Julgamento no TSE vira espetáculo de atropelo da lógica jurídica e da verdade. Em quatro dias de sessões, um show de vaidades, autoritarismo e suspeitas.

julgamento no tse

Show de horrores no TSE. Imagem TV Brasil;.

                                    O julgamento da ação do PSDB que pretendia a impugnação da chapa Dilma-Temer nas eleições presidenciais de 2014, por abuso de poder político e econômico, virou um circo de horrores. Ministros se agredindo com sutileza feroz, demonstrações de autoritarismo, ofensas veladas. Teve de tudo. Menos justiça – ao menos na opinião deste modestíssimo observador. Formou-se uma maioria de 4 a 3 contra a tentativa de cassar o mandato de Michel Temer, já que Dilma havia sido impedida pelo Congresso em maio do ano passado. A rigor, Dilma Rousseff nem deveria estar mais na discussão, porque perdera o cargo. Continuou assim mesmo, como a se julgar um morto por crime pretérito.

                                   Vimos um relator do processo, que já sabia estar derrotado, falando por mais de 17 horas, transformando suas prerrogativas em palanque para denunciar o apodrecimento do sistema político brasileiro. Vimos o lado oposto, liderado por Gilmar Mendes, presidente da corte, jogar fora todas as provas de corrupção relacionadas com o pleito de 2014. Criando um precedente jurídico para questionar todas as investigações da Lava Jato. As delações premiadas da Lava Jato, incluindo dos marqueteiros que fizeram a campanha da chama Dilma-Temer, foram desconsideradas. Marcelo Odebrecht delatou: 150 milhões de reais de origem ilícita foram aportados na eleição; João Santana e Mônica Moura receberam milhões de dólares em contas dissimuladas no exterior. Há documentos que provam as operações criminosas. Mas todos os indícios foram jogados fora. Quatro ministros disseram que não tinha nada a ver com a ação original.

                                   O relator do processo, o ministro Herman Benjamin, de voz frágil e saúde debilitada, foi apresentado como apressado e leviano. Na verdade, era um jogo definido meses atrás. Temer havia nomeado dois ministros para a corte. Contando com Gilmar Mendes, faltava só um voto. O escolhido foi um ministro citado em delações premiadas. Este protagonizou o espetáculo mais dantesco do episódio. Fez discurso inflamado, ofegante, afirmando que era justo e bom. Disse que seus “detratores” mereciam a ira do profeta Maomé. E fez um gesto de decapitação. Não me lembro de nada tão vergonhoso numa corte de justiça. E ele votou contra a ação. Até as pedras do calcamento sabem que houve corrupção no pleito. Só que prevalece a aliança política contra o óbvio.

                                   Temer tem maioria no Congresso. As denúncias que serão feitas contra ele por Rodrigo Janot, na semana que vem, serão contidas pelo muro do centrão, um conjunto se 12 partidos políticos, cuja maioria na Câmara está sob suspeita ou investigação. Um terço dos congressistas responde a algum tipo de ação penal. Assim, a autorização para processar criminalmente o presidente não será aceita. De jeito nenhum. Temer precisa de 172 votos na Câmara. É fácil. Além do mais, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da casa legislativa, vai bloquear qualquer pedido de impeachment.

                                   Ou seja: a profecia de Michel Temer vai se consumar: “Governarei até 31de dezembro de 2018”.                   

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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