamento. Um detalhe técnico (“incompetência na intimação”), que resultou na anulação da prisão. O Direito no Brasil se apoia na ampla defesa. Se um defensor não estiver presente ao ato decisório, não vale. O assassino cruel e covarde, como o definiu a revista Veja, voltou para casa. Para horror de seus vizinhos.

Agora o Tribunal de Justiça vai examinar outra vez o mesmo caso. Dinheiro público jogado fora. Como a decisão anterior foi unânime, sem questionamentos quanto ao mérito, espera-se que Gadelha volte ao convívio da PM. Quando estava solto, Sérgio foi uma ameaça ao andamento do “devido processo legal”, inclusive constrangendo testemunhas. Enquanto preso, ficava lendo, escrevendo e assistindo TV na “cela”. Escreveu até mesmo contra mim. Em uma carta ao Judiciário, denegriu a própria Hiromi e me chamou de “blogueiro bêbado”. Mas esse novo tipo de agressão do criminoso não vai impressionar os juízes. Muito menos a mídia independente.

Sérgio Brasil Gadelha foi indiciado por homicídio triplamente qualificado. Motivo torpe, meio cruel e incapacidade de defesa da vítima. Pode pegar de 12 a 30 anos de prisão.       Tomara!

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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