PT joga Delcídio do Amaral às feras e teme delação do senador. Presidente da Câmara enrola a própria cassação e ameaça com impeachment de Dilma. STF manda investigar mais dois senadores: Renan e Jader. É um salve-se quem puder.

Alguém já disse que o Brasil dança ao som da Lava-Jato. Mas isso é pouco para definir o que está acontecendo em Brasília. O Congresso está em rebelião contra o Planalto. Dilma não consegue governar. A reforma ministerial, beneficiando o PMDB, foi um fiasco. Sem conseguir aprovar todo o ajuste fiscal, o governo prova o gosto amargo da traição dos aliados. Perde-se o ano e a perspectiva de resolver a questão econômica fica para 2017. Não há Joaquim Levy que aguente isso.

O PIB do país encolheu 5,8% nos últimos 18 meses: a maior recessão desde o Plano Real, que é equivocadamente atribuído a Fernando Henrique Cardoso. Foi obra de Itamar Franco e do grupo de economistas da PUC do Rio. O controle inflacionário, iniciado por Itamar e continuado por FHC e Lula, naufragou sob Dilma. Para este ano se espera uma inflação próxima aos 10%.

Como entender o comportamento do Congresso, que se recusa a desatar o nó da economia? E quem são os congressistas? Vejamos: dos 594 parlamentares federais, 160 deputados e 31 senadores respondem a ações penais no Supremo Tribunal (STF). Considerando processos administrativos e crimes comuns, o número atinge 40% do Parlamento. Algo como 237 deputados e senadores. Se olharmos para deputados estaduais e vereadores, a conta atinge milhares. Estes são os homens e mulheres responsáveis por criar as leis.

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Delcidio do Amaral: entregue às feras.

Legislam em causa própria, tratando de proteger seus privilégios e encobrir suas bandalheiras. Pior: vendem votos no Parlamento para defender os interesses do grande capital. E abusam das “manobras regimentais” para impedir investigações e escapar das punições. Agora é justamente a “banda pobre” do Congresso, antigamente chamada de “baixo clero” por seu fisiologismo, que está no poder. De exceção, virou maioria. E maioria folgada. Até as crianças do primário já sabem que este Congresso não vai resolver nada.

A opinião pública e as mídias apontam o dedo para a presidente Dilma Rousseff e o PT. São eles os demônios que torturam o país. Então, vamos derrubá-los. Mas o que será do Brasil governado por Michel Temer e o PMDB? Eduardo Cunha seria o segundo homem na hierarquia de sucessão presidencial. Hoje mesmo a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados tentou abrir um processo contra ele por falta de decoro parlamentar. Manobras dos aliados de Cunha impediram um desfecho.

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Dilma não aprova todo o ajuste econômico e não consegue governar.

Cunha mantém no bolso do paletó uma arma contra Dilma e o PT: sozinho ele pode decidir se abre um processo de impeachment. Usa isso como instrumento de barganha e assusta o Planalto. Ou seja: o cargo de presidente da Câmara é utilizado para a defesa de interesses pessoais do deputado do PMDB. Ele pode escapar da condenação política. É provável. Mas o judiciário está bufando no cangote dele. Como bufa também no cangote do presidente do Senado, Renan Calheiros, denunciado pela Procuradoria Geral da República. O ministro Teori Zavascki, da Suprema Corte, acaba de autorizar investigações contra Delcídio, Renan e Jader Barbalho. Três pilares do Senado que ameaçam desabar.

É bom não esquecer que o líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, já está preso. E foi abandonado pelo PT, que publicou nota oficial dizendo que isso é problema dele, não do partido. Jogou o cara às feras. No interior do próprio Partido dos Trabalhadores, aumenta a divergência entre as tendências que compõem a maioria dos filiados. A luta interna é tão feroz que pode resultar em racha da legenda, coisa que muitos observadores consideram provável. Petistas com quem conversei dizem que o resultado eleitoral em 2016 será desastroso para o partido.

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Lula, a última alternativa do PT?

Em 2018, pode ser ainda pior. O antipetismo, assoprado por escândalos e pelo fracasso econômico, insuflado por todas as mídias, varre o país de alto a baixo. Lula vai tentar uma candidatura? É difícil que isso aconteça se o descrédito do PT continuar se aprofundando. Ele não é bobo. A pesquisa do Ibope mais recente (26 out) afirma que Lula tem a maior rejeição por parte do eleitorado (55%). Só 23% dos entrevistados disseram que votariam nele com certeza, contra 15% de Aécio e 11% de Marina Silva. Mas pesquisas são só pesquisas. Certo? A retomada do crescimento econômico não ocorrerá antes do segundo semestre de 2017. Em termos políticos, tarde demais. Raposa política, Lula sabe que o cenário é extremamente difícil para ele e o PT.

E qual seria o panorama de 2018?

Aécio Neves (PSDB-MG) é candidato, mas pode enfrentar disputa interna com Geraldo Alckmin e dificilmente escapará de acusações de corrupção; Marina Silva (Rede) está na disputa, mas sofreu enorme desgaste na última campanha, por não ter propostas claras e por ter sido “desconstruída” no horário eleitoral; Ciro Gomes (PDT-CE) aparece como novidade, mas tem alta rejeição fora do nordeste e é identificado com Lula, de quem foi ministro; Michel Temer (PMDB-SP) pode ser o nome mais visível do partido para a disputa, mas tem o desgaste dos escândalos de corrupção no partido, agravados pelas acusações contra Renan e Cunha; Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, pode aumentar a confusão, candidatando-se por algum partido pequeno. É o caos absoluto.

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Ciro Gomes, do PDT, é novidade para 2018.

As oposições, centradas em Aécio Neves, não foram capazes de se apresentar ao país como uma alternativa viável. Batem em Dilma e no PT, mas não têm projeto. Chutar cachorro morto é fácil. Resolver o drama brasileiro exige programa político e econômico. Especialmente, uma liderança, um estadista capaz de unificar o país. Isso as oposições não têm. O PT menos ainda.

Se Lula não concorrer, o partido governista não tem alternativa. Vai voltar às origens, colocando na disputa um nome para “marcar posição”. Ocupa o tempo de rádio e televisão numa tentativa de se reaproximar dos movimentos sociais e sindicais, que abandonou. Ou seja: começa tudo outra vez. Volta àquilo que nunca deveria ter deixado de ser: um partido inserido no mundo real. Ou acaba de vez.

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