A prisão de Sérgio Cabral e Antony Garotinho, além de ex-secretários do Rio, foi reação do judiciário às articulações do Congresso contra a Lava-Jato. Cabral é acusado de comandar esquema que desviou 224 milhões de reais. Garotinho, de crime eleitoral.

cabral-01

O ex-governador do Rio, Sérgio cabal. Foto da polícia.

                                   A espalhafatosa prisão de dois ex-governadores do Rio, Sérgio Cabral e Antony Garotinho, além de vários secretários estaduais do PMDB, foi uma resposta do judiciário contra as articulações no Congresso Nacional, que pretendem pôr freios à Operação Lava-Jato. Um recado direto aos políticos. E uma satisfação para a opinião pública em geral. Cabral teve dois pedidos de prisão preventiva, de um juiz federal do Rio e do xerife da Lava-Jato, Sérgio Moro. Nas alegações dos magistrados, fica explícito o desastre econômico do estado versus a bandalheira geral. Não se paga os salários do funcionalismo, mas escorre a grana pelos ralos da corrupção.  

                                   Evidentemente, o Ministério Público Federal e a magistratura têm atuação política ao longo desta quadra dramática da vida brasileira. Sob aplausos populares. Ninguém aguenta mais a roubalheira. A mulher de Cabral ganhou de um empreiteiro anel de 850 mil reais, um mimo para comemorar o aniversário daquela que foi primeira-dama do Rio. O populacho não consegue pagar as contas: há no país 60 milhões de inadimplentes. Os bancos cobram até 470% de juros ao ano, quando a taxa oficial de juros é de 14%. E não aparece nenhum legislador para propor uma lei de controle da banca. Por que? Porque a banca financia a carreira dos políticos, que defendem o grande capital. Só um país muito rico conseguiria suportar a classe política que tem.

                                   A Receita Federal estima em 200 bilhões de reais a sonegação fiscal a cada ano. Qualquer dos grandes bancos deve na casa dos bilhões. O Ministério Público diz que a corrupção, em todos os níveis, atinge outros 200 bilhões de reais por ano. Cada um desses itens é maior do que o déficit fiscal do governo, superestimado (para comprar a base aliada) em 170 bilhões para 2016. No entanto, um cidadão brasileiro que deixa de pagar um crediário do fogão é imediatamente condenado pelo tribunal do crédito (Serasa, SPC e outros), sem oportunidade de defesa. Não seria algo inconstitucional? Quem está preocupado com isso? Nossos deputados e senadores? Por que nunca foi criada uma CPI do crédito?

                                   Recentemente, pesquisa de opinião mostrou que o povo brasileiro quer o endurecimento das leis do país para punir criminosos e corruptos. Aprovaria facilmente a pena de morte, se houvesse um plebiscito. Como aprovou o direito do cidadão ter uma arma em casa, para se defender. O desejo de vingança parte do exemplo perverso que vem de cima. Político comete crime e tem foro privilegiado. Cidadão deixa de pagar uma prestação e tem o CPF grampeado no quadro negro dos devedores. É uma contradição insolúvel. Quando a justiça manda prender um Sérgio Cabral, que aparentemente confundiu a coisa pública com a privada, há um som de aplauso no ar. E me parece uma coisa boa. Não tenho pena dessa gente.

                                   Porém, há que se prestar atenção sobre a questão dos direitos. Encarceramento em massa está mais para regimes de exceção do que para a democracia. Nem temos onde deter tanta gente. Só que ver a canalha detida nos dá um sabor de revanche. Rasparam o cabelo de Sérgio Cabral e o prenderam em Bangu 8, presídio que ele inaugurou como governador do Rio. Está em uma cela de 9 metros quadrados. Com outros 5 presos. Até que não é das piores condições carcerárias do país.

 

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
Esse post foi publicado em Politica e sociedade. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s