Livraria Cultura lança Assalto ao Poder em São Paulo

Na última quinta-feira, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073) lançou “Assalto ao Poder” para o grande público de São Paulo. O evento reuniu mais de uma centena de pessoas, entre convidados e leitores. O autor autografou dezenas de exemplares.

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Lançamento de “Assalto ao Poder” em São Paulo

Lançamento de “Assalto ao Poder” em São Paulo

A Editora Record e a Livraria Cultura convidam para o lançamento do livro “Assalto ao Poder: o Crime Organizado” de Carlos Amorim.

Dia 29 de julho, quinta-feira, às 19h.

Livraria Cultura, Loja Record
Av. Paulista, 2073
São Paulo, SP
Tel.: (11) 3170-4033

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O país das iniqüidades!

Recentemente, em entrevista à revista Veja (Páginas Amarelas de 7 de julho), o presidente da Suprema Corte, ministro Cezar Peluso, declarou: “Quem pode pagar os serviços de bons advogados, consegue chegar ao Supremo Tribunal Federal. Os outros não conseguem. Isso se chama, na prática, iniqüidade. Casos iguais, tratamentos diferentes”. Com essa frase simples, porém de complexa profundidade, o ministro Peluso escancara o problema da Justiça no país. Indiretamente, ele confirma uma das teses mais importantes do meu novo livro, o “Assalto ao Poder”, que acaba de ser publicado pela Editora Record: a dissimetria de classe na prática da Justiça e a influência do poder econômico em seus resultados.

Já estamos carecas de saber que a Lei se abate com extremo rigor sobre os desprotegidos. Pobres e ricos vão para a cadeia em nosso país, mas somente os primeiros ficam presos e cumprem longas sentenças de encarceramento. Essa é a dissimetria de classe. O Direito no Brasil é baseado nos princípios da ampla defesa e na “presunção da inocência” até a última sentença transitada em julgado. Isto é o que permite que pessoas de posse, as classes abastadas, consigam responder processos em liberdade. E esses processos podem durar toda uma vida. Assim, ficam soltos, apesar de crimes públicos e notórios. Setenta milhões de processos se arrastam pelos corredores do Judiciário, sob o peso da burocracia, incompetência e corrupção. A afirmação é do próprio Conselho Nacional de Justiça.

Os pobres – as chamadas “classes perigosas” – não têm dinheiro para usufruir de todos os recursos da Lei. Esses dependem das Defensorias Públicas, onde os advogados são obrigados a lidar com dezenas de milhares de processos penais ao mesmo tempo. E não conseguem oferecer as condições ideais de defesa a seus clientes. Podem ser dedicados e até competentes, mas faltam os instrumentos para criar uma Justiça mais rápida e eficaz. Resultado: cadeia para os desprotegidos. Outra questão perversa: parte dos condenados, que lotam as prisões – talvez uns 5% deles – já cumpriram suas penas e continuam encarcerados.

Vale observar um dado importante: na sociedade brasileira, as leis são produzidas pelas elites econômicas e políticas, a maior parte das vezes em benefício próprio. Quando foi criado o imposto de renda e a Receita Federal no Brasil dos anos 1920, o Senado aprovou uma lei para que os produtores rurais não pagassem a taxa, sob pretexto de que eram geradores de alimentos. É claro – a maioria do Senado era composta por proprietários de terras. Neste ano de 2010, tanto tempo depois, uma iniciativa popular, apoiada em quase dois milhões de assinaturas, levou ao Legislativo o projeto “Fichas Limpas”, destinado a impedir que políticos com condenações administrativas e criminais pudessem disputar eleições. Quase 40% dos parlamentares estariam incluídos, de uma forma ou de outra, em processos judiciais. Resultado: a iniciativa popular, no Congresso, foi travestida em outra coisa. Virou letra morta. Talvez seja eficaz daqui a muitos anos, quando as sentenças transitarem em julgado. Enquanto isso, os políticos vão dispor de fóruns especiais e outros privilégios que faltam ao cidadão comum. Qualquer brasileiro que atrase prestações de um eletrodoméstico, sem apreciação judicial, fica impedido de obter crédito, apenas porque bancos e financeiras se uniram para “punir” o inadimplente. Mais iniqüidades, quando grandes produtores e industriais devem bilhões de reais aos bancos públicos e aos programas de investimentos.

E assim as coisas vão nesse Patropi sorridente e cheio de iniqüidades. O ministro Peluso tem razão!

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Entrevista com o autor

Entrevista realizada por Rafael Rodrigues para a divulgação de “Assalto ao poder”. Confira o texto na íntegra abaixo:

Olá, Carlos, tudo bem?

Meu nome é Rafael e a assessoria de imprensa da Record me encomendou uma entrevista com você, sobre “Assalto ao poder”. Peço desculpas por enviar as perguntas um tanto quanto em cima da hora, mas aí vão elas.

Atenciosamente,

Rafael Rodrigues

Rafael Rodrigues: Quando você começou a escrever o primeiro volume da sua trilogia sobre o crime organizado (“Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”) você já imaginava que escreveria não apenas um, mas vários livros sobre o assunto?

Carlos Amorim: Comecei a me interessar pelo tema depois de ficar encurralado num tiroteio que durou onze horas. Estava produzindo um episódio do globo repórter chamado ‘a escalada do crime’, em  1981, quando fui filmar uma ação policial no conjunto dos bancários, na Rua Altinópolis, Ilha do Governador. Me defrontei com o episódio que ficou conhecido como ‘quatrocentos contra um’. Um assaltante de bancos, José Jorge Saldanha, o Zé do Bigode, resistiu durante onze horas contra um cerco policial que reuniu 400 dos melhores homens da polícia do Rio. Ele matou vários desses policiais e feriu muitos outros. Quatro mil tiros foram disparados e 40 granadas foram lançadas contra o prédio. Em diversos momentos, Zé do Bigode ia até uma das janelas e gritava: “podem vir, seus merdas, aqui é o Comando Vermelho”. Quando vi o corpo do bandido, não acreditei: era um homem de 1.59 de altura, meio gordinho, não dava para acreditar. A altura dele e o aspecto físico não faziam juz a tamanha coragem. Foi pesquisando a história dele que cheguei à primeira organização de presos comuns da história penal brasileira, criada dois anos após a anistia aos presos políticos, com quem esses criminosos comuns conviveram no Complexo Penitenciário da Frei Caneca e – especialmente – na Ilha Grande. A pesquisa começou em 1981 e terminou em 1992, quando comecei a escrever o ‘Comando Vermelho’. Foram dois anos de redação difícil e preocupada, porque era a primeira revelação da extensão do problema do crime organizado nas cadeias. O primeiro livro saiu em 1994 – e dez anos depois achamos, eu e os editores, que estava na hora de rever todo o cenário. Disto surgiu “CV_PCC – a irmandade do crime”, publicado em 2004. Com os dois livros publicados, que renderam 17 edições no conjunto, senti que chegava a hora de encerrar essa trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil. Os dois primeiros livros foram essencialmente factuais. No terceiro, por se tratar de uma conclusão, exprimo minhas próprias opiniões sobre a matéria e meus sentimentos em relação ao drama que vivemos. Além do mais, faço insistentes correlações com o cenário internacional, para demonstrar que o nosso problema com a violência tem vinculações com o mega-negócio do crime em escala global.

RR: Quanto tempo “Assalto ao poder” levou para ser escrito (contabilizando o período de pesquisas)?

CA: Essa pesquisa, desde o início, já soma quase 28 anos, mais da metade da minha vida. O ‘Assalto ao poder’ consumiu mais de mil horas de redação. Roubou o sono. Questionou todo o conhecimento acumulado sobre o tema. Foi muito difícil escrever esse livro, porque me expus pessoalmente, revelando coisas que aconteceram comigo e com os meus familiares e amigos. Com o terceiro volume da trilogia, me despeço desse tema que nunca me deu alegrias nem qualquer tipo de orgulho por tê-la escrito. Afinal, trata-se da tragédia da infância e da juventude do meu povo e do meu país. Já são duas gerações perdidas para o tráfico e a violência armada, constituindo uma desgraça maior do que os 50 anos de guerra civil na Colômbia. Aqui matamos a bala entre 50 e 56 mil pessoas por ano – muito mais do que o Iraque e o Afeganistão somados. Nenhum autor pode se orgulhar de uma coisa como essa.

RR: Na dedicatória do livro você diz “sobrevivi a este livro e espero não fazer outro igual”. Esta obra foi mais difícil de ser realizada do que as outras? Por quê?

CA: As razões desse meu desânimo são óbvias. Durante mais da metade da minha vida trabalhei sobre o tema, fiz revelações, previsões, denúncias importantes. Dei a cara para bater. E durante todo esse tempo a situação só se agravou. Estive diante do desinteresse de governantes e políticos, não vi quase nenhuma providência para agir sobre as causas da violência. Tudo se resumiu a ações repressivas contra os pobres, as chamadas ‘classes perigosas’. Todo o cenário só fez piorar. Nos últimos anos, com estabilização econômica, programas de distribuição de renda e um pequeno esforço na educação, houve um esboço de políticas públicas que, no final das contas, resultam em redução da violência. Mas não vejo um engajamento dos governos para enfrentar a matança indiscriminada que desaba sobre toda a sociedade – especialmente os desfavorecidos, que sofrem um apartheid social. Mesmo os governos Lula e FHC – os melhores da história da república – desdenharam o problema e repetiram os modelos repressivos. Quando um cientista se debruça sobre o microscópio, tem a oportunidade de descobrir uma vacina ou um novo remédio – mas quando um cientista social se debruça sobre a sociedade e a vida concreta das pessoas, provavelmente as suas conclusões não resultarão em coisa nenhuma. Estão aquém da política e das decisão dos legisladores e dos poderosos de um modo  geral, que sempre agem em benefício próprio. É uma barreira intransponível. Por isso esse livro foi extremamente difícil de escrever – e porque pela primeira vez disse exatamente o que penso sobre a questão, com todas as letras, mesmo sabendo que vai incomodar muita gente. Além do mais, optei por um método de redação ondulante, indo e vindo do passado para o presente, e vice-versa. E colocando exemplos internacionais para demonstrar que não estamos sozinhos nessa tragédia. Enfim, uma tarefa desgastante.

RR: Você já foi alvo de alguma ameaça por causa de seus livros? Tem receio de que isso aconteça?

CA: As minhas principais dificuldades sempre foram com os meios oficiais, que usavam a arma da contra-informação para confundir meu trabalho. Os governos manipulam números e estatísticas para atrapalhas a opinião pública, a imprensa e os pesquisadores. Certa vez, quando agia para libertar cinco policiais brasileiros e uma equipe da TV Globo, todos presos no Paraguai ao perseguir os seqüestradores do empresário Roberto Medina, o secretário de segurança do Rio me aconselhou a comprar uma arma e me concedeu um porte especial para usá-la.  Aceitei imediatamente a proposta: comprei uma PT-57, calibre 7.65, automática, e me dediquei a um curso para aprender a manejá-la. Esta foi a primeira ameaça séria. E a única, graças a deus. Depois da publicação do ‘CV’, recebi um recado do ‘Escadinha’ (José Carlos dos Reis Encina, traficante do Morro do Juramento e fundador do Comando Vermelho): ele dizia que nunca iria me perdoar por publicar a foto da mãe e da mulher dele no meu primeiro livro. Dez anos depois, em 2004, quando dirigia o ‘Domingo Espetacular’, fizemos uma entrevista com o traficante, que já estava em liberdade. No final, através da produtora Lis Beltrão, ele me endereçou um recado: ‘mande ao Amorim um abraço fraternal’, encerrando uma década de silenciosa ameaça. Poucos dias depois, ‘Escadinha’ foi morto com 32 tiros de fuzil na Avenida Brasil. Afora isso, costumava receber cartas, no meu endereço residencial, postadas do presídio de Bangu 1. Eram quase sempre do Dênis (Denir Leandro da Silva, integrante do CV e chefe preso do tráfico de drogas na Favela da Rocinha). Eram endereçadas à minha ex-mulher, a jornalista Cláudia Cruz, e sempre muito educadas, comemorando datas como o dia das Mães e o Natal. E isso foi tudo. Depois de ter publicado o segundo livro (‘CV_PCC – a rmandade do crime’), recebi um recado informando que o Primeiro Comando da Capital não me considerava um pessoa ‘bem quista’. Até sei porque: o livro foi publicado antes da mudança de comando na organização, quando ainda citava os antigos líderes, um deles já assassinado na cadeia. Eu é que estava atrasado na história do PCC.

RR: O que poderia ter sido feito para frear a expansão do crime organizado no Brasil entre 1994 (ano em que “Comando Vermelho” foi publicado) e 2010?

CA: Um olhar mais dedicado dos governantes para a situação de abandono das populações carentes desse enorme Brasil. Somos a oitava economia do mundo, caminhando para a quinta posição com a entrada em operação do pré-sal. No entanto, a falta de oportunidades, a desigualdade e a pobreza foram a base do problema da violência. Insistimos no modelo repressivo, matamos gente pobre, bandidos ou não. No entanto, no alto da pirâmide social, os criminosos de terno Armani usam todos os recursos da lei que são sonegados às pessoas comuns. Invade-se a casa do pobre, sem mandado judicial, mas os agentes federais têm medo de algemar os banqueiros e os políticos envolvidos em falcatruas bilionárias. Sempre fui acusado de tratar criminosos notáveis com educação. Não chamo ninguém de canalha ou monstro, como fazem as emissoras de televisão e a imprensa popular. É que não sei quem é o pior criminoso: aquele que desvia verbas públicas e incendeia a Amazônia, que rouba a merenda escolar e falsifica remédios, ou o desgraçado que assalta e mata no sinal de trânsito? Já me acusaram, inclusive, de fornecer elementos de organização para os grupos criminosos, quando revelo detalhes do processo de formação das organizações criminosas, como se um simples jornalista e escritor pudesse mudar a realidade das coisas.  A violência e o crime têm causas objetivas.

RR: Em sua opinião, legalizar as drogas – ou mesmo apenas a maconha – ajudaria a diminuir o tráfico de drogas no Brasil?

CA: Essa é um  questão complicada. Existe uma grande confusão entre ‘legalização’ das drogas e ‘descriminalização’ do uso de drogas. Punir o consumidor exige um grande esforço de justiça e um gasto de dinheiro equivocado, por se tratar de uma questão de saúde pública. Mas liberar a venda, o tráfico, é outra coisa. Vamos imaginar o seguinte cenário: liberamos a venda da maconha, e como isso será feito? As indústrias do cigarro vão às fontes, todas criminosas, e compram no atacado? Tudo leva à consolidação do crime organizado. Compramos 40 mil hectares de maconha do Paraguai? Compramos todo o ‘polígono da maconha’ do nordeste? Quem manda lá é o CV e o PCC . Haverá uma fusão entre a indústria do fumo e o crime organizado? Some-se a isso o fato de que temos uma infância e a juventude associadas à violência armada: como vamos lidar com isso? As experiências internacionais, no Reino Unido e na Holanda, voltaram atrás. Não deram certo em países desenvolvidos. Mas o problema do consumidor deveria, de fato, ser entendido como um problema de saúde pública. Mas o tráfico é o trafico. Aqui é preciso construir uma política específica: primeiro para entender o tamanho do problema – e depois para apontar soluções. Não sabemos nem uma coisa nem outra.

RR: Parece que hoje os bandidos não se contentam em “apenas” roubar. Eles estupram, espancam, matam. Você arriscaria uma explicação para esse tipo de barbaridade?

CA: Crime e barbárie sempre andaram de mão dadas. Quanto mais você oprime a vítima, mais chances você tem de não ser denunciado. É o medo e a vergonha. O abuso sexual está muito ligado à sensação de que não será denunciado pela vergonha. Apresentar uma queixa à polícia é outro episódio de vergonha: você é mal recebido por um funcionário púbico cansado e de saco cheio da vida. Ele não tem nenhuma solidariedade com o seu sofrimento. Esta ali para cumprir um expediente e mais nada. Dar queixa na polícia é uma inutilidade quase completa. Serve para registrar o roubo de alguma coisa que tenha seguro – e nada mais. Aqueles funcionários públicos não farão nenhuma investigação que não saia nos jornais ou que não apareça na televisão. É perda de tempo. O ataque armado que você sofreu  não vale nada se não estiver na mídia. E se estiver na mídias, o poder público se move com enorme velocidade, para encontrar respostas fáceis. O resto é inútil. Inocentes são punidos. A resposta fácil é sempre a  melhor resposta. Como sabemos, nem sempre a justiça é feita.

RR: Por que algumas pessoas (políticos?) têm uma certa resistência em afirmar que o que acontece no Rio de Janeiro é uma guerra civil?

CA: O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de que o Rio de Janeiro vive um estado de guerra. Foi num momento muito difícil, quando bandidos haviam atacado uma patrulha da PM que guarnecia um ‘altar’ em homenagem ao menino João Hélio, de seis anos, assassinado por assaltantes  do Complexo do Alemão. Nesse momento, o governador assumiu essa guerra civil disfarçada no Rio de Janeiro.  Desde a guerra do Paraguai, há um século e meio, foi a primeira vez que um governante – fora a declaração de hostilidade de Getúlio Vargas contra a Alemanha nazista (1943)  – imaginou um ‘estado de guerra’ entre nós. Nem durante a ditadura militar houve algo parecido. Mas o fato é que o confronto armado entre facções criminosas e o poder público chegou aos níveis que a ONU classifica como ‘guerra de baixa intensidade’.

RR: “Não há vontade popular para punir esses canalhas”, você diz, referindo-se aos políticos corruptos. O povo brasileiro é, de certa forma, omisso aos escândalos políticos? Por que não nos “revoltamos” contra os “ladrões de terno e gravata”? Por medo? Comodismo? Ou simplesmente perdemos a esperança?

CA: O povo Brasileiro sempre se mobilizou em grandes questões, como a campanha do  petróleo é nosso, a campanha das diretas, os caras pintadas, mas nunca se mobilizou nas coisas pequenas, como a punição dos corruptos, os sacanas que se vendem no parlamento.  Isso é sempre entendido como algo do trivial, quase ‘normal’. Curiosamente, a patifaria entrou em nossas vidas de tal maneira, que não surpreende nem assusta mais. É algo do cotidiano. E as pessoas não se mobilizam por casos banais. E – sim – isso é uma forma de desesperança: ‘tudo acaba em pizza’.

RR: No prefácio, Geneton Moraes Neto diz que o bom jornalismo requer “paciência, garimpagem, pesquisa, cruzamento de informações”. Há quem diga que o jornalismo perdeu muito do que ele fala – e você também, ao longo do livro – por “culpa” da internet (no caso, a rapidez com que tudo tem de ser publicado, muitas vezes sem checagem de informações, por exemplo). Qual sua opinião a respeito disso? A internet prejudicou ou ajudou o jornalismo?

CA: A internet é um instrumento fabuloso, que acabou com fronteiras e burlou o controle político e ideológico da informação. É admirável! No entanto, o que circula pela web é frágil de conteúdo e quase sempre apressado. O criador do Google declarou que a ferramenta de trabalho e diversão que ele inventou é um bom ponto de partida para uma pesquisa, mas não é recomendável como ponto final. A possibilidade de erro é muito grande, quase fatal. Há muita porcaria e desinformação intencional na internet. Sinto que nesse momento o jornalismo padece de muitos males – e o principal deles é a falta de cruzamento das informações. Se eu pudesse dar um conselho a alguém que está começando na carreira, diria: nunca aceite a primeira versão dos fatos e busque o contraditório. Outra coisa: não se contente com a cobertura técnica de pequenas coisas e se lance na aventura profissional de contar grandes histórias sobre seu povo, seu país e o tempo em que está vivendo. É disso que vive o bom jornalista. E é disso que as pessoas gostam de ler, ver e ouvir.

RR: Você ainda tem alguma esperança de ver toda essa situação melhorar? A pergunta vai soar piegas, mas é inevitável: o Brasil tem futuro?

CA: O Brasil já está vivendo o seu futuro.  Estamos chegando ao nosso destino de nação rica e poderosa. Esses governos do Lula, inclusive, são a principal marca de tudo isso. Mas estamos chegando ao futuro arrastando o peso do nosso passado. E aqui estou falando da desigualdade, da falta de oportunidade para imensas populações, do descaso e da ignorância de nossos governantes, da falta de cuidado com a vida humana, particularmente em relação às crianças e aos jovens.  O problema da violência é grave e deve piorar, por falta de políticas públicas de longo alcance. Os governantes preferem comprar armas e construir presídios, esquecendo que a solução está no emprego, na educação e na saúde. Além do mais, o abandono é a pior violência, porque se transforma em fábrica de criminosos. Mark Twain já dizia: ‘para cada escola fechada é preciso construir uma cadeia’.

RR: E o seu futuro? Já tem outro livro em mente?

CA: Na verdade, pretendo mudar o tema. Em relação à crise da violência urbana e do crime organizado, já fiz a minha parte. Foram 1.300 páginas impressas. Acho que está de bom tamanho. Pretendo continuar na linha do livro-reportagem, mas vou falar de outras histórias. E também me sinto tentado a enveredar pela ficção.

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Divulgação de Assalto ao Poder

Texto da capa de Assalto ao Poder:

“O crime organizado se infiltra nas instituições democráticas, nas empresas e na política. O país cresce e as elites aproveitam. Mas populações inteiras sofrem o apartheid social. Enquanto isso, o crime corrompe a sociedade de alto a baixo.”

Texto da contracapa:

“Ferido por uma violência sem precedentes, cercado pela corrupção em todos os níveis, ameaçado pelo narcotráfico e pelo terrorismo que se aproxima, o país vive uma confrontação armada nas cidades e no campo. A base do conflito é a desigualdade e as poderosas tensões sociais. Ambas aliadas à incompetência e ao descaso das autoridades, o crime organizado, nacional e globalizado, atinge o grau máximo: O Assalto ao Poder.”

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Lançamento oficial com presença do autor

Assalto ao Poder, “um livro para ler com medo”, como o descreve o próprio Carlos Amorim, já está à venda desde o dia 2 de julho.

O lançamento oficial com presença do autor em São Paulo será no dia 29 de julho no anexo da Editora Record na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em Brasília no Salão Verde do Congresso Nacional na primeira semana de agosto e no Rio de Janeiro na Livraria da Travessa, no Shopping Leblon no dia 13 de setembro com direito a debate ao vivo.

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O que é crime organizado?

Quando a gente pensa em crime organizado, logo vem à mente aquelas imagens dos confrontos armados entre traficantes e as forças públicas. Jovens com fuzis automáticos, pistolas, lançadores de foguetes e metralhadoras sobre as lajes das favelas cariocas. Cenas dessa guerra civil disfarçada estão grampeadas na memória: carros blindados da polícia atingidos por RPGs (Rocket Propulsed Granades, de fabricação russa ou do Leste Europeu); helicópteros danificados e até derrubados por armas anti-aéreas de calibre 30 ou 50 milímetros, sucatas da Segunda Guerra que ainda circulam no mercado negro. Ou são as notícias dos telejornais que dão conta dos assaltos a carros-fortes, bancos e quartéis do Exército em São Paulo, quando os bandidos procuram dinheiro para financiar o tráfico e armas militares para sustentar a resistência das quadrilhas face à autoridade com armamento inferior. Certa vez, num subúrbio do Rio, uma viatura da PM foi dividida ao meio por um RPG, nas bordas do Morro do Juramento: os policiais saíram pela rua, apavorados, batendo nas portas, pedindo socorro para moradores ainda mais apavorados do que eles.

O “crime organizado” também se manifesta nas rebeliões carcerárias. Presídios destruídos, incêndios, adversários das gangues enforcados e decapitados, um horror. Depois do conhecido “massacre do Carandiru” (2 de outubro de 1992, quando 111 presos foram assassinados pela tropa de choque da PM paulista), nenhum governo teve coragem de mandar invadir uma cadeia “virada”. Nas prisões do Rio de Janeiro controladas pelo Comando Vermelho, às seis horas da tarde, os detentos fazem “a hora da Ave Maria”: alguns rezam de verdade, todas as atividades são suspensas, mas a maioria recita numa cantilena o estatuto da organização. Em São Paulo, nas instituições de menores infratores, a mesma rotina: mas os garotos presos cantam o hino do PCC.

Tudo isso é o crime organizado? Sim e não. Esse pessoal está no crime organizado, mas não é o crime organizado. As organizações criminosas que controlam o mercado ilegal são empresas transnacionais. Segundo o diretor do FBI, Robert Muller III, numa prestação de contas para o Congresso dos Estados Unidos (ver http://www.fbi.gov/hq/cid/orgcrime/ocshome.htm), crime organizado é uma operação mundial de cerca de 250 “empresas criminosas”, que auferem um lucro anual de 1 trilhão de dólares. Entre elas estão as quatro Máfias italianas (siciliana, napolitana, calabresa e romana); os cartéis colombianos e mexicanos; a Yakuza (Japão); as Tríades (China); os cartéis nigerianos, somalis e sul-africanos; os Dragões Vermelhos (Vietnã, Laos e Cambodja), especializados na produção de papoulas, ópio e heroína; a Máfia Russa e suas ramificações por todo o Leste Europeu, que controla a lavagem de dinheiro e o contrabando de armas. Trata-se de um conglomerado de “negócios criminosos” que gere o mercado ilegal em estaca global. Este é o cerne do crime organizado, que delega para baixo as tarefas do submundo.

Diante disto, nossos bandidos, incluindo os do colarinho branco, são raia miúda. No entanto, o crime organizado está bem estabelecido entre nós. Para um melhor entendimento, coloco aqui o significado da “pirâmide do crime”, de baixo para cima:

No quinto escalão está o pessoal da venda de drogas no varejo, também envolvido em seqüestros, roubo armado, aluguel de armas, ataques a bancos e cargas. Tem base comunitária e recruta mão de obra no próprio local de moradia, especialmente favelas e bairros populares desassistidos. Pratica ações sociais locais, de modo a aumentar sua própria proteção com base na lei do silêncio. Eventualmente, a população do bairro se mobiliza em questões muito particulares, como violência policial, enchentes, atropelamentos de crianças e outras falhas do poder público. Fica aquela impressão de que o bandido é melhor do que a polícia. Nesse caso, a ausência do Estado é tão evidente, que o pessoal do movimento se estabelece. Como diria o extraordinário pensador marxista egípcio Eric Hobsbaw, em seu livro “Bandidos” (Forense, 1976), “os bandidos com inclinação social são amados e temidos pelo povo”. É uma simbiose estimulada pela ausência do poder público. Nas comunidades pobres, o tráfico de drogas é o principal fator econômico, inclusive gerador de empregos, seguido pelo setor de material de construção (as favelas eram de madeira e papelão e agora são de alvenaria) e o comércio varejista de alimentos. Só para esclarecer: as tarefas de infra-estrutura do tráfico empregam dezenas e dezenas de milhares de pessoas em todo o país. Trata-se do trabalho de misturar a droga com outras substâncias, pesar, embalar (a “endolação”) e outras coisas mais. Nem só de “soldados” vive o movimento. Em geral, são crianças e adolescentes que se empregam nessa ocupação de preparar o veneno nosso de cada dia. Boa parte é composta de meninas, que os traficantes consideram mais “honestas”.

No quarto escalão está o movimento criminal que conseguiu estabelecer conexões para fora do seu próprio ambiente, além da favela e da periferia. Esses estão em linha com as organizações municipais e estaduais, como o CV e o PCC, que levam até eles um sentimento de organização maior, que pode ter ramificações nacionais. Percebe-se nesse contexto uma atuação diversificada, onde elementos de um estado vão para outros e desenvolvem ações articuladas no tráfico, no roubo armado e no contrabando de armas. Aqui há um toque de organização, incluindo planos de libertação de companheiros. Ações espetaculares de roubos a banco nas cidades do interior, novas rotas do tráfico fora das capitais, ataques a delegacias e presídios também resultam dessa articulação. Esse pessoal já está num nível diferenciado. Costuma usar uniformes camuflados e máscaras, armas pesadas, chegando a intimidar toda a população de uma pequena cidade. Opera semelhante a uma guerrilha. Esse time também estabelece as pontes entre a rua e a cadeia – e vice-versa. Cumpre ordens de líderes presos, como no caso da onda de ataques do PCC contra a autoridade pública em São Paulo, em maio e junho de 2006. Partiu desse escalão o seqüestro de uma equipe de reportagem da TV Globo, obrigando a emissora a transmitir em rede nacional um vídeo-manifesto do PCC, em 12 e 13 de agosto de 2006. A primeira exibição do vídeo foi local, apenas em São Paulo, tarde da noite, mas os bandidos só ficaram satisfeitos quando o material apareceu no Fantástico.

No terceiro escalão estão os homens que conseguiram contato com organizações internacionais e até transnacionais. Estes – entre eles Fernandinho Beira-Mar, do CV, e o Comendador (Arcanjo Ribeiro, hoje preso no Uruguai), que controlou o tráfico de maconha do Paraguai para o Brasil durante anos – estão num escalão superior. Há o exemplo histórico do contraventor carioca Toninho Turco (Antônio José Nicolau), que no início dos anos 1980 criou a primeira interface entre os produtores de cocaína do Cartel de Medellín e as favelas cariocas. Toninho Turco tratava diretamente com Pablo Escobar. A quadrilha formada pelo contraventor tinha 91 integrantes, dos quais 61 eram policiais e ex-policiais. Toninho Turco foi morto numa operação da Polícia Federal e do Exército, em 11 de fevereiro de 1987. Este escalão do crime organizado é – em termos de bandidagem – o mais avançado que existe. Mesmo assim, longe dos criminosos de colarinho branco. Além do mais, o Brasil se tornou um mercado consumidor de drogas e armas tão importante, que os próprios chefões colombianos vieram para cá. Basta lembrar a prisão do megatraficante Néstor Ramón Caro-Chaparro, ocorrida em 10 de abril deste ano. Néstor era procurado pelo DEA norte-americano, que oferecia 5 milhões de dólares de recompensa pela prisão. Foi encontrado num apartamento de frente para o mar de Copacabana. Antes dele, os federais brasileiros já haviam apanhado Juan Carlos Abadia, o chefe do Cartel Del Norte, em São Paulo, no dia 8 de agosto de 2007. Esta é uma breve apresentação do terceiro time do crime organizado.

No segundo escalão estão os produtores e exportadores de drogas e armas, os homens que manipulam a pirataria de produtos e serviços, os cyber crimes, o tráfico de seres humanos e de órgãos, controlando governos e exércitos. Estão no poder em várias partes do mundo, especialmente na África, na Ásia e no leste europeu. A Máfia italiana é ainda hoje uma das principais organizações controladoras dessa gigantesca operação criminal. Mas há surpresas: segundo o FBI, os cartéis nigerianos, com forte atuação no Brasil, já comandam 80% do tráfico de drogas do oriente para as Américas. Em Kano, a segunda maior cidade da Nigéria, até recentemente havia um terminal aeroportuário, protegido pelo exército nacional, que funcionava exclusivamente para o tráfico. O segundo time do crime organizado é conhecido de governos e serviços de inteligência – mas não do grande público. Pelo menos um deles esteve entre nós, o magnata russo Bóris Berezovisky. De acordo com o Ministério Público de São Paulo, ele tentou comprar o Corinthians, a Varig e emissoras de televisão. Foi preso e libertado por falta de provas. Os promotores do GAECO acreditam que ele é um dos “poderosos chefões” da Máfia Russa. De acordo com o jornalista e escritor Misha Glenny, autor de MacMafia (Companhia das Letras, 2008) Berezovisky foi um dos principais responsáveis pela primeira eleição de Vladimir Putin à presidência da Federação Russa. Isso nos dá uma idéia do calibre desse pessoal. Esses homens estão diretamente envolvidos na luta pelo poder, inclusive como financiadores do terrorismo.

Agora chegamos ao primeiro escalão do crime organizado, também conhecido como “a face oculta do crime”. Aqui o pessoal fala inglês, alemão, russo, um pouco de espanhol e até idiomas exóticos. Nenhum deles é ou foi favelado ou mora em periferias. São cidadãos acima de qualquer suspeita em seus países, vestem paletós Armani e ocupam luxuosos escritórios nos principais centros financeiros do mundo. Operam no mercado de capitais e controlam enormes operações financeiras, que chegam à incrível cifra de 1,5 trilhão de dólares/ano. (Alguns autores acreditam que o volume de dinheiro ilegal passa dos 3 trilhões de dólares.) A maioria deles é composta de banqueiros e financistas. E todos se consideram homens de negócio bem-sucedidos. Não põem a mão na sujeira, ficam muito longe das matanças e das misérias do vício. No mercado clandestino, a taxa de juros é de 1% ao dia, em dólar. (Para detalhes, ver “Negócios Ilícitos Transformados em Atividades Legais”, Futura, 2001, do professor inglês Peter Lilley.) E não importa se os investimentos vão para as plantações de papoula na Ásia, ou para a folha de coca colombiana, ou para guerras étnicas na África, ou para o terrorismo.

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Lançamento de “O Assalto ao Poder”

Chega às livrarias no próximo dia 2 de julho o terceiro volume da minha trilogia sobre violência urbana e crime organizado: “O Assalto ao Poder”. É a conclusão de uma pesquisa que consumiu 27 anos de trabalho e que encerra meu envolvimento com essa matéria. Produzido pela Editora Record, com 630 páginas, incluindo encarte de fotos e documentos, o livro defende a tese de que o crime organizado pretende a tomada do poder, através da infiltração nas instituições democráticas e governamentais, nas empresas legais e por meio de atuação política direta. Dispondo de enormes recursos econômicos e financeiros, empresas criminosas espelhadas por todos os continentes já conseguiram realizar seus projetos de poder em incontáveis países da África, Ásia e Leste Europeu. Agora estendem seus tentáculos sobre as Américas, especialmente na Colômbia, Bolívia, Peru, México e Brasil.

O “Assalto ao Poder” revela muitos bastidores da luta subterrânea dessas organizações criminosas, estabelecendo correlações históricas, tanto nacionais quanto internacionais. O leitor interessado nessas questões encontra no livro uma narrativa que expõem o drama das populações pobres, contrastado com as oportunidades de desenvolvimento que beneficiam as elites.

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Adiado lançamento de “O Assalto”

Nota: “O Assalto ao Poder” será lançado no dia 2 de julho. Para mais informações veja: https://carlosamorim.com/2010/06/25/lancamento-de-“o-assalto-ao-poder”

“Crime Organizado: O Assalto ao Poder”, terceiro volume da minha trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil, teve o lançamento adiado. Estava previsto para chegar às livrarias em 28 de maio, mas ficou para a primeira semana de julho.

O motivo do atraso foram acréscimos do autor ao texto original e a inclusão de um caderno de fotos, documentos e ilustrações.

Perdemos um mês, mas ganhamos em qualidade editorial e gráfica.

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O confronto esperado que não vai acontecer

Artigo publicado na coluna de Luís Nassif no IG.

Quem espera um grande confronto armado entre as forças de segurança e as organizações ligadas ao tráfico de drogas, durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, está enganado. Governantes e bandidos têm uma longa tradição de acordos e acertos nesses períodos de grandes eventos. E isso inclui o carnaval e os festejos de Ano Novo, quando milhões de turistas estão entre nós e há grande visibilidade do Brasil no exterior. Durante a ECO92, encontro dos chefes de Estado mais importantes do mundo, para tratar da questão ambiental, no Rio de Janeiro, os índices de criminalidade caíram verticalmente.

As Forças Armadas ocuparam a Cidade Maravilhosa com 20 mil soldados, carros blindados e helicópteros. Havia tanques de guerra na subida de favelas populosas como a Rocinha, o Vidigal e o Complexo do Alemão, antes territórios de violentas disputas entre quadrilha do tráfico. Naqueles dias, de 3 a 14 de junho de 1992, os canhões estavam apontados para o cenário das batalhas do crime, as pessoas dirigiam seus carros com os vidros abertos; ninguém tinha medo de parar nos sinais de trânsito; havia ambulâncias militares espalhadas em pontos estratégicos, assim como centros de comunicação; soldados armados com fuzis FAL-7.62 em todos os lugares. No mar, fragatas da Marinha, armadas com mísseis, patrulhavam a praia de Copacabana, onde estavam hospedados os líderes mundiais. Uma “força de intervenção rápida” ficou estacionada na Base Aérea do Galeão, bem ao lado do aeroporto internacional – e no coração das áreas confrontadas pelo Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando (TC ou 3C) e a ADA (a organização criminosa chamada de Amigos dos Amigos, nomenclatura que segue a longa tradição da Máfia).

O único incidente entre os militares e os traficantes ocorreu numa favela que fica nos fundos do Batalhão dos Fuzileiros Navais, nas proximidades da Ilha do Fundão e das instalações da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um pelotão de 18 homens dos nossos “marines”, equipado com uniforme completo de combate, deu de cara com um “bonde” dos traficantes. Os bandidos transportavam drogas para seus locais de esconderijo na favela. O primeiro dos bandidos na fila disparou uma pistola automática 9mm contra um cabo dos fuzileiros, armado com uma carabina Winchester, semi-automática, calibre 12. A arma pode derrubar um elefante com um único tiro. Mas o nosso bem treinado “marine” não revidou, porque um tiro da sua arma poderia provocar um enorme estrago entre os “civis” que transitavam na área. Além do mais, o militar estava usando colete à prova de balas e um capacete Klevar, invulnerável, o mesmo que usam os Marines de verdade nas batalhas no Iraque e no Afeganistão. Essa foi a única confrontação ocorrida durante a ECO92.

Nos Jogos Panamericanos de 2007, também no Rio, os maiores crimes foram atribuídos ao superfaturamento de obras públicas, como a construção de estádios e outras facilidades para a competição – mais do que aos episódios de criminalidade. De novo, assistimos ao incremento da segurança. À queda dos índices de violência. Turistas e torcedores de todos os matizes caminhavam pelas ruas do Rio sem as ameaças costumeiras. Por que? Porque valia o acordo de sempre: a polícia não entra nas favelas e nas comunidades pobres controladas pelo tráfico. Em troca, as organizações criminosas combatem o crime avulso, aquele do sinal de trânsito, na origem. O criminoso avulso é reprimido dentro de casa, enquanto que a autoridade pública se afasta dos grupos organizados. Só pelo tempo em que dura o evento internacional, com cobertura da mídia mundial. Imediatamente após a retirada dos “estrangeiros”, voltamos a viver a ciranda da violência e do conflito armado.

Para os bandidos, a principal conseqüência do incremento da segurança é o aumento do preço do grama das drogas, tanto a cocaína, quanto a maconha ou as drogas sintéticas, entre elas o ecstasy, o LSD, a Super K e outros combinados químicos que agitam as baladas nas grandes cidades. A pressão das forças de segurança na entrada das bocas-de-fumo provoca a elevação dos preços e o desenvolvimento de outras formas de entrega das drogas, combinada por telefones celulares ou pela internet. Disto surgiu o Disk-Drogas, no mundo virtual, muito mais eficiente do que a compra direta nas favelas. E – pior – envolveu a juventude de classe média alta, que domina o mundo dos computadores. Cada vez mais os jovens ricos se envolvem com o tráfico. Justamente porque tem acesso aos meios eletrônicos. Para os governantes, a redução da violência tem saldo político: realizamos eventos de escala global sem maiores problemas. Esta foi – inclusive – uma das argumentações do Rio para vencer a escolha para sediar os Jogos Olímpicos de 2016.

Neste momento, quando nos colocamos diante de grandes datas internacionais do esporte, quando o Brasil se posiciona entre os países mais qualificados para acolher acontecimentos de grande porte, o problema da negociação entre governantes e o crime assume proporções impressionantes. Como vamos garantir a segurança desses eventos? Só através de negociação com as forças armadas do submundo. Como assegurar que os milhares de visitantes estrangeiros tenham uma passagem pacífica pelas nossas maiores cidades? Por meio de um acordo. E que acordo é esse? Simples: repetir as experiências anteriores. A polícia não entra nas favelas e bairros controlados pelo tráfico – e as organizações criminosas não permitem que o crime avulso se apresente aos passaportes estrangeiros, por meio do convencimento ou da violência.

Quando ocorreram os famosos “arrastões” na praia de Ipanema, os chefes do tráfico puniram os menores envolvidos. Em Vigário Geral, os homens do CV deram um tiro de 38 na mão dos meninos envolvidos na ação contra os banhistas. Eles foram flagrados pela TV-Globo gritando: “Chegou, chegou o Bonde do Mal de Vigário Geral”. Foram punidos. Na favela de Parada de Lucas, tiveram as mãos quebradas com golpes de marretas ordenados pelo traficante Robertinho de Lucas. E as sentenças foram executadas em público – e com a celeridade da Lei do Cão.

Esses acordos nunca escritos, mas negociados ao pé do ouvido por políticos, cabos eleitorais e até por enviados da própria polícia, servem também nos períodos eleitorais, quando os candidatos precisam subir os morros ou pisar no barro das periferias. Quando se candidatou e venceu as eleições para o governo fluminense, em 1986, Wellington Moreira Franco (PMDB) fez campanha nas favelas. Antes, seus cabos eleitorais negociaram com o Comando Vermelho, para obter a permissão de chegar perto dos pobres. A primeira experiência foi no morro do Juramento, nos subúrbios do Rio, controlado pelo traficante José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, um dos fundadores do CV. Moreira Franco, mais tarde, comentou comigo: “havia gente armada para todo lado” (para detalhes, ver “Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”, de minha autoria – Record, 1994).

Depois de se eleger numa disputa apertada, Moreira Franco jogou duro contra os criminosos: construiu o presídio de Bangu Um, a primeira prisão de segurança do país, e encarcerou toda a liderança do tráfico. Um dos seus principais organizadores de rua durante a campanha, Jorge Miguel, o Miguelão, foi morto a tiros. O governador sofreu dois atentados a bala. Alguma coisa deu errado depois da eleição.

Exemplo mais recente têm data em maio de 2006: no auge dos ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC, contra a autoridade pública em São Paulo, que resultaram em 275 atentados a tiros e bombas, resultando na morte de mais de uma centena de pessoas, o governo paulista decidiu negociar com a organização criminosa. Um avião do governo de Cláudio Lembo, que substituía Geraldo Alkimim (então candidato à presidência), deixou a capital com destino a Presidente Bernardes. À bordo estavam um delegado do Deic, um coronel da PM (comandante do policiamento do interior) e uma advogada. Foram conversar com o preso Marcos Herbas Camacho, o Marcola, apontado pela polícia como o “poderoso chefão” do PCC. Queriam o fim da violência em troca de melhorias nas condições carcerárias. Os negociadores chegaram a levar dois telefones celulares para Marcola, através dos quais pudesse se comunicar com os seus companheiros em outros presídios. Ele se recusou. Mesmo depois do encontro, que durou horas, a campanha terrorista do PCC continuou. (Para detalhes, ver “O assalto ao poder”, também de minha autoria, a ser publicado em maio pela Editora Record.)

No caso atual do Rio de Janeiro, frente à Copa do Mundo (o encerramento deve ser no Maracanã) e às Olimpíadas, passando por uma eleição presidencial e para governador, há um elemento complicador. Hoje há sete forças armadas envolvidas na guerra civil carioca: o CV, o TC, a ADA, as Milícias (formadas por policiais, ex-policiais e bombeiros), além das polícias civil, militar e federal. Cada uma delas tem interesse distinto no conflito. As polícias mal se falam entre si, desenvolvendo operações paralelas. Os bandidos não conversam – eles preferem se matar mesmo, para resolver questões territoriais. Assim, nesse quadro tão complexo, os negociadores vão ter que ser muito hábeis. Mas a confrontação armada durante os eventos é improvável, quase impossível. Amém.

*Carlos Amorim é jornalista e escritor, autor de “Comando Vermelho –  A história secreta do crime organizado”.

Também autor de “CV_PCC – A Irmandade do crime”. E de “Assalto ao Poder – O crime organizado”. Uma trilogia sobre o crime organizado  e a violência urbana que desafia o Brasil há mais de 25 anos.

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