Ocupado o QG do Comando Vermelho. Algo vai mudar?

Às oito horas da manhã do domingo 28 de novembro – uma data histórica -, três mil policiais, soldados da Brigada Paraquedista do Exército, além de fuzileiros navais com 15 blindados leves, mais helicópteros de combate, invadiram o quartel-general do Comando Vermelho: o Morro do Alemão, no centro de um complexo de 14 favelas e quase meio milhão de moradores. Até as cinco horas da tarde, quando a ocupação se completava, a força militar ainda se impressionava com a calma aparente no bairro. Esperava enfrentar 600 traficantes fortemente armados, mas esse grande confronto, que resultaria em dezenas de mortos, simplesmente não aconteceu.

Utilizando a velha tática das guerrilhas, os bandidos se dispersaram e sumiram em meio à população. Deixaram para trás toneladas de maconha e cocaína, armas de guerra, dinheiro (60 mil dólares só numa mochila apreendida com um garoto) e as casas luxuosas dos gerentes do tráfico. Quase uma centena de pessoas foram presas, a maioria inocentes. A ocupação do Morro do Alemão encerra uma semana de violência desmedida no Rio de Janeiro. No domingo anterior, bandos armados começaram a queimar ônibus e carros por toda a cidade, num total de quase 100 veículos, semeando o pânico. No enfrentamento entre os criminosos e a polícia, 36 pessoas morreram e não há conta do número de feridos.

A batalha – e este é apenas um episódio numa guerra que levará décadas – produziu três resultados inéditos e surpreendentes: a reação solidária de todos os níveis de governo, com o governador aceitando a intervenção de tropas federais; a resposta indignada da população carioca, que colaborou com a força-tarefa inclusive nas favelas; a unificação das facções criminosas. A pergunta que se coloca é a seguinte: por que os bandidos tomaram a iniciativa do confronto, com a queima dos veículos, provocando abertamente o poder público? A explicação oficial é a de que eles estavam perdendo territórios para as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Difícil de acreditar, porque essas unidades existem apenas em 12 (agora 13) das mais de mil favelas cariocas – uma gota no oceano. Outra explicação: os bandidos estariam reagindo contra a transferência de suas lideranças para presídios de segurança em outros estados. Essa pode ser. Mas, como eles foram transferidos há muito tempo, soa estranho. A minha tese é a de que os ataques visavam criar uma moeda de troca para uma trégua na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.

Todas as vezes em que o crime organizado promoveu esses levantes armados – e foram várias -, havia sempre uma pauta de reivindicações por trás dos atentados. Foi assim com os ataques do CV nos anos 1980 e 1990; com o PCC paulista em 2001, 2003 e 2006; com a Organização Plataforma Armada (OPA), em Salvador, em 2008. Quase sempre as reivindicações se destinavam a melhorar as condições carcerárias, especialmente porque tais facções agem de dentro para fora das prisões. Toda a chefia desses grupos está presa – e do lado de fora das celas os novos comandantes são da terceira geração do tráfico de drogas, jovens e cruéis, que não têm o mesmo senso de convivência comunitária que seus antigos líderes pregavam.

Esses movimentos reivindicatórios sempre foram mantidos em segredo pelos governantes, tratados em gabinetes, distantes da imprensa e da opinião pública. E quase sempre resultaram em acordos benéficos para o crime. Um exemplo escandaloso foi o de uma comissão do governo paulista que foi até o presídio de Presidente Bernardes se encontrar com o suposto chefe do PCC, Marcos Herbas Camacho, o Marcola, em plena onda de atentados de 2006. Vou repetir: muitas das exigências das facções criminosas (visitas íntimas, aumento do banho de sol, fim dos espancamentos e dos castigos, melhoria da comida, transferência de presos doentes) foram atendidas, porque esses confrontos cobram alto preço político, particularmente com as rebeliões prisionais banhadas a sangue, como no  caso do Carandiru, o mais emblemático de todos.

E agora, neste episódio do Rio de Janeiro, silêncio total as autoridades e da mídia. O governador Sérgio Cabral tomou a atitude corajosa de partir para cima do crime organizado. Alguns anos atrás, chegou a admitir que o Rio “vive um estado de guerra”. E Cabral foi tão longe, que já não tem caminho de volta. A briga vai ser feia mesmo. Aliás, comente-se que a mídia aderiu completamente, sem qualquer tipo de questionamento. A capa da Veja, com foto de um soldado do Bope apontando uma arma, dizia: “o dia em que o Brasil começou a vencer o crime”. Parece mais um desejo do que uma realidade.

O Brasil, que vive uma democracia avançada e de plenas liberdades, com um partido popular no poder, agora se equiparou ao México, onde o narcotráfico está vencendo a guerra, e à Colômbia, onde há uma guerra civil que já dura 56 anos e que resultou até agora em quase um milhão de mortos. Lamentavelmente, adentramos o perigoso pântano de uma guerra urbana de verdade. (Ver o artigo “As UPPs e o Estado de Direito”, neste site.) Num dos meus livros, escrevi: “não quero ver a minha cidade ocupada por fuzileiros navais e paraquedistas – assim como não quero vê-la ocupada pelos meninos do tráfico”. Poucos anos depois, o pesadelo chegou. (E o que aconteceria se o PCC aderisse ao levante?)

Outra questão que me preocupa: comemorando 25 anos de liberdades, podemos conviver com ocupações militares, com pequenos Estados de Sítio? É isso que a população quer? Certamente, é isso que a classe média, a maior vítima da violência, deseja – assim como é o mesmo que deseja a elite consumidora de drogas e cínica. Vamos também erguer uma força-tarefa para pegar os bandidos da Esplanada dos Ministérios e da Avenida Paulista? E os traficantes da orla de luxo do Rio, do Guarujá, Floripa, Vitória ou Salvador? Aparentemente, o braço armado do Estado vai continuar caindo sobre as “classes perigosas”, os pobres em geral.

Quem acha que a batalha do Alemão vai acabar com o tráfico ou o crime, está enganado. O Comando Vermelho ocupava aquela área há quase 30 anos, inclusive com hotéis para receber seus fornecedores estrangeiros e seus sócios do PCC. Quanto tempo os militares ficarão por lá? Nossos governantes nem sabem direito o que é crime organizado. Os chefes do tráfico de drogas e de armas, da pirataria e do contrabando, não moram em favelas e não serão presos. O tráfico no Rio movimenta 100 toneladas de drogas por ano, com um faturamento de aproximadamente 700 milhões de reais. Quem vocês acham que são os agentes financeiros de toda essa grana, só no Rio?

Por que o governador Sérgio Cabral não aproveitou a ofensiva contra o crime organizado para atacar também as milícias, bandos armados formados por policiais e ex-policiais, que ocupam quase 100 favelas na cidade? Esses grupos paramilitares agem como forças auxiliares da polícia. A mais famosa dessas milícias – a “Liga da Justiça”, da zona oeste – é comandada por um deputado e uma vereadora – pelo menos é isso o que garante o Ministério Público e a imprensa carioca. Mais uma: porque não aproveitou o momento de mobilização para anunciar um plano de reforma do aparelho policial e combate à corrupção entre as forças da lei? Estava na hora de fazer tudo isso? Não! Essa hora já passou há muito tempo! Depois do calor das emoções, tudo isso escorrega para o silêncio.

Ou seja: dispersada a pólvora e a fumaça, vai começar tudo de novo.

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O Brasil no tabuleiro dos poderosos

Nesta última semana, o presidente norte-americano Barak Obama indicou a Índia para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Numa só tacada, provocou desconforto para China e Brasil. É assim o sutil, porém maquiavélico, xadrez da política internacional. A Índia é um potência nuclear, possui a segunda maior armada naval do mundo (a primeira é a do Paquistão) e se apresenta como a maior força de oposição ao islamismo na região, apesar de que quase um terço da sua população de mais de um bilhão de habitantes ser constituída por muçulmanos. É preciso notar que Índia e Paquistão são países conflitantes e que mantêm um conflito armado permanente na Cachemira, fronteira entre eles. Após a queda do Império Soviético, em 1991, ficou mais provável uma guerra nuclear entre Índia e Paquistão do que entre Rússia e Estados Unidos. Após a indicação de Barak Obama, está claro quem é o aliado preferencial do Tio Sam naquela região do globo.

No entanto, logo após a declaração do líder de Washington, o governo inglês indicou o Brasil para outro assento no mesmo Conselho de Segurança. Outro movimento sutil para reequilibrar o jogo político internacional, incorporando o país hegemônico da América do Sul. Nosso Brasil Tropical vem se preparando há vários anos para essa tarefa, inclusive sob Lula, com o maior investimento (47 bilhões de reais) para reaparelhar as forças armadas tupiniquins. Já estivemos em missões militares em Suez, República Dominicana, Angola, Moçambique, Timor Leste e – agora – no Haiti. Tudo isso sem falar na participação da FEB na Segunda Guerra, ocupando territórios italianos com uma força de 25 mil homens, integrada ao V Exército dos Estados Unidos, sob comando do General Clark. No Haiti, nós é que comandamos as tropas da ONU, inclusive os marines norte-americanos, que estão nos devendo verbas e equipamentos. Durante o terremoto que atingiu aquele país miserável, perdemos 19 dos nossos militares. E há por lá, nesse momento, um surto de cólera.

Para frequentar o Conselho de Segurança da ONU, é preciso estar dotado de uma capacidade de intervenção militar rápida, destinada a cumprir a política do Big Stick (o Grande Porrete, como dizem os americanos). Ou seja: deslocar poder naval, aéreo e terrestre, imediatamente, para qualquer lugar do mundo. Homens e mulheres brasileiros em uniforme, para cumprir as ordens das Nações Unidas, com risco de morrer e matar. Podemos escapar dessa condição? Provavelmente, não! Nos 16 anos de governos FHC e Lula, o Brasil ocupou um lugar de destaque entre as Nações, especialmente com Lula, que virou uma grife mundial. Como a Índia, somos a bola da vez nesse intrincado jogo político. À medida que o país se desenvolve, aumentam suas responsabilidades internacionais. Somos peões inarredáveis nesse xadrez.

Ao cidadão brasileiro consciente, porém, cabe perguntar: não seria melhor cuidar das nossas próprias questões internas de segurança? Se todo esse dinheiro fosse investido no combate à violência em nossas cidades, teríamos resultados melhores? Poderíamos caminhar tranquilamente por nossos bairros, praças e avenidas? Há uma letra de música popular, sucesso nacional, que trata disso:

“Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasci…”

Os compositores dessa canção, um dos quais morreu assassinado, talvez nos deixem um belo tema de reflexão.

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Um dia de votação em Brasília

No domingo 31 de outubro, estava em Brasília, com a tarefa de produzir o programa Brasilianas.Org, do jornalista Luís Nassif, para a TV Brasil, a rede pública do governo federal. Cheguei à emissora por volta das três da tarde do segundo turno – e fui escalado para editar o perfil histórico e biográfico de Dilma Rousseff. Baseado em texto da jornalista Tereza Cruvinel, comentarista política sênior e presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), iniciei o trabalho às cinco e meia da tarde. Parecia impossível concluir a tempo de uma apuração de votos tecnológica, que coloca o Brasil na liderança dos processos eleitorais.

Estava ali por ser o gerente do Núcleo de Programas Especiais de Jornalismo da TV Brasil em São Paulo. Mas não sabia que iria encarar tarefa tão apertada. Com a cooperação e a solidariedade do pessoal do Departamento de Jornalismo, entreguei o Blue Disk editado faltando cinco minutos para o TSE declarar a Dilma eleita. O VT tinha em torno de cinco minutos de duração, com imagens de campanha e da vida da candidata, desde a infância.

Macaco velho da produção e edição de telejornais, utilizei uma técnica rudimentar para cumprir a tarefa. (Outra hora conto como se faz isso.) Após cinco horas de transmissões ao vivo, a pequena TV Brasil saiu-se muito bem. Deu todos os números da apuração, incluindo nos estados onde havia segundo turno para governador. E foi a única rede de televisão que mostrou em tempo real os dis-cursos de Dilma e José Serra após os resultados.

Depois do encerramento das transmissões, fui procurar algo que comer, acompanhado da Tereza Cruvinel. Passamos pela Esplanada dos Ministérios, onde pude ver aquele monte de bandeiras agitadas no ar da capital do Brasil. Um enorme buzinaço nos acompanhou até o Piantela, por volta da meia noite. O restaurante, como sabemos, era lugar favorito da oposição parlamentar ao regime militar. Ali, Ulysses Guimarães organizou algumas das jogadas da campanha das diretas e da constituinte de 1988. Nessa noite de eleição, no entanto, encontramos só duas mesas ocupadas: uma, com três pessoas, tinha na cabeceira o ministro do STF Gilmar Mendes; outra, no bar, tinha o José Dirceu, cercado por uns 20 amigos. Duas faces da mesma moeda da política brasileira?

No entanto, o que me ficou na mente foi a festa popular, as bandeiras, o som das buzinas. Sons de uma jovem democracia que teima em aprender os caminhos do futuro.

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Record vai relançar “Comando Vermelho”

A Editora Record vai relançar o livro “Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado”. Esta foi a minha primeira publicação a respeito do fenômeno da violência urbana e do crime organizado no Brasil. Chegou às livrarias em 1994 e foi premiado com o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, na categoria “Reportagem”. Foi o primeiro volume da trilogia que inclui “CV_PCC – A irmandade do crime” (2004) e “Asssalto ao Poder: O crime organizado” (2010). Assim, no início do próximo ano, todo o trabalho, que reúne mais de 1.400 páginas impressas, estará disponível para os leitores.

O “CV” será reimpresso sem alterações no texto original, a não ser um novo prefácio, do jornalista Domingos Meirelles (O Globo, Jornal da Tarde, Globo Repórter, Fantástico, Linha Direta) e uma nota explicativa do autor. Dessa vez, será em formato livro de bolso, uma edição popular, para venda em bancas de jornais, rodoviárias, aeroportos etc. E terá preços acessíveis. “Comando Vermelho – A história secreta do crime organizado” foi a primeira investigação jornalística a desvendar os bastidores do surgimento de uma organização de presos comuns nas cadeias brasileiras, na segunda metade dos anos 1970 e no início dos anos 1980, como resultado da convivência entre presos políticos e comuns na Ilha Grande, durante a ditadura militar.

Para quem não conhece a história desde o início, é preciso considerar que muitos de seus personagens já não estão entre nós – e novos elementos surgiram ao longo dos anos.

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As UPPs e o Estado de Direito

As Unidades de Polícia Pacificadora, surgidas no Rio de Janeiro há cerca de dois anos, são a melhor e mais criativa providência do Poder Público em matéria de segurança. Trata-se da ocupação de áreas controladas pelo tráfico por meio de força policial de caráter comunitário, mais do que apenas repressivo. As UPPs estão presentes em 13 favelas e bairros pobres do Rio, de um total de 1.006 contabilizadas pela Prefeitura carioca. São uma gota no oceano.

A primeira consequência positiva do trabalho da Polícia Militar foi impedir as frequentes guerras entre facções criminosas pelo controle dos pontos de venda de drogas, que resultavam em matanças entre os bandidos e sérios danos para os “civis”. Além disso, desapareceu a presença de criminosos ostensivamente armados nas favelas ocupadas. Cada uma das UPPs têm, em média, 150 soldados, cabos, sargentos e oficiais até a patente de capitão. Possuem armamento pesado e bons sistemas de comunicação, capazes de mobilizar reforço rápido, inclusive com a presença de socorro médico, helicópteros e blindados leves.

No entanto, a presença dessas forças policiais de ocupação não acabou com o tráfico. Tornou-o mais discreto – é verdade. Mas não acabou com ele. Os depósitos de drogas e de armas continuam nas favelas, sob silêncio dos moradores. O movimento se mudou para o asfalto, nos bairros próximos, constituindo aquilo que no mundo do crime é chamado de “estica”. Ou seja: um alongamento do braço do tráfico em casas e apartamentos alugados nas proximidades das favelas. E significou também a ampliação de outros meios de venda e entrega do produto das boca-de-fumo: disk-droga, Internet, mobilização dos consumidores de classe média para a venda direta. O crime parece estar sempre um passo à frente das ações governamentais.

Mesmo a forte presença de uma UPP na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, foi incapaz de impedir a reação dos traficantes contra a prisão de um gerente da boca local. Um grupo de quinze homens pôs fogo em um ônibus com 25 passageiros, no dia 2 de março de 2010, dos quais 13 resultaram feridos. Os bandidos desapareceram sob as barbas da polícia. Além do mais, há importante questionamento legal a respeito da ocupação militar de áreas urbanas na segunda maior cidade do país, em plena democracia. Entre os moradores dessas regiões, as opiniões estão divididas. Muitos declaram aos jornais e emissoras de televisão que a vida melhorou, especialmente com o fim dos tiroteios diários. Outros reclamam da truculência policial, assédio contra mulheres, invasão de domicílio e agressões generalizadas. O diretor do filme “Tropa de Elite 2”, José Padilha, declarou à Folha de São Paulo que “as UPPs não acabam com a polícia corrupta”. E essa é uma questão fundamental.

Durante quanto tempo a PM vai ocupar essas comunidades carentes? Um ano? Dois anos? E o quanto esses policiais mal pagos e desprezados pela sociedade irão resistir ao poder de corrupção do tráfico de drogas? No Rio de Janeiro, um traficante de médio porte fatura um milhão de reais por semana. Mesmo com a entrada em operação das UPPs, não há nenhum sinal de que o tráfico tenha sido reduzido. Ao contrário, houve um incremento das vendas de drogas sintéticas na cidade (Ecstasy, Super K, GRB, LSD e outras) – além do aumento vertiginoso do crack. Durante anos, facções criminosas, como o Comando Vermelho, proibiram a venda de crack. Em São Paulo, o PCC baniu o consumo de crack nas cadeias, em “salve geral” do ano de 2002. Agora está liberado para vendas no varejo do Rio, mas continua impedido nas cadeias paulistas. Por que os bandidos combateram o crack? Porque ele destrói o consumidor em pouco tempo: ou tratamento ou cemitério!

Vale repetir: até agora, não há sinais de que as UPPs tenham colocado um freio no tráfico. E a experiência é tão recente e localizada, que seus efeitos não podem ser corretamente avaliados. Vamos esperar – e de forma otimista. Só não vale tapar o Sol com a peneira eleitoral.

Sobre questão do Estado de Direito, cabem indagações:

1.  O pobre-preto-e-favelado (não é um jargão preconceituoso, mas estatístico) pode ser invadido por um força militar em seu local de residência, partindo-se do princípio de que pertence a uma “classe perigosa” e a um “local perigoso”?

2.  Pode ser revistado a qualquer momento, inclusive sob ameaça armada, quando volta do trabalho para casa? Pode ter seu domicílio também revistado, sob olhar aterrorizado da mulher e dos filhos? O medo e a vergonha do cidadão têm espaço na mídia? Pode contar com assessoria jurídica de advogados e promotores?

3.  Alguém consegue imaginar um bloqueio militar na Avenida Paulista, em São Paulo, ou na Avenida Rio Branco, no Rio? Onde bancários (quem sabe banqueiros?), funcionários públicos e empresários seriam revistados dos pés à cabeça? E sob ameaça de tapas na cara?

4.  Alguém, entre vocês, leitores, consegue supor que as políticas de segurança não são, na verdade, políticas contra os supostos “perigosos” – e que isso esconde uma versão moderna da luta de classes? Nós, os ricos e abastados, podemos empurrar esses pobres para as favelas e periferias, com o direito, aplaudido pela mídia, de bater-lhes na cara? Não sei se o leitor sabe, mas a polícia bate sistematicamente na cara do pobre.

Então, parece que a discussão sobre a eficácia da ocupação das comunidades pobres por forças militares ou paramilitares é um pouco mais complexa do que se revela à primeira análise. E tomara que as pessoas mais conscientes não tirem conclusões apressadas.

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Forças armadas: investimentos esquecem o cidadão?

As forças armadas brasileiras estão vivendo um novo e espetacular momento. Investimentos da ordem de 47 bilhões de reais estão previstos para o reaparelhamento das três armas. O projeto inclui a construção de cinco submarinos, sendo um nuclear, em cooperação com a marinha francesa e prevendo a troca plena de tecnologia da guerra moderna. Cinquenta helicópteros de ataque e transporte de tropas serão adquiridos. Trinta e seis caças interceptadores supersônicos vão dar ao país um força defensiva invejável e despertam a cobiça dos construtores internacional, entre os quais os Estados Unidos, a França e a Suécia. Três mil tanques pesados e veículos blindados vão reformar as brigadas do Exército. Quinze aviões de ataque e observação – não tripulados – da classe Predator, desenvolvidos com tecnologia israelense e norte-americana vão equipar a Polícia Federal.

Abandonadas pelos governos civis desde a redemocratização do país, em 1985, as forças armadas recebem agora um necessário (e tardio) reforço. Mesmo vivendo à míngua, com soldos defasados e quase esquecidos pelos governos da Nova República, nossos militares procuraram meios de desenvolvimento, especialmente na área de comunicações, radares, eletrônica etc. As forças especiais (paraquedistas, brigadas de selva, resgate aéreo e marítimo, além de outras) aprimoraram seu treinamento a ponto de conquistarem respeito internacional. Mas nas últimas três décadas lhes faltou algo essencial: a arma propriamente dita. O plano nacional de reaparelhamento das forças armadas, com investimento inédito na história, pretende cobrir essa lacuna. Do ponto de vista do respeito mundial em relação aos nossos militares, vale lembrar que estiveram em Angola (retirada das minas terrestres), no Timor Leste (comandando a força de paz) e no Haiti (impediram a guerra civil e socorreram as vítimas do terremoto, com a morte de 19 soldados). Agora estão convocados para comandar os “capacetes azuis” da ONU no sul do Líbano, na área de conflitos entre o Herzbolah, o “Partido de Deus” e Israel.

Os mais apressados poderiam achar que o investimento nas forças armadas seria uma resposta ao clima de violência e guerra civil não declarada vivido no Brasil. Errado! Os 47 bilhões de reais praticamente não têm nada a ver com a matança generalizada no país e a ampliação do tráfico e do crime organizado. As armas que estão sendo compradas se destinam, por natureza, a conflitos entre nações. Ou para defender um país da eventualidade de agressões externas. Como sabemos, temos problemas graves com pelo menos dois dos nossos vizinhos, a Colômbia e a Venezuela. Serviriam também para defender um pré-sal, com seus 131 bilhões de barris de petróleo. Mas – certamente – submarinos, caças e blindados pesados não podem ser empregados em conflitos nas favelas e periferias. Talvez os “Predator” possam ser empregados no controle de fronteiras. Nada mais do que isso!

Além do mais, o Brasil pleiteia um acento no conselho permanente de segurança da ONU. Para ocupar uma dessas cadeiras, é preciso dispor de uma força militar de intervenção consistente. E esse deve ser o motivo político por trás do reaparelhamento das nossas forças armadas. Vamos lutar além dos mares, quando o conflito está aqui mesmo, entre nós? Qual diferença faria gastar 47 bilhões de reais nas nossas polícias e forças de segurança, com ênfase no policiamento comunitário e na inteligência? Respostas difíceis para esses quesitos: abrimos mão do papel do Brasil no cenário mundial – ou tratamos de conter a nossa própria violência?

Fica para o leitor um tema de reflexão.

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“Assalto ao Poder” indicado para prêmio nacional

No último dia 22, a Editora Record inscreveu o “Assalto ao Poder” para o Prêmio Nacional de Literatura, promovido pela Biblioteca Nacional, na categoria “ensaio social”. Trata-se de uma das mais importantes premiações do gênero. A fase de seleção vai durar quatro meses e o resultado final será conhecido no início de 2011.

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Entrevista de Carlos Amorim para o SP AGORA

Carlos Amorim no SP AGORA

Confira a entrevista de Fatima Souza na integra no site do SP AGORA.

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Candidatos não têm propostas para a segurança

Nas principais preocupações dos brasileiros, medidas pelas pesquisas eleitorais, saúde, educação e segurança andam de mãos dadas (IBOPE, 17 de agosto). E se alternam no primeiro lugar entre os dramas do país. Muitas vezes, o medo da violência está no topo da lista. Mas os principais candidatos à Presidência não apresentam propostas claras sobre o tema da insegurança pública, menos ainda quando se trata de definir uma política de longo alcance para deter a violência. De 1970 até hoje, mais de um milhão de pessoas foram assassinadas no Brasil. Duas vezes a mais do que o número total de mortos na guerra civil colombiana – notem que o conflito no país vizinho se iniciou em 1956. Mesmo com um cenário tão terrível, nossos presidenciáveis não se comovem muito.

Dilma Roussef, do PT, elegeu o crack como alvo no quesito segurança: “é uma epidemia entre os jovens”. E nos programas eleitorais promete levar a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), do Rio de Janeiro para todo o país. As UPPs são tentativas de ocupação de favelas que estavam controladas pelo tráfico. Ao todo, são 12 peças num tabuleiro de mil favelas cariocas. A bem da verdade, trata-se de uma experiência interessante, mas é muito recente (cerca de dois anos) e seus resultados não são claros. Nem de longe as UPPs substituiriam uma política nacional de segurança. Até porque o caso das favelas cariocas é único.

José Serra, do PSDB, fala em criar o “ministério da segurança” e acusa o governo boliviano de cumplicidade com o tráfico, informando aos eleitores, equivocadamente, que 80% da cocaína consumida entre os brasileiros vêm da Bolívia, quando, na verdade, o produtor em larga escala é colombiano. Há uma longa – e tediosa – explicação sobre isso, que evito agora. Serra também promete levar ao Brasil “uma rede de clínicas de tratamento de dependentes químicos”, conforme anuncia em programas eleitorais,  entrevistas e debates, garantindo que a iniciativa de São Paulo será estendida para todos os brasileiros. Ao que consta, São Paulo fracassou redondamente no combate ao tráfico; sequer resolveu o problema da “cracolândia” – uma vergonha exibida diariamente no centro da capital. Sobre uma política de segurança, silêncio total.

Marina Silva, do PV, raramente toca nesse assunto – e os “verdes” defendem a liberação da maconha, que daria início a um processo de descriminalização do uso de drogas. Como evangélica, talvez a candidata não concorde com isso e provavelmente não tenha uma proposta acabada sobre segurança pública. Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, remete o problema ao baixo nível da educação e garante que a questão do tráfico é de saúde pública, confundindo viciados com traficantes, enquanto declara aos jornais que “um baseado não faz mal”. E não se conhece o pensamento dos demais candidatos – e são nove, ao todo.

O Brasil, cujos índices de violência alarmam o mundo e nos colocam num estado de guerra civil não declarada, já teve duas políticas de segurança. A primeira foi o conjunto de leis de exceção da ditadura de Getúlio Vargas (1930-45), especialmente no período conhecido como Estado Novo, após o levante comunista de 1935 e com o chamado “golpe branco” de 37. A segunda foi a Lei de Segurança Nacional do Regime Militar (1964-85), particularmente após o AI-5 (13 de dezembro 1968). Foram políticas de amplo alcance histórico, destinadas a legalizar a violência do Estado contra seus opositores. A prisão ilegal, suspensão do habeas corpus, tortura e assassinatos se tornaram práticas frequentes.

Tais políticas de segurança estavam voltadas à proteção do regime e do grande capital. Não se preocupavam com o cidadão comum, até porque a violência política funcionava como uma tampa que coibia também o crime avulso. Na dúvida, criminosos políticos e bandidos terminavam igualmente na cadeia ou na vala comum. Presos juntos ou enterrados como indigentes. O aparato de repressão era quase onipresente, sufocando tudo e todos.

Agora, passados esses anos de terror, o problema é proteger o cidadão, diante de um quadro de insegurança que ameaça todas as classes sociais. Nos últimos 30 anos, o Brasil moderno abandonou imensas populações à própria sorte. As maiores cidades brasileiras se pauperizou, construiu enormes favelas e bairros sem qualquer tipo de assistência. E neles se instalou o banditismo protagonizado pelo tráfico de drogas. Por que? Porque o tráfico é um tipo de atividade criminosa de baixo risco e de altos lucros, que possibilita grande ocupação de mão de obra, especialmente nas tarefas de infraestrutura, como transporte, “endolação” (separação, pesagem e embalagem) e distribuição. Sem falar na proteção armada a todo esse esquema, que é a parte mais visível para a opinião pública. A infra do tráfico é oculta e não sai no Jornal Nacional.

Nesse cenário de tanto abandono por parte das autoridades, o tráfico se tornou o principal fator econômico nas comunidades pobres. Em segundo lugar, surge o comércio de materiais de construção, porque as favelas e periferias eram de madeira e se tornaram de alvenaria, num processo de autoconstrução que vem desde os anos 1980. E – em terceiro lugar – está o varejo de alimentação, o gás engarrafado e o transporte baseado em vans. Até os bancos já descobriram esse novo mercado e fazem grandes investimentos nas maiores favelas do país, como a Rocinha, no Rio, e Heliópolis e Paraisópolis, em São Paulo. As agências bancárias nessas comunidades nunca foram assaltadas e têm poupança e linhas de crédito para pequenos empreendedores. O pobre tem o maior prazer em possuir um cartão de crédito ou de descontos. Assim se inclui na sociedade de consumo e faz questão de pagar em dia, mesmo que o dinheiro tenha origem ilegal. Como a pirataria, por exemplo, amplamente exposta nos modernos camelôs.

Nossos atuais e futuros governantes não parecem compreender esse cenário, onde o crime organizado e a violência se movem sem qualquer discrição. Em suas campanhas eleitorais, a informalidade, a pirataria e o crime não são considerados. Trata-se, apenas, de acusações pessoais e disputas de currículos. Um dossiê vale mais do que mil palavras sobre esse Brasil que cresce mancando.  E os bons cidadãos, que pagam impostos e penam nas filas do serviço público, continuam esperando uma palavra de salvação – se salvação houver! Sobre uma política de segurança, nada. É melhor mudar de assunto. Mas as urnas vão falar – inclusive com a voz dos milhões de vítimas da violência. Essa voz deve ser implacável!

Depois, nossos intelectuais vão discutir o que foi que o povo quis dizer! E aí, será tarde demais?

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PCC pode retomar ataques armados

No início desse mês de agosto, o Primeiro Comando da Capital (PCC) voltou à primeira página dos principais jornais e frequentou novamente o noticiário das televisões e emissoras de rádio. Foi após um período de mais de três anos de silêncio. Desta vez o alvo foi a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a tropa de elite da PM paulista, tragicamente famosa por sua história de violação dos direitos civis, torturas e assassinatos. Durante o regime militar (foi criada em 1970), a Rota ficou famosa por atirar primeiro e perguntar depois. No entanto, em todos esses anos de amplas liberdades no Brasil, a Rota tem estado praticamente confinada à sede do batalhão, na Avenida Tiradentes, centro de São Paulo. Realiza treinamentos militares avançados de cerco e destruição (“search and destroy”, como são definidos por manuais internacionais de combate), mas não é muito vista pelas ruas, a não ser em operações pontuais.

Por volta das sete da noite de 1º. de agosto, o tenente-coronel Paulo Adriano Telhada, comandante da unidade, saia de sua casa quando foi recebido por uma chuva de balas. Onze tiros de pistolas automáticas P40, disparadas por dois homens. Telhada estava à paisana e desarmado. Escapou por pouco. O filho dele, também oficial da PM, tentou reagir, mas os agressores foram mais rápidos e escaparam da cena do crime. Quinze horas mais tarde, tiros foram disparados contra o quartel da Rota. Houve perseguição e o ex-detento Frank Ligieri de Souza, que havia deixado o Presídio de Guarulhos em fevereiro, acabou morto pelos policiais. A polícia garante que Frank era integrante do PCC. Nas duas semanas que se seguiram aos atentados, 22 veículos foram incendiados, 17 deles na Zona Leste, onde a facção tem o controle do tráfico de drogas.

Por que o PCC teria rompido o silêncio? A primeira resposta é a de que, em ano de eleições, o governo paulista teria mandado a Rota de volta às ruas, para dar uma sensação de segurança ao eleitor. Em consequência, nas semanas anteriores aos atentados, a Rota se envolveu em confrontos com quadrilhas de assaltantes e traficantes, inclusive “estourando” um laboratório de refino de cocaína. Um desses confrontos, no bairro do Ipiranga, foi transmitido ao vivo pelo “Brasil Urgente” da Band. Dois policiais, um deles da Rota, ficaram feridos. Uma criança foi atingida no peito por uma bala perdida. Além do mais, de janeiro a julho, a Rota apreendeu quase uma tonelada de crack, maconha e cocaína – um prejuízo de vários milhões de reais para o tráfico.  Tudo isso teria causado a represália do autodenominado “Partido do Crime”.

A segunda explicação para os ataques é um pouco mais complicada e faz lembrar a onda de violência desencadeada pelo PCC em 2006. Entre maio e agosto daquele ano, a organização criminosa teria sido responsável por 295 atentados violentos, que resultaram em muitas mortes de agentes da lei, bandidos e cidadãos inocentes. A Anistia Internacional chegou a publicar um relatório especial sobre o conflito, informando que 492 pessoas haviam sido mortas, número jamais confirmado oficialmente. A mídia, porém, chegou a apontar mais de 200 mortos em consequência da violência generalizada que atingiu São Paulo. Quase dois Carandirus, verdadeiro massacre. Por ocasião dos ataques do PCC, Geraldo Alckmin estava afastado do Governo e concorria à Presidência. Agora, Alckmin é o principal candidato ao Palácio dos Bandeirantes nessa eleição de 2010.

O PCC tem uma antiga diferença com os governos do PSDB no Estado. Foi entre 2003 e 2006 que os tucanos implantaram o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que atingiu duramente a liderança da facção. Foram erguidas cadeias de segurança máxima e isolamento, como as de Presidente Bernardes, Avaré e Presidente Venceslau. O PSDB também firmou convênios com o Governo Federal para transferir presos perigosos para outras unidades da Federação, causando danos ainda maiores para os negócios do PCC. Com a medida, espalhou-se a experiência de organização do grupo.

Agora que os tucanos estão em vias de conquistar mais uma vez o governo paulista, dando seguimento a um ciclo de poder que já dura 16 anos, podemos estar às vésperas de mais uma onda de violência armada. O atual governador, Alberto Goldman – substituiu José Serra, que concorre à Presidência -, não tardou a declarar: “Esses ataques contra a Rota nem de longe lembram o que aconteceu em 2006”. Pode ser, mas o tema PCC esteve presente no debate entre os candidatos que a Band realizou em 12 de agosto. O senador do PT Aloisio Mercadante, que disputa a vaga para o governo paulista, declarou ao vivo: “O PCC já ganhou a briga, domina todos os presídios”.

Mais uma vez, como em 2006, vemos o “Partido do Crime” aparecer na cena política.

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