Morte de Marisa Letícia reúne os extremos da política brasileira. Lula, Temer, Erundina, Eliseu Padilha, Haddad, Sarney, Suplicy, Dilma, Serra e vários outros que ocupam campos opostos. Do lado de fora do velório, a militância petista expulsou uma equipe da TV Globo aos gritos de “golpista” e “assassina”. Não saiu no JN.

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Equipe da TV Globo é expulsa do velório.

 

                                   O velório de Marisa Leticia Lula da Silva, sábado passado (4 fev), no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), reuniu representantes dos extremos da política brasileira. De certa forma, os políticos tradicionais deram uma lição de tolerância naquele episódio dramático. Os jornais chegaram a comentar que Lula deu até uns conselhos a Temer, como a dizer: somos adversários, não somos inimigos. Partidos de extrema-esquerda, como o PCO e o PSTU, dividiram espaço com os de direita. O brasileiro é paciente e se une na dor alheia.

                                   A demonstração de tolerância é um exemplo que se contrapõe à baixaria que tomou conta das redes sociais. Até médicos envolvidos no drama de Marisa Letícia postaram coisas desagradáveis no Face e no Instagram. Uma médica, por causa disso, foi sumariamente demitida do hospital Sírio-Libanês. A atriz Luana Piovani chegou a fizer que Lula estava fazendo “draminha”. Se o clima de ódio vigente nas redes sociais transbordasse para as ruas, teríamos um conflito de grandes proporções no país. Atacar os outro pela Web é não só uma canalhice, como uma covardia. Especialmente contra uma mulher gravemente enferma, que não teria como reagir.

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Manifestantes atacam repórteres.

                                   A virulência desse tipo de internauta é bem típica de quem está protegido pelo (quase) anonimato e que se beneficia de seu próprio status social. Queria ver ir até o Sindicato dos Metalúrgicos e protestar diante do corpo da ex-primeira dama do país. Queira-se ou não, o ódio contra o chamado lulo-petismo contém traços de uma luta de classes, que modernamente fingimos não existir. Mas que está latente na sociedade brasileira. O mundo digital deu voz àqueles que nunca tiveram formas públicas de expressão. E isto tem revelado frustrações reprimidas e ódio de classe.

                                   De outra parte, temos a grande mídia seletiva, que publica e exibe apenas aquilo que diz respeito a seus próprios interesses políticos e econômicos. O interesse público… bem depois falamos disso. O próprio velório de Marisa Letícia revelou um aspecto curioso dessa tendência. Uma equipe de reportagem da TV Globo foi expulsa por militantes petistas e populares que estavam por ali. Aos gritos de “golpista” e “assassina”. Temi que os profissionais fossem agredidos com mais do que palavras. Já tinha visto esse filme antes, na campanha das diretas, no impeachment etc. Ao invés de noticiar a agressão sofrida por ser repórteres, a TV Globo omitiu o fato. A matéria que saiu no JN apenas trazia uns caracteres informando: imagens da Rede TV!.

1.                                         As cenas podem ser vistas no portal  do “Observatório da Televisão” (https://observatoriodatelevisao.bol.uol.com.br/).

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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