Julgamento de Dilma no Senado vira circo de horrores. Ofensas. Agressões. Ameaças. Mas nada disso vai mudar o resultado final. É um jogo de cartas marcadas.

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Aécio Neves e o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, durante o segundo dia da sessão de julgamento do impeachment de Dilma Rousseff ( Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                    O país de pouca memória já tinha esquecido a sessão da Câmara dos Deputados que autorizou abertura do processo de cassação contra Dilma Rousseff. Naquela ocasião, foi uma cena dantesca. A etapa escura da vida política nacional parecia ultrapassada. Parecia. Os dois primeiros dias de julgamento da presidente no Senado foram um novo espetáculo de baixarias de parte a parte. Xingamentos, ironias, agressões pessoais, ameaças de pugilato entre os senadores da República. Tanto que as sessões foram suspensas quatro vezes, para se evitar um conflito mais grave. Mais grave – e ao vivo – o que desmoralizaria de vez o Parlamento brasileiro, que já é visto como um antro de larápios e aproveitadores, na opinião do populacho em geral.

                                   A minoria que apoia Dilma entre os senadores, cerca de 20 parlamentares, enfrenta fortemente os 60 outros que querem o impedimento e a cassação do mandato da primeira mulher chefe de Estado no país. É um combate desproporcional. Para cada voto a favor da presidente, há três contra ela. O mesmo escore já observado na Câmara. Nada mudou, nem com argumentos eloquentes. O fato é que tudo já está decidido: Dilma perde de 60 a 20. O placar pode ser ainda pior.

                                   Michel Temer vai governar o Brasil até o dia 1º de janeiro de 2019, quando toma posse aquele que for eleito poucos meses antes. E este não será Temer. Supostamente, está enquadrado na “Lei da Ficha Limpa”, porque tem condenação de segunda instância do TRE de São Paulo. Alguns dos apoiadores de Michel Temer já articulam mudanças nas leis, para garantir que a candidatura dele possa ser admitida. Mas as chances de uma coisa assim passar são remotas. Curioso: a grande mídia não explora esse ponto.

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Confusão entre os senadores Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e o presidente do Senado, Renan Calheiros.(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                   Vamos reconhecer: Dilma já era. O segundo mandato, até agora, é péssimo, abaixo da crítica. A presidente reeleita perdeu apoio parlamentar e – principalmente – dos eleitores. O governo dela não foi capaz de reagir aos desafios da crise econômica do sistema capitalista mundial, que se repete em ciclos históricos. Em quase todas as vezes, a crise capitalista desaba mais fortemente sobre aqueles países que vivem da venda de produtos brutos, como grãos, frutos, ferro, petróleo etc. São países de média industrialização, baixa competitividade e em busca de uma troca de patamar: chamados “em desenvolvimento” ou “emergentes”.

                                   Dilma e equipe cometeram erros imperdoáveis em matéria econômica. O principal deles, em nome de um ajuste fiscal, que agrada aos “especialistas” da mídia e do “mercado”, foi reduzir em 30% o investimento público nos últimos dois anos. Não há economia emergente que sobreviva a tal decisão. Com o governo reduzindo investimentos, o empresariado pisa no freio. A falta de investimentos públicos e privados reduz a arrecadação do governo (180 bilhões de reais só em 2015), porque há menos impostos a pagar, justamente porque cai a produção, venda direta e o faturamento das empresas. Dilma e equipe não souberam escapar desse redemoinho. Ele provoca uma escalada cambial, inflacionária e atinge diretamente o mercado de trabalho. É o caos. Deveria ter feito o oposto: aumentar o investimento em grandes projetos públicos.

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A advogada de acusação, Janaína Paschoal. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

                                   Seja como for, o cenário descrito acima, que é uma tradução jornalística de um complexo quadro técnico, resultou numa coalizão oposicionista. As elites econômicas do país, o grande capital, inclusive estrangeiro, além da grande mídia, se juntaram à baixaria política para impedir o mandato de Dilma. Não que ela tivesse cometido crimes de responsabilidade por “pedaladas” fiscais (representam apenas 0,18% das contas públicas) ou três decretos de suplementação de crédito (um deles no valor de 300 mil reais). Mas por causa do quadro geral da economia, onde as empresas viram ameaçadas as suas taxas de lucro, incluindo as empresas públicas. A isto se somam os escândalos de corrupção, o pecado capital dos governos petistas. Certamente, não foi o PT que inventou a corrupção política, mas foi apanhado com a boca na botija e deu o pretexto para o golpe parlamentar em curso.

                                   Os sujos (o ambiente político) se uniram aos maus lavados (o empresariado sonegador), na opinião do senador conservador Magno Malta. A dobradinha responde pelo impeachment de Dilma, cuja autoria pode ser questionada, mas que coincide com uma boa parcela da opinião pública. Dilma já caiu. Seremos governador por Michel Temer e o PMDB, que concentra uma série de acusações judiciais. É um fato já consumado. Um jogo de cartas marcadas, que confirma uma máxima da política: “A gente só se reúne quando tudo já está combinado”. Toda a acirrada discussão no Senado é uma perda de tempo.

                                   O jornalista Renan Miranda, que foi meu chefe em O Globo, nos anos 1970, me deu a melhor definição sobre o que é um tobogã: “Lá vou eu, sem mim”. É assim que vai este país.  

         

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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