Deputados a favor do impeachment de Dilma somam apenas 261 votos na Câmara. Pesquisa do Estadão mostra que estão faltando 81 votos para as oposições. O PMDB está mais dividido do que parece.

 

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Agora eles nem se falam. Foto Agência Brasil.

Uma pesquisa divulgada pelo diário paulista O Estado de S. Paulo, neste domingo (3 abril), revela que o número de votos a favor do impeachment da presidente Dilma na Câmara dos Deputados é menor do que o necessário. O jornal entrevistou 442 deputados e chegou ao seguinte placar: contra Dilma, 261 votos, quando são necessários 342 – a favor de Dilma, 117 votos. Isto quer dizer o seguinte: para cassar a presidente falta 81 votos; para Dilma se livrar do processo faltam 55. Os indecisos e ausentes de todo tipo somam ainda 134, muitos do quais afirmam ainda não terem uma posição formada. Se a votação fosse hoje, não passava.

A pesquisa revela que o PMDB está mais dividido do que parece, apesar de ter abandonado formalmente o governo. Note-se: a decisão foi tomada pela executiva nacional do partido em apenas 3 minutos, na última terça-feira (28 mar). Parece que foi só um ato político daqueles que querem a derrubada de Dilma – e não uma resolução partidária consequente. A mesa diretora dos trabalhos da executiva foi comandada pelo senador Romero Jucá e pelo deputado Eduardo Cunha, este último réu no Supremo Tribunal. Há quem diga, dentro do próprio PMDB, que Eduardo Cunha é o principal obstáculo ao impeachment. Não é necessário explicar o motivo.

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Ele quer votação num domingo. Imagem da TV Câmara.

O presidente da Câmara agendou a votação para o dia 17 de abril, um domingo. Deseja um domingo de protestos contra o governo, como se pudesse pautas a vontade das massas. Ele pretende fazer a chamada nominal dos deputados do sul para o norte, de modo a que deputados do resto do país fiquem impressionados com o rumo da votação. Mas um ardil de Cunha? Parte do golpe? Pode ser. De qualquer modo, usa seu poder como chefe da Câmara para manipular a situação.

O programa de recuperação econômica apresentado pelo PMDB, supostamente plano para um governo de transição, é polêmico e muito difícil de ser aprovado no Congresso. Em período eleitoral – e às vésperas de uma disputa presidencial –, a “Ponte para o Futuro”, conjunto de medidas que os governistas chamam de “pinguela para o atraso”, penaliza os trabalhadores e retira direitos historicamente conquistados. Muitos peemedebistas não querem nem falar muito sobre isso, ao menos enquanto Dilma, Lula e o PT estiverem no centro do poder. A “Ponte para o Futuro”, na verdade, dá fortes argumentos ao “inimigo”, na medida em que a base do ajuste econômico do PMDB está fincada sobre direitos trabalhistas.

Aliás, o PMDB não tem força para realizar o plano de governo. Porque teria que alterar substancialmente a Constituição de 1988. Para desfazer a indexação de aumentos do salário mínimo, das aposentadorias e do funcionalismo público, como pretende, precisaria de 2/3 do Congresso. Não tem. E não se faz algo dessa envergadura em apenas 2 anos no Planalto. Quero dizer: o projeto do PMDB é uma canoa furada. Só mesmo um impeachment levaria o partido ao poder – e sem apoio popular, pondo uma incógnita sobre o que virá a seguir. Michel Temer não venceria uma eleição direta.

Não posso deixar de citar o editorial da Folha de S. Paulo de hoje, publicado na primeira página. Sob o título “Nem Dilma nem Temer”, o jornal pede a renúncia dos dois e a convocação de eleições livres em 90 dias. O jornal afirma que não há provas cabais para um impeachment contra a presidente. “As pedaladas fiscais são razão questionável numa cultura orçamentária ainda permissiva” – diz a Folha. Sabemos que um impedimento por esta razão levaria à queda de 16 governadores em todo o país.

E a semana promete mais turbulências.

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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