Carta do jornalista Roberto Marinho ao presidente João Figueiredo, em 1979, explica como O Globo publicou com exclusividade o projeto original da anistia política. Um “furo” jornalístico que entrou para a história.

Roberto Marinho e o então presidente Figueiredo, o último dos generais;

Roberto Marinho e o então presidente Figueiredo, o último dos generais;

Na edição online do jornal O Globo de hoje (7 jul), como parte da memória dos 90 anos do diário carioca, aparece uma peça divertida e ao mesmo tempo notável: a íntegra de uma carta escrita pelo jornalista Roberto Marinho, proprietário do jornal e da TV Globo, ao então presidente João Baptista de Figueiredo, o último mandatário do regime militar. Tratando o general de forma íntima, Marinho explica como O Globo havia conseguido publicar o projeto original da anistia política de 1979.

A carta, segundo o próprio jornal destacou hoje, visava preservar os jornalistas responsáveis pelo “furo” de reportagem e impedir represálias do governo militar. Uma cópia do decreto desaparecera do gabinete do Ministro da Justiça, Petrônio Portella, após a visita de um redator de O Globo. Veja a íntegra da carta:

“Meu caro João:

“Desde que caíram as últimas chuvas os meus telefones 205-3788, 285-3511 e 265-0335 e as linhas diretas com O GLOBO e a TV Globo emudeceram completamente.

“Ontem, às 7h da manhã, tive um sobressalto quando li O GLOBO. Principalmente porque havia visto na TV Globo o hilariante episódio do desaparecimento de uma cópia do projeto de anistia no gabinete do ministro Petrônio Portella.

“Às 9h, já no meu gabinete, convoquei os responsáveis mais diretos da redação. Deram-me as seguintes explicações: que nem por um momento eu imaginasse que o redator do GLOBO presente no gabinete ministerial houvesse se apossado do documento desaparecido; que por volta das 24h o chefe da sucursal de Brasília havia sido procurado por um rapaz que pretendia interessar O GLOBO na posse do documento; que, verificada a autenticidade, imediatamente passou os seus termos pelo telefone para O GLOBO.

“Quem chefiava a redação, já com o jornal praticamente fechado, procurou falar comigo ao telefone. Verificada a impossibilidade, resolveu assumir a responsabilidade de publicar o projeto.

“Ante a minha reação desfavorável, chegada ao seu conhecimento, escreveu-me uma carta pedindo demissão do GLOBO, o que não aceitei. Isso é tudo quanto posso dizer.

“Com um abraço muito afetuoso do Roberto.”

A casa de Marinho, onde ocorreu o  atentado terrorista em  1976.

A casa de Marinho, onde ocorreu o atentado terrorista em 1976.

Roberto Marinho e seus veículos de comunicação (jornal, rádio e televisão) apoiaram o golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart. No entanto, apesar de ferrenho opositor das esquerdas, defendia seus funcionários acusados de subversão. Há uma frase famosa, atribuída a ele, que diz o seguinte: “Não mexam com os meus comunistas – aqui são todos bons funcionários”. Mas o que ele queria realmente dizer, arreganhando os dentes para os radicais da ditadura, era: “Aqui, quem manda, sou eu”.

Roberto Marinho – assim como o seu diretor de redação em O Globo, Evandro Carlos de Andrade -, teve papel importantíssimo na abertura política do regime. Apoiou a “anistia ampla, geral e irrestrita”, iniciada por pressão popular no governo de Ernesto Geisel – e que iria significar o fim dos “anos de chumbo”. Por causa disso, a “tigrada” dos porões da ditadura praticou um atentado a bomba contra a casa dele, no Cosme Velho (Rio), quase matando seu filho mais novo, José Roberto, que passara pelo local da explosão de uma carga de dinamite instantes antes. Três funcionários do jornalista ficaram feridos. Foi durante a onda terrorista de agosto e setembro de 1976, que também atingiu  a OAB e a ABI.

Dom Ariano Hipólito, sequestrado pela "tigrada" do regime militar.

Dom Ariano Hipólito, sequestrado pela “tigrada” do regime militar.

Mas o jornalista foi contra as “Diretas Já”. Apoiava uma transição suave e controlada para um governo civil. Como de fato se deu com Tancredo Neves, que morreu antes de governar. Marinho era católico, esportista, e um liberar em matéria econômica. Foi um visionário, tanto que construiu o maior conglomerado de empresas de comunicação do país. É possível dizer muitas coisas desagradáveis a respeito dele, especialmente relacionadas com a eleição de Leonel Brizola, em 1982, para o governo no Rio. Ou o tão falado debate entre Lula e Collor, em 1989. Mas, quem observa os acontecimentos com isenção, sabe que não teria havido a transição democrática de 1985 sem Roberto Marinho.

As novas gerações de internautas podem não conhecer os detalhes dessa história. Quem não viveu aqueles tempos, terá dificuldade para fazer um julgamento exato. Eu estava na redação de O Globo na noite do atentado. Como repórter especial, cobria o sequestro do bispo católico de Nova Iguaçu (RJ), Dom Adriano Hipólito, levado por terroristas de extrema direita. Eles o chamam de “bispo vermelho”. Ainda naquela noite, bombas incendiárias foram detonadas na Avenida Atlântica, Praia de Copacabana, cartão postal do país. Foi nas proximidades do hotel Copacabana Pálace. Era o caos.

Tantos anos distante desses trágicos acontecimentos, que resultavam em mortes e mutilações, li divertido a matéria de O Globo. Como se fosse um pesadelo esquecido. Quem não esteve nos “anos de chumbo”, não faz ideia de que país bonito é esse. Nos anos recentes, os herdeiros de Roberto Marinho, filhos e netos, disseram publicamente que apoiar o golpe de 64 “foi um erro”.

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