Dividido, PSDB não sabe o que fazer com o governo Temer. E o vice perdeu a timidez: antes um conspirador nas sombras do Planalto, agora está trabalhando abertamente para assumir sem ser votado.

 

impeachment 44

Sorridente, Michel Temer assume o papel de vencedor. Foto de divulgação.

                                   “Antecipar as eleições presidenciais é golpe”. A frase, dita por Michel Temer nesta terça-feira (26 abril), revela que o vice deixou de lado a timidez e resolveu assumir que deseja o Planalto. Ele desceu de um “silêncio respeitoso”, que na prática nunca existiu, para vestir a carapuça de que conspirou mesmo para derrubar o governo. Certo de que Dilma Rousseff será afastada pelo Senado no dia 11 de maio, trocou de máscara. Aparentemente, Temer tem razão na avaliação que faz da postura dos senadores: Dilma não terá nenhuma chance na votação. Há no Senado, a se confirmarem as pesquisas da mídia, hoje, pelo menos 50 dispostos a impedir o mandato da presidente. Só faltam 4 para o quorum necessário.

                                   Mas as dificuldades de Michel Temer estão apenas começando. Para formar o que chama de equipe de “salvação nacional”, ele precisa atrair a parte confiável da oposição. Ou seja: os tucanos. “Quero o PSDB inteiro” – Temer também declarou nesta terça. Caso contrário, a  “salvação” será composta apenas pela ratatuia do PMDB e mais alguns oportunistas de última hora. Pobre Temer. Se isto se confirmar, o governo dele será um desastre colossal. Aos mais íntimos, costuma dizer que os 54 milhões de votos da Dilma também foram endereçados a ele. Acredita mesmo nisso?

                                   O projeto econômico do PMDB, liderado por Michel Temer e referendado por Delfin Neto, Armínio Fraga e Henrique Meireles, vai exigir medidas altamente impopulares. A “Ponte para o Futuro” aposta na recuperação a partir do aprofundamento da recessão – o modelo monetarista clássico. Aumento dos juros e dos impostos, contenção de salários e benefícios, revisão constitucional de conquistas trabalhistas que vem de Vargas e Jango. Acha que pode desindexar o salário-mínimo e as aposentadorias. Quer cortar ministérios e cargos de confiança. Vai atingir o coração do funcionalismo público, um dos setores mais reativos da massa trabalhadora. Encrenca pura. E isto significa perda de votos. Ah, sim: pretende redimensionar os programas sociais do PT, o que, na prática, significa redução de gastos. E mais perdas de votos.

                                   Certa vez, no ano passado, quando rolou nas redes sociais a informação de que a Bolsa Família iria acabar, centenas de milhares de pessoas, em todo o país, correram às agências dos bancos públicos. Era só um boato. Dilma teve que ir à TV desmentir. A Bolsa Família beneficia algo como 48 milhões de brasileiros. Se você quiser quebrar o sistema financeiro, promova uma corrida aos bancos. Lá não existe dinheiro de verdade, que possa ser sacado na boca do caixa. É tudo uma ficção contábil.

                                   Este é o dilema de Michel Temer. Aponta para uma conflagração social de larga escala.

                                   E os tucanos, o fiel da balança da crise? Estão divididos. José Serra defende a ideia de que deve aceitar um cargo importante na transição. Talvez a saúde ou a educação, vistosas vitrines eleitorais. Aécio Neves, derrotado por pouco em 2014 (3,27% dos votos válidos), pensa diferente. Acha que o partido pode apoiar Temer no Congresso, mas não se confundir com ele na prática política. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, parece que vai  na mesma linha: apoiar sem se compromete. Eles têm a intuição do desastre. O guru FHC ainda não se pronunciou. E os observadores da cena política dizem: Aécio e Alckmin fecharam um acordo. O mineirinho se candidata à presidência em 2018. Alckmin se candidata ao Senado, na mesma eleição. Com isso, isolam Serra. Ou sai do partido – ou vai brincar de outra coisa. E o famoso PSDB assume uma posição olímpica, que os eleitores jamais vão entender.

                                   Resta observar o oposto do tabuleiro: o PT. Dilma e Lula, que não será ministro nem terá foro privilegiado na Lava-Jato, se reuniram hoje. O tema: abandonar as perspectivas de continuar no governo e montar um movimento de resistência ao golpe. Isto quer dizer: voltar às origens do Partido dos Trabalhadores. Disputar as eleições municipais deste ano denunciando o golpe. Eleger prefeitos e vereadores. Recompor a base social do partido, devastada pelas denúncias de corrupção. Preparar o PT para 2018. Olham de frente para uma perspectiva sombria: foram vítimas de um golpe, mas ainda acreditam na sobrevivência da legenda, que terá que começar tudo de novo.  

  

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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