Brasil negocia libertação de reféns das FARCs

A presidente Dilma Rousseff está ajudando a negociar a libertação de reféns capturados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs), tendo autorizado o Itamaraty e o Ministério da Defesa a fazer contato com os guerrilheiros colombianos para pôr fim a este triste capítulo na guerra civil do país vizinho. Recentemente, os líderes da guerrilha anunciaram a libertação de dez militares e policiais capturados há mais de dez anos. Um comunicado do Alto Comando das FARCs, publicado na Internet (farcep.wordpress.com) confirmou a participação brasileira nas negociações. Neste mesmo comunicado, a guerrilha anunciou que havia desistido dos sequestros como forma de atuação política.

Os meios de comunicação internacionais, inclusive brasileiros, especulam que ainda há entre 400 e 700 civis reféns das FARCs, escondidos em acampamentos no interior da selva colombiana (região amazônica) e nas montanhas. O grupo, fundado em 1964 por Manuel Marulanda Vélez, o “Tiro Fijo” (Tiro Certeiro), chegou a controlar um terço do país, instalando “governos revolucionários” locais. Atualmente, opera em metade da Colômbia, mas sofreu sérios revezes, incluindo a morte de seus principais dirigentes, como o próprio Marulanda, vítima de um infarto fulminante. Raul Reis, o número dois das FARCs, morreu num ataque aéreo na região de fronteiras entre a Colômbia e o Equador. Ivan Rios, o número três, foi fuzilado em seu próprio acampamento. E o último comandante conhecido das FARCs, Alfonso Cano, também morreu num bombardeio.

Em seus melhores momentos, o grupo guerrilheiro chegou a ter 20 mil homens e mulheres, além de um contingente desconhecido de colaboradores e simpatizantes. Agora tem em torno de 14 mil, de acordo com um representante das FARCs que atua em nosso país como uma espécie de “embaixador” e cuja presença entre nós é tolerada desde o segundo governo FHC. No entanto, o exército colombiano tem obtido seguidas vitórias contra a guerrilha, especialmente em razão do Plano Colômbia, um acordo militar com os Estados Unidos, que investiram mais de 5 bilhões de dólares no país e forneceram instrutores e pilotos, à semelhança do que aconteceu no início da guerra do Vietnã.

O governo brasileiro não classifica as FARCs como grupo terrorista, como preferem os americanos, que também as chamam de “narcoguerrilha”, denominação adotada pela mídia. Para os nossos governantes, a guerrilha é considerada “parte beligerante”, ou “parte de guerra”, o que para a diplomacia significa que é uma das partes envolvidas num conflito aberto, merecendo tratamento igual às outras partes. Washington critica a posição brasileira, mas é ela que nos dá os instrumentos de negociação com os guerrilheiros, de um ponto de vista humanitário. Nossa política externa é pela “autodeterminação dos povos” e pela neutralidade, participando exclusivamente de missões de paz, como no Haiti e no Timor Leste. Libertar reféns na Colômbia, fornecendo helicópteros e tripulação militar, faz parte dessa política.

Acreditar na derrota militar das FARCs foi um sonho de George W. Bush, criador do Plano Colômbia. Ao tomar posse, os assessores de Barak Obama recomendaram o abandono do projeto, considerado “um fracasso total”. Mas a pressão do Pentágono fez com que o presidente dos Estados Unidos mantivesse o programa, agora ampliado com a construção de bases aéreas em território colombiano. Observadores independentes afirmam que serão sete bases – outros garantem que serão quinze. Parece que os americanos não aprenderam as lições do Vietnã.

As FARCs são a última guerrilha comunista das Américas. Os guerrilheiros, autointitulados “Exército do Povo”, se definem como “revolucionários marxistas-leninistas e bolivarianos”. A bandeira do grupo, com dois fuzis AK-47 cruzados, traz retratos pintados de Karl Marx e Lênin, além de uma estrela vermelha com a foice e o martelo. Num documentário que fiz para a Band (pela primeira vez uma câmera e um repórter brasileiros iam ao coração da guerrilha), o comandante Ivan Rios dizia: “somos uma alternativa legítima de poder na Colômbia”. Ele morreu anos depois – mas a guerrilha continua. Para nós, que temos uma ex-guerrilheira como presidente, eleita democraticamente e com os maiores índices de aprovação da história, tudo isso soa como um anacronismo. Somos a 6ª. economia do mundo, com os maiores programas de incluso social do planeta. Mas, para os miseráveis colombianos, talvez o discurso das FARCs soe diferente.

Nas fotos abaixo, guerrilheiras das FARCs (centro) em foto publicada pela revista Veja. À esquerda, o comandante Raul Reys. À direita, o comandante Cano Acima do post, uma visão do “exército do povo”..

 

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Fracassa o mutirão para esclarecer homicídios

Impunidade total.

Um mutirão da Justiça, do Ministério Público e das polícias fracassa ao tentar concluir 143 mil inquéritos de homicídio e tentativa de homicídio em todo o país. Os inquéritos estavam abandonados e sem conclusão. Mas a força tarefa, que atuou em quase todo o território brasileiro, envolvendo centenas de agentes públicos, não deu em nada. Pior: os resultados foram todos negativos. Vinte por cento dos inquéritos (cerca de 28 mil) foram arquivados sem que os culpados fossem apontados. De todos os 143 mil casos, só 4.652 (3%) resultaram em denúncias formais contra criminosos. Desastre total.

No Brasil, apenas um por cento dos crimes cometidos acabam em condenações e penas de prisão. Até recentemente, havia setenta milhões de processos parados nos tribunais, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Depois de enorme esforço do CNJ, apenas 5,7% desses processos (aproximadamente 4 milhões) retomaram o curso normal no judiciário. É o reino da impunidade. Como se isso não bastasse, ainda tem o problema de classe: só preso pobre vai para a cadeia. Ou não?

Tá lá o corpo estendido no chão

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“Fabinho FB”, chefão do tráfico, na cadeia

 

FB, líder do Comando Vermelho

 

Fabiano Atanázio da Silva, o “Fabinho FB”, uma das principais lideranças do Comando Vermelho, 35 anos, foi preso na semana passada por um grupo de policiais do Rio de Janeiro, durante uma operação secreta em São Paulo. “FB” foi localizado numa casa alugada em Campos de Jordão, cidade de veraneio para gente muito rica a 173 quilômetros da capital paulista. Fabiano comandava um grupo de 500 homens armados no Complexo do Alemão onde era responsável pelo movimento de venda de drogas em três grandes favelas em torno da Vila Cruzeiro, com faturamento de muitos milhões de reais por ano. Segundo a polícia, o bando dispunha de 300 fuzis automáticos, metralhadoras, inclusive antiaéreas de calibre 30, granadas e foguetes. Foi “FB” que mandou derrubar um helicóptero da PM durante combates entre o CV e o Terceiro Comando, facções rivais, no Morro dos Macacos.

“Fabinho” era um entusiasta por tecnologias modernas. Falava com seus cúmplices através de Skype e havia montado um circuito fechado de câmeras para vigiar seu território no Alemão. Durante a ocupação militar no complexo, protagonizou aquela fuga espetacular por uma estrada de terra, mostrada ao vivo pelo helicóptero da TV Globo. Depois, sumiu. Assim como sumiram todos os demais traficantes do bando. Mas a polícia passou um ano seguindo o bandido e grampeando suas ligações telefônicas. Ao todo, foram mil horas de gravações. Num dos telefonias, “FB” aparece negociando com PMs a compra de “bicos” (fuzis): “se for AR-15 ou AK-47, pago 30 mil cada um”. Foram gravações como essa que levaram os policiais até o refúgio de Fabiano em Campos de Jordão.

“Fabinho FB” era um dos principais elementos de ligação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o PCC paulista. As duas organizações criminosas negociam drogas e armas no exterior, por meio de um grande acordo comercial firmado por Fernandinho Beira-Mar. “FBM”, como é conhecido o maior traficante brasileiro, sonhava com a criação da Federação Brasileira do Crime Organizado, que unificaria todo o tráfico de drogas sob uma mesma bandeira, a exemplo do que tentou fazer na Colômbia o megatraficante Pablo Escobar. Se a “Febraco” virou realidade, ninguém sabe com certeza. Mas o fato é que hoje existe uma ampla articulação nacional do tráfico envolvendo o CV, o PCC, o Comando Vermelho Nordeste (nas áreas de lavoura de maconha) e a Organização Plataforma Armada (a OPA, de Salvador).

Ao ser preso em Campos de Jordão, “Fabinho FB”, que também tinha uma casa de praia em Peruíbe, estava acompanhado de Luís Cláudio Correa, o “CL”, chefe da segurança do traficante. E a surpresa: também estava na casa um homem chamado Elton Leonel Rumich, apontado como “do alto escalão do PCC”, confirmando a parceria entre as duas organizações. “FB” recebia ordens diretamente de Fernandinho Beira-Mar, através de bilhetes e telefonemas. Como e sabe, Fernandinho está preso em um presídio federal de segurança máxima.

E, agora, “FB” também.

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Os resultados da primeira UPP paulista

Um flagrante dos "nóias".

Tenho acompanhado com interesse a chamada Operação Cracolândia, que a cada dia fica mais parecida com o modelo de ocupação policial-militar das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro. Independentemente das divergências teóricas – os especialistas estão divididos quanto à eficácia da ação – a limpeza da Cracolândia tem angariado simpatias na opinião pública. Aquela multidão de viciados se drogando na via pública, além de um desrespeito à lei, era uma vergonha inenarrável.

É curiosa a timidez dos governantes paulistas, que parecem recear um fracasso. Ao contrário deles, no Rio, o governador Sérgio Cabral foi para a frente das câmeras defender com unhas e dentes o projeto das UPPs. Em São Paulo, parece haver mais dúvidas do que certezas, enquanto a mídia destaca o desencontro entre as polícias e as autoridades. Os resultados da operação não são de grande monta: poucas pessoas foram presas e acusadas de tráfico e os “nóias”, como são conhecidos os dependentes do crack, se espalharam pelos bairros em torno do centro da capital. O grande acerto – a decisão política de acabar com a Cracolândia – parece subestimado pelo governador Alckmin e pelo prefeito Kassab.

Do noticiário de jornais, revistas, rádio e televisão, separei alguns números importantes:

  1.  A população de “residentes” na Cracolândia era de 400 pessoas. Cerca de 20% delas viviam ali há mais de dez anos. Do total, 60 eram menores de idade e havia 20 mulheres grávidas. Setenta traficantes agiam (ou agem) na área de dez quarteirões que forma o território dos “nóias”. Fora os moradores de rua, é impossível saber o número total de usuários.
  2. O consumo de drogas é avaliado em 50 mil pedras de crack por mês. De uma só vez, na semana passada, a polícia apreendeu 16 mil dessas pedras. Um delegado do Denarc disse aos telejornais que isso abasteceria a Cracolândia por “apenas alguns dias”.
  3. Ao preço variável de 5 a 10 reais por pedra, o movimento, considerando o valor médio, representava um faturamento superior a 350 mil/mês. Ou 4,2 milhões de reais por ano, o que é tido como uma avaliação conservadora, porque não inclui a maconha e a cocaína. Trata-se de um montante muito superior ao rendimento de 80% das pequenas e médias empresas do país. E sem impostos, a não ser a propina e a fiança.  Para quem acha os números exagerados, basta lembrar que o faturamento do comércio de drogas na Rocinha era superior a 4 milhões de reais por semana. É pouco? Então segura essa: em todo o mundo, as 250 maiores organizações criminosas movimentam 1 trilhão de dólares com o narcotráfico a cada ano.

4. Um estudo da PUC de São Paulo mostra que 64% dos “nóias” têm apenas o ensino primário. No entanto, 30% concluíram o ensino médio e 6% têm diploma universitário. Sessenta e um por cento deles têm trabalho fixo ou eventual. Cerca de 84% dos viciados são homens e a média de idades é de 33 anos. A  maioria dos usuários está entre 25 e 34 anos. Mas 9% deles têm idade avançada, 44 anos ou mais. De todo o contingente dos “nóias”, 66% são negros ou pardos. Brancos são 22%. Sessenta e quatro por cento dos viciados consomem até dez pedras de crack por dia. O crack tem ação rápida – e seus efeitos diminuem à medida que o vício se intensifica, o que faz  o cara consumir cada vez mais.

5. Ainda de acordo com o levantamento da universidade paulista, 65% dos frequentadores da Cracolândia também usam outras drogas: 43%, maconha; 30%, cocaína; 15 por cento, álcool. Curiosamente, só 9% fumam cigarros.

 

Os números do circo das drogas no centro de São Paulo são estarrecedores.

 

Mãe e filhos na Cracilândia.

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Governo paulista reage contra a Cracolândia

Usuário de crack imita os policiais na Cracolândia

O governo de São Paulo – finalmente – dá sinais de reagir contra a Cracolândia, uma área no centro da capital onde se concentram viciados e traficantes. Uma grande operação da Polícia Militar e da Prefeitura, que deve durar um mês, está desalojando os usuários de drogas. As ruas estão sendo lavadas e os entulhos retirados.

Em dois dias, apenas quatro pessoas foram presas e acusadas de tráfico, com as quais se apreendeu pequena quantidade de crack e cocaína. Mas o fato importante é que as ruas estão sendo devolvidas a seus moradores. É uma parte do centro da cidade que volta ao cidadão pagador de impostos.

Até as pedras da Cracolândia sabem que por ali há depósitos de drogas e outros materiais ilegais, mas a polícia ainda não conseguiu encontrar nenhum deles. Isso, no entanto, requer três condições: inteligência, infiltração e policiais honestos. Recursos não faltam – e policiais corretos também não!

O viciado mostra o cachimbo do crack

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STF decide se libera uso de drogas no país

Viciado na Cracolândia paulista

O Supremo Tribunal vai julgar, no início de 2012, se usar drogas é crime ou um direito individual, da mesma forma que o tabagismo ou o consumo de álcool. A ação foi proposta pela Defensoria Pública de São Paulo e já entrou na pauta do STF. Esta será a primeira vez que a instância máxima do judiciário vai se pronunciar sobre o assunto. A decisão terá “efeito vinculante” – ou seja: terá de ser seguida por todas as cortes do país.

Uma sentença favorável pode ter enorme impacto sobre o uso de entorpecentes, produzindo uma explosão de consumo. Na prática, uma vez que não haverá punições, representa a liberação total da maconha, da cocaína, haxixe, crack, drogas sintéticas como o LSD, medicamentos restritos etc. O uso de substâncias tóxicas deixaria a esfera criminal e se deslocaria para a da saúde pública, justamente como acontece com o fumo e o álcool. Hoje no Brasil há um forte movimento pela descriminalização da Canabis, que envolve intelectuais, políticos, artistas e usuários. O próprio Fernando Henrique Cardoso, duas vezes presidente da República, já deu entrevista à Veja defendendo a liberação da maconha.

A própria incapacidade dos governantes no enfrentamento do problema (a Cracolândia de São Paulo é o exemplo mais dramático, com centenas de pessoas se drogando publicamente) já “libera” as drogas em certa medida. A polícia passa e não faz nada – até porque não se tem recursos para tratar os viciados, nem onde prendê-los, se fosse o caso. Além do mais, na Cracolândia são todos miseráveis – e ninguém se importa com eles.

Quatro décadas atrás, o uso de drogas era privilégio das elites, que trocavam (ou misturavam) cocaína com uísque ou champanhe. O preço era inacessível ao populacho em geral. A partir dos anos 1980, no entanto, a ação do crime organizado democratizou o uso de entorpecentes, despejando toneladas de pó branco sobre a juventude mundial. O aumento vertiginoso da produção levou ao barateamento das drogas, que invadiram todas as camadas sociais. Com a chegada do crack, a raspa do tacho onde é feita a cocaína, os pobres também entraram na dança. Uma pedra de crack provoca uma hora e meia de loucura e custa apenas 5 reais.  Com o consumo frequente, o efeito diminui e o cara tem que fumar mais, cada vez mais. É uma droga tão terrível (a presidente Dilma chama de “epidêmica”) que o PCC (Primeiro Comando da Capital), a partir de 2002, proibiu o seu uso nas cadeias. Nas palavras do chefão Marcos Herbas Camacho, o Marcola, “o crack degrada a condição humana”.

O que temos a ganhar com a decisão do STF? Num país que luta contra a pobreza e a desigualdade, com um dos maiores índices globais de criminalidade, a descriminalização das drogas ajuda ou atrapalha? A Defensoria Pública de São Paulo argumenta que processar um jovem apanhado com um BK (cigarrinho de maconha, o famoso baseado) custa um dinheirão e não resulta em nada. Pelas leis atuais, o usuário é indicado a tratamento ou à prestação de serviço social, mas sofre um dano grave em seu currículo. Muita gente diz que a maconha é menos prejudicial do que o álcool, mas a medicina afirma que os alcaloides da Canabis geram dependência física e psíquica. Criminalistas, sociólogos e outros especialistas insistem que as drogas devem ser enfrentadas com educação e restauração dos laços familiares – e isso não aparece milagrosamente nos códigos legais.

O mundo tem cerca de 300 milhões de usuários de drogas, dos quais 200 milhões de apreciadores da maconha, a droga mais difundida. A demanda estimula a produção – e quem controla a produção são os barões do crime organizado. Trata-se de um negócio que gira 1 trilhão de dólares por ano, sem impostos, a não ser a propina  paga às autoridades. Estudiosos garantem que de 10 a 15 por cento do movimento global do tráfico vão para ditos “agentes da lei”. O traficante Nem (Antônio Delfim Lopes, da organização criminosa Terceiro Comando) declarou que metade do faturamento da Rocinha ia para a polícia.

Será que os ministros da Suprema Corte têm resposta para isso?  Deveriam as mentes brilhantes do STF se preocupar mais com a situação criminosa da saúde,  educação, moradia ou da alimentação para todos?

A folha de Canabis Sativa

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Folha de S. Paulo confirma investigação da PF

Foto da PF flagra negociação entre policiais e bandidos

Nova reportagem da Folha (edição de 13.12.11, caderno Cotidiano) reafirma, com novos detalhes, a denúncia de que 12 policiais do Deic e do Denarc estavam envolvidos em um esquema de extorsão contra integrantes de uma organização internacional do tráfico de drogas. Para continuar em liberdade, os criminosos teria pago 3 milhões de reais aos agentes. A reportagem é de André Caramante. Leia a íntegra da matéria, que teve como título “PF apreende 350 mil do tráfico que, segundo escuta, era para a polícia”:

‘A Polícia Federal apreendeu R$ 350 mil que, segundo escuta telefônica autorizada pela Justiça, serviriam para pagar a policiais civis de São Paulo. ‘Meu Deus do céu, eu estava contando com esse dinheiro. Tenho que dar 350 mil para a polícia essa semana’, afirma João Alves de Oliveira, o Batista, em conversa com o comparsa Euder de Souza Bonethe, eu lhe dá a notícia em 30 de setembro de 2010.

“Batista é apontado como o chefe de uma quadrilha internacional de traficantes de drogas que pagava policiais paulistas para evitar que seus integrantes fossem presos.

“Relatório da Polícia Federal revelado na sexta pela Folha (na semana passada) diz que a quadrilha pagou R$ 3 milhões a ao menos 12 policiais civis do Deic e do Denarc. Oficialmente, eles ainda não foram identificados.

“Os achaques ocorreram, segunda a investigação federal, em pelo menos três ocasiões, entre agosto de 2010 e março deste ano. A suspeita de extorsão foi considerada ‘grava’ pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). A Corregedoria Geral da Polícia Civil investiga os crimes. Bonethe, que nas escutas da PF dá a notícia da apreensão do dinheiro a seu chefe, é conhecido como Primo. Ele é apontado como braço da organização no Nordeste. Ele era o responsável pelo envio de R$ 349.410 a São Paulo.

“ Investigações preliminares levaram a PF a um Fiesta Sedan, que acabou interceptado pelos agentes em Milagres, Ceará. Quem dirigia o carro era Antônio Gomes Braga, conhecido como Velhinho.

“Velhinho acabou liberado, porque naquele momento não havia provas de sua ligação com os traficantes. O dinheiro ficou apreendido porque Velhinho não tinha como declarar sua origem.

“No dia seguinte a PF captou a conversa em que Bonethe dá a notícia a Batista.

“A investigação da PF prendeu 105 pessoas, entre elas Batista e Bonethe, e nova toneladas de drogas. O inquérito foi remetido para a Justiça Federal. A parte que envolve os policiais seguiu para a Corregedoria da polícia paulista.”

A matéria da Folha também comenta a nota oficial da PF. O jornal diz que “dados sigilosos contradizem” a nota.

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Investigação da PF detona grupo de elite em São Paulo

Juan Carlos Abadia

A Polícia Federal investigou, durante um ano, 12 policiais do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) e do Departamento de Narcóticos (Denarc) de São Paulo. Motivo: o grupo de elite paulista estava prendendo traficantes e “vendendo” a liberdade dos criminosos, todos procurados. O relatório da PF, com cerca de 1.700 páginas, afirma que os policiais faturaram 3 milhões de reais com o esquema. Os negócios do grupo eram realizados na própria sede do Deic, onde os traficantes ficavam em cárcere privado. Os federais gravaram, com autorização judicial, centenas de horas de telefonemas entre os policiais e representantes dos bandidos, quase sempre advogados e parentes dos sequestrados. Fotografaram e filmaram os acertos, que se realizavam numa rua atrás do prédio da polícia. Escândalo monumental, denunciado pela Folha de S. Paulo.

O governador Geraldo Alckmin, em entrevista à televisão, disse que o caso era “grave” e prometeu “expulsar da polícia e prender” os corruptos, se a culpa fosse provada. Nenhum dos policiais acusados foi preso até o dia de hoje, passadas 94 horas da denúncia. Na verdade, o caso é gravíssimo, uma vergonha para a segurança pública, um acinte contra a sociedade. É inacreditável que tais bandidos com distintivo continuem livres e armados. O Denarc, especialmente, já foi alvo de incontáveis denúncias. Certa vez, sumiram do depósito do órgão vários quilos de cocaína apreendida. E disseram à imprensa que os ratos tinham comido a droga. Ratões muito doidos, que usam terno e gravata!

No dia 7 d agosto de 2007, os federais prenderam em São Paulo o maior produtor colombiano de cocaína, Juan Carlos Abadia, chefão do Cartel del Norte. Ele declarou que havia pago 2 milhões de reais a policiais do Denarc para continuar em liberdade. Abadia morava tranquilamente, com mulher e filhos, na Aldeia da Serra, bairro de luxo nos arredores de São Paulo, reduto de artistas e empresários – e, pelo jeito, de traficantes. Só foi preso porque o FBI e o DEA norte-americanos enviaram ao governo brasileiro a localização exata do bandido. Juan Carlos Abadia agora cumpre pena no presídio federal do Brooklin, em Nova Iorque, onde também estão alguns presos da Al Qaeda.

Abadia foi extraditado do Brasil em tempo recorde, apenas algumas semanas. Ninguém queria esse cara por aqui. Falava muita bobagem!

A casa de Abadia na Aldeia da Serra

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“Assalto ao Poder” ganha o Prêmio Jabuti 2011

Autor recebe o prêmio na Sala São Paulo

“Assalto ao Poder”, último livro da minha trilogia sobre violência urbana e crime organizado no Brasil, foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2011. Ficou em segundo lugar na classificação geral da categoria reportagem, logo atrás de “1822”, de Laurentino Gomes. Esse ano, mais de duas mil obras disputaram o Jabuti. Trata-se da maior premiação literária do país, que consagrou Ferreira Gullar e Laurentino Gomes como autores do ano.

Essa foi a segunda vez que mereci o prêmio (a primeira, em 1994), mesmo escrevendo sobre tema tão áspero. O Jabuti 2011 – certamente – estimula a prosseguir.

O trofeu na categoria "Reportagem"

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Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu: duro golpe no tráfico

 

Antônio Bonfim, o Nem

 

O Governo do Rio acertou um golpe mortal no tráfico ao ocupar as favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu. A operação, envolvendo cerca de 1.500 policiais, com helicópteros do Exército e blindados da Marinha, foi realizada sem um único tiro. Uma das principais – senão a principal – estrutura da venda de drogas foi desmontada. O negócio, avaliado em 100 milhões de reais por ano, era controlado pelo Terceiro Comando e pela ADA, organizações criminosas rivais do Comando Vermelho, responsáveis por cerca de 40% do movimento no Grande Rio. A instalação de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), com 700 homens nas três comunidades, pretende consolidar a retomada dos territórios controlados pelo tráfico há mais de 30 anos.

Os traficantes cometeram o erro primário de esperar até o último momento para abandonar as favelas, quando todos os acessos já estavam cercados pela tropa de choque da PM. O líder dos criminosos, integrante do núcleo dirigente das organizações, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi apanhado dentro do porta-malas de um carro. Outro erro: o automóvel de luxo chamou a atenção da polícia ao deixar a Rocinha à noite. Nem estava acompanhado de dois advogados e um sujeito que se apresentou aos policiais como diplomata da República do Congo. No interior do porta-malas, desarmado, Nem carregada enorme quantia em dinheiro vivo. Os jornais chegaram a falar que era um milhão de reais, além de dólares e euros. Caíram também os dois gerentes das bocas-de-fumo da Rocinha e o chefe da segurança, um ex-PM, e mais 11 supostos traficantes.

Poucos dias depois da ocupação das favelas, Nem e seus três comparsas já estavam recolhidos ao presídio federal de segurança máxima em Mato Grosso do Sul. Celas individuais, uma hora de banho de sol por dia, três refeições e nenhum contato com o exterior. Tranca dura! Ao que consta, é impossível fugir de lá. Na Rocinha e no Vidigal, a polícia apreendeu enorme quantidade de drogas, principalmente maconha, 70 fuzis e armas menores, explosivos e granadas. Um laboratório de refino de cocaína foi descoberto e uma prensa de mais de uma tonelada teve que ser retirada da favela por meio de um poderoso helicóptero. Como os bandidos conseguiram levar a máquina, que fabricava tijolos de maconha, até o alto do morro?

A ocupação da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu deu vida nova ao projeto das UPPs. Não vai acabar com o tráfico, certamente, nem mesmo nas áreas ocupadas, mas produzir resultado extraordinário na opinião pública nacional e na vida dos moradores, que festejaram. Rompeu-se o pacto de silêncio: a população colaborou com a polícia (mais de mil ligações para o Disque-Denúncia), o que levou à prisão da “noiva” do Nem, conhecida como “xerife da Rocinha”, e do principal líder comunitário da favela. Uma moradora entregou às autoridades cenas gravadas, por celular, onde aparece o tal líder negociando um fuzil AK-74 russo (a mais nova versão) com o chefe do tráfico. Esse homem trabalhava como assessor parlamentar de uma vereadora do PSDB. Seu cúmplice na venda da arma, avaliada em 50 mil reais, era funcionário da Assembleia Legislativa.

A cidade do Rio de Janeiro, especialmente os moradores das zonas sul e oeste, respiram aliviados. Só que o tráfico, que já estava de mudança para o asfalto, vai intensificar a busca por meios alternativos de continuar operando. Mas o baque foi forte!

 

A "xerife da Rocinha"

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