Exército diz que ocupação das favelas da Maré, no Rio, é mais perigosa do que no Haiti. Comandantes entregam relatório ao Ministro da Defesa: “pode ocorrer uma tragédia”.

Militares no Complexo da Maré.

Militares no Complexo da Maré.

O Alto Comando do Exercito está descontente com as operações militares de ocupação no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. Um relatório entregue recentemente ao Ministro da Defesa, Jaques Wagner, diz que as tropas “devem ser retiradas o mais rápido possível”. Caso contrário, pode ocorrer “uma tragédia”. Oficiais da Força reclamam de limitações impostas à atuação dos militares, entre as quais destacam: proibição de adentrar residências; proibição de ocupar as casas utilizadas como base para o tráfico de drogas; proibição de procurar engajamento direto com os criminosos etc.

Os militares argumentam que deveriam montar postos de vigilância e tiro na laje das casas usadas pelo tráfico, de modo a proteger os soldados, que ficam expostos ao fogo dos criminosos nas ruas. Em última análise, discordam da postura passiva a que estão submetidos: fazem patrulhas, revistam carros e pessoas, mas não podem tomar iniciativas. Segundo o relatório, essa situação difere muito da ação brasileira no Haiti, onde não tinham tantas restrições. E torna as operações muito mais perigosas. A conclusão é a de que devem  sair da Maré o quanto antes, porque o cenário pode ficar fora de controle. Especulam que um ataque dos traficantes poderia resultar em resposta desproporcional das tropas, causando muitos dados à população.

Generais reclamam de "limitações" na ocupação.

Generais reclamam de “limitações” na ocupação.

O Complexo da Maré é uma das áreas faveladas do Rio com mais miséria. Segundo dados oficiais, possui um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da região metropolitana (O,7%), ocupando o 123º. lugar em qualidade de vida. Na região moram mais de 130 mil pessoas, em 35 mil residências. Se comparada ao mapa do Brasil, seria maior do que 80% dos municípios. A ocupação começou em março do ano passado, mobilizando 1.500 homens da PM, 2.500 do Exército (a maior parte da Brigada Paraquedista) e 250 do Corpo de Fuzileiros da Marinha. Então, o que deu errado?

Ao contrário de ocupações anteriores (a mídia chama, cinicamente, de “pacificação”), os criminosos não abandonaram a área de conflito. Aproveitaram-se da enorme densidade demográfica e se misturaram com os moradores. Esconderam armas e drogas. Utilizam táticas de guerrilha para fustigar as tropas, especialmente à noite. Na Maré atuam três facções criminosas (CV, 3C e ADA), além de pelo menos uma milícia, grupo formado por pessoas que já serviram às forças de segurança. O contingente criminal é estimado em mais de 640 homens. Um cenário extremamente complexo e perigoso. Até agora, quatro militares foram baleados e um morreu.

Milhares de militares nas favelas... E não é suficiente para liquidar o narcotráfico.

Milhares de militares nas favelas… E não é suficiente para liquidar o narcotráfico.

O general Fernando Azevedo e silva, chefe do Comando Militar do Leste, fez à Folha de S. Paulo (edição online de hoje, 2 de maio) a seguinte declaração:

“O Exército não entrou porque quis. Entrou para cooperar com a pacificação daquela região, que é estratégica para o Rio. Só que ali nossas ações foram limitadas, tornando a ação muito mais difícil que em outras ocasiões”.

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