Uma multidão – talvez 200 mil pessoas – acompanhou o velório e o enterro de Eduardo Campos, em Recife. Marina Silva estreia na campanha presidencial, abraçada à família do político morto tragicamente. As cerimônias reuniram os adversários: Lula e Dilma, comovidos, abraçaram Marina; Aécio Neves beijou as mãos de Marina. E a candidata, segundo prévia do Datafolha, já aparece em segundo lugar.

Cortejo fúnebre de Eduardo Campos, na foto de O Globo.

Cortejo fúnebre de Eduardo Campos, na foto de O Globo.

                    Com o apoio da família de Eduardo Campos, Marina Silva já pode se considerar candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB) às eleições presidenciais de outubro. As dúvidas que ela levantava entre os aliados do ex-governador pernambucano foram largamente superadas pela tragédia. Ambientalista radical, avessa à política tradicional, ela dividia a coligação de partidos liderada por socialistas. Nos estados onde predomina o agronegócio, a coisa estava ainda mais complicada. No entanto, o clima de comoção produzido pelo acidente que vitimou Eduardo Campos parece abafar as divergências.

                    Entre os observadores da política brasileira não há mais dúvidas de que Marina Silva será candidata. E um prévia da pesquisa Datafolha, na parte feita por telefone, já mostra a ambientalista em segundo lugar, à frente de Aécio Neves (PSDB), porém tecnicamente empatada com ele. A informação está na coluna de hoje (17 ago) de Merval Pereira, em O Globo. Para isso ter realmente acontecido, Marina Silva teria realizado a proeza de subir 14 pontos percentuais em apenas três dias. Se a tendência se confirmar, ela vai despachar Aécio Neves e disputar o segundo turno com Dilma. Esta possibilidade é um pesadelo para o Partido dos Trabalhadores (PT) de Dilma. De longe, o PT preferia Aécio.  

                    Tudo indica que Marina Silva será mesmo a candidata da coligação Unidos para o Brasil, que reúne seis partidos em torno dos socialistas do PSB, a maior agremiação da legenda. A segunda maior força eleitoral da frente, o PPS (Partido Popular Socialista, derivado do antigo Partido Comunista Brasileiro), já aderiu ao nome de Marina. E ela conta com apoio irrestrito da família de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, terceiro colocado nas pesquisas eleitorais antes do acidente que o vitimou. O apoio de Renata Campos, viúva do candidato, cotada inclusive para vice de Marina, é decisivo na tomada de decisão. Podemos estar diante de um fenômeno eleitoral. Algo só parecido com Jânio Quadros e Leonel Brizola. O presidente do PPS, Roberto Freire, disse que Marina Silva tem chances concretas de vencer.  

                    Mas o cenário é um tanto mais complicado do que parece. Tida como uma ambientalista radical, que se opõe aos modelos tradicionais de aliança política, Marina Silva não pertence aos quadros de nenhum dos partidos da frente eleitoral de Eduardo Campos. Ela tentou criar, no ano passado, o seu próprio partido político, a Rede Sustentabilidade, mais conhecida como Rede. O programa político e a estratégia deste partido são desconhecidos do povo brasileiro. Talvez nem existam ainda. Mas a pretensão política da ex-senadora esbarrou em decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, apoiado em burocracias legais, rejeitou o registro da legenda.

Renata Campos, a viúva.

Renata Campos, a viúva, e os filhos.

                    Em 2010, quando Dilma Rousseff concorreu à sucessão de Lula pelo PT, e venceu no segundo turno,  Marina obteve cerca de 20 milhões de votos (19%), despontando como força política independente. A candidatura dela pelo Partido Verde (PV), em 2010, com o qual rompeu logo em seguida, garantiu o segundo turno das eleições presidenciais daquele ano. Este é o cacife eleitoral de Marina. Mas o pensamento político dela é uma incógnita.

                    Em outubro do ano passado, após a decisão do TSE recusando o registro eleitoral da Rede, Marina Silva foi procurada por Eduardo Campos, que ofereceu a ela a vaga de candidata a vice-presidente na chapa do PSB. Sem alternativa – e sem partido, porque havia rompido com o PV – ela aceitou um cargo menor do que cabia no seu cabedal eleitoral já confirmado, bem maior do que o de Eduardo Campos. Ficou na sombra do ex-governador pernambucano e se conformou com tal posição. Eduardo Campos conseguiu apenas 9% nas pesquisas, dez pontos a menos do que Marina na eleição real. Quis o destino trágico que as posições se invertessem. Mas, o que pensa Marina Silva? É muito difícil responder a essa questão. Sabe-se que ela declarou aos jornais: “sinto um toque da Divina Providência ao não embarcar naquele avião”.

                    Nos estados onde o agronegócio é predominante, como Paraná, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os aliados de Eduardo campos já ameaçam debandar. Marina Silva é visa como inimiga desses territórios dominados pala agricultura mecanizada, que garante ao Brasil o título de maior produtor mundial de grãos. E um dos maiores produtores mundiais de carne suína e bovina. Nessas terras brasileiras, ninguém quer ouvir falar no nome de Marina Silva, uma ferrenha defensora das florestas e da fauna.                   

                    Em termos eleitorais, qual o cenário? Marina Silva pode ultrapassar o candidato do PSDB, Aécio Neves, habilitando-se ao segundo turno. Pela última pesquisa Ibope, de 8 de agosto, antes, portanto, da morte de Eduardo Campos, o quadro era o seguinte:

Dilma: 38%

Aécio: 23%

Campos: 9%  

                    Mesmo ultrapassando Aécio, Marina precisaria superar mais 14% das intenções de voto para se aproximar de Dilma Rousseff. Seria uma proeza, poucas vezes vista na história política do país. Mas a Marina Silva pode provocar um segundo turno nas eleições, contrariando o que escrevi aqui há poucos dias, porque achava que ela tiraria votos de Aécio e não de Dilma. Mas a comoção relacionada com a morte de Eduardo Campos, o apoio da família, a presença deles na campanha, muda tudo. Merval Pereira, no artigo de O Globo, já citado, chega a dizer que o segundo turno pode ser entre Aécio Neves e Marina Silva. Pura ficção? Aparentemente, é só um desejo do colunista.

                    De todo modo, é uma longa estrada cheia de dúvidas.

A presidente Dilma no velório;

A presidente Dilma no velório;

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Tribunal de Justiça bate o martelo: Sérgio Gadelha, assassino confesso de Hiromi Sato, fica na cadeia até o julgamento. A decisão sobre o crime brutal mostra que ainda há uma esperança de justiça para o massacre de mulheres no Brasil

O assassino de Hiromi Sato.

O assassino de Hiromi Sato.

                    A 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, em decisão unânime nesta quinta-feira (14 ago), determinou que o advogado Sérgio Brasil Gadelha  continue preso até que seja julgado pela morte da mulher, a secretária-executiva Hiromi Sato. O crime foi praticado com requintes de crueldade e chocou a opinião pública do país, ocupando espaço em jornais, revistas de grande circulação e na televisão. Hiromi, uma descendente de japoneses, 1.60 de altura, pesando 50 quilos, foi massacrada a socos e pontapés pelo marido, que ainda por cima a estrangulou.

                    Toda essa violência aconteceu num apartamento de classe média alta, no bairro de Higienópolis, centro de São Paulo, um dos endereços mais nobres da capital. Os gritos dela foram ouvidos na vizinhança, o que não impediu que o criminoso ficasse pelo menos um dia com o corpo dentro do apartamento, sem tentar qualquer ajuda. Sérgio Gadelha foi preso em flagrante, ainda com o corpo caído no chão, quando uma de suas filhas chegou de viagem e se deparou com a tragédia. Quando a polícia chegou, Sérgio Brasil Gadelha estava sentado no sofá da sala assistindo à TV.

                    Na delegacia, confessou o crime. Mas ficou preso pouquíssimo tempo, talvez uns dois dias, porque um juiz do 1º Tribunal do Júri tomou estranha decisão: decretou a prisão preventiva do acusado, mas, no mesmo despacho, concedeu a ele o direito de ficar em “prisão domiciliar”. O criminoso, de 75 anos, alegou que tinha “problemas de saúde”. E o juiz aceitou. O mandado judicial o devolveu ao apartamento de Higienópolis, para horror dos vizinhos e indignação de parentes e amigos de Hiromi.

                    Disto surgiu o movimento chamado “Justiça por Hiromi”, que reuniu gente comum do bairro e os movimentos independentes de defesa das mulheres. Resultado: protestos, manifestações de rua, apelos na Internet. Meses após o crime, o Tribunal de Justiça mandou Sérgio Gadelha de volta às grades: em votação majoritária (3 a 1), o advogado foi encarcerado no 31º Distrito Policial, na Vila Carrão, em cela comum, com outros 17 prisioneiros. O TJ assentou que o criminoso oferecia perigo à sociedade e havia ameaçado parentes da vítima. Mas a defesa recorreu.

                    Com a decisão desta quinta-feira, unânime (5 a 0), os desembargadores rejeitaram o recurso, mantendo o réu preso. Se a Justiça agir sempre dessa maneira, seremos uma Nação melhor. A decisão dos desembargadores impede que um criminoso perigoso como o Sérgio Gadelha escape da punição. Ele já tem 75 anos. Com a morosidade do judiciário, poderia se tornar inimputável. Acusado de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel etc), vai a júri popular, possivelmente no primeiro semestre do ano que vem. Está sujeito a penas de 12 a 30 anos de prisão em regime fechado. Enquanto aguarda o julgamento, por ter curso superior, está recolhido a uma sala com banheiro no Regimento de Cavalaria 9 de Julho, da PM.

                    Esta prisão especial é uma injustiça. Os criminosos não deveriam ter privilégios em função de status social ou de nível educacional. Deveriam ser julgados por seu caráter e pelos crimes que cometeram, sem distinções. Mas, como diria o filósofo francês Michel Foucault, “a Justiça insiste em demonstrar a sua dissimetria de classe”.    

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Morte de Eduardo Campos produz dramática mudança no quadro eleitoral brasileiro. Marina Silva, vice do candidato, não é uma unanimidade no Partido Socialista. Dilma pode vencer no primeiro turno.

Marina Silva e Eduardo Campos, em foto de campanha.

Marina Silva e Eduardo Campos, em foto de campanha.

                    A morte do candidato do Partido Socialista Brasileiro à Presidência, Eduardo Campos, em trágico acidente de avião em São Paulo, altera substancialmente o cenário político-eleitoral. O desastre chocou a opinião pública e obrigou os demais candidatos a suspender as campanhas (a presidente Dilma Rousseff decretou luto oficial em todo o país por três dias), às vésperas do início do horário eleitoral nas rádios e televisões brasileiras. Eduardo Campos foi por duas vezes governador de Pernambuco, o mais bem votado na história recente do país, com índice superior a 80% da preferência do eleitor no segundo mandato.

                    Campos despontava como uma nova liderança nacional, agora associado à ambientalista Marina Silva – ela recebeu 19 milhões de votos nas eleições de 2010, outra força nova na política brasileira. A dupla representava a esperança de romper o ciclo de predomínio do PSDB e do PT na Presidência da República, que juntos acumulam duas décadas no poder, com Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma. Campos era relativamente jovem. Acabara de completar 49 anos no último domingo. E tinha todas as credenciais para estar presente em outras disputas presidenciais, como nas de 2018 e 2022.

                    Economista, ex-ministro de Lula, neto de Miguel Arraes, notável político nordestino do qual foi herdeiro político, casado e pai de cinco filhos, Eduardo Campos e Marina Silva estavam colocados no ponto de equilíbrio das próximas eleições. Terceiro lugar nas pesquisas eleitorais (Dilma com 38%, Aécio Neves com 23% e Campos com 9%), desequilibrava a eleição no nordeste do Brasil, onde detinha quase 12% das intenções de voto, segundo o IBOPE. A presença dele na eleição apontava para a possibilidade de um segundo turno. Em 2002 e 2006, com Lula, e em 2010, com Dilma Rousseff, a região nordeste, uma das mais pobres do país, representou fator decisivo para as vitorias do PT. Eduardo Campos quebrava um pouco essa tendência – ou quebrava muito, de acordo com analistas locais.

                    Pela legislação eleitoral, o Partido Socialista tem dez dias para substituir o candidato. A decisão será tomada sob forte pressão emocional, porque a morte trágica de Campos deve provocar grande comoção em sua terra natal e em todo o Brasil. A pergunta que se coloca é a seguinte: Marina Silva é uma alternativa à altura de Campos? No próprio PSB, há quem duvide. Ela não é uma unanimidade entre os socialistas, especialmente por causa de posições muito duras em relação ao agronegócio, um dos pilares da economia brasileira.

                    Ao mesmo tempo, é uma campeã do voto popular. Seria eleita para qualquer coisa, mas não – provavelmente – para a Presidência. E ela tem origem humilde, é “mulatinha”, religiosa evangélica, num país de tantos preconceitos. E o impacto emocional, pode turbinar a candidatura de Marina? Pode. Somos um povo que chora muito. Até demais. Se os socialistas tomarem essa decisão, a perspectiva de um segundo turno fica de pé? Difícil de responder.

                    O mais provável é que a coligação que apoiava Eduardo Campos vá se dividir, especialmente por questões regionais. Não parece haver possibilidades muito concretas de uma unidade em torno da ambientalista Marina Silva. Com isso, aumentam consideravelmente as chances de Dilma Rousseff vencer a eleição no primeiro turno. Mas, como no Patropi tudo é muito emocional, qualquer resultado vale. No entanto, parece que a grande beneficiária da tragédia é de fato Dilma Rousseff. É esperar para ver.

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Superamos a marca de 100.000 visualizações neste site. A maioria dos leitores é brasileira, mas já recebemos visitas de outros 27 países. A equipe agradece a audiência.

Esta é uma página para o livre debate de ideias. O site foi criado em 2011, após a publicação do livro “Assalto ao Poder”, terceiro volume da trilogia do jornalista Carlos Amorim sobre violência urbana, crime organizado e outras questões que afetam a vida do brasileiro. Várias centenas de artigos e comentários publicados aqui mostram o quanto esses temas interessam ao leitor da Web. O site está ancorado no Word Press, o maior portal mundial de jornalismo independente.
Não somos financiados por ninguém. Não temos filiação partidária. A ênfase do nosso trabalho é pluralista e democrática, com foco no interesse público. Publicamos opiniões de várias tendências, dando espaço a todas com amplo direito à livre expressão do pensamento. Evitamos ataques pessoais e zelamos pela qualidade dos textos e comentários, de modo a permitir uma leitura objetiva e agradável. Estimulamos o surgimento de iniciativas independentes como a nossa, de modo a oferecer aos leitores uma alternativa de mídia face ao monopólio dos meios tradicionais de comunicação, cuja linha editorial parece sempre orientada pelo interesse econômico.
O site foi criado pelo webdesigner Pablo Medeiros Silva, a partir dos formatos originais da wordpress.com. É fácil e barato. Entre você também no novo mundo da informação virtual. E continue acompanhando as nossas iniciativas editoriais.

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Empresas já doaram 170,6 milhões de reais para candidatos em 2014. Como o Supremo Tribunal Federal não definiu as regras para o financiamento privado de políticos e partidos, a festa rola solta: 52% a mais de dinheiro do que em 2010.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou na quinta-feira (7 ago) a primeira prestação de contas relativa às eleições deste ano. Até agora, no quesito “financiamento privado de campanhas”, os números são 52% superiores aos registrados nas últimas disputas para a Presidência, os governos estaduais e o Congresso Nacional. Num ano em que espera um modesto desempenho econômico (o PIB deve crescer em torno de 1,5%), algumas das maiores empresas do país abriram a bolsa para financiar a política brasileira. Considerando apenas os 20 maiores doadores, o montante chega a 170,6 milhões de reais. O total deve ser ainda maior.
A Folha de S. Paulo deste domingo fez extensa reportagem sobre o assunto, na qual um grupo de repórteres se deu ao trabalho de listar os doadores (ver o quadro abaixo). A matéria também faz um destaque no mínimo curioso: desta vez, o empresariado não deu dinheiro diretamente aos candidatos, preferindo um tipo de financiamento aos partidos. Apenas 9,6% dos políticos receberam recursos diretamente, enquanto que 90,4% das verbas foram para as agremiações. Segundo a Folha, quem recebeu a maior bolada foi o PMDB, o eterno PMDB: ficou com 30% das verbas. O principal partido de oposição, o PSDB, que tem candidato bem colocado nas pesquisas à Presidência, levou 15%. O PT, partido de Dilma Rousseff, ficou com 10%, menos da metade do que tinha arrecadado em 2010 (23%). O PSB de Eduardo Campos e Marina Silva foi aquinhoado com 6%. Todos os demais partidos e candidatos somam 39%.
A Suprema Corte do país já se debruçou sobre o problema do financiamento privado de campanhas. Sete de seus 11 ministros, já votaram pelo fim da “farra do boi” eleitoral, porque consideram um privilégio e uma deslealdade o fato de que “apenas alguns” candidatos recebem financiamento para campanhas milionárias pela TV. Apesar de que o horário eleitoral é gratuito, a produção das peças publicitárias custa fortunas. Quando a votação no STF estava 6 a 1 contra as doações de empresas, o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo, movido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Parou tudo. E não há prazo para a retomada do julgamento. Talvez para 2018. Quem sabe?

A lista dos maiores doadores publicada pela Folha.

A lista dos maiores doadores publicada pela Folha.

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Se as eleições presidenciais brasileiras fossem hoje, segundo o IBOPE, Dilma Rousseff poderia vencer no primeiro turno. No entanto, a matemática da pesquisa omite o resultado, deixando a conclusão para o público mais informado.

Nova pesquisa de opinião pública sobre as eleições presidenciais brasileiras, realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) a pedido da TV Globo, mostra um cenário favorável a Dilma Rousseff. Candidata à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (o PT, há quase 12 anos no poder), ela poderia vencer ainda no primeiro turno. Curiosamente, o IBOPE não diz isso. Apenas coloca os números, deixando ao público mais informado a decisão de fazer as contas direitinho. Vale a pena conferir o resultado.
Em um país de 203 milhões de habitantes, com cerca de 140 milhões de eleitores, o IBOPE entrevistou 2.5 mil pessoas. E construiu o universo estatístico da pesquisa a partir de ínfimos 0,005% daqueles aptos a votar. Desconfiar dessa matemática não parece exagerado. O IBOPE, aliás, já errou muito, dando margem a suspeitas a respeito do caráter “científico” das avaliações eleitorais. Quase na mesma proporção, também acertou muitas vezes. E crava o resultado na chamada “boca de urna”, quando entrevista eleitores que já votaram. Aí, o IBOPE é imbatível: acerta até nos decimais.
Nos resultados divulgados hoje (8 ago) na Web, o IBOPE omite a soma dos resultados. Por que? Talvez para estimular o público a fazer um dever de casa. Ou seria por outra razão qualquer? Influir na vontade das pessoas, por meio da maior emissora de televisão do país? Não sejamos pessimistas a esse ponto. É melhor dar uma olhada bem de perto nos números, como conferimos a seguir:
Dilma (PT): 38%
Aécio Neves (PSDB): 23%
Eduardo Campos (PSB): 9%
Pastor Everaldo (PSC): 3%
Outros candidatos: 3%
Nulos e brancos: 13%
Engraçado: a soma dos candidatos, mais brancos e nulos, não completa 100%. Fica em 89%. Os 11% restantes não quiseram opinar? O IBOPE, ao menos no que aparece no portal Terra, da Web, não esclarece o detalhe. Na real, seria algo parecido com 1.600.000 eleitores, só na diferença. Mas não sejamos alarmistas. Não vi as tabelas originais do IBOPE e escrevo a partir do que foi publicado. Vamos em frente com a matemática: os candidatos, somados, representam 76%. Brancos e nulos, pela legislação brasileira, são descontados. Desse modo, levando em conta os números do IBOPE, para vencer a eleição no primeiro turno, Dilma Rousseff precisaria 38% dos votos mais um. Ou seja: ganharia a eleição. Mas o IBOPE não fez essa conta para o público.
Não sou eleitor de Dilma ou do PT. Na verdade, não voto desde 1989, quando Fernando Collor se elegeu presidente do Brasil. Prefiro pagar uma multa no TRE, a cada eleição, cerca de 1,7 real, do que me responsabilizar por essa gente. Dessa maneira, minha opinião neste post não é a opinião de um eleitor, mas de alguém preocupado com o país. Vamos conferir mais alguns dados da pesquisa IBOPE, sobre a aprovação popular do governo Dilma Rousseff, na qual o instituto também não somou os números. Acompanhe:
Ótimo ou bom: 32%
Regular: 32%
Ruim ou péssimo: 31%
Não opinara: 5%.
Ou seja: 64% dos entrevistados aprovam o governo de Dilma Rousseff, porque o campo de aprovação soma ótimo, bom e regular. Se descontarmos aqueles que não opinaram (5%) o número é ainda maior, superior, inclusive, aos de Barak Obama e de outros governantes pelo mundo. Aqui, na América do Sul, nem se comparam.
Por que a mídia brasileira não esclarece essas questões? Algum problema com a matemática? Eu mesmo fui um péssimo estudante, mas isso não me impede de fazer algumas reflexões. E você? Será que jornais, revistas e televisão brasileiros estão comprometidos com a oposição a Dilma? Parece quase inacreditável. Mas pode ser verdade. Ou não? Se tiver cometido algum erro matemático nesse post, relevem. A intenção foi boa. No entanto, matemática é alguma coisa muito complicada, tão complicada que pode despertar suspeitas. E se você, leitor, não concordar com essas opiniões, por favor, questione.

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As tropas de Israel deixaram Gaza nesta terça-feira. O saldo de 29 dias de combates: 1.850 palestinos mortos, incluindo mais de 300 crianças, e 67 israelenses. Uma batalha sem vencedores. Bairros inteiros da Palestina viraram escombros. Faltam luz, água, comida e remédios nas áreas atingidas.

Tanques de Israel deixam Gaza. Foto O Globo.

Tanques de Israel deixam Gaza. Foto O Globo.

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Israel ajudou o Hamas a crescer e a se contrapor à OLP de Yasser Arafat. E a CIA financiou o Tabibã durante a guerra com os russos no Afeganistão. Ou seja: foi o Ocidente que estimulou o terrorismo islâmico.

Militantes do Hamas.

Militantes do Hamas.

Quem lê o longo título acima há de pensar: será possível isso? Não só é possível, como é uma afirmação fartamente comprovada pela história dos conflitos entre o Ocidente e a resistência islâmica. Estados Unidos e Israel deram todo apoio aos grupos muçulmanos fundamentalistas, para que combatessem os comunistas russos e os socialistas árabes. Não acredita? Então siga o desenrolar dos fatos:
Durante a ocupação russa no Afeganistão (1979-1989), quando a União Soviética já andava mal das pernas, o governo americano aprovou a maior e mais cara operação de inteligência da CIA. Entre 1983 e 1989, o Pentágono, a Agência Central de Inteligência e o serviço secreto paquistanês desenvolveram a “Operação Ciclone”, destinada a fornecer armas, munições e tecnologia de combate aos afegãos que enfrentavam as tropas soviéticas. Entre os “mujahidins”, rebeldes muçulmanos conhecidos como “guerreiros de Deus”, um grupo se destacava. Era formado por estudantes do nível médio e alguns universitários, entre eles Mohammed Omar, líder da milícia islâmica conhecida como Talibã. No dialeto pachto, isso quer dizer “estudantes”.
O apoio militar ao Talibã foi decisivo para o fim da guerra e uma das causas da queda do domínio soviético na Ásia Central. O “mulah” Omar tomou Cabul, a capital do Afeganistão, em 1996. Ao invés de instituir um governo pró-ocidental, criou o “Emirado Islâmico do Afeganistão”, um regime de terror que executou milhares de pessoas, expulsou os estrangeiros, proibiu o rádio, a televisão e a literatura e impediu as mulheres de frequentar qualquer instituição escolar.
Entre os mujahidins que enfrentaram os russos, havia um saudita chamado Mohammed Bin Osama Bin Laden. Esse dispensa apresentações. Mas é importante notar: o grupo que ele comandava, o “Destacamento Islâmico Árabe”, também foi financiado pela CIA. Aliás, 25 parentes de Osama viviam nos Estados Unidos. O resto dessa história você já conhece.
Mas, e o Hamas?
Durante a “Guerra dos Seis Dias” (1967), Israel derrotou forças militares conjuntas do Egito, Jordânia e Síria. Ocupou grandes áreas de território árabe, que agora conhecemos como Cisjordânia e Faixa de Gaza. Após o conflito, o principal inimigo do Estado Judeu aparece com o nome de Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Este grupo reunia uma série de pequenas organizações de resistência à ocupação israelense, quase todas de orientação socialista, com destaque para o Partido Fatah, liderado pelo engenheiro egípcio Yasser Arafat (1929-2004). Em árabe, numa tradução aproximada, Fatah significa movimento. Ou seja: o movimento para a libertação da Palestina, a terra ocupada por Israel. A organização Al-Fatah desencadeou uma intensa campanha contra Israel, recorrendo com frequência ao terrorismo: atentados, sequestros, assassinatos. Uma forma de guerra irregular que dura até hoje.
O jornal The Washington Post, um dos mais importantes do mundo, traz recente artigo do jornalista Ishaam Thardoor, com a seguinte afirmação:
“Na época, o principal inimigo de Israel era o partido Fatah, do falecido Yasser Arafat, que funcionava como o coração da Organização de Libertação da Palestina (OLP). O Fatah era secular (não religioso) e inspirou outros movimentos guerrilheiros esquerdistas e revolucionários que travaram insurreições em outras partes do mundo, durante a Guerra Fria. A OLP realizou assassinatos, sequestros e, embora reconhecida por países árabes vizinhos, foi considerada uma entidade terrorista por Israel e seus agentes nos territórios ocupados enfrentaram repressão brutal nas mãos do Estado a da segurança israelenses”.
Para enfrentar seu principal inimigo, a OLP, os israelenses utilizaram a máxima de Maquiavel: dividir para reinar. Procuraram nos territórios ocupados um líder que pudesse fazer frente a Arafat. Encontraram um clérigo islâmico chamado Sheikh Yassim, líder de uma comunidade religiosa que desenvolvia trabalho de assistência social e caridade nos territórios ocupados. Israel decidiu financiar o líder fundamentalista islâmico. Foi uma decisão de governo. Vou recorrer mais uma vez ao artigo do Washington Post:
“Israel começou a apoiar o clérigo Sheikh Yassin, que montou uma ampla rede de escolas, clínicas e bibliotecas. Yassin formou o grupo islâmico al-Islamiya Mujama, oficialmente reconhecido pelo governo israelense como uma instituição de caridade e, em seguida, em 1979, como uma associação (política e religiosa). O país também aprovou a criação da Universidade Islâmica de Gaza, que agora considera como um viveiro da militância (contra Israel). A universidade foi um dos primeiros alvos atingidos pelos aviões israelenses na Operação Chumbo Fundido, em 2008”.
Então, o “aliado” se transforma no novo inimigo. O grupo de Yassim vira o Hamas. Em 2004, o governo israelense decide matar o “aliado”, que é atingido por um foguete disparado do ar. Em 2007, o Hamas vence eleições livres, com voto direto, em Gaza. Agora, em 2014, Israel quer “desmilitarizar” o Hamas, começando uma nova guerra, onde a maioria das mais de 1.400 baixas (cerca de 80%) são civis, mulheres e crianças.
E você, leitor, o que acha disso? Pura hipocrisia, a custo de vidas humanas?

Yassim e Arafat, líderes opostos da mesma rebelião.

Yassim e Arafat, líderes opostos da mesma rebelião.

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Comando Vermelho queria resgatar Fernandinho Beira-Mar durante julgamento no Rio. Descoberta do plano da facção criminosa impediu nova condenação do traficante.

Fernandinho Beira-Mar no tribunal. Imagem da Globonews.

Fernandinho Beira-Mar no tribunal. Imagem da Globonews.


A descoberta de um plano do Comando Vermelho (CV) para resgatar o traficante Luís Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, um dos fundadores da organização criminosa, levou a Justiça do Rio a suspender o julgamento, marcado para 26 de agosto, de mais um crime atribuído ao líder da facção. FBM, como é conhecido entre a bandidagem, seria levado ao fórum da cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, para responder por um homicídio cruel. Michel Anderson dos Santos, de 21 anos, desafeto do traficante, foi torturado até a morte em dezembro de 1999. Ele teve as mãos, os pés e as orelhas decepados com uma serra elétrica.
A desembargadora Nilza Bittar aceitou nesta quarta-feira (30 jul) um pedido do Ministério Público para impedir o julgamento, já que havia sérias ameaças de invasão do Tribunal do Júri de Caxias por homens armados. Além do mais, a promotoria alertava para o fato de que a facção criminosa é muito poderosa naquela região e poderia influenciar os jurados. Fernandinho está trancafiado no presídio federal de Catanduvas, interior do Paraná, em regime de isolamento. Até agora já soma penas de mais de 200 anos de prisão.
As leis brasileiras não aceitam a prisão perpétua. Seria o caso, já que ninguém sobreviveria a dois séculos de encarceramento. O máximo admitido pela Lei de Execuções Penais é a reclusão, em prisão fechada, por um período de 30 anos. FBM está perto de completar esse tempo de cadeia.

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Dilma Rousseff quer convencer Mercosul a aprovar condenação ao massacre em Gaza. Brasil pretende afirmar liderança no continente e mostrar que não é “anão” sul-americano.

Encontro dos chefes de estado do Mercosul, em Caracas. Foto do portal 1.

Encontro dos chefes de estado do Mercosul, em Caracas. Foto do portal G1.

A presidente Dilma Rousseff começou hoje (29 jul), em Caracas, Venezuela, a trilhar uma longa estrada que pode afirmar a liderança política do Brasil no continente. A reunião dos chefes de estado do Mercosul, além de discutir temas regionais de comércio e política econômica, como o calote da dívida argentina, a pressão da banca internacional sobre os pobres latino-americanos etc, serve de palco iluminado para o desempenho da diplomacia brasileira. Trata-se do primeiro encontro multilateral pós-guerra em Gaza, opondo Israel aos palestinos. Este é, no momento, o foco da mídia mundial.
Enquanto os governantes regionais se encontram em Caracas (note-se que tal coisa não aconteceu na Europa, submetida que está à pauta norte-americana), a violência campeia no Oriente Médio, chamado de “a Terra Santa”. Nas últimas 24 horas, o número de palestinos mortos ultrapassou a marca de 1.300, com mais de 6 mil feridos. No lado israelense, 55 soldados mortos e apenas dois civis, o mesmo número entre a população sem farda desde o início das hostilidades. Esses dados estão justamente na base da argumentação de Dilma Rousseff sobre o caráter da ofensiva israelense, ao tentar convencer seus parceiros latino-americanos. Segundo já declarou, “não se trata de um genocídio, mas é um massacre”. Se os demais chefes de estado concordarem com ela, o que provavelmente deve acontecer, não será mais a opinião e um “anão diplomático”, mas uma assentada de governos que representam 350 milhões de seres humanos.
A diplomacia brasileira não pode perder essa oportunidade de “vingar” as declarações de um porta-voz desastrado da Chancelaria israelense, que chegou a citar, em entrevista à TV Globo, a derrota do Brasil por 7 a 1 frente à seleção de futebol da Alemanha, como se aqui as pessoas só se importassem com isso. Aquele Yigal Palmor não sabe onde se meteu.

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