BC mantém a Selic em 14,25%, com medo de que o remédio amargo mate o doente. Mas o governo não faz nada para deter a escalada dos juros nos bancos privados do país. As taxas já passaram de 431% ao ano.

 

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Juros de 431% nos cartões de crédito.

                                   A política econômica pós-Levy está baseada no seguinte: aumentar impostos, baixar juros, ampliar o crédito para agricultura, exportações, pequenas e médias empresas e facilitar a compra da casa própria. O governo diz que vai injetar 83 bilhões de reais na economia, através dos bancos públicos. Assim pretende quebrar o ciclo negativo na economia, beneficiando três pilares do emprego: a construção civil, o agronegócio e as empresas com faturamento de até 30 milhões de reais por ano, que são os maiores empregadores fora do governo.

                                   Por outro lado, o Planalto pretende impedir o crescimento da taxa oficial de juros – a Selic -, que já está em 14,25% ao ano. Pouco mais de 1% ao mês. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) estacionou a Selic e deve começam a dar marcha à ré. Pelo que se ouve em Brasília, a meta é ficar abaixo de 10% até o fim do ano. Mas, afinal de contas, para que serve essa taxa oficial de juros, que ninguém respeita? Serve quase exclusivamente para regular a dívida pública e os títulos do governo. Não existe nenhuma instituição financeira do país que empreste dinheiro ou faça qualquer financiamento com base  na Selic.

                                   Os bancos privados praticam uma política de extorsão contra quem os procura em busca de crédito. As menores taxas do mercado estão em torno de 60% ao ano, quando se trata de empréstimo pessoal. Um relatório do BC, referente à semana de 12 a 18 de janeiro de 2016, mostra que os juros de cheque especial para pessoa jurídica atingiram a extraordinária marca de 354,9%/ano (Banco Santander, que cobra 13,4% ao mês). E não para por aí: o rotativo do cartão de crédito foi a 431% ao ano, segundo o mesmo relatório do BC. No fim de 2015, o “The New York Times” publicou reportagem com a seguinte afirmação: “Os juros bancários no Brasil fariam um agiota americano sentir vergonha” (Portal G1 – 22 dez).

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BC trava Selic em 14,25% ao ano.

                                   Como explicar a diferença estarrecedora entre a Selic e a taxa real dos bancos, comumente chamada de “spread”? As instituições financeiras dizem que nessa diferença de valores estão: os juros que os bancos pagam para captar dinheiro; as taxas internas de administração:  os seguros que fazem  contra eventuais calotes (a inadimplência no país é de 6%); e a margem de lucro das instituições. Essa conta não fecha de jeito nenhum. Tudo indica que o jornal americano tem razão: o que falta mesmo é vergonha na cara.

                                   O mais impressionante é que o governo deixa o barco correr. Não apenas este governo, mas todos os anteriores também. Não há nenhuma tentativa de conter a escalada de juros. O que os economistas dizem é que o próprio mercado deve regular essa questão, por meio da livre concorrência. Qual livre concorrência? Quem pode competir com os bancos? Só o governo e o Congresso poderiam atuar nesse caso. O primeiro, estabelecendo limites (que tal 5 vezes a Selic, 71,25%, como teto?) e oferecendo taxas menores nos bancos públicos; o segundo, votando as leis complementares que deveriam regulam os juros e que não foram votadas.

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                                   É bom saber que a Constituição de 1988 tentou limitar os juros reais em 12% ao ano, ou 1% ao mês, conforme o parágrafo 3º do artigo 192. Fez isso para evitar o descalabro. Não colou: a Emenda Constitucional 40/2003, aprovada na Câmara Federal e confirmada pelo Senado, derrubou o parágrafo 3º. Os bancos ficaram liberados. Agora cobram até 1,18% ao dia, como no rotativo do cartão de crédito.

                                               Se a história da aprovação da EC 40 for escrita, será uma das páginas mais escuras do Parlamento brasileiro.  

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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