Discurso de posse de Michel Temer “vaza” para amigos e apoiadores do vice-presidente. Dilma reage: Temer e Cunha são os chefes do golpe. O FMI assegura que o Brasil vai voltar a crescer no ano que vem, com o fim da crise política. Ou seja: sem Dilma.

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A gafe de Michel Temer. Pegou muito mal. Foto Agência Brasil.

 

Mais um estranho vazamento. Outra cena da ópera bufa que assistimos no país. Um suposto discurso de posse de Michel Temer, como se Dilma já tivesse caído, vazou pelo WhatsApp. Vejam bem: um discurso de 14 minutos de duração. Imediatamente, o vice explicou que cometera um engano ao enviar uma mensagem. Nem as pedras do calçamento acreditam nisso. O comentário nos bastidores: Temer, diante das incertezas da votação do impeachment na Câmara, vazou de propósito o discurso. Como para dar uma satisfação aos que o apoiam. Ou – em outra versão – para convencer indecisos. Mas foi um papelão!

E o que disse o vice-presidente no pronunciamento de posse? Fala em retomada do crescimento e em pleno emprego, mas não diz como. Com ele na presidência, o Brasil iria reencontrar o caminho glorioso a que tem direito. Mas não dá razões para essa conclusão. E o blá-blá-blá segue nessa toada. Agora: o que Michel Temer não fala no discurso? Não há uma linha sobre combate à corrupção; a Lava-Jato não é citada; nem uma palavra sobre ajuste fiscal ou reforma política; nada de cortar ministérios e enxugar a máquina pública; nada sobre o controle da inflação; nada sobre direitos civis e avanços democráticos. Parece que tudo vai se resolver num passe de mágica.

O mercado e o empresariado receberam com desconfiança o tal discurso. É só isso que ele tem a dizer? E o meio político percebeu que o discurso representa uma guinada rumo ao fundamentalismo conservador. Temer diz que haverá sacrifícios (7 vezes) e que empresários e trabalhadores terão que se entender. Como? Ele não expôs em que bases. E a história já nos ensinou: toda vez que se fala em “entendimento” entre patrões e empregados, significa que vai sobrar para o lado mais fraco. Terá sido falta de coragem para revelar a verdadeira agenda conservadora? Algo como a “flexibilização” da CLT, o fim dos reajustes automáticos do salário-mínimo e das aposentadorias, a censura política à Internet e às redes sociais, a volta do financiamento empresarial de campanhas, a manutenção do foro privilegiado de parlamentares e governantes, a liberação do comércio de armas, a revogação da política ambiental?

Temer só não se esqueceu de dizer que iria manter alguns programas de distribuição de renda, tipo bolsa família, e de inclusão social, com o Pronatec e o Fies. Isto seria incentivar uma revolta. Mas omitiu as cotas raciais na universidade e no serviço público. Ah, sim: omitiu também o programa de habitação popular, conhecido como “Minha casa, Minha vida”. Talvez na pressa de vazar o documento de posse, também se esqueceu de falar em saúde pública, saneamento, zica, dengue e os demais azares do mosquito. Sobre segurança e violência, nenhuma linha. Sobre a crise hídrica, nada. O pronunciamento de posse dá a impressão de que Michel Temer estava só trocando a faixa, de vice para titular. Como se vivêssemos numa ilha maravilhosa, longe das tragédias do mundo, ensolarada e florida. Esse Brasil de Michel Temer não existe.

A presidente Dilma Rousseff, em mais um comício no Planalto, chamou Temer e Eduardo Cunha, condutor do processo de impedimento, de verdadeiros chefes do golpe, da conspiração. Se eles são mesmo os chefes, podemos imaginar o que nos aguarda. De toda sorte, voltando ao mundo real, como anda o impeachment? A pesquisa diária do jornal O Estado de S. Paulo, que toma por base 505 deputados, informa hoje: 300 integrantes da Câmara estão a favor da queda de Dilma. Ainda faltam 42. Algo como 88 deputados se dizem indecisos ou não quiseram responder. Sobram 3 dias para o início das sessões de votação. Pelo placar da Folha, a situação é ainda mais indefinida: só 284 deputados a favor. O Planalto negocia cargos, liberação de verbas e todo aquele arsenal espúrio que conhecemos. Já tem deputado apresentando atestado médico de contaminação pelo H1N1, o vírus da gripe suína. Muito adequado ao gênero. Basta faltar para retirar o quorum das oposições.

Só para não deixar de registrar: o Fundo Monetário Internacional (FMI), representante maior do grande capital, anunciou hoje (12 abril): com o fim da crise política, o Brasil volta a crescer. Em 2017, sem Dilma, segundo o FMI, o PIB brasileiro vai crescer zero. Um grande avanço, sem dúvida.

Os leitores deste site me perguntam o que fazer em tais circunstâncias. Se soubesse a resposta, mandava fazer uma embalagem bem vistosa e vendia a solução. O que posso adiantar é o seguinte: sem povo não há solução. Estamos transferindo a um Congresso duvidoso, para dizer o mínimo, o direito de escolher um novo presidente. E pela via indireta. Ainda que por 2 anos. Não tínhamos superado isso? Sou a favor da livre manifestação das urnas. E aí, sim, teríamos grandes surpresas.

Quem viver, verá!

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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