Cresce a presença de militares no governo Temer. Além da trinca de generais na segurança do Rio, o Ministério da Defesa passa a ser ocupado por um alto oficial do Exército, após 20 anos de poder civil. No ministério de Raul Jungmann, um brigadeiro é o responsável pela articulação com as Forças Armadas.

 

segurança na olimpíada 03

Tropas vão às ruas do Rio esta semana.

                                   Seria essa a intervenção sonhada pela classe média desiludida com Lula, Dilma e o PT? Vale lembrar: nos protestos contra o governo petista, as pessoas diziam: “primeiro a gente tira a Dilma, depois vê o que faz”. O que veio depois foi a tão reclamada “libertação” das garras petistas, partido classificado como “um bando de ladrões”? Depois veio o governo de Michel Temer. A prisão de Eduardo Cunha, o cai-cai de ministros acusados de corrupção e tudo o mais que a gente já conhece.

                                   Note-se: o “depois a gente vê” permitiu a ascensão do “centrão”, um grupo de 12 partidos ditos fisiológicos, antes chamado de “baixo clero”, garantindo a maioria de Temer no Congresso. Com apoio do PSDB, DEM e PPS, a maioria virou absoluta. Ergueu-se um Congresso ultraconservador, como jamais se viu no pós-ditadura. Temos a bancada do boi, a bancada da bala, a bancada evangélica e coisas do gênero. Além de reformas duvidosas, todas altamente impopulares (temos talvez o presidente mais mal avaliado da Nova República), Temer tentou acabar com reservas florestais, em favor de mineradoras, adotou e desadotou ações questionáveis, supostamente conspirou contra a Lava Jato.

                                   Nomeou um diretor geral da Polícia Federal que passou a agir como se fosse advogado do Presidente, provocando uma revolta na corporação. Participou de reuniões secretas com o presidente. No mínimo, fora da agenda oficial. O delegado teve o segundo mandato mais curto na história da PF, apenas quatro meses. Mas Temer deu a ele um emprego cobiçado em Roma, como adido diplomático policial, coisa jamais vista. Temer passou mais tempo tentando se livrar de acusações do que propriamente governando. E ainda teve o episódio quase ridículo de Cristiane Brasil, nomeada para o Ministério do Trabalho. Mas…  ”depois a gente vê”.

                                   Agora temos o reforço da presença militar no governo. Estiveram quietos desde o fim do regime uniformizado (1964-1985). Omitiram-se na discussão e na revisão crítica de todo o período, encerrando uma importante contribuição para a historiografia militar e para a própria compreensão do país. Praticamente não se ouviu mais falar da Escola Superior de Guerra, com sede no Rio, um importante centro de estudos da realidade brasileira. Estavam em silêncio, possivelmente remoendo crimes cometidos na ditadura. Envergonhados? Não. Eles não admitem os abusos do regime de exceção. De toda forma, tal silêncio produziu um vácuo na compreensão de 21 anos de história.

                                   Surpreendentemente, neste ano de eleições gerais, aceitaram a convocação de um governo acusado de crimes graves para voltar ao cenário político. Enquanto uma parcela considerável da opinião pública queria uma intervenção militar contra a ladroeira e a corrupção, os uniformes de quatro estrelas surgem em garantia da lei e da ordem.

                                   Incapaz de concluir um ciclo de reformas destinado a privilegiar o grande capital, nacional e estrangeiro, Temer resolveu tocar em um ponto sensível para a população, como forma de obter dividendos políticos: a segurança pública. E por que os militares resolveram embarcar nessa aventura, contrariando a boa imagem pública que têm? Porque querem garantir uma transição pacífica entre a porcaria reinante e o próximo governo, eleito pelo povo. Com tropas nas ruas, asseguram uma presença forte, que não pode ser desconsiderada por nenhuma das forças políticas envolvidas.

                                   No ambiente das Forças Armadas, tal papel regulador está bem afinado. Não permitirão rupturas constitucionais. Com Lula ou sem Lula. Principalmente, com povo ou sem povo nas ruas. Já que estão nas avenidas do país, supostamente a garantir a ordem pública, no Rio e em mais 7 estados, podem também se envolver na garantia do resultado das eleições de 2018.

                                   Em qual sentido? Isso não sabemos.

                 

 

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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