Ministério Público paulista revela código de ética do PCC dentro e fora da prisão. Reportagem de “O Estado de S. Paulo” diz que a “cartilha” prevê pena de morte em caso de desobediência grave.

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                                   A existência de um código de conduta entre criminosos não é novidade. Tenho falado sobre isso nos últimos 30 anos. Em meu primeiro livro sobre violência urbana e crime organizado (“Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”, Ed. Record, 1993), já descrevia as “Doze Regras do Bom Bandido”, preparadas por ladrões de banco presos na Ilha Grande. Os “estatutos” do PCC e do CV, com “deveres e obrigações” também frequentaram os meus livros. Só que agora é o próprio Ministério Público de São Paulo que admite a existência de um código penal dos integrantes da maior facção criminosa do país.

                                   A revelação está em “O Estado de S. Paulo”, diário paulista que publicou reportagem de Marcelo Godoy na edição online de hoje (7 jul). Confira um trecho:

                                   “O Primeiro Comando da Capital (PCC) criou uma espécie de código penal para disciplinar seu membros. Chamado de “cartilha”, ele reúne delitos como “ato de malandrismo”, “mão na cumbuca”, “abandono de responsa” e “falta de visão” ou “sem noção”. As punições para os integrantes da facção que incorrem nessas condutas vão desde a suspensão de 90 dias da facção até a exclusão”.

                                   Até recentemente, a autoridade pública se recusava a aceitar a existência do chamado crime organizado. Preferia dizer que isso era uma espécie de invenção da mídia, fruto da imaginação de alguns jornalistas, como este autor. Com o passar do tempo – e com fatos cada vez mais dramáticos e incontestáveis -, nossos governantes reconheceram a realidade. Dezenas de organizações, girando em torno de dois polos, o CV e o PCC, atuam em todo o país. Controlam o narcotráfico, comandam comunidades onde vivem milhões de brasileiros e são um poder paralelo dentro do sistema penal. Veja mais um trecho da matéria do “Estadão”:

                                   “A revelação está na denúncia do Ministério Público Estadual da Operação Echelon, a que o Estado teve acesso. Feita pelo promotor Lincoln Gakiyya, ele acusa 70 homens e 5 mulheres de formar uma organização criminosa. Deflagrada em 14 de junho, ela cumpriu mandados de busca e de prisão em 14 Estados e mirou o setor da facção responsável por controlar o PCC fora de São Paulo: a Sintonia dos Estados e Outros Países”.

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                                    A liderança do PCC é dividida em “sintonias”, termo empregado para designar a direção dos trabalhos. Assim, temos a “sintonia geral”, o comando da facção; a “sintonia das gravatas”, grupo de advogados e pessoas ligadas ao departamento de inteligência do grupo; a “sintonia do interior” e outras mais. O PCC tem estrutura empresarial, com divisão de tarefas e gente especializada em finanças e lavagem de dinheiro. A organização, segundo Marcelo Godoy, produziu uma “lista negra” de maus pagadores, integrantes inadimplentes nos negócios do narcotráfico.

                                   Ou seja: o crime organizado está muito além da imaginação.      

Sobre Carlos Amorim

Carlos Amorim é jornalista profissional há mais de 40 anos. Começou, aos 16, como repórter do jornal A Notícia, do Rio de Janeiro. Trabalhou 19 anos nas Organizações Globo, cinco no jornal O Globo (repórter especial e editor-assistente da editoria Grande Rio) e 14 na TV Globo. Esteve no SBT, na Rede Manchete e na TV Record. Foi fundador do Jornal da Manchete; chefe de redação do Globo Repórter; editor-chefe do Jornal da Globo; editor-chefe do Jornal Hoje; editor-chefe (eventual) do Jornal Nacional; diretor-geral do Fantástico; diretor de jornalismo da Globo no Rio e em São Paulo; diretor de eventos especiais da Central Globo de Jornalismo. Foi diretor da Divisão de Programas de Jornalismo da Rede Manchete. Diretor-executivo da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, onde implantou o canal de notícias Bandnews. Criador do Domingo Espetacular da TV Record. Atuou em vários programas de linha de show na Globo, Manchete e SBT. Dirigiu transmissões de carnaval e a edição do Rock In Rio 2 (1991). Escreveu, produziu e dirigiu 56 documentários de televisão. Ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cine, Vídeo e Televisão de Roma, em 1984, com um especial sobre Elis Regina. Recebeu o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1994, na categoria Reportagem, com a melhor obra de não-ficção do ano: Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado (Record – 1994). É autor de CV_PCC- A irmandade do crime (Record – 2004) e O Assalto ao Poder (Record – 2010). Recebeu o prêmio Simon Bolívar de Jornalismo, em 1997, na categoria Televisão (equipe), com um especial sobre a medicina em Cuba (reportagem de Florestan Fernandes Jr). Recebeu o prêmio Wladimir Herzog, na categoria Televisão (equipe), com uma série de reportagens de Fátima Souza para o Jornal da Band (“O medo na sala de aula”). Como diretor da linha de show do SBT, recebeu o prêmio Comunique-se, em 2006, com o programa Charme (Adriane Galisteu), considerado o melhor talk-show do ano. Em 2007, criou a série “9mm: São Paulo”, produzida pela Moonshot Pictures e pela FOX Latin America, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor série da televisão brasileira em 2008. Em 2008, foi diretor artístico e de programação das emissoras afiliadas do SBT no Paraná e diretor do SBT, em São Paulo, nos anos de 2005/06/07 (Charme, Casos de Família, Ratinho, Documenta Brasil etc). Vencedor do Prêmio Jabuti 2011, da Câmara Brasileira do Livro, com “Assalto ao Poder”. Autor de quatro obras pela Editora Record, foi finalista do certame literário três vezes. Atuou como professor convidado do curso “Negócios em Televisão e Cinema” da Fundação Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo (2004 e 2005). A maior parte da carreira do jornalista Carlos Amorim esteve voltada para a TV, mas durante muitos anos, paralelamente, também foi ligado à mídia impressa. Foi repórter especial do Jornal da Tarde, articulista do Jornal do Brasil, colaborador da revista História Viva entre outras publicações. Atualmente, trabalha como autor, roteirista e diretor para projetos de cinema e televisão segmentada. Fonte: resumo curricular publicado pela PUC-RJ em “No Próximo Bloco – O jornalismo brasileiro na TV e na Internet”, livro organizado por Ernesto Rodrigues em 2006 e atualizado em 2008. As demais atualizações foram feitas pelo autor.
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2 respostas para Ministério Público paulista revela código de ética do PCC dentro e fora da prisão. Reportagem de “O Estado de S. Paulo” diz que a “cartilha” prevê pena de morte em caso de desobediência grave.

  1. Rícard Wagner Rizzi disse:

    Há um engano na reportagem original, causado possivelmente por má interpretação do MP-SP ou por simples descuido no palavreado do rastreado.

    Não é na Cartilha que estão as punições, é no Dicionário da Facção. A Cartilha contêm as diretrizes para o aconselhamento do relacionamento entre membros e familiares e comunidade.
    https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org/regimentos/cartilha-de-conscientizacao-da-familia-pcc-1533/

    Dicionário – é denominado assim porque as punições estão em ordem alfabética.
    https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org/regimentos/dicionario-do-pcc-1533-regimento-disciplinar/

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  2. Pingback: Fascismo à brasileira? (7) | Passa Palavra

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