PT vai entrar com ação contra a TV Globo, Huck e Faustão: propaganda eleitoral indevida e abuso de poder econômico.

hulk e faustão 01

                                   O Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu entrar com uma ação contra a maior emissora de televisão do país, por causa de um quadro, supostamente de entretenimento, no último “Domingão do Faustão”. Os convidados a participar do “Divã” do Faustão foram Angélica e Luciano Huck, casal de apresentadores da Globo. Mas o tema era política e eleições. Até as pedras do calçamento sabem que Huck é um dos pré-candidatos à Presidência da República, tanto que frequentou, com bons resultados, algumas pesquisas de intenção de votos.

                                   Isto significa que a TV Globo decidiu entrar diretamente na campanha presidencial deste ano, e com candidato próprio?

                                   É difícil responder a esta pergunta, especialmente porque a Globo sempre apoiou o PSDB, hoje um partido dividido e desmoralizado por inúmeras denúncias de corrupção, inclusive as famosas malas de dinheiro para Aécio Neves. Ter um candidato próprio, no entanto, é uma perspectiva sedutora. Luciano Huck é um dos comunicadores mais conceituados do país. O programa que ele apresenta aos sábados (“Caldeirão do Huck”) é uma das grandes audiências da emissora – e com alto faturamento comercial. O cara é um sucesso. E pode causar um enorme estrago num cenário eleitoral em que despontam dois extremos: Lula e Bolsonaro.

                        Luciano Huck já comunicou às pessoas mais próximas que não será candidato em outubro. Mas os observadores da cena política acreditam que seria uma boa opção de centro. Nem Lula, nem Bolsonaro. Nas urnas, candidatos como Geraldo Alkmin e Rodrigo Maia parecem fracos, ao se observar as pesquisas eleitorais. Até Fernando Henrique Cardoso já descartou Alkmin. E Aécio e José Serra estão abatidos pela Lava Jato e outras operações semelhantes.

                                   A candidatura de uma estrela da TV segue na onda de Donald Trump e Oprah Winfrey. E Luciano oferece a possibilidade uma belíssima primeira-dama, a loura Angélica, com notável mancha de nascença na coxa esquerda. Angélica é outro dos grandes sucessos da Globo. Não foi à toa que a dupla foi junta ao “Domingão”. Reuniram-se três das maiores audiências da TV. E por que Luciano e Angélica foram ao ar para falar de política e eleições, se a intenção não fosse testar uma provável candidatura platinada?

                                   Huck se declara apoiador de um movimento político chamado “Agora!”. É simpatizante de outro grupo, “RenovaBR”. O pensamento político desse segmento é uma incógnita. Além disso, Luciano é um empresário bem-sucedido. Sobre isso já estamos escolados com o desempenho de João Dória. Este demonstra um pensamento liberal-capitalista sem estratégia e sem projetos, a não ser vender tudo o que for possível. Se veste de gari, mas não tem calos nas mãos. Típico dos políticos que dizem não ser políticos, querendo se diferenciar da bandalheira geral que assola o país.

                                   Em um país que amarga desigualdades (10% da população detêm 90% das riquezas), desemprego em massa e violência, quase uma guerra civil, com 61,6 mil mortos no ano passado, os eleitores ainda se enganam com os “não-políticos”. Supostamente, gestores independentes. A vitória eleitoral esmagadora de João Dória, em São Paulo, anima essa tendência. O próprio Dória virou piada, vítima da própria vaidade e ambição desmedidas. A máxima criada por Leonel Brizola e o PDT, na notável eleição dos anos 1980 (“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”), parece ter sido esquecida. Brizola, inclusive, é autor de uma simplificação da política: “onde estiver o Roberto Marinho, está errado”.

                                   Agora a Rede Globo pode estar embarcando em uma aventura política, expondo às urnas um dos seus melhores quadros. Luciano Huck é um cara que admiro. Quando sofreu um assalto em São Paulo, roubaram um Rolex dele, avaliado em 30 mil reais. Presente de Angélica. Dava para comprar uma casa na periferia da capital paulista. Luciano publicou em artigo na Folha de S. Paulo, se não me engano, e levou porrada de todo lado. Creio ter sido um dos únicos a defender Huck publicamente, dizendo que aqueles dez segundos diante do cano de um 38 é uma tragédia para qualquer pessoa. Inclusive desculpava algumas afirmações de classe do apresentador, especialmente quando descrevia as características do agressor.

                                   Se pudesse dar um conselho a Luciano Huck, seria o seguinte: não se meta nessa aventura, que só interessa aos seus patrões.   

 

       

                                                                                                 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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