Mídia brasileira dá mais espaço a torturas em Guantánamo e nas prisões secretas da CIA do que aos porões da ditadura tupiniquim. Na véspera da divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que vai listar 300 militares envolvidos em tortura, sequestro e assassinato no país, a imprensa brasileira reproduziu agências internacionais sobre crimes dos EUA contra suspeitos de terrorismo islâmico.

Parece brincadeira. Mas a mídia do Patropi, nesta terça-feira (9 dez), deu mais destaque às denúncias de violência política e tortura contra prisioneiros confinados na base americana em Guantánamo (Cuba) e nas prisões secretas da CIA, contra suspeitos de terrorismo islâmico após o 11 de setembro de 2001, do que aos crimes políticos cometidos no Brasil entre 1964 e 1985. Acredite se quiser: amanhã, quarta-feira, a Comissão Nacional da Verdade apresenta à presidente Dilma Rousseff um documento de centenas de páginas relatando os horrores sofridos por brasileiros durante a ditadura militar. Trata de centenas de mortos e desaparecidos políticos, além de milhares de outras vítimas do regime militar. Dezenas de milhares.

No entanto, os jornalistas encarregados dos telejornais e outras publicações brasileiras acharam mais importante denunciar a CIA e o governo da América, a partir dos crimes cometidos por George W. Bush, do que os massacres praticados no Brasil. Louve-se o Jornal Nacional, da TV Globo, que rasgou um pouco do véu de silêncio que cobre essas violências há 50 anos. Willian Bonner destacou informações que revelam, com base no documento da CNV, a ocorrência de torturas no Brasil. O telejornal mostrou entrevista com uma ex-presa política, além de apresentar uma nova versa sobre a morte sob tortura do ex-guerrilheiro Stuart Angel Jones, filho da memorável estilista Zuzu Angel.

Zuzu e Stuart Angel Jones, citados no Jornal Nacional.

Zuzu e Stuart Angel Jones, citados no Jornal Nacional.

Stuart Angel Jones, que tinha dupla cidadania, americana e brasileira, foi torturado até a morte na Base Aérea do Galeão, no Rio. Fazia parte de uma organização de resistência armada contra a ditadura. Supostamente o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Os restos mortais dele, segundo o JN, foram removidos para uma obra na pista da Base Aérea de Santa Cruz, também no Rio, onde foram “sepultados” sob dezenas de toneladas de cimento numa reforma da pista para aviões. Louve-se o Jornal Nacional e o Bonner, pela coragem de devolver Stuart à história contemporânea do Brasil.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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