Uma década após os atentados contra as Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e o Pentágono, em Washington, os Estados Unidos e a OTAN travam uma guerra brutal no Iraque e no Afeganistão, que já consumiu algo em torno de 1 trilhão de dólares. Entre as forças da coalizão ocidental, seis mil combatentes já morreram, duas vezes mais do que os mortos
nos atentados da Al Qaeda. Entre os civis, o número de vítimas é desconhecido,
porque a mídia não cuida desse assunto com grande interesse. Estima-se que no
Iraque morreram 90 mil civis. No Afeganistão, ninguém sabe. A força militar
ocidental derrubou o governo do ditador iraquiano Saddan Hussein (mais tarde
executado por enforcamento) e do Mulá Omar, fundador e líder do Taleban, o
grupo radical islâmico que assumiu o poder após a derrota russa no Afeganistão,
por meio de uma guerra civil impiedosa.
Oitenta e cinco por cento da população afegã vivem no interior do país, num regime tribal que remonta à Idade Média e que praticamente desconhece qualquer forma
de governo. São lavradores de pequeno porte e pastores, mas que desde eras
remotas possuem milícias armadas para conter invasores estrangeiros e tribos
rivais. Os chefes desses clãs são chamados “senhores da guerra”. Estão em luta
permanente há séculos. São plantadores de papoula, cuja pasta de sementes (“o
leite da flor”, como dizem ironicamente) serve de matéria-prima para o ópio e a
heroína. Nem a presença maciça de forças militares impediu a expansão do
negócio das drogas. Quase dez anos depois da invasão, um relatório da ONU, de
abril de 2010, informava que as áreas plantadas com papoulas e maconha já tinham
atingido metade de todo o território afegão.
O Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em seu relatório,
confirmava que até 24 mil hectares de maconha são plantados por ano no Afeganistão.
O diretor-executivo do órgão da ONU, Antônio Maria Costa, declarou que os
incríveis rendimentos da maconha também fazem do Afeganistão o maior produtor
do mundo em haxixe, estimando a produção em até 3.500 toneladas por ano. Com
preços baixíssimos, as folhas de maconha em estado bruto são vendidas por US$
3.900 o hectare plantado. O “leite da flor” (pasta da papoula) vale apenas US$
3.600 por hectare. Apesar de que esse dinheiro é uma fortuna no Afeganistão, no
mercado consumidor ocidental o produto processado pode custar mil vezes mais.
No livro “Onde os Homens Conquistam a Honra” (Companhia das Letras, 2009), o escritor norte-americano Jon Krakauer, que acompanhou um pelotão de Rangers do exército americano no Afeganistão, descreve a passagem de um comboio militar por uma
plantação de ópio que se estendia por dezenas de quilômetros, para quem
quisesse ver. Na verdade, os afegãos plantam maconha e papoulas até nos
quintais e nos terraços das casas. Provavelmente, é a maior feira livre de
drogas a céu aberto em todo o mundo. E por que as forças aliadas não combateram
o tráfico? Por uma razão muito simples: nos anos 1980, os russos travaram uma
guerra de nove anos no Afeganistão, ao custo de mais de 350 mil baixas (entre
mortos e feridos), deixando um milhão de vítimas afegãs nos campos de batalha,
tendo enfrentado ao mesmo tempo todos os clãs.
Os soviéticos eram contra o tráfico de drogas – e, curiosamente, a liderança islâmica também. Atacando todos os grupos, os russos unificaram o inimigo. Sabendo disso, os
americanos decidiram atrair os plantadores de drogas e traficantes para o seu
lado, fechando os olhos ao comércio maldito e arregimentando os clãs envolvidos
com os entorpecentes. Assim, dividiam os inimigos e isolavam o Taleban. Durante
a guerra russo-afegã, milhares de soldados do Exército Vermelho se viciaram.
Com tamanha oferta de maconha, haxixe, ópio e heroína, o mesmo acontece agora
com os militares ocidentais.