Dia nacional de protesto contra Temer atinge 186 das maiores cidades do país, inclusive todas as capitais e o Distrito Federal. Houve violência em vários pon-tos, como em Santos e São Paulo. O centro do Rio virou um campo de batalha: incêndios, saques, depredações.

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Enfrentamentos entre manifestantes e a polícia. Foto Agência Brasil.

                                    Se Michel Temer, Romero Jucá e Henrique Meirelles achavam que tudo passaria em branco, se enganaram. Grandes protestos sacudiram o país nesta sexta-feira (28 abril). O Brasil viveu um dia de 1968. Marchas, confrontos com as tropas de choque, incêndios, depredações e muita violência em algumas das 186 cidades que aderiram ao protesto. Milhões de brasileiros ficaram sem transportes e sem serviços essenciais. A convocação de greve geral, patrocinada pela Frente Brasil Popular e pelo Movimento Povo Sem Medo, com apoio de todas as centrais sindicais do país (algumas inimigas históricas), resultou não exatamente numa greve, mas em um enorme protesto contra o governo.

                                   Em Santos, nas bordas do maior porto brasileiro, estivadores e funcionários entraram em greve. A fila de caminhões de grãos para exportação parou. Toneladas de soja foram jogadas na pista. E a cavalaria da PM paulista avançou contra grevistas desarmados. Durante o amanhecer desta sexta-feira, houve confrontos entre grevistas e a tropa de choque na capital do estado mais rico do país, que resultaram, à tarde, numa grande manifestação no centro da cidade. Depois os manifestantes marcharam até a casa de Michel Temer, no bairro de Pinheiros, um dos metros quadrados mais caros do país. Na cidade do presidente, metrô, trens e ônibus pararam, além de muitos bancos e comércio fechados. Grandes avenidas ficaram vazias.

                                   No Rio de Janeiro, onde a greve geral não colou (quase tudo funcionou normalmente), a coisa foi muito mis grave. Milhares de pessoas se concentraram em dois ou três pontos do centro da cidade. O “Fora Temer” foi ouvido até na TV Globo. Assim como o corinho: “o povo não e bobo, abaixo da Rede Globo”. Vi ao vivo na Globonews, durante um protesto em Recife. Mas no Rio a coisa realmente pegou fogo: 10 ônibus e carros incendiados, enfrentamento de pedras contra balas de borracha e granadas de gás lacrimogênio. Me senti em 1968, quando o meu Rio de Janeiro foi palco dos maiores protestos contra a ditadura militar.           

                                   E o governo virou a cara para o outro lado. Fez de conta que nada estava acontecendo, com a grande mídia apenas repercutindo a informação oficial. Parece que foi na Venezuela, só que lá a polícia usa munição letal. Aqui, o Planalto reagiu como se fosse um dia como outro qualquer. Só que não. Se houver povo nas ruas, a equação política muda completamente. E se a repressão matar um manifestante, aí voltamos mesmo ao Édson Luís de 1968, que desencadeou a reação e a resistência ao regime militar. Se a manifestação que vimos hoje se repetir, muita coisa vai ficar diferente, inclusive a indiferença de Temer, que teve o seu quarteirão cercado por milhares de manifestantes.

                                   Fazer reformas estruturais no país sem consulta aos interessados (o populacho em geral), por meio   apenas de conchavos políticos, é uma coisa. Mas se as multidões puserem a cara para fora de casa, o jogo muda. Quando o governo, em nome do grande capital, resolve fazer reformas que interessam ao patronato e não à plebe rude, como é o caso, sempre corre o risco de a oposição ocupar as   ruas. É só mexer no bolso das pessoas que dá tudo errado.  

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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