Ataque americano destrói base na Síria e revela a incapacidade da diplomacia ocidental em lidar com os problemas do Oriente Médio. Dá tudo errado.

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Míssil americano decola para atacar a Síria. Imagem da CNN.

                                   O bombardeio de mísseis americanos contra uma base aérea do governo sírio, a partir de navios estacionados no Mediterrâneo, mostra mais uma vez a incapacidade da diplomacia ocidental em resolver as crises no Oriente Médio. Os 59 foguetes atingiram a pista, os hangares de aviões e outras instalações com precisão. Mas o resultado é duvidoso. Em primeiro lugar, o Pentágono avisou ao Departamento de Defesa russo que o bombardeio aconteceria em algumas horas, tempo suficiente para a base síria fosse abandonada. Aviões decolaram às presas e os militares, inclusive da Federação Russa, desapareceram. Isso explica o pequeno número de baixas – apenas 7 em 4 minutos de explosões devastadoras.

                                   A base aérea do governo de Bashar al-Assad, o ditador sírio, ficou fora de combate. Mas o episódio não muda os rumos da guerra civil naquele país, que dura sete anos e já matou algo com 600 mil pessoas. Donald Trump fez mesmo um jogo de cena, para o público interno americano. Se quisesse mesmo produzir uma mudança importante, teria atacado Damasco, a capital, e o próprio palácio do ditador. Os americanos já fizeram isso na Líbia, no Iraque e no Afeganistão. No entanto, foi mais um golpe publicitário do topetudo de Washington. Um ataque direto contra Assad teria arrastado a Rússia e o Irã para um envolvimento maior no conflito, criando uma situação insustentável na região. Talvez uma guerra envolvendo a Arábia Saudita, a Turquia, Jordânia e Israel, sem falar na resposta palestina.

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Ditador líbio morto após ataque da Otan.

                                   Portanto, Trump e o Pentágono optaram por um show pirotécnico, mesmo arriscado. A um custo milionário. De todo modo, o incidente reafirma a incapacidade do mundo ocidental de atuar de maneira mais inteligente nas questões do Oriente Médio. Vale destacar alguns exemplos:

1.      A intervenção americano-israelense na guerra do Líbano, que durou duas décadas, entre os anos 1975 e 1992, resultou na afirmação da resistência palestina, o fortalecimento da OLP e a transformação de Yasser Arafat em líder mundial. Era uma luta de David contra Golias que contaminou todo o mundo árabe e islâmico. 

2.     A intervenção russa no Afeganistão (1975-1989) resultou na primeira derrota do Exército russo em 800 anos de existência. E permitiu a vitória dos mujahedins (os “guerreiros de Deus”, entre eles Osama Bin Laden) e o surgimento do Talibã, que tomou o poder.

3.      A intervenção americana no Iraque e no Afeganistão, após o 11 de Setembro, foi pelo mesmo caminho. Sadam Hussein e a família dele foram derrubados e mortos. As forças armadas iraquianas foram destruídas e dispersadas. Mas a Casa Branca não tinha um projeto para o momento seguinte. Era só vingança. Resultado: surgiu a resistência xiita e a Al Qaeda no Iraque. Após a saída das forças americanas, sob Obama, se instalou o Estado Islâmico.

4.     A intervenção americana e da Otan na Líbia (2011, durante a Primavera Árabe), resultou no linchamento do ditador Muammar al-Kaddafi, executado diante das câmeras de TV. Resultado: a Líbia não tem um governo constitucional até hoje, com vários grupos sectários disputando o poder.

 Há dezenas de outros exemplos. Mas o importante é entender que a opção pela retaliação armada pura e simples não alcança os objetivos firmados para um mundo moderno: o respeito aos direitos e o combate ao terror. Jogar foguetes sobre a Síria, além de criar um espetáculo midiático, não tem nenhum outro resultado. E ainda dá um mau exemplo: os americanos não têm coragem de entrar no combate. Isto estimula terrorismo e vai aumentar o recrutamento para a barbárie.        

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