Exército pretendia “operação de casa em casa” em áreas críticas controladas pelo tráfico no Rio. Mas o governo Temer desistiu do chamado mandado de busca e apreensão coletivo sobre bairros inteiros e partes da cidade. Era uma violência contra a Constituição.

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Forças Armadas na Rocinha. Imagem Agência Brasil.

                                    O plano era cercar os pontos críticos de atuação do narcotráfico no Rio de Janeiro. Com um mandado de busca e apreensão coletivo, uma ilegalidade defendida pela Advocacia Geral da União (AGU), que presta serviços à Presidência, os militares iriam entrar de casa em casa. Populações inteiras ficariam de mãos na cabeça, em uma flagrante violação dos direitos individuais. Pior: a medida estabeleceria um apartheid social na Cidade Maravilhosa. As operações de “cerco e destruição”, como são citadas nos manuais da guerra urbana, cairiam sobre os pobres e as comunidades abandonadas pelo Estado há quase um século. Não há como imaginar tal ação em Copacabana ou nos condomínios abastados da Barra da Tijuca.

                                   Isto quer dizer: pobre é sinônimo de violência e banditismo.

                                   Por outro lado, a desistência em relação ao mandado coletivo, que seria derrubado nos tribunais, praticamente inviabiliza a operação militar em larga escala contra traficantes e facções criminosas. Fica tudo como era antes. E os fracassos na favela da Maré e no Complexo do Alemão são fartamente conhecidos. Sem falar no desastre das UPPs, que este autor antecipou há sete anos, aqui no site, enquanto a mídia nacional louvava o fim do poder do tráfico.   

                                   Parece mesmo que a decretação da intervenção federal no Rio foi um mero gesto publicitário, destinado a desviar a opinião pública do naufrágio do governo de Michel Temer. O presidente não governa sequer a própria base de apoio no Congresso. E o Congresso aprovou a toque de caixa uma intervenção militar inócua, cujo resultado será pífio. Ou -mais provavelmente- nenhum. Vai entrar para a história como mais um fracasso retumbante.   

 

                                    

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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  1. Annelise Godoy disse:

    Muito bom! Realmente estamos subordinados a completos idiotas, que pensam que somos nós os idiotas. E quanto se gastou com tudo isto até agora? Vamos mesmo tirar recursos da Previdência, afinal, é lá que está o problema.

    Bjs, Anne

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