Brasília cozinha uma grande pizza. Não vai haver impeachment; Eduardo Cunha pode não ser cassado; medidas econômicas incluem aumento de impostos e serão aprovadas, mas talvez não resolvam a crise. 2016 será um provável desastre. São opiniões de um observador muito próximo ao Planalto.

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O Congresso, iluminado para o Natal, esconde uma luta feroz.

                                   “Para tirar o Brasil dessa baderna, só quando o morcego doar sangue e o Saci cruzar as pernas”. O poeta popular, na música que serve de trilha sonora para a novela das 9 da noite na Rede Globo, nos dá uma ideia da confusão em que vive o país. Não é fácil traçar o quadro político nacional sem morcegos e sem Saci. E para entender o que acontece em Brasília, de novo recorremos a um interlocutor bem informado. Ele colabora eventualmente com este site. As opiniões do jornalista aposentado Pinheiro do Vale têm tido destaque para os nossos leitores. Ele nos escreve em caráter pessoal, mas cometemos a inconfidência de publicar, em razão de sempre nos apresentar um ângulo novo. Quem pretende ter uma posição isenta diante da crise, deve observar opiniões variadas. Acompanhem o que Pinheiro escreveu desta vez:

                                   “Nem tudo o que reluz é ouro. Nem tudo que balança cai.
Nada como uma máxima acaciana para ser o lead de uma descrição do que está acontecendo hoje no Planalto Central do Brasil. O que aparece como fatos dominantes são manobras secundárias, muitas delas para tapar o sol com a peneira. Isso é possível porque a mídia não mostra e a credulidade de nossos formadores de opinião é sequipedal, como dizia o Marechal Mourão Filho para descrever a ignorância e a burrice, referindo-se a seu companheiro de farda Arthur da Costa e Silva.

“Nem tudo o que balança cai. É o que parece, a começar pelo governo da presidente Dilma Rousseff. Irá assim, cambaleante, errático, agônico, parecendo um magrelo do cinema mudo no ringue. Enfrentando ao mesmo tempo um grupo de brutamontes ferozes, dando a impressão que a cada momento, a cada pirueta, depois de levar um sopapo no nariz, vai cair em nocaute. Mas nada disso. Rodopia, levanta-se, volta pateticamente para a luta, apanhando cada vez mais. Nessa imagem, ele tão fraco, sangrando e desnorteado com tanta bordoada, acaba por se esquivar ao cair e sofrer o impacto dos socos. E assim os agressores acabam errando os golpes e acertando nos companheiros de massacre (ou sangramento, como hoje se diz). Sua fragilidade é sua força.

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Dilma e Lula travam disputa nos bastidores. Foto do portal da Veja.

“Chega de metáforas, vamos aos fatos.
Impeachment: Eduardo Cunha, pela segunda vez,  melou o emparedamento de Dilma. Na primeira, em agosto, quando perdeu as estribeiras com seu nome na lista do Janot, anunciou o rompimento do PMDB com o governo, provocando um racha no partido muito antes da hora.
O PMDB vinha articulando com as demais lideranças políticas a desidratação do governo Dilma com a nomeação de um superministério da economia, Henrique Meirelles, com apoio de Lula e a concordância velada de Aécio Neves. O xeque ao rei (ou à rainha) se daria numa convenção do PMDB, marcada para novembro. Cunha adiantou as peças e abriu o jogo, deixando o PT numa saia justa e o PSDB sem alternativa se não se adiantar no tabuleiro e entrar na corrente do impeachment. Falhou o golpe, pois Meirelles não foi para o governo. Dilma, que nem o magrela do ringue, deu mais uma pirueta fortalecendo Joaquim Levy. Ganhou tempo.

“A segunda bola fora chutada por Eduardo Cunha foi no final de novembro, quando, usando seus poderes de presidente da Câmara, abriu a contenda do impeachment. Meses antes do momento adequado para os brutamontes do ringue. Esta nova etapa deveria se dar depois das eleições municipais (de 2016), depois que os partidos como um todo, mas principalmente PMDB, PSDB e PT, passassem por um teste de urnas para reconhecimento das forças efetivas de cada um. Secundariamente, em alguns estados, os demais partidos também reavaliariam seus cacifes para o segundo round.
Mais uma vez, Cunha antecipou o jogo, deixando todos com a guarda aberta e a cara exposta.

“Por fim, o maquiavelismo geral: ninguém quer aparecer apoiando Dilma Rousseff, já que ela é a maior espanta votos jamais vista na História deste país. Mas, tanto os partidos governistas quanto os opositores, querem empurrar o problema para depois do pleito de outubro de 2016. Impedir Dilma agora seria favorecer artificialmente as oposições, sem saber qual seria o veredicto das urnas das eleições municipais. Algo como apostar no escuro, coisa que os políticos não costumam fazer. Portanto, esperar pode ser a melhor escolha, para governistas e oposicionistas. E, depois, esperar de novo, até 2018. Assim, os riscos são menores. Esta é a pízza cozinhada em Brasília.

“E a situação econômica? Bem, aí também todos os lados (fora do governo, claro) estão jogando no quanto pior melhor, menos os desempregados, que são as verdadeiras vítimas da crise. Trocar Levy por Barbosa foi o bom movimento tático. Levy era o algoz. Barbosa, com seu guarda chuva de simpatizante petista, poderá se apresentar como mentor de uma nova política e com isto justificar as mudanças de posições no parlamento e aprovar as três medidas fracassadas: ajuste fiscal (incluindo CPMF), reforma da previdência (e de outros segmentos do Estado) e manter a rigidez monetária para segurar a inflação.

“Barbosa fala em desenvolvimentismo. O que isto quer dizer? Seria só uma expressão de propaganda, pois para retomar os investimentos e crescer a economia para combater o desemprego e para garantir a solvibilidade do governo é preciso dinheiro. O governo está quebrado. Não só o federal, mas pior ainda os estados e desesperadoramente os municípios. Quanto menor, pior. O setor privado está segurando o bolso, pois suas reservas de caixa estão ali para assegurar as despesas trabalhistas com as demissões inevitáveis neste quadro. Ou seja, os empresários não vão arriscar a sobrevivência de suas empresas, ameaçadas de liquidação por débitos trabalhistas impagáveis. Com isto, ainda este ano estarão jogando mais de 100 mil trabalhadores por mês no olho da rua. No jogo político, impeachment ou não, é provável que o governo consiga aumentar impostos e refazer o caixa. CPMF, que não atinge o populacho em geral, e impostos sobre os combustíveis, são viáveis. A conta vem depois. Bem depois, talvez em 2017. 

“Com essa situação, muita gente do PT está dizendo que o melhor seria transformar Dilma em vítima e assim conseguir um discurso palatável para 2018. Para a oposição o melhor quadro é o contrário disso, deixando o governo sem ar, respirando por uma só narina, mas não afundando completamente. Portanto, a opção Michel Temer é temerária, com o perdão do trocadilho. Seja como for, aos trancos e barrancos Dilma vai até o fim. O que para ela não é uma opção ruim, pois não é candidata e poderá passar para a História como a presidente que varreu a corrupção, um projeto iniciado com as vassouras do passado e concluído com a Lava-Jato, aumentando o poder do rodo para uma mangueira de alta pressão, lavando a sujeira que estava debaixo do tapete. Sempre esteve debaixo do tapete”.   

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Eduardo Cunha pode escapar da cassação pela via do Supremo Tribunal.

   

Na manhã desta terça-feira (22 dez), por falta de quórum, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados deixou de julgar um recurso a favor de Eduardo Cunha. Era necessária a presença de 34 deputados, mas só 13 apareceram. Ou seja: a decisão fica para depois de fevereiro. Com isso – e como Cunha parece ter maioria na CCJ – o processo de cassação do mandado volta atrás. Muitos analistas acreditam que ele deve escapar. Pelo menos na Câmara. Mas o Judiciário quer pegá-lo. Também em fevereiro o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal, julga pedido para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara. As chances são de que o ministro vai destituir o deputado, com apoio de seus pares. Desta forma, Cunha perde o cargo, mas não o mandato. E continua tendo foro especial. É uma forma de sair sem renunciar, coisa que o deputado considera absurda.

 

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5 respostas para Brasília cozinha uma grande pizza. Não vai haver impeachment; Eduardo Cunha pode não ser cassado; medidas econômicas incluem aumento de impostos e serão aprovadas, mas talvez não resolvam a crise. 2016 será um provável desastre. São opiniões de um observador muito próximo ao Planalto.

  1. Diana disse:

    Dilma, a guerreira que correu com a corrupção? LOL
    SE ELA CORRER COM O CHEFE DELA. Eu me calo pra sempre!!! JURO.
    Isso só pode ser piada, se ela não fica OU estamos de volta a ditadura OU eu não sei me diz aí, qual o nome?

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    • Carlos Amorim disse:

      Querida Diana,
      nessas relações confusas entre política e economia, precisamos ter a mente aberta para observar todos os detalhes. De fato, ainda não há acusações diretas contra a Dilma, uma vez que não foi julgada por ninguém. O TCU não é um tribunal, faz apenas recomendações ao Congresso, a quem cabe julgar as contas da presidente. O relator no Senado já apresentou parecer favorável às contas da presidente. Uma coisa é querer derrubar a Dilma, outra bem diferente é ter razão. Não sou eleitor do PT. Não tenho qualquer vinculação partidária. Não sou pago por ninguém para expor minhas opiniões. Mas sou cuidadoso com a informação. Ouço e publico opiniões variadas. Isto nos ajuda a pensar.
      abs
      Camorim

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      • Diana disse:

        Querido Carlos,

        Eu sei que infelizmente é o Congresso que deveria votar… e o senado deu parecer favorável, ambos sabemos o quanto sujos são ambos. O TCU pelo menos são concursados e pessoas com conhecimento técnico.
        Infelizmente o golpe foi dado e temos uma corte bolivariana. Esperando seu artigo sobre o assunto…
        Eu tento manter a cabeça aberta. Lendo tudo q posso sobre outros pontos de vistas como o seu… mas não consigo encontrar nenhuma justificação para defender a Dilma ou o PT.
        Sempre fui e serei sua fã. Ouvi todas as nossas conversas sempre com muito atenção, curiosidade e admiracao.(queria ser jornalista por causa de vc)
        Sei oq é golpe e impeachment por crime de responsabilidade, não é! Se ela não sair e que o golpe foi dado.Certo?
        Com todo o respeito e carinho… Busco em vc alguém q me faca entender oq faz esse povo ainda defender esse governo.

        Beijos

        Diana

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      • Diana disse:

        Me explica como a Dilma ainda não esta sendo investigada? Ela estava no conselho da Petrobras desde o governo LULA e depois como PRESIDENTA, já foi citada nas dilatações assim como Renan, QUE AGORA PODE VAI JULGAR O IMPEACHMENT! BRINCADEIRA, NÊ?
        Deve ser um santo do lado do Cunha. pq não vejo a esquerda questionar a legitimidade dele?
        Qual razão melhor do que uma pedalada gigante, que levou o Brasil para a maior crise dos últimos 19 anos, para ganhar as eleições?

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  2. Diana disse:

    ops delatações

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