Entrevista realizada por Rafael Rodrigues para a divulgação de “Assalto ao poder”. Confira o texto na íntegra abaixo:
Olá, Carlos, tudo bem?
Meu nome é Rafael e a assessoria de imprensa da Record me encomendou uma entrevista com você, sobre “Assalto ao poder”. Peço desculpas por enviar as perguntas um tanto quanto em cima da hora, mas aí vão elas.
Atenciosamente,
Rafael Rodrigues
Rafael Rodrigues: Quando você começou a escrever o primeiro volume da sua trilogia sobre o crime organizado (“Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”) você já imaginava que escreveria não apenas um, mas vários livros sobre o assunto?
Carlos Amorim: Comecei a me interessar pelo tema depois de ficar encurralado num tiroteio que durou onze horas. Estava produzindo um episódio do globo repórter chamado ‘a escalada do crime’, em 1981, quando fui filmar uma ação policial no conjunto dos bancários, na Rua Altinópolis, Ilha do Governador. Me defrontei com o episódio que ficou conhecido como ‘quatrocentos contra um’. Um assaltante de bancos, José Jorge Saldanha, o Zé do Bigode, resistiu durante onze horas contra um cerco policial que reuniu 400 dos melhores homens da polícia do Rio. Ele matou vários desses policiais e feriu muitos outros. Quatro mil tiros foram disparados e 40 granadas foram lançadas contra o prédio. Em diversos momentos, Zé do Bigode ia até uma das janelas e gritava: “podem vir, seus merdas, aqui é o Comando Vermelho”. Quando vi o corpo do bandido, não acreditei: era um homem de 1.59 de altura, meio gordinho, não dava para acreditar. A altura dele e o aspecto físico não faziam juz a tamanha coragem. Foi pesquisando a história dele que cheguei à primeira organização de presos comuns da história penal brasileira, criada dois anos após a anistia aos presos políticos, com quem esses criminosos comuns conviveram no Complexo Penitenciário da Frei Caneca e – especialmente – na Ilha Grande. A pesquisa começou em 1981 e terminou em 1992, quando comecei a escrever o ‘Comando Vermelho’. Foram dois anos de redação difícil e preocupada, porque era a primeira revelação da extensão do problema do crime organizado nas cadeias. O primeiro livro saiu em 1994 – e dez anos depois achamos, eu e os editores, que estava na hora de rever todo o cenário. Disto surgiu “CV_PCC – a irmandade do crime”, publicado em 2004. Com os dois livros publicados, que renderam 17 edições no conjunto, senti que chegava a hora de encerrar essa trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil. Os dois primeiros livros foram essencialmente factuais. No terceiro, por se tratar de uma conclusão, exprimo minhas próprias opiniões sobre a matéria e meus sentimentos em relação ao drama que vivemos. Além do mais, faço insistentes correlações com o cenário internacional, para demonstrar que o nosso problema com a violência tem vinculações com o mega-negócio do crime em escala global.
RR: Quanto tempo “Assalto ao poder” levou para ser escrito (contabilizando o período de pesquisas)?
CA: Essa pesquisa, desde o início, já soma quase 28 anos, mais da metade da minha vida. O ‘Assalto ao poder’ consumiu mais de mil horas de redação. Roubou o sono. Questionou todo o conhecimento acumulado sobre o tema. Foi muito difícil escrever esse livro, porque me expus pessoalmente, revelando coisas que aconteceram comigo e com os meus familiares e amigos. Com o terceiro volume da trilogia, me despeço desse tema que nunca me deu alegrias nem qualquer tipo de orgulho por tê-la escrito. Afinal, trata-se da tragédia da infância e da juventude do meu povo e do meu país. Já são duas gerações perdidas para o tráfico e a violência armada, constituindo uma desgraça maior do que os 50 anos de guerra civil na Colômbia. Aqui matamos a bala entre 50 e 56 mil pessoas por ano – muito mais do que o Iraque e o Afeganistão somados. Nenhum autor pode se orgulhar de uma coisa como essa.
RR: Na dedicatória do livro você diz “sobrevivi a este livro e espero não fazer outro igual”. Esta obra foi mais difícil de ser realizada do que as outras? Por quê?
CA: As razões desse meu desânimo são óbvias. Durante mais da metade da minha vida trabalhei sobre o tema, fiz revelações, previsões, denúncias importantes. Dei a cara para bater. E durante todo esse tempo a situação só se agravou. Estive diante do desinteresse de governantes e políticos, não vi quase nenhuma providência para agir sobre as causas da violência. Tudo se resumiu a ações repressivas contra os pobres, as chamadas ‘classes perigosas’. Todo o cenário só fez piorar. Nos últimos anos, com estabilização econômica, programas de distribuição de renda e um pequeno esforço na educação, houve um esboço de políticas públicas que, no final das contas, resultam em redução da violência. Mas não vejo um engajamento dos governos para enfrentar a matança indiscriminada que desaba sobre toda a sociedade – especialmente os desfavorecidos, que sofrem um apartheid social. Mesmo os governos Lula e FHC – os melhores da história da república – desdenharam o problema e repetiram os modelos repressivos. Quando um cientista se debruça sobre o microscópio, tem a oportunidade de descobrir uma vacina ou um novo remédio – mas quando um cientista social se debruça sobre a sociedade e a vida concreta das pessoas, provavelmente as suas conclusões não resultarão em coisa nenhuma. Estão aquém da política e das decisão dos legisladores e dos poderosos de um modo geral, que sempre agem em benefício próprio. É uma barreira intransponível. Por isso esse livro foi extremamente difícil de escrever – e porque pela primeira vez disse exatamente o que penso sobre a questão, com todas as letras, mesmo sabendo que vai incomodar muita gente. Além do mais, optei por um método de redação ondulante, indo e vindo do passado para o presente, e vice-versa. E colocando exemplos internacionais para demonstrar que não estamos sozinhos nessa tragédia. Enfim, uma tarefa desgastante.
RR: Você já foi alvo de alguma ameaça por causa de seus livros? Tem receio de que isso aconteça?
CA: As minhas principais dificuldades sempre foram com os meios oficiais, que usavam a arma da contra-informação para confundir meu trabalho. Os governos manipulam números e estatísticas para atrapalhas a opinião pública, a imprensa e os pesquisadores. Certa vez, quando agia para libertar cinco policiais brasileiros e uma equipe da TV Globo, todos presos no Paraguai ao perseguir os seqüestradores do empresário Roberto Medina, o secretário de segurança do Rio me aconselhou a comprar uma arma e me concedeu um porte especial para usá-la. Aceitei imediatamente a proposta: comprei uma PT-57, calibre 7.65, automática, e me dediquei a um curso para aprender a manejá-la. Esta foi a primeira ameaça séria. E a única, graças a deus. Depois da publicação do ‘CV’, recebi um recado do ‘Escadinha’ (José Carlos dos Reis Encina, traficante do Morro do Juramento e fundador do Comando Vermelho): ele dizia que nunca iria me perdoar por publicar a foto da mãe e da mulher dele no meu primeiro livro. Dez anos depois, em 2004, quando dirigia o ‘Domingo Espetacular’, fizemos uma entrevista com o traficante, que já estava em liberdade. No final, através da produtora Lis Beltrão, ele me endereçou um recado: ‘mande ao Amorim um abraço fraternal’, encerrando uma década de silenciosa ameaça. Poucos dias depois, ‘Escadinha’ foi morto com 32 tiros de fuzil na Avenida Brasil. Afora isso, costumava receber cartas, no meu endereço residencial, postadas do presídio de Bangu 1. Eram quase sempre do Dênis (Denir Leandro da Silva, integrante do CV e chefe preso do tráfico de drogas na Favela da Rocinha). Eram endereçadas à minha ex-mulher, a jornalista Cláudia Cruz, e sempre muito educadas, comemorando datas como o dia das Mães e o Natal. E isso foi tudo. Depois de ter publicado o segundo livro (‘CV_PCC – a rmandade do crime’), recebi um recado informando que o Primeiro Comando da Capital não me considerava um pessoa ‘bem quista’. Até sei porque: o livro foi publicado antes da mudança de comando na organização, quando ainda citava os antigos líderes, um deles já assassinado na cadeia. Eu é que estava atrasado na história do PCC.
RR: O que poderia ter sido feito para frear a expansão do crime organizado no Brasil entre 1994 (ano em que “Comando Vermelho” foi publicado) e 2010?
CA: Um olhar mais dedicado dos governantes para a situação de abandono das populações carentes desse enorme Brasil. Somos a oitava economia do mundo, caminhando para a quinta posição com a entrada em operação do pré-sal. No entanto, a falta de oportunidades, a desigualdade e a pobreza foram a base do problema da violência. Insistimos no modelo repressivo, matamos gente pobre, bandidos ou não. No entanto, no alto da pirâmide social, os criminosos de terno Armani usam todos os recursos da lei que são sonegados às pessoas comuns. Invade-se a casa do pobre, sem mandado judicial, mas os agentes federais têm medo de algemar os banqueiros e os políticos envolvidos em falcatruas bilionárias. Sempre fui acusado de tratar criminosos notáveis com educação. Não chamo ninguém de canalha ou monstro, como fazem as emissoras de televisão e a imprensa popular. É que não sei quem é o pior criminoso: aquele que desvia verbas públicas e incendeia a Amazônia, que rouba a merenda escolar e falsifica remédios, ou o desgraçado que assalta e mata no sinal de trânsito? Já me acusaram, inclusive, de fornecer elementos de organização para os grupos criminosos, quando revelo detalhes do processo de formação das organizações criminosas, como se um simples jornalista e escritor pudesse mudar a realidade das coisas. A violência e o crime têm causas objetivas.
RR: Em sua opinião, legalizar as drogas – ou mesmo apenas a maconha – ajudaria a diminuir o tráfico de drogas no Brasil?
CA: Essa é um questão complicada. Existe uma grande confusão entre ‘legalização’ das drogas e ‘descriminalização’ do uso de drogas. Punir o consumidor exige um grande esforço de justiça e um gasto de dinheiro equivocado, por se tratar de uma questão de saúde pública. Mas liberar a venda, o tráfico, é outra coisa. Vamos imaginar o seguinte cenário: liberamos a venda da maconha, e como isso será feito? As indústrias do cigarro vão às fontes, todas criminosas, e compram no atacado? Tudo leva à consolidação do crime organizado. Compramos 40 mil hectares de maconha do Paraguai? Compramos todo o ‘polígono da maconha’ do nordeste? Quem manda lá é o CV e o PCC . Haverá uma fusão entre a indústria do fumo e o crime organizado? Some-se a isso o fato de que temos uma infância e a juventude associadas à violência armada: como vamos lidar com isso? As experiências internacionais, no Reino Unido e na Holanda, voltaram atrás. Não deram certo em países desenvolvidos. Mas o problema do consumidor deveria, de fato, ser entendido como um problema de saúde pública. Mas o tráfico é o trafico. Aqui é preciso construir uma política específica: primeiro para entender o tamanho do problema – e depois para apontar soluções. Não sabemos nem uma coisa nem outra.
RR: Parece que hoje os bandidos não se contentam em “apenas” roubar. Eles estupram, espancam, matam. Você arriscaria uma explicação para esse tipo de barbaridade?
CA: Crime e barbárie sempre andaram de mão dadas. Quanto mais você oprime a vítima, mais chances você tem de não ser denunciado. É o medo e a vergonha. O abuso sexual está muito ligado à sensação de que não será denunciado pela vergonha. Apresentar uma queixa à polícia é outro episódio de vergonha: você é mal recebido por um funcionário púbico cansado e de saco cheio da vida. Ele não tem nenhuma solidariedade com o seu sofrimento. Esta ali para cumprir um expediente e mais nada. Dar queixa na polícia é uma inutilidade quase completa. Serve para registrar o roubo de alguma coisa que tenha seguro – e nada mais. Aqueles funcionários públicos não farão nenhuma investigação que não saia nos jornais ou que não apareça na televisão. É perda de tempo. O ataque armado que você sofreu não vale nada se não estiver na mídia. E se estiver na mídias, o poder público se move com enorme velocidade, para encontrar respostas fáceis. O resto é inútil. Inocentes são punidos. A resposta fácil é sempre a melhor resposta. Como sabemos, nem sempre a justiça é feita.
RR: Por que algumas pessoas (políticos?) têm uma certa resistência em afirmar que o que acontece no Rio de Janeiro é uma guerra civil?
CA: O governador Sérgio Cabral aceitou a idéia de que o Rio de Janeiro vive um estado de guerra. Foi num momento muito difícil, quando bandidos haviam atacado uma patrulha da PM que guarnecia um ‘altar’ em homenagem ao menino João Hélio, de seis anos, assassinado por assaltantes do Complexo do Alemão. Nesse momento, o governador assumiu essa guerra civil disfarçada no Rio de Janeiro. Desde a guerra do Paraguai, há um século e meio, foi a primeira vez que um governante – fora a declaração de hostilidade de Getúlio Vargas contra a Alemanha nazista (1943) – imaginou um ‘estado de guerra’ entre nós. Nem durante a ditadura militar houve algo parecido. Mas o fato é que o confronto armado entre facções criminosas e o poder público chegou aos níveis que a ONU classifica como ‘guerra de baixa intensidade’.
RR: “Não há vontade popular para punir esses canalhas”, você diz, referindo-se aos políticos corruptos. O povo brasileiro é, de certa forma, omisso aos escândalos políticos? Por que não nos “revoltamos” contra os “ladrões de terno e gravata”? Por medo? Comodismo? Ou simplesmente perdemos a esperança?
CA: O povo Brasileiro sempre se mobilizou em grandes questões, como a campanha do petróleo é nosso, a campanha das diretas, os caras pintadas, mas nunca se mobilizou nas coisas pequenas, como a punição dos corruptos, os sacanas que se vendem no parlamento. Isso é sempre entendido como algo do trivial, quase ‘normal’. Curiosamente, a patifaria entrou em nossas vidas de tal maneira, que não surpreende nem assusta mais. É algo do cotidiano. E as pessoas não se mobilizam por casos banais. E – sim – isso é uma forma de desesperança: ‘tudo acaba em pizza’.
RR: No prefácio, Geneton Moraes Neto diz que o bom jornalismo requer “paciência, garimpagem, pesquisa, cruzamento de informações”. Há quem diga que o jornalismo perdeu muito do que ele fala – e você também, ao longo do livro – por “culpa” da internet (no caso, a rapidez com que tudo tem de ser publicado, muitas vezes sem checagem de informações, por exemplo). Qual sua opinião a respeito disso? A internet prejudicou ou ajudou o jornalismo?
CA: A internet é um instrumento fabuloso, que acabou com fronteiras e burlou o controle político e ideológico da informação. É admirável! No entanto, o que circula pela web é frágil de conteúdo e quase sempre apressado. O criador do Google declarou que a ferramenta de trabalho e diversão que ele inventou é um bom ponto de partida para uma pesquisa, mas não é recomendável como ponto final. A possibilidade de erro é muito grande, quase fatal. Há muita porcaria e desinformação intencional na internet. Sinto que nesse momento o jornalismo padece de muitos males – e o principal deles é a falta de cruzamento das informações. Se eu pudesse dar um conselho a alguém que está começando na carreira, diria: nunca aceite a primeira versão dos fatos e busque o contraditório. Outra coisa: não se contente com a cobertura técnica de pequenas coisas e se lance na aventura profissional de contar grandes histórias sobre seu povo, seu país e o tempo em que está vivendo. É disso que vive o bom jornalista. E é disso que as pessoas gostam de ler, ver e ouvir.
RR: Você ainda tem alguma esperança de ver toda essa situação melhorar? A pergunta vai soar piegas, mas é inevitável: o Brasil tem futuro?
CA: O Brasil já está vivendo o seu futuro. Estamos chegando ao nosso destino de nação rica e poderosa. Esses governos do Lula, inclusive, são a principal marca de tudo isso. Mas estamos chegando ao futuro arrastando o peso do nosso passado. E aqui estou falando da desigualdade, da falta de oportunidade para imensas populações, do descaso e da ignorância de nossos governantes, da falta de cuidado com a vida humana, particularmente em relação às crianças e aos jovens. O problema da violência é grave e deve piorar, por falta de políticas públicas de longo alcance. Os governantes preferem comprar armas e construir presídios, esquecendo que a solução está no emprego, na educação e na saúde. Além do mais, o abandono é a pior violência, porque se transforma em fábrica de criminosos. Mark Twain já dizia: ‘para cada escola fechada é preciso construir uma cadeia’.
RR: E o seu futuro? Já tem outro livro em mente?
CA: Na verdade, pretendo mudar o tema. Em relação à crise da violência urbana e do crime organizado, já fiz a minha parte. Foram 1.300 páginas impressas. Acho que está de bom tamanho. Pretendo continuar na linha do livro-reportagem, mas vou falar de outras histórias. E também me sinto tentado a enveredar pela ficção.