Show de baixarias na Câmara: gritaria, xingamento e empurra-empurra entre os deputados. Em meio à confusão, votação secreta para a comissão do impeachment impõe séria derrota ao governo. À noite, surpresa: STF manda parar tudo.

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Eduardo Cunha é interpelado por deputados governistas. Foto do portal Abril.

 

272 a 199. Foi esse o tamanho da derrota do governo na votação da Câmara dos Deputados. Foi escolhida a chapa de oposição para a comissão do impeachment da presidente Dilma. A sessão de hoje (8 dez) foi a mais tumultuada em muitos anos. Gritaria, palavrões, deputado empurrando deputado. Um espetáculo de baixarias poucas vezes visto no Parlamento brasileiro. A derrota da base governista foi ainda maior porque o presidente da casa legislativa, Eduardo Cunha, impôs o ritmo dos trabalhos, decretou voto secreto e impediu os debates. Parlamentares alinhados com o Planalto chegaram a quebrar algumas urnas eletrônicas que seriam utilizadas na escolha dos membros da comissão especial. Nem isso funcionou.

Além do mais, Cunha também saiu vitorioso – pela quinta vez – na Comissão de Ética que deveria decidir se abre ou não o processo de cassação do mandato dele. A sessão foi encerrada sem resultado, por causa das manobras dos aliados do presidente da Câmara. O enfraquecimento do governo fica mais e mais visível.

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Oposição comemora vitória na Câmara. Imagem da TV Câmara.

Pelos embates dessa terça-feira, dá para perceber o tamanho do impacto da defecção do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), que abandonou o governo. Temer mandou uma carta agressiva para a Dilma, reclamando da falta de confiança dela. Nem se deu ao trabalho de conversar pessoalmente com a presidente. Mesmo assim, uma parte do PMDB ainda apoia o Planalto. Não se sabe por quanto tempo. Na votação da Câmara, só o PT e o PCdoB fizeram claras manifestações pró-Dilma.

Um detalhe: se os 199 votos que o governo recebeu se mantiverem fiéis, Dilma escapa do impeachment. Precisa de 172 para impedir o processo. Mas a diferença de apenas 27 votos é pequena para um Parlamento acostumado a negociações espúrias e traições de todo tipo.

À noite, após os telejornais da hora do jantar, chegou a notícia de que o ministro Luiz Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou parar tud0. O magistrado concedeu liminar a uma reclamação feita pelo PCdoB, que apontava falhas e ilegalidades na sessão da Câmara. O caso vai ao plenário da Suprema Corte no dia 16 deste mês. Até lá, nada vale. No despacho, o ministro adiantou que o voto secreto imposto por Eduardo Cunha não está nem no regimento interno da Câmara, nem na Constituição.  Ou seja: bagunça geral.

 

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Dilma quer sair do impeachment com total controle político do governo. Só assim se livraria da herança lulista. Este é o projeto dela desde a reeleição.

 

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Dilma quer se livrar da herança de Lula. Foto do portal da Veja.

Informações de bastidores, postadas por um amigo jornalista de Brasília, na forma de um comentário aqui no site, revelam um ambiente curioso na capital. Na opinião do colega experiente, por estranho que pareça, a presidente Dilma pretende sobreviver ao impeachment e assumir o controle político total do governo. Quer se livrar da herança de Lula, que sempre marcou decisões importantes desde o primeiro mandato. Inclusive – e talvez principalmente – na formação do ministério. Análises palacianas dão conta de que a presidente tem 212 votos na Câmara, mais do que o suficiente para derrubar o processo de cassação.

O jornalista em questão é assessor direto de um dos ministros que integram o “núcleo duro” do governo, os homens de confiança da presidente. Pela relevância do texto, decidi publicar na forma de um pequeno artigo. Mas, infelizmente, não posso identificar o autor. Seria uma quebra de confiança imperdoável. Confira:

“Gostei muito do teu post sobre o impeachment. Só não comento porque, em minha posição, não posso falar nem escrever uma só vírgula sobre este tema. Você está bem situado, acho. Apenas acrescento que a formatação da luta anti-impeachment é muito singular. OU seja: Dilma chamou para ela o comando político do processo (elevadas chances de sair tudo errado), o que, em caso de vitória, lhe dará a autonomia diante de Lula que ela vem procurando desde a campanha eleitoral. Se vencer, o governo será só dela.

“Quanto a (Michel) Temer, se afastou de Dilma quando ela discordou de sua proposta de condução política. Temer disse-lhe que deveria fazer uma defesa institucional do mandato. Dilma preferiu um confronto direto, bate-boca contra Eduardo Cunha. Esta é a diferença real. A turma do núcleo duro da assessoria  acha que ela não devia levar o debate para o terreno do embate pessoal com Cunha, pois, tão logo o processo entre nos seus trâmites, desaparece a importância do deputado.

“Por outro lado, esses políticos acreditam que o confronto servirá para destravar o governo. Se vencer, Dilma poderá governar. Por enquanto, está tudo travado e a economia despencando. Aí estaria a questão: fazendo as contas, Dilma conta com 212 votos, ou seja, o suficiente para derrubar o processo no plenário da Câmara. Com essa segurança ela vai para o confronto. Interessante é que a luta na Câmara não é contra a oposição, mas dentro de sua própria base, que é a grande responsável pela paralisação da agenda do governo desde a posse. Atacar Temer pode ser um tiro no pé”.

Do texto, podemos extrair conclusões básicas: Eduardo Cunha some após a instalação da Comissão Especial do processo de impeachment, abandonado à própria sorte até pela oposição; se ela vencer, afasta Lula e o PT mais exigente; mas, como sabemos, Dilma não é nenhum primor em matéria de política e se comunica muito mal com o publico. Se ela tiver mesmo os 212 votos na Câmara, vence tranquilamente. Por isso a oposição quer deixar a votação para o ano que vem, mandando os deputados – de férias – para a praia e a fazenda. Quem sabe para Miami?

Cenas do próximo capítulo.

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Michel Temer prepara o desembarque do PMDB e se aproxima da oposição. O vice-presidente já é chamado de “conspirador” pelos petistas. Agora o jogo do impeachment de Dilma ficou mais complicado.

Temer & Alckmin

Em meio à confusão política, Temer e Alckmin se encontram em São Paulo.

Até a sexta-feira passada (4 dez), a balança do impeachment pendia mais para o Planalto. Com certeza, Eduardo Cunha e as oposições não tinham 342 na Câmara Federal para aprovar o processo de cassação do mandato de Dilma Rousseff. Agora o xadrez político se complica: a aparente deserção de Michel Temer (PMDB-SP), o vice e maior beneficiário do afastamento da presidente, abre caminho para uma debandada no governo. Já começou com o pedido de demissão de Eliseu Padilha (PMDB-RS), Ministro da Aviação Civil. Pode levar a outra demissão, a de Henrique Alves (PMDB-RN), Ministro do Turismo, que estaria sob pressão da ala pró-impeachment dentro do partido aliado.

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Eliseu Padilha, demissionário, abre a lista de peemedebistas que devem deixar o governo.

A lealdade de Temer, reclamada por Dilma em discurso público, era fundamental para manter a maior parte do PMDB ao lado do Planalto. No fim de semana, enquanto Brasília pegava fogo em articulações para a formação da comissão da Câmara que vai dar a primeira palavra sobre o afastamento da presidente, Michel Temer participava de um almoço com empresários em São Paulo, ao lado do governador Geraldo Alckmin, um dos grandes líderes da oposição. Há quem diga, pelo que se lê nos jornais, que Temer já pensa em formar um governo de coalizão: PMDB rebelde + PSDB + DEM + PPS + quem mais aderir. Menos PT e PCdoB. A senha para a rebelião seria uma manifestação pública de Michel Temer, anunciando o rompimento.

A nova articulação, na verdade, seria outro balaio de gatos, sem qualquer chance de modificar o sistema político. Continuaria a mesma coisa: loteamento do governo, cabide de empregos, fisiologismo de toda espécie. O principal objetivo desta coalizão é banir Dilma, Lula e o PT. Independentemente da crise nacional. Só que antes vai ser preciso derrubar a presidente. Como disse no início deste artigo, o problema se complicou – e está muito longe de ser resolvido.

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Impeachment: Eduardo Cunha continua a pressionar o governo. Agora ele ameaça revelar conversas secretas com o Planalto. Pesquisa Datafolha: 81% dos brasileiros querem a cassação do deputado. Outros 67% dizem que Dilma é péssima.

 

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Cunha continua a chantagear o governo.

Está claro em todo o noticiário sobre a abertura do impeachment contra Dilma Rousseff que o presidente da Câmara dos Deputados estava chantageando o governo. Ele queria trocar o processo conta a presidente pelos três votos do PT na Comissão de Ética da Câmara, que pode cassar o mandato dele por falta de decoro. Quem jogou a última gota de gasolina na fogueira foi o presidente do PT, Ruy Falcão. O petista comentou com os jornalistas que os deputados do partido na Coimissão de Ética votariam contra Eduardo Cunha. Imediatamente, foi aceito o pedido de impeachment.

Na tarde desta quinta-feira (3 dez), a ação contra Dilma foi lida no plenário da Câmara, dando início ao processo. Ao mesmo tempo, em entrevista coletiva, Cunha chamava a presidente de mentirosa e ameaçava revelar conversas secretas entre ele e o governo no que se refere à aprovação, cada vez mais remota, da CPMF. No Congresso, os observadores afirmam duas coisas: Cunha não escapa do processo por falta de decoro e não conta com os 342 votos necessários para cassar a presidente. Na verdade, Dilma precisa de 171 votos para derrubar o pedido. Só o PT e o PCdoB, aliados firmes, somam 80 votos na Câmara. E se o processo do Conselho de Ética chegar ao plenário, há uma boa chance de Cunha perder o cargo de presidente e o próprio mandato.

Na verdade, Eduardo Cunha corre riscos maiores do que Dilma. Se perder o foro privilegiado, as acusações de corrupção contra ele na operação Lava-Jato, inclusive as contas na Suíça e a sonegação fiscal, saem do Supremo Tribunal e vão bater nas mãos do juiz Sérgio Moro. Aí, a barra pesa. De caráter excessivamente agressivo, sem a menor elegância, o deputado peemedebista queimou todas as pontes. Não pode mais renunciar à presidência da Câmara – e o impeachment agora parece irreversível e Cunha terá que obter os tais 342 votos. Se a ação contra Dilma cair, Cunha vai para o espaço. Diz o Datafolha: 81% dos brasileiros querem a cassação dele.

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De novo, um país dividido.

Todo esse imbróglio político mostra que o governo é fraco. Está paralisado e sem apoio popular (67% de reprovação no Datafolha). Agrava a crise econômica e faz aumentar a desconfiança do capital nacional e estrangeiro. Provavelmente, as agências internacionais de avaliação de crédito vão rebaixar a nota brasileira. Só os banqueiros e os especuladores estão gostando da crise: hoje a bolsa subiu, puxada pela alta das ações dos bancos, e o dólar baixou. Mas o empresariado sério, produtivo, que acredita no país, está de cabelo em pé. Vai continuar pisando no freio. Isso quer dizer: mais desemprego e mais recessão. A inflação mordeu o cabresto. O Banco Central, que deveria ter iniciado o corte dos juros, deixou o problema para o ano que vem, quando será tarde demais. E a banca, sorridente, cobra juros de até 400% ao ano, quando a Selic é de 14,25%.

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Radicalismo político pode gerar confronto e vi0lência.

E tem mais: como a História ensina, a elevação da temperatura política produz radicalismos de parte a parte. E radicalismo gera confronto. Ninguém se espante se houver violência nas ruas do Patropi. Querem ver o circo pegar fogo em Brasília, mas se esquecem das consequências sociais. Você, leitor, está preparado para a volta dos black blocs?

 

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PT joga Delcídio do Amaral às feras e teme delação do senador. Presidente da Câmara enrola a própria cassação e ameaça com impeachment de Dilma. STF manda investigar mais dois senadores: Renan e Jader. É um salve-se quem puder.

Alguém já disse que o Brasil dança ao som da Lava-Jato. Mas isso é pouco para definir o que está acontecendo em Brasília. O Congresso está em rebelião contra o Planalto. Dilma não consegue governar. A reforma ministerial, beneficiando o PMDB, foi um fiasco. Sem conseguir aprovar todo o ajuste fiscal, o governo prova o gosto amargo da traição dos aliados. Perde-se o ano e a perspectiva de resolver a questão econômica fica para 2017. Não há Joaquim Levy que aguente isso.

O PIB do país encolheu 5,8% nos últimos 18 meses: a maior recessão desde o Plano Real, que é equivocadamente atribuído a Fernando Henrique Cardoso. Foi obra de Itamar Franco e do grupo de economistas da PUC do Rio. O controle inflacionário, iniciado por Itamar e continuado por FHC e Lula, naufragou sob Dilma. Para este ano se espera uma inflação próxima aos 10%.

Como entender o comportamento do Congresso, que se recusa a desatar o nó da economia? E quem são os congressistas? Vejamos: dos 594 parlamentares federais, 160 deputados e 31 senadores respondem a ações penais no Supremo Tribunal (STF). Considerando processos administrativos e crimes comuns, o número atinge 40% do Parlamento. Algo como 237 deputados e senadores. Se olharmos para deputados estaduais e vereadores, a conta atinge milhares. Estes são os homens e mulheres responsáveis por criar as leis.

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Delcidio do Amaral: entregue às feras.

Legislam em causa própria, tratando de proteger seus privilégios e encobrir suas bandalheiras. Pior: vendem votos no Parlamento para defender os interesses do grande capital. E abusam das “manobras regimentais” para impedir investigações e escapar das punições. Agora é justamente a “banda pobre” do Congresso, antigamente chamada de “baixo clero” por seu fisiologismo, que está no poder. De exceção, virou maioria. E maioria folgada. Até as crianças do primário já sabem que este Congresso não vai resolver nada.

A opinião pública e as mídias apontam o dedo para a presidente Dilma Rousseff e o PT. São eles os demônios que torturam o país. Então, vamos derrubá-los. Mas o que será do Brasil governado por Michel Temer e o PMDB? Eduardo Cunha seria o segundo homem na hierarquia de sucessão presidencial. Hoje mesmo a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados tentou abrir um processo contra ele por falta de decoro parlamentar. Manobras dos aliados de Cunha impediram um desfecho.

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Dilma não aprova todo o ajuste econômico e não consegue governar.

Cunha mantém no bolso do paletó uma arma contra Dilma e o PT: sozinho ele pode decidir se abre um processo de impeachment. Usa isso como instrumento de barganha e assusta o Planalto. Ou seja: o cargo de presidente da Câmara é utilizado para a defesa de interesses pessoais do deputado do PMDB. Ele pode escapar da condenação política. É provável. Mas o judiciário está bufando no cangote dele. Como bufa também no cangote do presidente do Senado, Renan Calheiros, denunciado pela Procuradoria Geral da República. O ministro Teori Zavascki, da Suprema Corte, acaba de autorizar investigações contra Delcídio, Renan e Jader Barbalho. Três pilares do Senado que ameaçam desabar.

É bom não esquecer que o líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, já está preso. E foi abandonado pelo PT, que publicou nota oficial dizendo que isso é problema dele, não do partido. Jogou o cara às feras. No interior do próprio Partido dos Trabalhadores, aumenta a divergência entre as tendências que compõem a maioria dos filiados. A luta interna é tão feroz que pode resultar em racha da legenda, coisa que muitos observadores consideram provável. Petistas com quem conversei dizem que o resultado eleitoral em 2016 será desastroso para o partido.

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Lula, a última alternativa do PT?

Em 2018, pode ser ainda pior. O antipetismo, assoprado por escândalos e pelo fracasso econômico, insuflado por todas as mídias, varre o país de alto a baixo. Lula vai tentar uma candidatura? É difícil que isso aconteça se o descrédito do PT continuar se aprofundando. Ele não é bobo. A pesquisa do Ibope mais recente (26 out) afirma que Lula tem a maior rejeição por parte do eleitorado (55%). Só 23% dos entrevistados disseram que votariam nele com certeza, contra 15% de Aécio e 11% de Marina Silva. Mas pesquisas são só pesquisas. Certo? A retomada do crescimento econômico não ocorrerá antes do segundo semestre de 2017. Em termos políticos, tarde demais. Raposa política, Lula sabe que o cenário é extremamente difícil para ele e o PT.

E qual seria o panorama de 2018?

Aécio Neves (PSDB-MG) é candidato, mas pode enfrentar disputa interna com Geraldo Alckmin e dificilmente escapará de acusações de corrupção; Marina Silva (Rede) está na disputa, mas sofreu enorme desgaste na última campanha, por não ter propostas claras e por ter sido “desconstruída” no horário eleitoral; Ciro Gomes (PDT-CE) aparece como novidade, mas tem alta rejeição fora do nordeste e é identificado com Lula, de quem foi ministro; Michel Temer (PMDB-SP) pode ser o nome mais visível do partido para a disputa, mas tem o desgaste dos escândalos de corrupção no partido, agravados pelas acusações contra Renan e Cunha; Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, pode aumentar a confusão, candidatando-se por algum partido pequeno. É o caos absoluto.

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Ciro Gomes, do PDT, é novidade para 2018.

As oposições, centradas em Aécio Neves, não foram capazes de se apresentar ao país como uma alternativa viável. Batem em Dilma e no PT, mas não têm projeto. Chutar cachorro morto é fácil. Resolver o drama brasileiro exige programa político e econômico. Especialmente, uma liderança, um estadista capaz de unificar o país. Isso as oposições não têm. O PT menos ainda.

Se Lula não concorrer, o partido governista não tem alternativa. Vai voltar às origens, colocando na disputa um nome para “marcar posição”. Ocupa o tempo de rádio e televisão numa tentativa de se reaproximar dos movimentos sociais e sindicais, que abandonou. Ou seja: começa tudo outra vez. Volta àquilo que nunca deveria ter deixado de ser: um partido inserido no mundo real. Ou acaba de vez.

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Governo investiga apoiadores do Estado Islâmico no país e teme terrorismo nos Jogos Olímpicos do Rio. A Polícia Federal e a Abin estão convencidas de seremos vítimas de atentados cibernéticos. A sombra de Munique ainda paira sobre as Olimpíadas.

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O ataque do “Setembro Negro” às olimpíadas de Munique, em 1972.

Na tarde desta segunda-feira (23 nov), o ministro Ricardo Berzoini, da Secretaria de Governo, falou aos jornalistas sobre os temores do Planalto em relação à possibilidade de ataques terroristas durante a realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, na metade do ano que vem. Ele explicou que o cenário é bem mais complicado do que na Copa do Mundo. O número de países participantes é três vezes maior, com problemas internos mais graves e relações internacionais complexas. Muitos desses países, inclusive, já enfrentam o terrorismo.

Dez dias antes, enquanto ainda estava na reunião do G20 na Turquia, a presidente Dilma também se pronunciou: “não estamos livres do problema e ainda precisamos aprovar uma legislação antiterrorista”. Parece que as preocupações da presidente são sinceras. Em 2013, quando o Brasil preparava o plano de segurança para a Copa do Mundo, ela atendeu pedido dos militares para negociar a compra de seis baterias de mísseis antiaéreos russos, o sistema TOR M2E. Os foguetes seriam usados para proteger o litoral do Rio e possibilitar reação em caso de aviões serem sequestrados, como aconteceu em Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001.

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O sistema TOR M2E: mísseis antiaéreos.

Para o esquema de segurança das olimpíadas, mais de 30 mil homens e mulheres das Forças Armadas e das polícias estarão nas ruas. O Ministério da Justiça informou hoje (25 nov) que foram aplicados 350 milhões de reais em equipamentos e treinamento para dar tranquilidade aos Jogos Olímpicos Rio 2016. E não é para menos. Em entrevista à Globonews, o ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, que quase morreu no ataque às Torres Gêmeas, deu uma declaração também preocupante. Ele disse que as olimpíadas são boas para o Rio e para o Brasil, mas chamou atenção para o fato de que os jogos trazem o que há de melhor e o que há de pior no mundo.

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O libanês Firas Allameddin, em foto da Revista Época. A polícia diz que ele é suspeito de apoiar o ISIS.

No último mês de agosto, a Polícia Federal prendeu, na periferia de São Paulo, três pessoas suspeitas de apoiar o Estado Islâmico. Firas Allameddin e dois de seus irmãos, Fadi e Toufic, todos libaneses, foram acusados de integrar uma quadrilha de lavagem de dinheiro e falsificação de documentos. Eles teriam enviado 50 milhões de reais para o Líbano, supostamente para financiar o terrorismo. A polícia chegou até eles investigando o egípcio Heshan Eltrabily. Acusado de participar de um atentado que matou 62 pessoas no Egito, em 1997. Heshan veio para o Brasil em 2002. O governo do Cairo pediu a extradição do suposto terrorista, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu que não havia provas contra ele.

Fontes da PF asseguram que a investigação contra o grupo continua.

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França declara estado de guerra, anuncia mudanças na Constituição, reforça as forças de segurança, promete cassar a cidadania de franceses envolvidos com o terrorismo e impedir a entrada no país de estrangeiros perigosos. Ou seja: a maior democracia o mundo se dobra ao terror. É a primeira vitória do Estado Islâmico em escala global.

O horror em Paris: 129 mortos e 350 feridos.

O horror em Paris: 129 mortos e 350 feridos.

No início da tarde desta segunda-feira (16 nov), a capital da França se transferiu de Paris para Versalhes, para dar lugar a uma reunião conjunta do Senado e da Assembleia Nacional. Foi a terceira vez em mais de um século e meio que uma coisa dessas aconteceu. O presidente François Hollande, em um discurso de 40 minutos de duração, ao vivo pela televisão em todo o mundo, deu a verdadeira dimensão da tempestade de fogo e horror que desabou sobre a França na última sexta-feira (13 nov).

A nação mais democrática do planeta, que praticamente inventou as liberdades individuais, declara estado de guerra contra o ISIS (“Estado Islâmico do Iraque e do Levante”, em inglês). Anuncia que vai criar novas leis e mexer na Constituição, de modo a poder invadir residências, realizar buscas e prisões sem ordem judicial. É uma mudança dramática para a democracia naquele país, forçada pelo terror a rever seus princípios baseados na ampla liberdade.

Franceses em estado de choque.

Franceses em estado de choque.

Esta foi a primeira grande vitória do Estado Islâmico em escala global. Atinge valores universais e obscurece a humanidade. O preço foi  a morte de 129 inocentes no centro de Paris. Em ataques coordenados dos terroristas do ISIS, 350 pessoas ficaram feridas, quase uma centena em estado grave. E os extremistas eram apenas oito, com fuzis Kalashnikov, granadas e cinturões de bombas. Sete deles morreram. Pelo menos um conseguiu fugir do cenário macabro. Aparentemente, vários cidadãos franceses estiveram envolvidos nos atentados.

O governo francês também anunciou a abertura de 13.500 novas vagas para as forças de segurança. E proibiu baixas administrativas nas Forças Armadas até 2019. Pôs o Exército nas ruas e já prendeu mais de 120 suspeitos de ligação com grupos extremistas. Mas a derrota do Estado francês é evidente. Ao anunciar as medidas de exceção, o presidente Hollande, que amarga baixíssimos índices de popularidade, foi aplaudido de pé – e longamente – pelos 900 parlamentares franceses. De quebra, ele ainda revelou que está deslocando para o Mediterrâneo o maior porta-aviões francês, que vai triplicar o poder de fogo contra a milícia islâmica na Síria e no Iraque.

A cara do terror: jovens europeus atuam com o ISISS.

A cara do terror: jovens europeus atuam com o ISISS.

Quase simultaneamente, na reunião de cúpula do G20 (Turquia), Barak Obama fazia um discurso dúbio: continuaria com os ataques aéreos contra o Estado Islâmico, mas não colocaria tropas na Síria. É o mesmo que dizer: vai continuar tudo igual. O ISIS somente será derrotado por terra, com grandes divisões blindadas apoiadas por fogo aéreo e seguidas por infantaria. A conclusão é dos próprios generais do Pentágono, que falam no emprego de 200 ou 300 mil homens. Mas Obama, em fins d governo, não vai fazer nada disso.

O presidente François Hollande.

O presidente François Hollande.

Infelizmente, a Europa deve se preparar para muitos outros ataques devastadores, inclusive por causa da migração em massa de refugiados. E o Estado Islâmico vai acumular vitórias, porque a estratégia da milícia extremista é levar as trevas e a barbárie a todo o mundo.

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Coalizão diz que matou “Jihad John”. Mas não mostra provas. O terrorista do ISIS ficou famoso decapitando prisioneiros ocidentais.

O assassino de reféns do ISIS.

O assassino de reféns do ISIS.

Por volta das nove horas da noite desta quinta-feira (12 nov), no horário da Síria, três drones americanos da classe Predator dispararam foguetes “hellfire” contra um carro com quatro pessoas em seu interior. Foi na cidade síria de Raqqa, considerada a capital do Estado Islâmico nos territórios ocupados pela milícia extremista. O veículo ficou destroçado – e dele não saiu ninguém vivo.

Este teria sido o fim de Mohammed Emwazzi, o “Jihad John”, 27 anos, cidadão britânico que se tornou célebre por horrorizar o mundo com suas decapitações cruéis. Estados Unidos e Inglaterra comemoram, mas dizem não poder afirmar que ele tenha mesmo morrido. O terrorista vinha sendo monitorado por um satélite espião dos Estados Unidos. E – com certeza – os americanos têm agentes infiltrados no ISIS. Não seria possível saber que o assassino estava dentro daquele carro sem olhos ao nível do chão. O ataque foi filmado, mas as imagens até agora não foram liberadas.

O Secretário John Kerry está otimista.

O Secretário John Kerry está otimista.

O Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, declarou que agora “os terroristas sabem que serão derrotados”. Parece um pouco otimista demais. Até hoje os Estados Unidos não sabem quantos homens e mulheres compõem o ISIS. A milícia islâmica só existe há dois anos e meio e já ocupa parte da Síria e do Iraque. Kerry parece não entender muito bem o que se passa por lá.

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Desvio de centenas de armas da PM do Rio é investigado por CPI: descontrole nos arsenais abastece o crime organizado.

Armas apreendidas na favela da Rocinha, no Rio.

Armas apreendidas na favela da Rocinha, no Rio.

Um número ainda não determinado de revólveres, pistolas, fuzis e granadas desapareceu dos arsenais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. De início, a própria PM informou que foram 857 armas, Depois, o número baixou para 457, porque se descobriu que algumas dessas armas haviam sido transferidas de uma unidade policial para outra. A própria corporação admite que há “um certo descontrole” em relação aos seus suprimentos, porque os registros de entrada e saída são manuais. Simples anotações num livro.

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Fato estranhíssimo: em 2011, a PM inaugurou um moderno e caríssimo sistema informatizado de controle do armamento, que parou de funcionar no ano seguinte. E sem maiores explicações. Só na metade deste ano é que os computadores voltaram a funcionar, também se motivos aparentes. O sumiço das armas teria se iniciado em 1993 – e se intensificado nos anos mais recentes. Pior: algumas dessas armas foram apreendidas com traficantes. Além do mais, dezenas de milhares de munições também desapareceram.

 

Em setembro deste ano, só na Companhia Independente de Polícia Militar, responsável pela guarda do Palácio Guanabara, sede do governo, houve um desvio de 2,5 mil munições. Coisas assim levaram a Assembleia Legislativa do Rio a abriu uma CPI para investigar o destino de todo esse material. E os deputados descobriram mais de mil inquéritos internos na PM para apurar os fatos. Pelo menos 50 policiais estariam sendo investigados. Ao que tudo indica, a Justiça não ficou sabendo.

PM em ação nas favelas: armamento desviado.

PM em ação nas favelas: armamento desviado.

Trata-se de um escândalo sem precedentes. Parece que há uma quadrilha dentro da corporação, especializada em desviar o armamento. O comando da PM informou: boa parte das armas sumidas deveriam estar com as UPPs. Isto provavelmente quer dizer: roubar dos quartéis para vender ao crime organizado, que depois vai utilizar as armas para enfrentar a polícia. Ou para matar o cidadão comum com balas perdidas.

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Brasil e Itália trocaram prisioneiros: veio o “mensaleiro” Henrique Pizzolato – e vai um chefão da Camorra, a máfia napolitana especializada no tráfico internacional de drogas.

Pasqualle Scotti, o chefão da Camorra que teria sido trocado por Pizzolato.

Pasqualle Scotti, o chefão da Camorra que teria sido trocado por Pizzolato.

Os últimos capítulos da extradição de Henrique Pizzolato, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, condenado a 12 anos e 7 meses de prisão no processo do “mensalão” e que estava detido na Itália, foram marcados por intensas negociações de bastidores. A justiça e o governo italianos estavam dispostos a negociar Pizzolato em troca de dois de seus cidadãos no Brasil. Queriam aproveitar a oportunidade.

O primeiro deles era Cesare Batistti, acusado de terrorismo e quatro homicídios, condenado à prisão perpétua na Itália, um dos fundadores da organização de extrema-esquerda chamada “Proletários Armados pelo Comunismo” (PAC), grupo ligado às “Brigadas Vermelhas”. Fontes do Ministério da Justiça brasileiro dizem que essa troca estava fora de questão, porque Batistti tem status de refugiado político. O abrigo foi concedido pelo próprio presidente Lula, em fins de 2010. Foi um ato oficial no apagar das luzes, em 31 de dezembro. Dilma já estava eleita.

Cesare Batistti, italiano condenado à prisão perpétua em seu país.

Cesare Batistti, italiano condenado à prisão perpétua em seu país.

O segundo “alvo” dos italianos era um chefão da Máfia de Nápoles, mais conhecida como a “Nova Camorra Organizada”. A facção criminosa controla parte importante do tráfico mundial de drogas. Atua particularmente na compra de entorpecentes na América do Sul (é aliada do Comando Vermelho, do PCC e dos cartéis colombianos) e na África (associada aos traficantes nigerianos). Depois contrabandeia cocaína e heroína para a Europa ocidental e os Estados Unidos. O fundador da “Nova Camorra”, Pasqualle Scotti, um tipo parecido com o “Don Corleone” do cinema, havia fugido para o Brasil em 1985. Um ano antes, em 1984, tinha sido condenado por 22 homicídios. Escapou da cadeia em um escândalo de corrupção.

Esse personagem do crime organizado viveu clandestinamente no Brasil durante 30 anos, mais ou menos. Foi apanhado em Recife, onde tinha dinheiro e fartura. O DEA americano e o FBI informam que o bandido nunca deixou de controlar os negócios da organização, enquanto usufruía do calor nordestino. Foi preso em maio desse ano, quando a justiça brasileira já tentava, quase desesperadamente, extraditar Henrique Pizzolato. Foi muita sorte.

Pizzolato, quando ainda estava preso na Itália. Agora está no Presídio da Papuda, em Brasília.

Pizzolato, quando ainda estava preso na Itália. Agora está no Presídio da Papuda, em Brasília.

Os italianos, habilidosos nas lides diplomáticas, teriam colocado na mesa de negociações a extradição do mafioso. Em 21 de outubro deste ano, a partir de um relatório do ministro Luiz Fux, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou o envio de Pasqualle Scotti para a Itália. Foi um processo de tramitação relâmpago, considerando a pauta dos casos na Suprema Corte. No dia seguinte – repito: 24 horas depois – os italianos autorizaram a vinda de Henrique Pizzolato para o Brasil.

Quem denunciou a tramoia foi o advogado de defesa de Pizzolato, Alessandro Sivelli, em entrevista à mídia mundial. Ele chegou a dizer que seu cliente estava “muito decepcionado com a Itália”. Como sabemos, o “mensaleiro” tem dupla cidadania, brasileira e italiana. Só aqueles mais ingênuos não conseguem perceber que foi assim mesmo que aconteceu.

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