TRF-4 decide destino de Lula nos próximos dias. O tribunal vai rejeitar os recursos do ex-presidente e expedir um mandado de prisão. A PF já tem um esquema montado para prender Lula. A saída para o petista está nas mãos de Carmem Lúcia.

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Carmem Lúcia, do STF: ela tem a chave do cofre. Imagem TV Justiça.

                           Na semana que vem – ou no máximo na outra -, os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região julgam os embargos de declaração apresentados pela defesa de Lula. Tais recursos não têm força para mudar a sentença, unânime, que condenou o petista a mais de 12 anos de cadeia em regime fechado. Óbvio: os juízes terão que decretar a prisão. A Polícia Federal se antecipou e desenhou um esquema de captura do ex-presidente, envolvendo 35 agentes e delegados federais, com apoio de polícias locais. Lula está sendo discretamente monitorado. A PF quer saber onde ele estará no momento em que o mandado de prisão for decretado.

                                   Qual a saída para o ex-presidente? A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Carmem Lúcia, pode pautar uma sessão de julgamento da Suprema Corte para decidir se de fato uma decisão de segunda instância pode mesmo resultar em cadeia. Em Brasília, observadores argutos da cena política acreditam que a jurisprudência, aprovada há pouco tempo, pode mudar. Tanto que já existe um acordo político, envolvendo PT, MDB e PSDB, para derrubar a decisão anterior, que foi apertada. Se isso acontecer, Lula fica livre para recorrer às últimas instâncias do judiciário e pode ser candidato. E, se for candidato, pode ganhar.

                                   Em 5 de outubro de 2016, o STF decidiu que qualquer pessoa condenada em segunda instância iria imediatamente para a cadeia. Paulo Maluf foi um deles. A votação terminou empatada em 5 a 5. E a presidente da corte desempatou a favor da prisão. A manifestação da Suprema Corte, porém, dava aos juízes a condição de decidir caso a caso, considerando situações excepcionais. Mas, até agora, isso vale como regra para todo o país. Há no STF, nesses tempos bicudos, uma forte pressão política para rever o que foi decretado. E a revisão, se ocorrer a tempo, garante a candidatura de Lula. Seria a vitória do slogan “eleições sem Lula é fraude”. Metade do país aplaudiria – mas a outra metade iria considerar que foi uma vitória no “tapetão”.   

                                   O que acontece depois? Considerando os trâmites burocráticos da Suprema Corte, o metalúrgico nordestino pode até tomar posse como presidente. E como impedi-lo, após muitos milhões de votos?

                                   Só os historiadores do futuro serão capazes de responder.    

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Cresce a presença de militares no governo Temer. Além da trinca de generais na segurança do Rio, o Ministério da Defesa passa a ser ocupado por um alto oficial do Exército, após 20 anos de poder civil. No ministério de Raul Jungmann, um brigadeiro é o responsável pela articulação com as Forças Armadas.

 

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Tropas vão às ruas do Rio esta semana.

                                   Seria essa a intervenção sonhada pela classe média desiludida com Lula, Dilma e o PT? Vale lembrar: nos protestos contra o governo petista, as pessoas diziam: “primeiro a gente tira a Dilma, depois vê o que faz”. O que veio depois foi a tão reclamada “libertação” das garras petistas, partido classificado como “um bando de ladrões”? Depois veio o governo de Michel Temer. A prisão de Eduardo Cunha, o cai-cai de ministros acusados de corrupção e tudo o mais que a gente já conhece.

                                   Note-se: o “depois a gente vê” permitiu a ascensão do “centrão”, um grupo de 12 partidos ditos fisiológicos, antes chamado de “baixo clero”, garantindo a maioria de Temer no Congresso. Com apoio do PSDB, DEM e PPS, a maioria virou absoluta. Ergueu-se um Congresso ultraconservador, como jamais se viu no pós-ditadura. Temos a bancada do boi, a bancada da bala, a bancada evangélica e coisas do gênero. Além de reformas duvidosas, todas altamente impopulares (temos talvez o presidente mais mal avaliado da Nova República), Temer tentou acabar com reservas florestais, em favor de mineradoras, adotou e desadotou ações questionáveis, supostamente conspirou contra a Lava Jato.

                                   Nomeou um diretor geral da Polícia Federal que passou a agir como se fosse advogado do Presidente, provocando uma revolta na corporação. Participou de reuniões secretas com o presidente. No mínimo, fora da agenda oficial. O delegado teve o segundo mandato mais curto na história da PF, apenas quatro meses. Mas Temer deu a ele um emprego cobiçado em Roma, como adido diplomático policial, coisa jamais vista. Temer passou mais tempo tentando se livrar de acusações do que propriamente governando. E ainda teve o episódio quase ridículo de Cristiane Brasil, nomeada para o Ministério do Trabalho. Mas…  ”depois a gente vê”.

                                   Agora temos o reforço da presença militar no governo. Estiveram quietos desde o fim do regime uniformizado (1964-1985). Omitiram-se na discussão e na revisão crítica de todo o período, encerrando uma importante contribuição para a historiografia militar e para a própria compreensão do país. Praticamente não se ouviu mais falar da Escola Superior de Guerra, com sede no Rio, um importante centro de estudos da realidade brasileira. Estavam em silêncio, possivelmente remoendo crimes cometidos na ditadura. Envergonhados? Não. Eles não admitem os abusos do regime de exceção. De toda forma, tal silêncio produziu um vácuo na compreensão de 21 anos de história.

                                   Surpreendentemente, neste ano de eleições gerais, aceitaram a convocação de um governo acusado de crimes graves para voltar ao cenário político. Enquanto uma parcela considerável da opinião pública queria uma intervenção militar contra a ladroeira e a corrupção, os uniformes de quatro estrelas surgem em garantia da lei e da ordem.

                                   Incapaz de concluir um ciclo de reformas destinado a privilegiar o grande capital, nacional e estrangeiro, Temer resolveu tocar em um ponto sensível para a população, como forma de obter dividendos políticos: a segurança pública. E por que os militares resolveram embarcar nessa aventura, contrariando a boa imagem pública que têm? Porque querem garantir uma transição pacífica entre a porcaria reinante e o próximo governo, eleito pelo povo. Com tropas nas ruas, asseguram uma presença forte, que não pode ser desconsiderada por nenhuma das forças políticas envolvidas.

                                   No ambiente das Forças Armadas, tal papel regulador está bem afinado. Não permitirão rupturas constitucionais. Com Lula ou sem Lula. Principalmente, com povo ou sem povo nas ruas. Já que estão nas avenidas do país, supostamente a garantir a ordem pública, no Rio e em mais 7 estados, podem também se envolver na garantia do resultado das eleições de 2018.

                                   Em qual sentido? Isso não sabemos.

                 

 

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Crise de segurança no Rio começou com o fracasso das UPPs. O projeto inovador foi corroído pela violência e a corrupção.

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José Mariano Beltrame, o “inventor” das UPPs. Foto com o BOPE.

                                   A crise de segurança no Rio começou com o retumbante fracasso do programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Criadas no primeiro governo de Sérgio Cabral (PMDB-RJ), e implantadas pelo delegado federal gaúcho José Mariano Beltrame, foram saudadas pela grande mídia como o fim do controle do tráfico em favelas e bairros pobres da região metropolitana da capital fluminense. Em um universo de cerca de 1.200 favelas, que abrigam um quinto da população, foram instaladas algo como 30 UPPs. Umas gotas no oceano. Mas a mídia batia tambores!

                                   O projeto prometia recuperar os territórios liberados do tráfico. Uma força de policiais militares foi organizada, usando boinas azuis, à semelhança dos capacetes azuis da ONU em áreas de conflito. Produziu grandes esperanças entre aqueles cariocas assolados pela violência, com farta cobertura midiática. Eu mesmo, nascido em Copacabana, percebi certo otimismo entre os meus conterrâneos. O crime organizado optou por um recuo tático, evitando conflitos e desaparecendo das áreas a serem ocupadas. Aliás, as operações policiais eram divulgadas com dias de antecedência, justamente para garantir que não haveriam choques armados. Tudo corria bem.

                                   O próprio Beltrame informava à imprensa que as UPPs, por si só, não resolveriam o problema. Era preciso que o poder de Estado entrasse nas favelas ocupadas, melhorando as condições básicas de sobrevivência: saúde, educação, saneamento, transporte. A polícia compareceu – mas o Estado ficou devendo, até porque os governantes não estão nem aí para o povo pobre. Resultado óbvio: o projeto afundou, naufragado em águas escuras, desmoralizando a força pública, fortalecendo a presença dos traficantes, gerando a crise atual.  

                                   Além do mais, a força destacada para as UPPs cometeu todos os erros que vemos há décadas. Violência gratuita, maus tratos aos moradores, revistas humilhantes até nas mochilas das crianças, assédio sexual às mulheres, corrupção em relação ao tráfico. Na ocupação do Complexo do Alemão, transmitida ao vivo para todo o mundo pela TV-Globo (o JN ganhou o prêmio EMI por causa disso), verificou-se, pouco mais tarde, que moradores foram vítimas de abusos e violação de direitos. Um tenente do Exército, formado pela Academia de Agulhas Negras, simplesmente roubou dois aparelhos de ar condicionado da casa de um favelado. Está sendo processado pela Justiça Militar.

                                   Em 70% das UPPs, houve denúncias de abusos. E o caso mais emblemático é o sequestro, tortura e morte do pedreiro Amarildo, na favela da Rocinha. Amarildo era suspeito de envolvimento com o tráfico. Em outro caso exemplar, foram encontradas drogas e armas em uma UPP. Ou seja: um modelo inovador com a velha polícia violenta e corrupta. Não podia dar certo. Mas Sérgio Cabral, surfando na onda das UPPs, foi reeleito. Agora está preso, condenado a décadas de cadeia por crime organizado, roubo, lavagem de dinheiro. Mariano Beltrame pediu demissão antes disso – e sumiu debaixo de um silêncio impressionante. Talvez reapareça como candidato a Câmara Federal este ano.

                                   Hoje sabemos que o Rio foi saqueado por seus próprios governantes. E dá para especular que as UPPs foram um golpe eleitoreiro. Agora também dá para imaginar que a intervenção militar, sem qualquer planejamento, é outro golpe publicitário.

                                   Quem viver, verá!     

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Jugmann não tem um plano para a segurança. Os militares, também não. A intervenção no Rio está reduzida a ações administrativas. Aparentemente, as Forças Armadas não querem entrar em combate direto com o narcotráfico.

                                   Michel Temer se reuniu com representantes de todos os estados nesta quarta-feira (1 mar), em Brasília, para discutir a questão da segurança pública. Ouviu uma choradeira: falta de verbas, salários atrasados, sucateamento das frotas, superlotação carcerária e a churumela de sempre. Não apareceu um único projeto de política de segurança. De sua parte, o novo ministro Raul Jugmann fez anúncio bombástico: iria aumentar em 500 agentes o efetivo da Polícia Federal, mais 500 para a Polícia Rodoviária, além de garantir que 29 delegados seriam deslocados para a área de investigação contra o crime organizado. Ah, sim: iria dobrar o efetivo de fronteiras, de 150 para 300 agentes. Temos 11 mil quilômetros de fronteiras secas e mais 8 mil quilômetros de litoral.

                                   Até agora, foi todo esse o arsenal de reação do Estado brasileiro contra a onda de violência que vitima o país: 61,6 mil homicídios; 37 mil desaparecidos; 6 milhões de assaltos a mão armada, cerca de 300 mil vagas faltando no sistema prisional e algumas cositas mais. O governo oferece um esparadrapo para quem levou um tiro de AR-15 na barriga. Pior: somos o primeiro consumidor mundial de crack e o segundo de cocaína. Nem uma palavra sobre isso.

                                   Toda vez que uma onda de violência intimida o país, como no carnaval do Rio, nossos governantes respondem com a incorporação de policiais e a compra de armamento e viaturas. Há nesses casos inúmeros episódios de superfaturamento e desvios de verbas. Exemplo: a compra de milhares de pistolas Taurus P40, que disparam sozinhas, sem que o gatilho seja pressionado. Outro exemplo: a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo adquiriu um carregamento de munição calibre 12, para uma corporação que não dispunha de armas deste tipo. A explicação: a GCM iria adquiria carabinas calibre 12, mas houve uma promoção da munição respectiva. É como aquele sujeito que não tem carro e se depara com a promoção de pneus em um supermercado.

                                   Vimos pela TV a coletiva da junta militar que tomou posse na segurança do Rio. Três generais do Exército, um coronel do Corpo de Bombeiros (entrou mudo e saiu calado) e um civil que sequer foi apresentado aos jornalistas. Deste encontro não surgiu nenhum projeto, a não ser resolver “gargalos” de infraestrutura e logística. Uma intervenção apenas administrativa. Parece que os militares não querem entrar em combate direto com o narcotráfico, em razão do dano político que iria produzir, da repercussão internacional e das baixas inevitáveis. A classe média, desiludida com os políticos, deve estar roendo as unhas. Foi enganada de novo.  

                                   Ninguém quer carregar cadáveres. Com quase certeza, virar o foco do governo Temer para a segurança, após a fragorosa derrota na reforma da previdência, é apenas uma ação marqueteira. Só que o crime está nas ruas, amado até os dentes. Não teme os uniformes. Ao contrário, pretende desmoralizar os governos e reforçar as suas bases sociais nas comunidades pobres. Temer ofereceu 42 bilhões de reais, via financiamentos do BNDES, para a segurança pública, pagáveis em 8 anos, com dois anos de carência. Mais um gesto administrativo, que não leva em conta as razões objetivas da violência instalada no país.

                                   Vamos dar mais dinheiro para governantes duvidosos, em troca de algum apoio político eventual? Vamos! É assim que a coisa funciona. Sobre esse negócio de pobres, pretos e favelados continuarem morrendo aos milhares, nem uma única linha nas reformas. No caso da reforma da previdência, também não havia nada sobre os sonegadores. Ficava tudo no ombro do trabalhador. Por isso não deu certo.

                                   O Brasil teve, historicamente, duas políticas de segurança. A primeira foi na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945), durante o Estado Novo. A segunda foi no regime militar (1964-1985), com a Lei de Segurança Nacional (LSN), que estabeleceu inclusive a pena de morte. Mas as duas pretendiam a segurança do regime e do grande capital. Agora, quando se pretende a proteção da família e do cidadão, não há nenhum projeto viável. Por que?

                                     

                                  

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Como será o conflito armado no Rio, segundo a estratégia militar e os manuais da guerra urbana? Leia e veja se é isso que você quer para o seu país.

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O interventor Braga Netto.

Os leitores deste site sabem que há muitos anos pesquiso e analiso questões relacionadas com a violência urbana e o crime organizado no país. E também sabem que fontes de informação em uniformes na ativa das Forças Armadas ajudaram a entender o noticiário relativo ao tema. Não seria possível desenvolver tantas teses sem a participação de agentes diretamente envolvidos na matéria. É com base nessas informações exclusivas que adianto acontecimentos que ainda iriam ocorrer. Alguns com anos de antecedência, como foi o caso do fracasso das UPPs.
Acrescento que não tenho filiações partidárias, nem patrocinadores. Este site é mantido por meu próprio esforço, tendo acumulado mais de 350 mil leitores ao longo do tempo. Digo isso para esclarecer: o que vocês vão ler a seguir é fruto dessa longa experiência. Não vou citar fontes oficiais. Não darei nome aos bois, sejam de que lado forem. Trato de rascunhar o cenário de como podem se desenrolar as operações militares no Rio, após a decretação da intervenção federal na segurança pública da capital do país mais conflagrada pelo conflito armado.
No ambiente das forças de segurança, desenha-se um modelo de operações de combate ao narcotráfico. Tudo sigiloso. Sempre a portas fechadas. Tento aqui iluminar um pouco o palco das decisões. Na semana que vem, o interventor, general Braga Netto, chefe do Comando Militar do Leste, vai falar publicamente. E deve esclarecer, revelando muito pouco, qual o plano genérico de ação. Ouso apresentar os principais itens deste manual.
Ao menos 20 mil homens das forças federais devem sem empregados. Acompanhem as etapas:
1. Cerco estratégico: vigilância e ocupação das principais rodovias de acesso ao Estado do Rio. Bloqueio de rodovias como a Dutra, a Rio-Santos, Rio-Bahia e outras menores. Bloqueio naval de áreas críticas, como as baias de Angra dos Reis, Parati e o fundo da Guanabara. Alguns navios de grande porte serão vistos. Vigilância e ocupação das principais vias de acesso à capital: as linhas vermelha e amarela, a Avenida Brasil, a zona portuária, a região do gasômetro do Rio e outras. As avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, o Aterro do Flamengo e as praias. Nesta fase estarão presentes forças do Exército e da Marinha, além de cobertura aérea e fechamento espacial em algumas regiões. As polícias estaduais e rodoviária federal, com ajuda da Força Nacional, estarão envolvidas, principalmente na Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo. A Polícia Civil deve aparecer em ações na Região dos Lagos, especialmente em Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios. Bloqueios de fronteiras com Minas, Espírito Santo e São Paulo são espera-os e devem ser simultâneos, empregando forças locais.
2. Cerco Tático: o comando das operações deve selecionar algumas áreas criticas sob controle do narcotráfico e das facções criminosas, talvez quatro ou cinco das mais importantes. Tropas especiais (Brigada Paraquedista, Fuzileiros Navais e o Batalhão das Forças Especiais do Exército, por exemplo, as melhores forças disponíveis) devem ser empregadas nesta fase. O cerco é reduzido a uma comunidade, um bairro, algo como cinco ou seis quilômetros de extensão e largura. Aqui se empregam tanques e veículos blindados. Sob comando do Exército, entram forças como o BOPE e o CHOQUE da PM, que conhecem melhor o terreno, incluindo cães farejadoras. O cerco tático é para inviabilizar a fuga dos criminosos, que ficam restritos a um espaço mais controlado.
3. Operação de Comandos: a partir do cerco tático, grupos especiais, aerotransportados, desembarcam no centro do perímetro, estabelecendo uma base segura. Dispõem de grande poder de fogo. Das laterais, em cinco ou seis pontos diferentes, as forças entram na direção do centro da ocupação. Quando for possível, com blindados. Caso contrário, com as botas no chão. São grupos pequenos, do porte de um pelotão: algo como 20 homens. Em cada um desses grupos há uma metralhadora tipo SW240, 7.62mm. Um lançadores de granadas, tipo RPG, 40mm, ou um lança-chamas. A convergência de todos os grupos para o centro do cerco tático vai produzir um enfrentamento cara a cara com os criminosos. E deve haver um grande número de baixas de parte a parte, com algumas vítimas civis.
4. Operação de limpeza: a última fase envolve uma operação de resgate de feridos e mortos, combate a incêndios, defesa civil e coisas do gênero. Inclusive recolher material bélico abandoado, como carregadores de fuzis e granadas não detonadas. É o rescaldo do conflito armado.
Se o governo brasileiro optar por tal tipo de ação, talvez tenhamos algum resultado temporário na luta contra o narcotráfico. Mas teremos que assumir as baixas civis e convocar uma nova Comissão Nacional da Verdade para investigar as violações da lei nesse período. Foi o que antecipou recentemente o comandante-geral do Exército, o general Eduardo Villas-Bôas.
Assumiremos o estado de guerra civil não declarado no país. Estaremos ao lado de Colômbia  e México.
Veremos um governo impopular como o de Michel Temer, acusado de crimes graves, decidir um conflito de tal magnitude social, a um custo de milhões de reais para um país falido, às vésperas de uma eleição presidencial.
Queremos isso?

 

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Exército pretendia “operação de casa em casa” em áreas críticas controladas pelo tráfico no Rio. Mas o governo Temer desistiu do chamado mandado de busca e apreensão coletivo sobre bairros inteiros e partes da cidade. Era uma violência contra a Constituição.

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Forças Armadas na Rocinha. Imagem Agência Brasil.

                                    O plano era cercar os pontos críticos de atuação do narcotráfico no Rio de Janeiro. Com um mandado de busca e apreensão coletivo, uma ilegalidade defendida pela Advocacia Geral da União (AGU), que presta serviços à Presidência, os militares iriam entrar de casa em casa. Populações inteiras ficariam de mãos na cabeça, em uma flagrante violação dos direitos individuais. Pior: a medida estabeleceria um apartheid social na Cidade Maravilhosa. As operações de “cerco e destruição”, como são citadas nos manuais da guerra urbana, cairiam sobre os pobres e as comunidades abandonadas pelo Estado há quase um século. Não há como imaginar tal ação em Copacabana ou nos condomínios abastados da Barra da Tijuca.

                                   Isto quer dizer: pobre é sinônimo de violência e banditismo.

                                   Por outro lado, a desistência em relação ao mandado coletivo, que seria derrubado nos tribunais, praticamente inviabiliza a operação militar em larga escala contra traficantes e facções criminosas. Fica tudo como era antes. E os fracassos na favela da Maré e no Complexo do Alemão são fartamente conhecidos. Sem falar no desastre das UPPs, que este autor antecipou há sete anos, aqui no site, enquanto a mídia nacional louvava o fim do poder do tráfico.   

                                   Parece mesmo que a decretação da intervenção federal no Rio foi um mero gesto publicitário, destinado a desviar a opinião pública do naufrágio do governo de Michel Temer. O presidente não governa sequer a própria base de apoio no Congresso. E o Congresso aprovou a toque de caixa uma intervenção militar inócua, cujo resultado será pífio. Ou -mais provavelmente- nenhum. Vai entrar para a história como mais um fracasso retumbante.   

 

                                    

 

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No primeiro fim-de-semana sob intervenção militar, Rio vive rotina de violência. Tiroteio em Bangu deixa três mortos e quatro feridos. Bandidos explodem caixas eletrônicos e a insegurança está nas ruas.

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Intervenção militar no Rio: favelas e soldados. Faltou a faixa presidencial.

                                    A primeira consequência da intervenção militar no Rio de Janeiro foi a de que o “vampiro do neoliberalismo”, da Tuiutí, saiu sem a faixa presidencial no desfile das escolas de samba campeãs do carnaval carioca. Autocensura? Medo de irritar os militares? Seja como for, a faixa que representava Michel Temer sumiu. De resto, a rotina de violência segue o curso normal. Caixas eletrônicos foram explodidos, cargas foram roubadas e o narcotráfico segue faturando milhões, vendendo cocaína para a burguesia.

                                   Na zona oeste do Rio, em Bangu, um assalto em um bar lotado terminou com três mortos (inclusive um sargento da PM de folga) e quatro feridos a bala. Foi um balalhau espantoso. Em bairro residencial de classe média. O incidente mais grave desde a decretação da intervenção, na tarde da última sexta-feira (16 fev). Mas o crime avulso, o roubo vulgar, continua a pleno vapor. A venda de drogas, então, nem se fala.

                                   Tocando o plano de marketing de quem garante que vai controlar a criminalidade no país, assim como teria controlado a recessão econômica, Michel Temer reuniu o Conselho Nacional de Defesa. Foi a portas fechadas. A única informação que vazou foi a de que a Secretaria de Administração Penitenciária do Rio, agora comandada por um general, iria reforçar a segurança nos presídios, para prevenir rebeliões das facções criminosas. E mais nada.

                                   O decreto de intervenção – diga-se de passagem – não foi acompanhado de nenhum plano de ação. Incrível: deu-se ao general Walter Braga Netto, o interventor, um tempo para se informar da situação e estabelecer um diagnóstico sobre a crise de violência no estado. Afinal de contas, o general estava de férias e foi convocado às pressas. O cara precisa pensar um pouco. O crime organizado, especialmente relacionado ao narcotráfico em escala industrial, está instalado no Rio desde o início dos anos 1980.

                                   No início, o crime organizado atendia pelo nome de Comando Vermelho. Depois de 10 anos, atendia pelo nome de CV/PCC. Agora as duas maiores organizações criminosas estão em guerra. Aliás, neste fim-de-semana, houve um acerto de contas entre as facções em um presídio do Ceará: dois líderes do CV foram trucidados. O PCC quer dominar todas as cadeias do país.

                                   Precisamos de mais tempo para entender a situação?

                                   Só para lembrar: o narcotráfico começa a se instalar no Rio no início dos anos 1980. O colombiano Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medelín, chega à conclusão de que o Brasil, além de ser um corredor de passagem de drogas para a Europa e os Estados Unidos, poderia se tornar um importante mercado consumidor de cocaína. Escobar controla 60% da droga produzida no mundo. Para vender localmente, inicialmente no Rio, o megatraficante colombiano procura a primeira forma de crime organizado no país: a contravenção, as cinco famílias controladoras do jogo-do-bicho.

                                   Os banqueiros do bicho temem se confundir com o tráfico, um dilema que também atingiu a Máfia Siciliana nos anos 1950. No entanto, imaginam que recusar propostas milionárias dos traficantes significaria perder o controle dos pontos de apostas. Encontram uma solução paliativa: decidem escolher um banqueiro menor, conhecido como Toninho Turco, do bairro de Bangu, para a operação de drogas. Ainda durante a ditadura militar. Toninho monta uma quadrilha de 91 homens e mulheres, 61 dos quais eram policiais e ex-policiais.

                                   O Centro de Informações do Exército (CIEX), principal responsável pela desarticulação da resistência revolucionária contra o regime militar, acompanha o movimento. O resultado foi a Operação Mosaico, desencadeada pouco tempo depois, incluindo a Polícia Federal e algumas forças locais de segurança. Toninho Turco foi morto e a quadrilha desbaratada. O braço direito do bicheiro, um tenente da PM, foi apanhado em Lugano, na Suíça, em uma operação de lavagem de dinheiro.

                                   Fracassado o projeto com os bicheiros, Pablo Escobar decide mudar o jogo. Aposta nos bandos que dominam as favelas e bairros pobre do Rio. E estes atendem pelo nome de Comando Vermelho, uma organização criminosa mais moderna e surgida nos conflitos sociais, de certa forma influenciada pela convivência entre presos políticos e comuns nos presídios do Rio.   

                                   A partir daí, todos já sabem o que aconteceu.   

 

                                 

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