
O general Mourão, fiel da balança?
O vice-presidente, general Hamilton Mourão, ainda discretamente, começa a se afastar da figura pública de Jair Bolsonaro. Ele atende, com isso, aos reclamos da alta oficialidade das Forças Armadas, insatisfeita com os rumos e desacertos do governo. Além da tragédia do coronavírus, desdenhada pelo capitão, o desastre econômico é evidente. Antes da pandemia, a previsão oficial de crescimento do PIB 2020 era de ínfimos 0,02%. Ou seja: nada! Agora, a previsão dos mercados nacional e internacional é de um PIB negativo entre 5% e 10%, com consequências arrasadoras para o capital e o trabalho.
Alheio a tudo isso, Jair Bolsonaro continua a promover espetáculos diante do cercadinho de jornalistas em frete ao Palácio da Alvorada, conquistando manchetes a cada dia mais desfavoráveis ao governo. Sob aplausos de apoiadores, talvez uns dez indivíduos, vocifera contra a imprensa e manda os repórteres calarem a boca. Demonstrações claras de intolerância (possivelmente ideológica) e de ignorância política. Os diários impressos e os telejornais babam de alegria a cada tropeço do “mito”. Insensível, JMB releva a mortandade no país e pede que todos voltem ao trabalho, seja como for. “Vai morrer gente mesmo”. São Paulo já previu 100 mil mortes no estado até o fim do ano. Isto foi dito ao Jornal da Cultura pelo coordenador do núcleo de emergência em São Paulo, Dimas Covas, em depoimento estarrecedor.
O presidente acredita que está em guerra e que “precisamos jogar pesado contra os governadores”, que se recusaram a seguir orientações de um ministro da Saúde catatônico, agora substituído por um general. A base político-empresarial do capitão, incluindo a grande indústria, as redes de varejo e os bancos e financeiras, começa a derreter. O agronegócio, apoiador de primeira hora, morre de medo da política externa que esculhamba a China, o maior parceiro comercial do Brasil. O governo chinês já resolveu comprar 1 milhão de toneladas de soja dos EUA, produto que saia do campo brasileiro até o ano passado.
Além do mais, o generalato está preocupado com a paralisia econômica, que joga milhões e milhões de cidadãos no desemprego e na miséria. Já se pode dizer que, em dois meses, mais de 30% da população perderam a renda e beiram a pobreza, com a ameaça soturna da fome. O ministro Paulo Guedes já disse que a partir de julho há a possibilidade de conflitos sociais motivados pelas crises sanitária e econômica. Os analistas em uniformes enxergam ainda mais longe: podem ocorrer convulsões sociais com significado político. Isto quer dizer: roubos armados, saques e violência generalizada, com enfrentamentos contra as forças de segurança. Vale lembrar: aqui a criminalidade já mata 60 mi por ano, no qual ocorrem também 35 mil desaparecimentos de pessoas e 40 mil vítimas do trânsito.
O Brasil não é uma ilha de tranquilidade. Aqui temos matéria explosiva, especialmente causada pelas desigualdades sociais e econômicas.
Os generais estão vendo tudo isso. O Ministro da Educação, em reunião gravada do Conselho de Ministros da República, classifica a Suprema Corte de “aqueles 11 filhos da puta”. A ministra Damares Alves, dos Direitos Humanos, uma fundamentalista evangélica (“terrivelmente evangélica”, como se define) pergunta se não dá para prender os governadores rebeldes. Os militares, que se consideram os guardiães na Pátria, estão espantados. Após três décadas de afastamento da política, devem se perguntar: o que estamos fazendo aqui? Há dezenas de uniformes no governo.
É neste tabuleiro que Mourão de movimenta. Publicou artigo no Estado de S. Paulo onde apresenta um programa de governo baseado em quatro pontos: a mídia é canalha e não dá espaço para opiniões divergentes, ou seja, a favor do regime; o Supremo atropela o Executivo e quer governar, desconhecendo a harmonia entre os Poderes estabelecida pela Constituição; Legislativo e Judiciário fazem o mesmo, criando o caos. Resumo: precisamos de um governo forte para que o Brasil encontre grande destino entre as Nações. É típico dos discursos dos generais-presidentes do regime militar (1964-85), que tinha apoio quase integral das elites e do grande capital, com uma diferença: sem o Bozo.
Além do artigo no Estadão, Hamilton Mourão teria preparado uma lista do que poderia ser o ministério dele. Um ministério de conciliação nacional, para pacificar o país. Até aqui, é tudo boato. É claro que pode ser apenas fantasia, mas a lista teria, especialmente porque abria espaço para as esquerdas, um caráter consiliador. Na pasta da Economia, nada mais, nada menos do que Bresser Pereira, o economista dos bancos e do grande capital. Notável pela participação nos governos do PSDB e amigo de Fernando Henrique Cardoso. Na Defesa poderiam estar Aldo Rebello ou Raul Jungmann, este último já elogiado por Bolsonaro. Somos nós os loucos – ou o general pirou?
Bolsonaro deve estar se perguntando: “Até tu, Mourão?”
Só vcs esquerdopatas e mal perdedores estão enxergando GOLPE !!! Vcs são um bando de malucos vão pra Cuba e deixem a gente em paz pooorraaaa
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Obrigado pelo comentário. Continue participando. Aliás, sou cristão.
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