O povo quer justiça. Os políticos, continuar a bandalheira

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Há um clamor público contra a banalização da violência que atinge o país. E um clamor ainda maior para tornar a Justiça mais rigorosa, com penas mais severas. A mídia não fala em outra coisa. Na televisão, os programas de jornalismo, especialmente os vespertinos, que duram horas e horas, tratam desse tema todos os dias. Os apresentadores, quase todos gordinhos e vociferantes, pedem pena de morte e prisão perpétua. Chamam os criminosos de “canalhas”, “covardes” e “monstros”. Exigem sangue em troca das vítimas cada vez mais frequentes. Um desses programas mostrou um ladrão preso numa grade de ferro, pontiaguda, que atravessou o homem pela virilha. Enquanto o ladrão gania de dor, o apresentador, sorrindo, dizia: “Agora a lança dele não sobe mais”.

                      Chegamos a um clima de barbárie. Mulheres grávidas e crianças são baleadas por assaltantes impiedosos, muitos dos quais são apenas crianças. O sentimento popular é de vingança, linchamento, encarceramento definitivo dos criminosos. E não é à toa: no ano passado foram registrados 6 milhões de assaltos a mão armada – e nós sabemos que menos da metade dos roubos chegam ao conhecimento da polícia; 36 mil pessoas foram mortas por armas de fogo, de um total de mais de 50 mil homicídios; a Polícia Federal apreendeu 26 toneladas de cocaína e crack, além de 400 toneladas de maconha – e nós sabemos que as apreensões representam apenas 10% do movimento total das drogas. É o inferno na Terra.

                      Nas ruas das grandes cidades uma legião de viciados se amontoa nas calçadas. É mais fácil – e mais barato – comprar drogas do que remédios. O alcoolismo virou uma epidemia entre jovens de 12 a 18 anos. Temos meio milhão de criminosos trancafiados em presídios (170 mil só em São Paulo), mas isso parece não adiantar em nada. Há na capital paulista quase 200 mil mandados de prisão para serem cumpridos – e outro tanto no Rio de Janeiro. Se fôssemos prender todos eles, não haveria cadeias, num país que não constrói nem escolas. Se fôssemos matar todos eles, não haveria onde enterrá-los. É um beco sem saída.

                      O povo quer punições mais duras. Mas as nossas leis são ultrapassadas. O Código de Processo Penal foi escrito em 1940 e publicado um ano depois. Naquela época não havia nada do que vivemos hoje. Nossas leis ainda não definiram o que é crime organizado ou organização criminosa. Por que? Porque nossos legisladores – os deputados e senadores – não querem fazer isso. Eles não fazem nada que possa eventualmente cair sobre as suas próprias cabeças. E não custa lembrar: 40% de todos os parlamentares respondem a processos, muitas vezes criminais. É por isso que rico não fica preso. Cadeia é lugar para os PPFs: pobre, pretos e favelados.

                      A Justiça tem uma dissimetria de classe. Você pode pagar bons advogados? Ah, então vai tudo bem. Não pode? Azar o seu. As leis foram feitas pelos poderosos e para os poderosos. E mesmo quando são boas, não são aplicadas ao populacho em geral. Dá vontade de desistir.

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                      Mas é bom lembrar de uma coisa importante: o  cidadão possui uma arma única e decisiva. É o voto! Em vez de eleger deputados em troca de farinha e dentadura, votar nos representantes das causas populares, dos movimentos sociais, minorias e gente disposta e defender as mudanças necessárias. Porque para combater o crime e a violência é preciso três coisas essenciais: emprego, educação e decência. Ou não haverá luz no fim do túnel.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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3 respostas para O povo quer justiça. Os políticos, continuar a bandalheira

  1. Cássio Freitas disse:

    Os parlamentares estão deixando as pessoas cada vez mais acuadas devido a incapacidade das mesmas de se proteger da violência crescente que deve ser combatida. Mas encarar os criminosos como indivíduos que são maus em sua essencia (como fazem os apresentadores de TV senssacionalistas) não ajuda em nada. O que mais contribui para a violência é o nível de desigualde de oportunidade. Nossa sociedade incentiva o consumismo a todo o tempo deixando de lado a educação de qualidade, isso faz com que todas as pessoas queiram um nível de vida material que está muito distante do que possibilita a renda média do brasileiro, e sem a educação de qualidade o salto para uma vida mais confortável nunca ocorrerá.

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  2. Alice disse:

    Só dá pra dizer uma coisa: o texto acima retrata a realidade que vivemos. É duro? É. E pra mudar depende de cada um. A consciência de muitos tarda a chegar, e para tantos outros, já chegou faz tempo… Obrigada, caro jornalista, por traduzir de modo tão veemente o que nossos olhos estão vendo….

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