Governadora de Roraima admite que perdeu o controle dos presídios. Mais quatro detentos foram mortos hoje. Três deles decapitados. É um país refém de organizações criminosas.

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Enterro de presos trucidados. Imagem do portal O Globo.

 

                                   A governadora de Roraima, Suely Campos (PP-RR), que integra a base de apoio do governo de Michel Temer, reconheceu nessa segunda-feira (9 jan) que não tem como garantir a integridade física dos presos no estado. A governadora, que orientou seus parlamentares em Brasília a votar contra Dilma Rousseff, mandou ofício ao Planalto pedindo socorro da Força Nacional de Segurança, além de um singelo reforço financeiro de 10 milhões de reais para ampliar o número de vagas no sistema carcerário. Em nota, explicou que já havia alertado o Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, no ano passado, de que havia risco iminente de conflitos entre facções criminosas em Roraima. Não foi atendida até agora.  

                                   O dinheiro que Suely pediu a Temer não resolve, nem de longe, a crise do sistema penal. Com 10 milhões de reais se poderia conseguir (talvez) três cadeias de baixa segurança, com capacidade para abrigar uns 400 detentos em cada uma delas. Pior: a experiência brasileira demonstra que a construção de um presídio demora, em média, seis anos. Portanto, nenhuma luz para o problema a curto prazo. Além do mais, vários outros estados vão pedir socorro a Temer, o que vai criar uma situação insolúvel. Como é insolúvel, historicamente, a crise do sistema penal do país. E quem garante que o dinheiro vá mesmo para cadeias?

                                   O mais grave de tudo isso é que a autoridade pública reconhece que não controla os presídios. Nem sabemos quantos são os prisioneiros. Alguns citam 607 mil, com base em números do judiciário. O Departamento Nacional Penitenciário (Depen) diz que são 664 mil. Ninguém sabe ao certo. Tanto que a ministra Carmem Lúcia, presidente do STF, acaba de pedir a realização de um novo levantamento  penitenciário. Se não sabemos o mínimo, como vamos “retomar” os presídios? Preso bem tratado não dá voto. Tem gente no próprio governo Temer que acha (ou achava, porque se demitiu) que deveria haver uma chacina por semana. É a velha história dos esquadrões da morte, durante a ditadura, quando se dizia que “bandido bom é bandido morto”.

                                   Um sistema penal baseado em castigo, deseducador e formador do crime organizado tem reflexo direto na criminalidade nas ruas. Quem chega ladrão, sai chefe de quadrilha. E sai comprometido com as organizações criminosas. Se resolvêssemos matar todos eles, em uma “solução final” semelhante à do regime nazista, não teríamos como enterrá-los nem realizar exames de IML. Talvez criar um mecanismo tecnológico de desintegração de corpos, como a SS de Hitler tentou em Auschwitz, onde 1 milhão de judeus foram incinerados?  

                                   Em um país supostamente democrático, como o nosso, podemos conviver com uma tal desgraça? O mundo inteiro está horrorizado com as violações de direitos no Brasil, o que complica as nossas relações internacionais e os investimentos. E a barbárie vai continuar. Nossos governantes não fazem a menor ideia do que deveria ser feito para solucionar os massacres. Também não têm a menor ideia de como enfrentar o crime organizado, que prospera à sombra da impunidade e da corrupção. Estão imobilizados porque são, eles mesmos, investigados como organização criminosa.

                                   Aí está a Lava-Jato, que não me deixa mentir.              

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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