Entrevista imaginária com o Lula. Fiz perguntas escabrosas. E recebi respostas ainda piores.

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Lula em campanha, busca apoio e votos no nordeste.

                                    É claro que essa entrevista não aconteceu de verdade. É fruto da minha imaginação de escritor. Algo como fez o Arnaldo Jabor, em O Globo, durante a rebelião do PCC, em São Paulo, no ano de 2006. Ele produziu uma peça ficcional, como se tivesse ouvido o Marcola, líder da organização criminosa. Por quais motivos eu não poderia inventar uma entrevista one-on-one com Lula? Cara a cara. No melhor estilo da grande mídia americana, que tornou esse tipo de embate uma marca registrada. Acho que posso fazer isso. Então, em um cenário ficcional, me encontrei com o ex-presidente na pequena cobertura dele em São Bernardo do Campo. Segue-se a reportagem, que ninguém publicou:

                                   “Chovia e fazia frio na primavera paulista, quando cheguei ao pequeno apartamento de Lula, uma cobertura de 90 metros quadrados em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. O endereço, na Avenida Prestes Maia, 1501, é mundialmente conhecido. Da sacada do apartamento, fez saudações a uma multidão de petistas várias vezes. Inclusive ao ser eleito presidente do Brasil pela primeira vez, em 2002. É o mesmo endereço de uma ação de busca e apreensão recente da Polícia Federal, quando o ex-presidente sofreu uma espécie de sequestro pela força-tarefa da Lava-Jato, chamado de “condução coercitiva”. Os federais, que se desculpavam seguidamente, levaram documentos, computadores, celulares e coisas mais. E ainda não os devolveram aos seus verdadeiros donos.

                                   “Na porta do prédio havia seguranças, porque um ex-presidente tem tal privilégio. Já sabiam da minha chegada, após cinco semanas de negociações para confirmar a entrevista. Entrei no elevador, coisa de dois por dois metros quadrados, e fui para a cobertura. Lá, fui recebido por alguém que nunca tinha visto: não era filho de Lula, nem parente. Talvez outro segurança. Levava comigo uma pequena câmera digital para registrar o encontro. Enquanto esperava Lula, me serviram água gelada (que não combinava com a temperatura ambiente, em torno de 11 graus) e café. Vi quando Dona Marisa, a mulher de Lula, passou por perto. Estava chegando de um retoque nos cabelos, que originalmente são castanhos.

                                   “Quando o ex-presidente chegou, vestia calças de algodão, largas, folgadas, em tom bege. E sandálias de dedo. Estava com uma camiseta também folgada, que disfarçava um pouco a barriguinha típica. A camiseta era vermelha, mas não tinha inscrições do tipo “Fora Temer”. Ao me ver na cadeira confortável, sorriu. E o sorriso confiante me impressionou. Afinal, estava diante de um líder popular poucas vezes comparável no Brasil – e de fama global. Após uns salamaleques de parte a parte, resolvi começar:

                                    “CA – Presidente, o senhor vem do movimento sindical metalúrgico durante a ditadura. Comandou greves, foi preso, construiu o Partido dos Trabalhadores. Agora é acusado de se aproveitar do poder em proveito próprio. Como explicar uma coisa assim?

                                   “Lula – Para começo de conversa, tire esse senhor da frente. Me chame de Lula. Digo isso para deixar bem claro que não estou nem aí para títulos. Meu diploma é o de presidente do Brasil. Duas vezes. O resto não interessa.

                                   “CA – Certo. Mas me explique o seguinte: por que o Partido dos Trabalhadores, fundado durante o regime de exceção, se tornou um partido como outro qualquer? Por que a bandeira da ética na política foi baixada ao chegar ao Planalto? O PT fracassou?

                                   “Lula – Veja bem, meu caro. O PT não é – nem nunca foi – um partido revolucionário. Nunca pretendemos romper o modelo institucional. Queremos fazer reformas, que tenham consequência na vida das pessoas. Três refeições por dia. Comprar os itens necessários à casa das pessoas. Coisas simples. Todo mundo tem direito a uma televisão, uma geladeira, um carrinho velho. Como todo mundo sabe, tiramos 30 milhões de pessoas da condição de miséria. Esse é o nosso projeto.

                                   “CA – Seu projeto ou do PT?

                                   “Lula – Você não acha que é tudo a mesma coisa?

                                   Aqui fomos interrompidos. Lula precisava atender ligações e nos foi servido um lanche. Para Lula, coca cola diet. Uns sanduíches de queijo bem precários. Fiquei pensando como fazer perguntas mais agressivas a Lula. Confesso que não era difícil, apenas relutava. O intervalo durou algo como 10 minutos. O ex-presidente sentou-se à minha frente, mais uma vez. Mandei um petardo:

                                   “CA – Seus dois governos foram bem-avaliados. A média do PIB foi de 4%, na chamada Era Lula. Foi avaliada com mais de 80% de popularidade. No entanto, depois, tudo despencou. Como sucessora, Dilma era um “poste”, uma figura inexpressível e que foi eleita com base na sua popularidade. Foi o seu maior erro? Dilma era um desastre anunciado?

                                   “Lula – Veja, companheiro: Dilma era uma gerentona do governo. Sempre achei que isso teria consequências eleitorais. E estava certo. Ela venceu. E venceu de novo.

                                   “CA – Mas o resultado foi desastroso. A política econômica afundou. Dilma foi rejeitada por amplas camadas da opinião pública. Milhões de pessoas foram às ruas contra o governo. O que houve? Em 2013, após as grandes manifestações de rua, não era o momento de mudar a correlação de forças no governo? Além disso, Dilma não tinha apetite para fazer política parlamentar, negociando com o Congresso. O mesmo erro de Collor.

                                   “Lula –  Olha, não vou discutir os governos de Dilma. Ela foi impedida por meio de um golpe parlamentar. É uma nova forma de golpe… Posso dizer a você que isso não vai prosperar. Vamos recorrer na comunidade internacional. E temos chance, como dizem as pesquisas eleitorais para 2018, de estar bem colocados. E o mundo vai reconhecer o golpe.

                                   “CA – Mas o PT compactuou com o chamado presidencialismo de coalisão, que é feito por meio de acordos espúrios e propinas. O Partido dos Trabalhadores, após esses episódios, vai sobreviver?

                                   “Lula – O PT vai disputar as eleições de 2018. Acredito na nossa militância.

                                   “CA – E se a Lava-Jato o condenar e prender? E se ficar inelegível? O que vai acontecer com o Lula e o PT?

                                   “Lula – Não tenho bola de cristal. Acho que o povo brasileiro vai se mobilizar para resistir ao golpe.

                                   “CA – Presidente, o povo brasileiro é conservador e católico. Não resistiu ao golpe de 1964. Quando Dilma foi impedida, não houve resistência considerável. Por que haveria agora?

                                   “Lula – Por uma razão muito simples: quando a maioria conservadora resolver atacar o bolso do povo, vai haver resistência…

                                   “CA – Isso se refere às conquistas trabalhistas, trata-se da CLT e da reforma da Previdência?

                                   “Lula – Quando mexerem no bolso do trabalhador, os sindicatos vão para as ruas. Isso é bem diferente de estudantes e intelectuais…    

                                   “A entrevista acabou repentinamente, ao som de mais uma ligação no celular. Ainda tomei mais um café. Mas estava tudo encerrado. Perdi algumas perguntas, por afobação, além da básica: por que o PT renegou as suas origens?”.

                                   Se você acha que essa entrevista é só imaginária, tudo certo. Mas se acha que pode ter acontecido… Que país é esse!    

       

       

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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Uma resposta para Entrevista imaginária com o Lula. Fiz perguntas escabrosas. E recebi respostas ainda piores.

  1. Antonio Carlos Baumann disse:

    este é o Lula…

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