Lava Jato atropela Michel Temer e ameaça derrubar o governo. O presidente foi flagrado apoiando pagamentos em troca do silêncio de Eduardo Cunha. Mas este não é o crime maior de Temer: a PGR diz que ele indicou um interlocutor para extorquir o dono da Friboi em 480 milhões de reais. A propina seria paga em 20 anos: 2 milhões de reais por mês.

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Temer diz que não renuncia. Mas Gedel caiu. As mesmas acusações. Foto Agência Brasil.

 

                                   O escândalo da delação do empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS, a segunda maior empresa do país em faturamento (170 bilhões de reais/ano), parece ser a pá de cal no governo Temer. Pela primeira vez na história, um mandatário da Republica é apanhado em flagrante delito. Temer recebeu, em março, no Palácio do Jaburu, residência oficial do governo (ele e Marcela não gostaram do Alvorada), um tubarão do ramo de processamento de carnes. Joesley chegou lá tarde da noite – e travou com o presidente um diálogo de meia hora, como se fossem amigos. Ao longo da conversa, toda gravada, percebe-se que era uma intimidade cúmplice.

                                   O empresário, conhecido como “o açougueiro”, disse que estava pagando todo mês a Eduardo Cunha e a Lúcio Funaro, dois prisioneiros da Lava Jato, em troca de silêncio. Temer disse que isso precisava continuar. Depois Joesley contou que tinha problemas com o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e com a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). São agências federais destinadas a regular boa parte da economia do país. Temer indicou um deputado federal de sua confiança para tratar do tema. O nome dele é Rodrigo da Rocha Loures (PMDB-PR), investigado na Lava Jato. Na delação premiada, o dono da Friboi afirmou: deste encontro, indicado por Temer, resultou um acordo para o pagamento de 480 milhões de reais em propinas, a um custo de 2 milhões de reais por mês para o grande açougue de batista, durante 20 anos. Desde que os problemas com o CADE e a CVM pudessem ser resolvidos.

                                   Esta é a principal acusação contra Michel Temer. O problema de Funaro e Eduardo Cunha é fichinha. Curioso: a grande mídia evitou cautelosamente explorar a matéria. Talvez porque as empresas públicas, como a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica sejam os maiores anunciantes do setor. Só que tal acusação da PGR é a mais grave contra Michel Temer, que fez pronunciamento em tom agressivo dizendo que não iria renunciar. A abertura de processo criminal contra o presidente, aprovada pelo STF, considera os crimes de corrupção, obstrução da justiça e organização criminosa. Mas a mídia se concentra no caso de Eduardo Cunha, a menor das acusações. Por que?

                                    Além do mais, a Lava Jato também deu um tiro no peito de Aécio Neves. Derrotado por Dilma Rousseff em 2014, por apenas 3,27% dos votos válido, Aécio era o ícone das elites e da classe média. Bom moço, bonitinho, neto de Tancredo Neves, também ele foi destroçado pela Lava Jato. A delação do dono da Friboi, gravada, revela um Aécio pedindo dinheiro para se defender das acusações: a bagatela de 2 milhões de reais. E revela uma conversa chula, recheada de palavrões. Parece um bandido vulgar. Para receber os 2 milhões, disse que precisava de um mensageiro confiável, “alguém que a gente mata antes de delatar”.

                                   Aécio indicou seu próprio primo, Fred, que acabou em cana ao ser filmado recebendo quatro mochilas de 500 mil reais. E a Polícia Federal também prendeu a irmã de Aécio, Andrea Neves, que negociou com Joesley Batista uma propina de 40 milhões de reais para comprar um apartamento para a mãe no Rio de Janeiro. Qual a moeda de troca: a indicação de um diretor para a Vale do Rio Doce.     

                                   Aécio teria dito que poderia garantir a indicação. E o resto é bobagem!  

      

 

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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