Dilma desiste de denunciar golpe de Estado no Brasil durante discurso na Assembleia Geral da ONU. Uma tese difícil de sustentar, depois que o STF deu aval ao processo de impeachment. E não está fácil montar um governo para Michel Temer.

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Dilma vai denunciar golpe na ONU. Foto de divulgação.

                                            A presidente Dilma Rousseff desistiu de denunciar um golpe de Estado no Brasil durante discurso na ONU, em Nova York, como cheguei a escrever aqui o site. Era mesmo uma tese difícil para Dilma: o processo de cassação do mandato dela está seguindo o protocolo legal e conta com o endosso do Supremo Tribunal Federal (STF). Na verdade, o golpe não está na coisa em si, mas na sofisticada trama montada para derrubar o governo de qualquer maneira – e rápido -, contando com apoio entusiasta da grande mídia. Pior: o afastamento da presidente tem base social: quase todos os partidos políticos, as elites, a classe média que soma ao menos metade da população brasileira.

                                            Os militares, que já intervieram dezenas de vezes na história republica, se mantém em uma posição olímpica. Não querem, de jeito nenhum, se meter nessa barafunda. Apesar dos apelos de alguns setores do luto ditatorial. As Forças Armadas, após 21 anos de arbítrio e violência, evoluíram para uma postura legalista. E o país está, salvo incidentes sem importância, vivendo um clima razoavelmente ordeiro e pacífico. Os bolsonaros da vida, felizmente, são um fator isolado. A violência armada que aflige a Nação é criminal – e não política. Fruto bastardo das desigualdades sociais e econômicas. Só no ano passado foram 58,5 mil homicídios e 6 milhões de assaltos a mão armada. Sem falar no império do tráfico, incólume.

                                            Mesmo os observadores mais pessimistas da cena política admitem: Dilma, Lula e o PT serão afastados sem que haja uma perspectiva de graves conflitos. Principalmente, sem intervenção militar. O modelo de governo petista, apesar de conquistas inegáveis no plano social, cai por seus próprios equívocos. Porque se confundiu com a bandalheira geral do presidencialismo de coalizões. Onde vantagens e privilégios valem mais do que os interesses nacionais. Já escrevi isso antes, mas vou repetir: Dilma, como pessoa física, não cometeu nenhum crime. Nem de responsabilidade, nem de corrupção. Não fez nada diferente de outros governantes, tipo FHC. No entanto, revelou uma incompetência política sem tamanho. E julgada do ponto de vista político, será condenada num Congresso oportunista, cheio de larápios.

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Michel Temer não consegue m9ntar governo.. Foto Agência Brasil.

                                          Não custa esclarecer: na Câmara dos Deputados, com 513 representantes, apenas 36 (ou 37, segundo alguns autores) foram eleitos por seus próprios votos. Os demais chegaram lá por meio do coeficiente eleitoral, uma fórmula matemática que leva em conta o total de votos de uma determinada coligação política nas campanhas eleitorais. Ou seja: um Tiririca puxa outros cinco ou seis deputados. E por aí a coisa vai. No Senado Federal, com 81 representantes do povo, mais de 40 são suplentes. Assumiram a vaga porque o titular foi brincar de outra coisa. Este é o Parlamento brasileiro. Um lugar onde o poder econômico manda mais do que a vontade popular. E há o lobby dos bancos, a bancada ruralista, a “bancada da bala”, o fundamentalismo evangélico. Estamos nas mãos desses caras!

                                            No outro prato da balança, o vice Michel Temer declara à mídia que vai ficar “calado e respeitoso”, refugiado em São Paulo. Mentira. Na mansão onde mora com Marcela, a musa do impeachment (bela, recatada e do lar), e no escritório de luxo que mantém em São Paulo, há uma romaria diária de políticos em busca de uma lasca do afastamento de Dilma. O mesmo acontece no Palácio do Jaburu, em Brasília. Temer, com enorme dificuldade, tenta montar um governo de “salvação nacional”. Tem como porta-voz o senador Romero Jucá, figura duvidosa na política. Jô Soares já o chamou de “o maior corrupto de todos os tempos”. Mas o apresentador da Globo teve que aceitar um direito de resposta, fazendo, em seguida, uma comportada entrevista com o político. E mais: Temer chamou para conversar, antes de todos, os tucanos. E aí enfrenta enormes resistências.

                                            Jantou com Aécio Neves. Nada a declarar. Procurou Armínio Fraga, o banqueiro predileto do PSDB, gestor de um fundo de investimentos avaliado em 5 bilhões de dólares. Armínio tirou o time. Procurou Delfin Neto, o financista da ditadura, que disse não ter mais idade para esse tipo de envolvimento governamental, antes apoiador de Lula. Também procurou José Serra, o tucano derrotado pelo PT nas urnas. Serra, que não é bobo nem nada, disse que só aceitaria cargos no novo governo se o “PSDB viesse junto”. Ou seja: se o partido o aceitasse como candidato às eleições de 2018. E o que fazer com o mineirinho Aécio Neves? Temer ainda não teve a coragem de chamar Fernando Henrique Cardoso para um conversa ao pé do ouvido. FHC vai fugir disso como o diabo da cruz.

                                            Então, caros leitores, vamos para um impasse. Michel Temer, que não venceria uma eleição direta nem  para síndico do condomínio onde mora, quer construir uma “salvação nacional”. Com quem? Com o que há de pior na política brasileira. Ou não?

                                            Quem viver, verá!

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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