Nova matança de presos na região norte do país eleva para 93 o número vítima nos últimos cinco dias. Somadas às rebeliões ocorridas em outubro passado, o número de mortos já é maior do que o massacre do Carandiru. Guerra de facções pode se alastrar.

 

PCC

Presos rebelados do PCC em São Paulo. Foto de arquivo pessoal do autor.

                                   Presos ligados ao Primeiro Comando da Capital (o PCC paulista), promoveram mais um massacre na madrugada de hoje (6 jan). Foi no presídio agrícola que fica na zona rural próxima à capital de Roraima, Boa Vista. Às quatro e meia da manhã (horário de Brasília), dezenas de detentos armados com facas e estoques invadiram celas e trucidaram um número ainda não determinado de rivais. As primeiras informações garantem que foram mais de 30 mortes, mas o número pode chegar a 33 e ainda subir, porque há feridos graves. O massacre teria sido uma resposta do PCC à chacina ocorrida cinco dias antes, em Manaus, quando 60 prisioneiros ligados à facção criminosa paulista foram assassinados, em duas instituições penais, por um grupo chamado Família do Norte (FDN), associado o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro.

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A mão de obra do crime organizado. Infância roubada.

                                   A guerra de facções criminosas na região norte do país, desde outubro do ano passado, já superou em número de vítimas o tristemente famoso “Massacre do Carandiru”. Em 1992, durante rebelião no presídio que ficava bem no centro de São Paulo, a tropa de choque da Polícia Militar invadiu as galerias e executou sumariamente 111 detentos. Foi um recorde mundial de prisioneiros mortos em um mesmo dia e num mesmo local. A tragédia enxovalhou o Brasil. E ficou impune. O comandante do massacre, um tenente-coronel da PM paulista, não foi punido pela justiça. Acabou assassinado por uma mulher, namorada dele, que deu um tiro no militar. Outros integrantes da tropa de choque foram absolvidos pelo judiciário. Os 111 mortos terminaram sendo “responsabilizados” pelo confronto fatal: presos desarmados contra soldados profissionais com metralhadoras.

                                    Nesse início de 2017, a guerra de facções do narcotráfico ameaça suplantar o Carandiru. Aliás, o presídio foi demolido, apagando de vez a marca da tragédia. No entanto, as condições carcerárias no país só pioraram desde a execução em massa dos presos do Carandiru. Temos cerca de 607 mil prisioneiros (alguns autores dizem que são 660 mil). Mais de 40% deles ainda não foram julgados. Cerca de 2% a 3% dos aprisionados já cumpriram as suas penas e continuam atrás das grades, por causa da morosidade do judiciário. O criminoso profissional é estimado em 10% da massa carcerária, mas impõem um poder paralelo dentro dos presídios. É a total falência do sistema.

                                   O Comando Vermelho (CV) foi fundado no presídio da Ilha Grande, no litoral do estado do Rio, no início dos anos 1980. Era uma cadeia de castigo, isolada, onde várias quadrilhas disputavam o poder. Os presos do CV conviveram na mesma galeria, chamada de “fundão”, ou Galeria B, com os presos políticos durante a ditadura militar. Aprenderam com eles, especialmente o que significava obter consciência política, educação e senso de organização. Vários detentos foram alfabetizados por professores presos por oposição ao regime. Quando os presos políticos foram embora, anistiados em 1979, os “comuns” construíram a sua própria organização.

                                   O PCC foi fundado em 1993, no anexo do presídio de Taubaté, interior paulista, em uma galeria chamada de “Piranhão”. Eles tinham organizado um time de futebol chamado Primeiro Comando da Capital, que enfrentava os detentos do interior. Deste grupo surgiu a organização criminosa de mesmo nome. Já no início da facção, declararam aliança com o Comando Vermelho, cuja experiência conheciam de perto, uma vez que alguns integrantes do PCC tinham sido presos no Rio, convivendo com a nata da criminalidade carioca. No estatuto de fundação do “Partido do Crime”, como o PCC se autodenomina, juravam fidelidade ao CV e anunciavam que iriam promover uma revolução dentro do sistema penal. Adotaram o lema da facção criminosa do Rio: “Paz, Justiça e Liberdade”. E cumpriram a promessa de revolucionar o sistema carcerário, à moda deles, impondo a pena de morte atrás das grades para qualquer um que desafiasse a facção. Deu certo.

                                   Após mais de 20 anos de parcerias, CV e PCC se desentenderam. Por trás da ruptura estão desacertos comerciais no mundo do tráfico de drogas e de armas de guerra, os segmentos mais lucrativos do crime organizado brasileiro, descontando a política, um tabuleiro privilegiado para os criminosos de colarinho branco. E a luta entre as facções, que controlam as cadeias em todo o país, ameaça se alastrar para regiões além da fronteira norte. Os próximos cenários do conflito podem ser os estados de Mato Grosso do Sul e do Paraná, também áreas de fronteiras com fornecedores de maconha, cocaína e armas.        

                                      

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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