O crime organizado pretende a tomada do poder. O que assistimos no Brasil é parte dessa ação destinada a proteger lucros e privilégios acima das leis. E eles já chegaram aos poderes da República.

corrupção política 01                                   O crime organizado pretende o poder. Precisa de leis que protejam seus lucros inacreditáveis – e que garantam imunidade a seus integrantes e sócios. Precisa de uma justiça complacente, lotada de fianças, cheia de dispositivos que garantam responder processos em liberdade. Via de regra, “responder em liberdade” vira o passaporte da fuga dos acusados. Em todos os ciclos da História, a acumulação de riquezas, ilegalmente ou por meio da força bruta, produziu castas e segmentos inimputáveis. Acima da ordem comum das coisas. A história do pós-guerra está repleta de situações em que isto se tornou uma realidade inegável. O crime organizado se instalou no poder em vários países do Leste Europeu e na Ásia Central, além da África. Isto deu início a uma fase em que próprios governantes passaram a comandar atividades criminosas em larga escala, inclusive por meio dos sistemas bancários e de troca de capitais.

                                   Aqui no Brasil há exemplos fartos e variados desta vocação para o poder. A infiltração de organizações ilegais nas instituições democráticas, corrompendo os sistemas executivos, judiciários, comprando gente nas polícias e nos governos, dá o tom de uma orquestração em que somos alvo de uma conspiração nacional e internacional para “legalizar” o crime e o dinheiro de origem desconhecida ou ilegal.

                                   Quando escrevi esses dois parágrafos, na introdução de “Assalto ao Poder” (Editora Record, 2010, vencedor do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro), disseram que eu estava exagerando. Cheguei a citar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para explicar a questão. No último ano de governo FHC declarou que “o crime organizado chegou aos altos escalões da República”. O que assistimos no Brasil de hoje é a etapa superior desse assalto ao poder.

                                   Em nosso país, a atividade política e a gestão pública, com poucas exceções, se tornaram uma atividade criminalizada. Poderosas organizações criminosas, que detêm o poder econômico, dominaram o processo eleitoral, retirando de nossa democracia o caráter representativo e popular. É eleito quem tem mais dinheiro, porque se torna mais conhecido na televisão e no rádio – ou porque distribui pequenos favores para comunidades pobres. O brasileiro não vota em partidos – muito menos em programas políticos. Ganha quem tem mais dinheiro e algum carisma pessoal. Principalmente quem tem padrinhos e financiadores.

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O povo foi às ruas contra a corrupção. Não adiantou nada.

                                   E agora sabemos que os financiamentos políticos, na verdade, são “empréstimos” para serem cobrados           quando o sujeito assumir o mandado. Pode ser qualquer mandato parlamentar, de modo a manipular as leis conforme o interesse do grupo econômico – ou pode ser um governante, que vai “devolver o empréstimo” por meio de obras públicas superfaturadas, algumas das quais costumam cair sobre a cabeça das pessoas. Este é o modelo vigente no país. E não se pode esperar que esse Congresso vá fazer as reformas necessárias. Não vai. Deputados e senadores são beneficiários do esquema. Não vão aprovar nada que atrapalhe a malandragem.

                                   Agora o Senado da República estuda a aprovação de uma lei que impede a delação premiada de políticos e empresários presos – e que proíbe o vazamento de informações para a imprensa de assuntos ligados às investigações contra as organizações criminosas que agem à sombra do poder. É um tiro de morte na Lava-Jato. E quem está coordenando o projeto? O senador Romero Jucá. Não vou perder tempo descrevendo a biografia desse senhor. Há entre os parlamentares – e, dizem, no próprio núcleo político do governo Temer – um forte sentimento para colocar freio nas investigações de corrupção. Se elas prosseguirem, não sobra ninguém de pé. Vai faltar vaga em cadeia.

                                   Este ano teremos a primeira eleição sem o financiamento empresarial de campanha. Porque o Supremo Tribunal proibiu, assentando que esse tipo de patrocínio é discriminatório e agride a igualdade de oportunidade entre os candidatos. E o que vai acontecer? As mentes criminosas vão inventar meios sofisticados de alimentar o caixa 2 com dinheiro vivo. Os marqueteiros e as produtoras de vídeo vão emitir notas baratinhas e cobrar o grosso da grana por fora. E assim a vida segue.

                                   O crime organizado tomou conta da vida política brasileira e de boa parte da gestão pública. As quadrilhas chegaram ao poder. O resto é bobagem.    

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Tráfico na fronteira movimenta 60 milhões de dólares por ano. A guerra entre facções brasileiras e cartéis paraguaios é pelo controle da venda de 60 toneladas de maconha e 10 de cocaína.

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PF queima maconha no Nordeste. Foto DRE/PF.

Superando eventuais divergências e desacertos comerciais, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as maiores facções criminosas brasileiras, se uniram para controlar o tráfico de drogas na região de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. A cidade faz  divisa com Pedro Juan Caballero e é vizinha de Capitan Bado, no Paraguai, onde estão os maiores atacadistas de maconha e cocaína da fronteira. É um negócio milionário. Todos os anos, 60.000 quilos de maconha e 10.000 quilos de cocaína colombiana pura atravessam para o Brasil – e uma parte menor vai para a Argentina e Uruguai.

Em valores atualizados, o tráfico rende 5 milhões de dólares por mês na fronteira: 60 milhões de dólares por ano. A preços da fronteira, a maconha paraguaia, considerada a melhor do continente, custa cerca de mil reais o quilo. Quando chega ao Rio de Janeiro, por exemplo, a cannabis é vendida a 150 reais o papel de 25 gramas – ou 6.000 o quilo. Em geral, a droga paraguaia e cotada no dobr0 do preço da brasileira, plantada no nordeste do país. Quando a maconha está “batizada”, misturada com outros resíduos, fica mais barata.

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Patrulhas na fronteira não impedem o tráfico. Foto DRE/PF.

Nos EUA e no Canadá, os maiores consumidores mundiais de drogas, a cocaína em estado puro custa 97 dólares o grama. Ou 97.000 dólares o quilo. Quanto mais longe da região produtora, a América Andina, a cocaína fica mais cara. Na Austrália e na Nova Zelândia, do outro lado do mundo, chega a custar 300 dólares o grama. Em termos globais, o tráfico de drogas movimenta algo parecido com 1 trilhão de dólares/ano. A Polícia Federal brasileira apreende anualmente certa de 40 toneladas de cocaína e mais de 300 toneladas de maconha e drogas sintéticas. E todo mundo sabe que a droga apreendida representa apenas 10% do movimento global.

Em termos globais, o relatório da ONU sobre drogas, divulgado no ano passado, apesar de ser considerado extremamente conservador nos números que cita,  apresenta o seguinte cenário:

“{Apesar da crise econômica}a prevalência do uso de drogas continua estável em todo o mundo, de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas de 2015 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes. Estima-se que um total de 246 milhões de pessoas – um pouco mais do que 5% da população mundial com idade entre 15 e 64 anos – tenha feito uso de drogas ilícitas em 2013. Cerca de 27 milhões de pessoas fazem uso problemático de drogas, das quais quase a metade são pessoas que usam drogas injetáveis. Estima-se que 1,65 milhão de pessoas que injetam drogas estavam vivendo com HIV em 2013. Homens são três vezes mais propensos ao uso de maconha, cocaína e anfetamina, enquanto que as mulheres são mais propensas a usar incorretamente opióides {medicamentos derivados do ópio} e tranquilizantes”.

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O “Comendador” Arcanjo. Imagem de telejornal de Campo Grade.

Vale repetir: esse quadro apresentado pela ONU é contestado por estudiosos de todo o mundo, que apontam um número de usuários de drogas pelo menos duas vezes maior. De qualquer modo, o tráfico, sempre feito com dinheiro à vista, é o negócio de maior liquidez di planeta. Não é à toa que atraiu os nossos bandidos organizados para a fronteira. Já na metade dos anos 1990, um traficante brasileiro, ex-policial e bicheiro, João Arcanjo Ribeiro, o “Comendador”, assumiu o controle do tráfico na fronteira do Paraguai. E se tornou sócio de Fernandinho Beira-Mar, que representava o Comando Vermelho (CV). Os dois tiveram um violento desentendimento e FBM se refugiou na Colômbia, onde foi negociar diretamente com os produtores de coca.

A Justiça brasileira estima que o patrimônio do “Comendador” chegava a 1 bilhão de reais. Veja um trecho do relatório da “Operação Arca de Noé”, em 2004, que apanhou o criminoso:

“Dentre os bens de Arcanjo já apreendidos na operação, constam nada menos dos que 2.303 imóveis; uma fazenda com 3.768 hectares e outra de soja, com 8.260 hectares; um “Shopping Center”; três hotéis no país e um em Orlando, nos Estados Unidos. Além dos imóveis, foram apreendidos uma aeronave Cessna Citation, no valor de US$ 6 milhões; trinta outros veículos, 105 bens móveis, dentre joias e barras de ouro; e mais de seis mil itens correspondentes a ativos financeiros no país, que totalizam mais de R$ 38 milhões. Foram indisponibilizados também cerca de R$ 8,6 milhões que estavam depositados em contas correntes bancárias no país em nome do criminoso”.

O PCC, após a prisão de Fernandinho, também se deslocou para a fronteira. A organização se associou a um traficante de Pedro Juan Caballero, Carlos Antônio Caballero, o “Capilo”, que representou o PCC na região.  Foi preso, mas de dentro do presídio comandava o crime na fronteira. Ele teria ordenado a morte de Oscar Morel, traficante de armas, sócio da ADA, uma facção rival do Rio de Janeiro que também queria se instalar na região e foi impedida. Em Pedro Juan e Capitan Bado, o PCC comprou fazendas com pistas clandestinas. Em março de 2008, a facção paulista praticou uma chacina em Capitan Bado, executando sete pessoas suspeitas de terem denunciado um integrante da organização, Auxiliador Dias de Sousa, o “Cartão”, que foi preso pela DRE local. Foram mais de 100 tiros de M16.

O ponto alto desse conflito foi a execução cinematográfica do “Rei da Fronteira”, o dono da maconha paraguaia na região, Jorge Rafaat, o “Sadam. Ele foi emboscado no último dia 15 e assassinado com tiros de uma metralhadora ponto 50.

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A última guerrilha comunista das Américas depõe as armas. As FARCs e o governo da Colômbia chegaram a um acordo de paz definitivo, depois de três anos de um difícil diálogo em Havana. É o fim de 50 anos de guerra civil.

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As FARCs: um terço dos guerrilheiros são mulheres. Foto FARC-EP.

                                   A Colômbia tem o que comemorar. Na última quarta-feira (22 jun), em Havana, o presidente Juan Manuel Santos e o líder guerrilheiro Timoleón Jiménez apertaram as mãos, selando um acordo de paz que encerra mais de meio século de violência no país. Uma guerra sem trégua que matou mais de 250 mil pessoas, deixou 300 mil feridos e 2 milhões de “desplazados”, refugiados internos, uma gente que perdeu suas casas e suas terras. A guerra civil colombiana foi a maior tragédia ocorrida no continente, por sua duração e pelos danos que causou.

                                   As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP) foram criadas em 1964. O fundador foi Pedro Antônio Marim, que adotou o nome de Manuel Marulanda Vélez, o “Tirofijo” (Tiro Certeiro). A guerrilha surgiu em torno de um poderoso movimento camponês do final dos anos 1950, que lutava pela posse de terras e reforma agrária. Esse movimento foi violentamente reprimido pelo governo e por milícias formadas por grandes proprietários rurais. As FARCs aparecem nesse cenário como um grupo armado destinado a resistir à repressão. Ou – como eles preferem dizer – “para revidar a violência do latifúndio”.

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Marulanda, com o cigarro: o fundador das FARCs. Foto do portal FARC-EP.

                                   Marulanda, por essa época, se aproxima dos comunistas e adota o marxismo-leninismo como ideologia para a guerrilha. Até hoje os integrantes das 27 frentes de combate das FARCs se dizem comunistas. O líder máximo do movimento continuou marxista até 2008, quando morreu de ataque cardíaco nas montanhas. As FARCs controlam um terço do território colombiano, inclusive as áreas de montanha onde estão as grandes plantações de coca, a matéria-prima da cocaína. Porque mantém relações amistosas com os plantadores, chamados “cocaleros”, muitos dos quais têm origem indígena e apoiam a luta armada, as FARCs são tidas como “narcoguerrilha”. Além do mais, é comum que os guerrilheiros sequestrem personalidades do país para obter resgates, o que deu a eles a pecha de “terroristas”, especialmente por parte do governo americano.

                                   Desde o primeiro governo Bush (1989-93), o Pentágono e o Departamento de Estado dos Estados Unidos investiram algo como 10 bilhões de dólares para combater o narcotráfico e a guerrilha na Colômbia. Estiveram a ponto de invadir o país, deslocando para o litoral do Pacífico uma poderosa armada. No entanto, diante das consequências vietnamitas dessa invasão, optaram por oferecer treinamento, suporte aéreo e tecnologia aos militares colombianos, que não aceitavam uma intervenção do Tio Sam. Esse apoio logístico e a presença de forças especiais americanas desequilibraram a guerra.

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A guerrilheira espera para entregar a arma.

                                   Os líderes mais importantes das FARCs morreram sob ataque de foguetes e bombas inteligentes. O dinheiro americano corrompeu e gerou traições no movimento armado, a ponto de um comandante ter sido assassinado por seus próprios guarda-costas. O exército guerrilheiro, que chegou a ter 18 mil homens e um número desconhecido de simpatizantes e apoiadores, agora tem por volta de 8 mil combatentes. Mas a guerrilha está incrustada em selvas e montanhas. Inclusive governa algumas províncias.  Curioso: mais de um terço dos guerrilheiros são mulheres, em geral camponesas. As FARCs não são um movimento de estudantes e intelectuais, como ocorreu em geral na América Latina. A guerrilha está fortemente ligada às populações do interior do país e por isso não foi destruída. Se pudesse ter sido eliminada militarmente, não teria havido uma negociação de paz tão longa em Cuba, sob as bênçãos de Fidel e Raul Castro.

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A guerrilha tem apoio no campo e sobrevive nas mats e montanas. Foto FARC-EP.

                                   O acordo de paz prevê uma anistia ampla para todos os envolvidos no conflito. A deposição das armas será supervisionada pela ONU e deverá ocorrer até o fim do ano. O próprio secretário-geral Ban Ki-Moon esteve presente em Havana, assim com o Secretário de Estado americano, John Kerry. O governo de Juan Manuel Santos se comprometeu a promover reforma agrária nas terras improdutivas e naquelas que foram desapropriadas do narcotráfico. Os guerrilheiros vão poder acompanhar o processo passo a passo. Haverá troca de prisioneiros de guerra, com supervisão internacional. Além de outros acertos, as FARCs vão se transformar em partido político e disputar eleições, passando à legalidade democrática. Ao que tudo indica, o novo partido político, ainda sem nome, terá sucesso eleitoral nas votações municiais do interior. E deverá ocupar um número razoável de acentos no Congresso colombiano.

                                   Conheça um pouco dois personagens decisivos do acordo:

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O comandante Jiménez. Foto FARC-EP.

                                   Rodrigo Londono Echeverri, ou Timoleón Jiménez ou Timochenco, é o atual comandante-em-chefe das FARCs. Tem 56 anos e está na luta guerrilheira há 34 anos. É diabético e estudava medicina quando se juntou à luta armada. Especializou-se no setor de inteligência do movimento. Acusado de homicídio, sequestro, atentados e rebelião, há contra ele uma recompensa de 5 milhões de dólares estabelecida pelo FBI. O governo americano o considera um terrorista. É um dos mais antigos combatentes vivos das FARC.  Ele assumiu o comando da guerrilha depois da morte de Alfonso Cano, que foi emboscado por uma força especial do Exército colombiano.

Veja agora o perfil do presidente:

                    

Juan Manuel Santos, advogado e economista, é o presidente da Colômbia. É considerado um político de centro, moderado e tolerante. Foi eleito pela primeira vez em 2010, com mais de 56% dos votos no segundo turno. Enfrentou oposição de segmentos militares e da direita, que estavam contra as tentativas de acordo com os comunistas.  Santos foi reeleito em 2014 pelo Partido Social da União Nacional, mais conhecido como partido “De La U”.

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O presidente Juan Manuel Santos. Foto de divulgação.

Na campanha pela reeleição, Santos foi acompanhado por uma frente de partidos políticos, justamente para que s negociações de paz não fossem interrompidas. Recebeu ampla votação popular (51% dos votos), o que funcionou como um endosso ao processo de paz.

                                   A Colômbia virou uma página da história.    

 

 

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A guerra do tráfico na fronteira: brasileiros e paraguaios continuam a matança iniciada com o fuzilamento do “Rei da Maconha”.

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Novo tiroteio em Pedro Juan Caballero deixa 3 mortos, incluindo um brasileiro. Foto da perícia criminal.

                                   Após o assassinato cinematográfico do empresário e megatraficante Jorge Rafaat, ao anoitecer da última quarta-feira (15 jun), a violência na fronteira continua. Em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia, e na vizinha Ponta Porã (MS), os efetivos policiais estão sendo reforçados para enfrentar a fúria das gangues que disputam o controle do tráfico. De um lado está o cartel que era comandado por Rafaat, onde alguns integrantes resolveram resistir mesmo com a morte do chefão. E do outro lado da disputa está um consórcio formado por facções criminosas brasileiras (CV e PCC) e traficantes paraguaios de quadrilhas menores, que estão sendo unificadas pelos novos donos do poder.

                                   Em ambos os lados da fronteira, as polícias e os jornalistas afirmam que um homem do Primeiro Comando da Capital, o PCC paulista, é o novo chefão do tráfico. Esse dirigente da facção usa três identidades diferentes, todas brasileiras: Oliver Giovanni da Silva, Elton da Silva Leonel e Ronaldo Rodrigues Benites. Mas é conhecido pelo apelido de “Galant”. Para eliminar Jorge Rafaat, as facções brasileiras teriam se associado ao principal concorrente do “Rei da Fronteira”: Jarvis Chimenes Pavão também é traficante e está preso em Assunção, a capital paraguaia, desde 2009. Foi de dentro da prisão que Pavão mandou seguir com o plano. A história da conspiração para matar Jorge Rafaat, também chamado de Sadam, está em detalhes no post anterior. Mesmo depois da morte e deposição do chefão do tráfico, o enfrentamento armado entre os criminosos prossegue.

                                   Na madrugada da sexta-feira passada (17 jun), apenas dois dias depois do fuzilamento de Rafaat, uma empresa do traficante na mesma rua foi atacada a tiros e com granadas. A loja era a maior revenda de pneus de Pedro Juan Caballero e pegou fogo. No mesmo dia uma firma de segurança do megatraficante foi invadida por homens armados. Um vigia foi feito refém, mas nada sofreu. Ele contou à polícia que os bandidos chegaram a espalhar gasolina pelo prédio. E desistiram de queimar a empresa. Os invasores estavam atrás de documentos que estariam em um cofre. Não consegui apurar se eles encontraram o que procuravam.

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Na fuga, o carro dos pistoleiros entrou em um bar. Dois foram presos.

                                   No domingo (19 jun), a coisa ficou mais pesada. Um bando armado com fuzis automáticos, ocupando dois carros, abriu fogo contra um grupo de pessoas na Vila Guilhermina, um bairro modesto de Pedro Juan Caballero. Três morreram. Um era o brasileiro Fábio Vilalba da Silva, de 23 anos. Os outros dois eram paraguaios. Na fuga os assassinos foram perseguidos pela polícia e bateram com um dos carros, quando tentavam atravessar para o lado de Ponta Porã. Dois pistoleiros foram presos, mas as autoridades paraguaias mantêm seus nomes em segredo.

                                   No Brasil, enquanto o Itamaraty e o Ministério da Justiça mantêm misterioso silêncio sobre o assunto, pelo menos uma pessoa está preocupada com a expansão do CV e do PCC para terras produtoras de drogas. O secretário da segurança do Rio, José Mariano Beltrame, sabe o que significa o crime organizado nacional adquirir status de produtor internacional. Quando era delegado federal, Beltrame teve oportunidade de participar de uma investigação sobre a organização de Jorge Rafaat. Ele conhecia bem o megatraficante paraguaio – e sabe que a execução do bandido contém um “alerta muito grave”. O secretário falou ao portal de notícias G1. Acompanhe um trecho:

                                   “Já atuei em investigações sobre esse traficante [Rafaat], que era antigo no crime e conhecido por tentar impedir que quadrilhas brasileiras se instalassem na região. A morte cinematográfica dele evidencia que criminosos brasileiros resolveram tomar o controle da região, e se isso se confirmar será um alerta muito grave para as autoridades de todo o país”. José Mariano Beltrame acrescentou: “a facção controlaria os dois lados da fronteira e teria o domínio de toda a cadeia criminosa, produzindo drogas no país vizinho e trazendo para o Brasil”. (Depoimento ao repórter Alessandro Ferreira.)

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Jorge Rafaat: rei morto, rei posto. Foto de divulgação de uma emissora de rádio paraguaia. .

                                   Pelo menos o secretário compreendeu a ameaça contida na operação conjunta das facções criminosas do Rio e de São Paulo na fronteira com o Paraguai. A polícia paraguaia acredita que a situação na fronteira tende a se acomodar, uma vez que os negócios do tráfico sejam retomados. Vale lembrar: o CV, com Fernandinho Beira-Mar, iniciou esses contatos e negócios no Paraguai, lá pelo final dos anos 1990. Em 2000/01, FBM esteve na Colômbia e se associou às FARCs, até ser ferido e preso em choque com o exército daquele país, em 16 de abril de 2001, se não me engano.

                                   Como se vê, essa história vem de longe. E pelo jeito não acaba tão cedo.

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CV e PCC juntos no ataque ao mais poderoso traficante da fronteira. Jorge Rafaat, atacadista de maconha paraguaia, levou 120 tiros de metralhadora ponto 50. As facções recrutaram mais de 100 mercenários de vários países.

 

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O chefão da fronteira fuzilado, Foto da perícia;

                                   Jorge Rafaat Toumani, respeitável empresário do setor pecuário, 56 anos, era até quarta-feira da semana passada o “Rei da Fronteira”, o mais poderoso traficante de Pedro Juan Caballero, na divisa do Paraguai com o Brasil. Também era conhecido como Sadam, dizem que por uma descendência árabe. Ele fornecia maconha por atacado para as maiores facções criminosas brasileiras, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Há pouco mais de um ano, no entanto, houve um desentendimento comercial entre os grupos.

                                   Uma fonte da Polícia Federal me contou como foi o desacerto entre os criminosos. Durante uma reunião entre o traficante paraguaio e os representantes do crime organizado brasileiro, na cidade de Ponta Porã (MS), Sadam propôs um aumento vertiginoso no preço do quilo da maconha. Também queria aumentar o grama da cocaína colombiana, que chega pura à fronteira brasileira por meio do cartel que o empresário comandava até a semana passada. Não houve acordo e as facções brasileiras abandonaram o encontro fazendo ameaças. Começa aí a guerra entre o grupo CV-PCC e o cartel paraguaio.

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A metralhadora ponto 50: M240MAG. Foto da perícia.

                                   Após o rompimento com o a quadrilha de Pedro Juan Caballero, os traficantes brasileiros entraram em contato com o principal concorrente de Rafaat, um homem ressentido e violento. Jarvis Chimenes Pavão comandava um grupo menor na fronteira e tinha interesse nos poderosos sócios brasileiros. Seria uma garantia de boas vendas e de poder de fogo. Assim começou a conspiração que resultou na morte de Rafaat. Foram recrutados mercenários paraguaios (ex-militares), brasileiros (do CV e do PCC), colombianos (ligados à AUC, milícia paramilitar anticomunista) e de outros países. Investigadores do DEA, agência americana de combate às drogas, acreditam que ex-combatentes do IRA (Exército Republicano Irlandês) podem estar no grupo recrutado para pegar Rafaat. Gente do IRA já foi encontrada na Colômbia, dando curso avançado de explosivos para guerrilheiros das FARCs. E o resultado dessa mobilização não decepcionou.    

                                   Na noite da quarta-feira 15 de junho, Jorge Rafaat dirigia um Jeep Hummer blindado por avenidas do centro de Pedro Juan Caballero. Com ele, em outros carros, 30 seguranças faziam um comboio protetor para o chefão do tráfico. De repente, em um movimentado cruzamento, uma caminhonete Toyota SW4, roubada na Argentina dias antes, avança o sinal e bloqueia a passagem do traficante. De dentro da Toyota, um ex-militar brasileiro, Sérgio Lima dos Santos, 42 anos, dispara 400 tiros de uma metralhadora norte-americana M240MAG, calibre 50 milímetros, arma de guerra usada como anticarro e antiaérea. Cerca de 120 tiros atingiram o veículo blindado de Rafaat, que morreu na hora. No mercado negro essa metralhadora custa 150 mil dólares.

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Sérgio Lima dos Santos, o pistoleiro carioca.

                                   Nove seguranças do traficante paraguaio ficaram feridos no tiroteio, que durou 25 minutos. Sérgio, que é um dos chefes do tráfico ligado ao Comando Vermelho (CV), foi atingido por tiros de fuzil e está sob custódia, em estado grave, num hospital da região. O confronto foi tão violento, que o Exército brasileiro colocou tanques e tropas nas ruas de Ponta Porã, decretando toque de recolher. Sérgio Lima dos Santos, o pistoleiro carioca que matou Rafaat, tinha mesmo que ter sido milita no Rio de Janeiro. Só uma pessoa com treinamento específico seria capaz de operar com precisão a metralhadora ponto 50. Sérgio tem experiência de combate nos enfrentamentos com bandidos rivais e policiais na área do Morro do Fogueteiro, centro do Rio, sua base operacional.

                                   Neste domingo (19 jun) o jornal paraguaio ABC Color, um dos mais importantes do país, publica que o poder na fronteira mudou de mãos. Jarvis Pavão está à frente dos negócios do tráfico. Mas quem manda é o PCC. A publicação informa que um brasileiro do PCC é o novo chefão da fronteira. O sujeito não é conhecido, mas atende pelo apelido de “Galant”.

 

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Suíça retém quase 3 bilhões de reais de origem duvidosa em contas bancárias de brasileiros. Uma delas seria usada por Henrique Eduardo Alves, ex-ministro de Temer.

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Henrique Alves, quando era presidente da Câmara dos Deputados.

Henrique Eduardo Alves, ex-Ministro do Turismo de Temer, não pediu demissão por causa das delações de Sérgio Machado, esse que foi presidente da Transpetro, um sujeito envolvido em corrupção política há pelo menos dez anos, apadrinhado do PMDB que agora acusa. A causa da demissão é bem diferente: investigadores da Lava-Jato descobriram uma conta numerada na Suíça que teria sido usada por Alves para receber suborno. A revelação está na primeira página da Folha de S. Paulo de hoje (17 jun). E como a bomba ia estourar, o ministro pediu as contas. Foi o terceiro de Temer a cair sob suspeita de corrupção.

Os procuradores e delegados federais da Lava-Jato têm ótimo relacionamento com as autoridades monetárias e judiciais suíças. A ponto de ter sido criada uma força-tarefa naquele país, reunindo mais de 20 especialistas suíços em fraudes bancárias. Tudo para atender à demanda brasileira por contas secretas utilizadas para movimentar dinheiro de políticos e aproveitadores da política, como empresários inescrupulosos, funcionários de estatais que se vendem, doleiros e operadores de partidos políticos. E os suíços ajudam bastante: só este ano descobriram quase mil dessas contas, incluindo as da família Cunha, espalhadas por 40 bancos.

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Bancos suíços não são mais um paraíso de bandidos.

As instituições bancárias mais usadas por nossos trambiqueiros estão em Zurique, Berna, Lausanne e Lugano. Até agora, em números do início de maio, os suíços já bloquearam quase 3 bilhões de reais de origem duvidosa em contas naquele país. O governo de lá informa que o escândalo do “petrolão” é o maior da história do país no pós-guerra. Deixa para trás ditadores africanos e árabes – é maior do que a roubalheira na FiFA.

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Ameaças de ataque terrorista nas Olimpíadas do Rio levam governo a ampliar esquema de segurança. Os militares temem a ação de “lobos solitários”. Atentado em Orlando aumentou a preocupação.

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Equipes de emergência treinam socorro a vítimas de atentado. Foto de divulgação.

O governo brasileiro já gastou 1,5 bilhão de reais na montagem de um plano antiterrorista para proteger os Jogos Olímpicos do Rio, que começam no dia 5 de agosto. Já foi instalado um centro de coordenação na cidade, ligado em tempo real, via satélite, com Brasília. Dispõe de amplo banco de dados de criminosos e terroristas internacionais; usa câmeras em todos os lugares onde vão haver provas esportivas, inclusive com reconhecimento facial. Serão empregados 85 mil homens das Forças Armadas e das polícias federais e estaduais. De um total de 50 países, Estados Unidos, Espanha, Israel, Rússia, Alemanha e Arábia Saudita vão fornecer agentes para auxiliar as autoridades de segurança brasileiras na tarefa de identificar e neutralizar ameaças de atentados e sequestros de delegações estrangeiras.

Os atentados em Paris e o recente ataque na boate Pulse, em Orlando, reacenderam os temores em relação ao Rio de Janeiro. Recentemente, em entrevista à agência Reuters, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Ademir Sobrinho, declarou: “Acendeu uma luz maior para o terrorismo”, indicando que a ameaça é perturbadora. O militar disse temer a ação dos chamados “lobos solitários”, indivíduos que praticam atos de terror por conta própria, seguindo orientação “remota” de organizações terroristas internacionais. Não faltam motivos para tais apreensões.

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Maxime, o terrorista que ameaçou o Brasil.

Há cerca de dois meses, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) confirmou a autenticidade de uma mensagem na Internet que fazia ameaças ao Brasil. Foi um texto no Twitter, cujo autor era ninguém menos que Maxime Hauchard, jihadista francês, um dos porta-vozes do Estado Islâmico (ISIS). A postagem foi feita em novembro do ano passado, após os atentados em Paris, e replicada várias vezes em 2016. Mas só agora, com a colaboração de serviços de inteligência de outros países, a Abin conseguiu confirmar a autoria. O texto de Maxime, que tem apenas 23 anos, dizia: “Brasil, vocês são nosso próximo alvo. Podemos atacar esse país de merda”. O terrorista é muito conhecido mundialmente. Ele aparece em vídeos do Estado Islâmico lendo mensagens em francês contra o Ocidente infiel. Já foi filmado na cena de decapitações coletivas de prisioneiros na Síria. Esse cara é um perigo.

O chefe da recém-criada Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, do Ministério da Justiça, André Rodrigues, declarou à mesma agência inglesa de notícias: “Teremos pessoas de todo o mundo para compartilhar melhor as informações e aconselhar umas às outras em suas respectivas áreas de domínio”. Os especialistas internacionais apontam a fragilidade de nossas fronteiras como o maior problema: são 16 mil quilômetros de território compartilhado com os vizinhos, sendo que por essas fronteiras passam habitualmente drogas e armas.

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Em francês, as ameaças do terror.

Após a mensagem de Maxime Hauchard, nenhuma ameaça nova surgiu. No entanto, um dos diretores da Abin, Saulo Moreira da Cunha, chegou a dizer aos jornalistas: “Isso é uma coisa que a gente espera, é impossível o Brasil ter um evento desses e esse tipo de assunto (terrorismo) não vir à tona”. É bom lembrar que o Brasil já recebeu mais de dois mil refugiados da guerra na Síria. Entre eles havia seis que portavam passaportes falsos de vários países. Mas nada de preocupante foi apurado em relação a essas pessoas.

 

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Ataque a boate gay em Orlando mostra fracasso de uma sociedade baseada na intolerância. Nos Estados Unidos, 300 milhões de armas estão nas mãos de civis e não há controle. Só no ano passado foram 372 ataques como esse. Mas o Estado Islâmico reivindicou autoria do atentado.

 

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A Swat invadiu a boate e marou o atirador.

                                   Às três horas da manhã deste domingo (12 jun), em Orlando, Flórida, um homem armado com um fuzil automático AR-15 e uma pistola invadiu uma boate gay e abriu fogo indiscriminadamente contra as pessoas. Matou ao menos 50 frequentadores da festa LGBT que acontecia no clube Pulse. Fez 53 feridos. Fora o 11 de Setembro, foi o maior massacre na história dos Estados Unidos. A polícia e o governo ainda não sabem se foi um crime de ódio contra homossexuais ou um atentado terrorista. Pouco antes do amanhecer, o atirador foi morto em confronto com as forças de segurança que entraram na boate, onde mais de 30 pessoas eram mantidas como reféns.

                                   O atirador foi identificado como Omar Saddiqui Mateen, 29 anos, cidadão americano de origem afegã. Ele era suspeito de simpatizar com o extremismo islâmico e chegou a ser  entrevistado pelo FBI, há três anos. O líder muçulmano de Orlando se apressou em declarar que Omar agiu sozinho e sem vinculações ideológicas. Seria, portanto, um crime de homofobia. Mas a polícia local informou ter recebido um telefonema do próprio terrorista jurando fidelidade ao Estado Islâmico (ISIS). O resto é mistério. Obama foi à televisão para dizer que não sabe a motivação do assassino, mas atacou a venda de armas sem restrições no país. Foi a 15ª vez que o presidente repetiu a proposta de limitar o armamento da população.

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O prefeito de Orlando e o chefe de policia: “Sangue para todo lado”.

                                   A sociedade americana é marcada pelo ódio e a intolerância contra negros, judeus, gays, imigrantes e outras minorias. Os americanos são um povo belicista, que sempre andou de armas na mão. Só no ano passado ocorreram 372 ataques armados como o de hoje, resultando em 475 mortos e 1.800 feridos. Até as crianças matam coleguinhas nas escolas. Na raiz do problema está, segundo Obama, a indústria de armas e a liberdade de comércio.

                                   O Congresso americano se recusa a aprovar leis para controle do armamento. Só na atual administração foram quatro tentativas. O último avanço na direção de um desarmamento aconteceu em 1994, quando foi proibida a venda de armas automáticas para civis. Mas o lobby da indústria conseguiu revogar a lei, em 2004, alegando que não havia uma estatística confiável acerca de homicídios com as automáticas. O crime de hoje foi realizado com um AR-15, produzido pela Armalite/Colt, com carregador para 30 balas de calibre 5.56mm. Arma automática.  

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Foto que Osmar Matten postou na Internet.

                                   Quando Omar abriu fogo no interior da Pulse, mais de 300 pessoas ainda estavam na festa, que começou na véspera do Dia do Orgulho Gay, celebrado nos Estados Unidos neste domingo. Em Los Angeles, a polícia prendeu um homem com explosivos em West Hollywood, nas proximidades da avenida onde estavam os manifestantes LGBTs. Mais uma demonstração da intolerância americana.

Omar Mateen, o terrorista de Orlando, como já disse, chegou a telefonar para a polícia, através do 911, para dizer que pertencia ao Estado Islâmico (ISIS). O FBI não acredita, porque os especialistas acham que a ligação era uma bravata para esconder a verdadeira natureza do ataque, motivado por homofobia. Um motivo torpe que ele quis disfarçar. No entanto, às cinco da tarde deste domingo a rede de televisão Al Jazira, do Catar, deu a notícia de que a milícia islâmica extremista estava reivindicando a autoria do atentado.

                                   O governo americano pensa diferente. Diante do trágico resultado do ataque, e com a repercussão mundial que se seguiu, o grupo terrorista árabe teria se aproveitado para fazer propaganda de seu poder, com uma ação espetacular dentro dos Estados Unidos. O FBI tinha informações de que Omar era um simpatizante das ideias jihadistas, mas não parecia representar uma ameaça. Apesar de vigiado pelos federais, o jovem não teve qualquer dificuldade para comprar legalmente um fuzil AR-15, uma pistola e farta munição.

                                   O pai de Omar, antigo político afegão, também residente nos Estados Unidos, disse à polícia que o rapaz tinha acessos de raiva quando via homossexuais se beijando em público, coisa muito comum na Flórida. A ex-mulher de Omar prestou um depoimento muito semelhante, acrescentando que fora agredida por ele muitas vezes, o que provocou o fim do casamento. Ou seja: parece mais uma pessoa emocionalmente desequilibrada do que um terrorista frio, um “lobo solitário”.  

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Governo do Rio é condenado a pagar 3,8 milhões de indenização pela morte de Amarildo. E ainda fica obrigado a dar pensão a sete herdeiros. O pedreiro foi sequestrado e morto por policiais na favela da Rocinha.

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Amarildo: sequestrado e morto por PMs do Rio..

                                    Cinco anos após o sequestro, tortura e morte do pedreiro Amarildo Dias de Souza, ocorridos em 14 de julho de 2013, na favela da Rocinha, a 4ª Vara da Fazenda Pública condenou o governo no Rio a pagar indenização e pensão a nove familiares dele. Suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas, Amarildo foi levado por PMs até a sede da UPP local, num canto afastado da favela. Lá teria sido barbaramente torturado, a ponto de não resistir. A justiça apurou que o corpo do pedreiro foi removido por uma viatura do Bope. Nunca mais foi encontrado.  

                                   A juíza Maria Galhardo determinou o pagamento de 500 mil reais para a viúva, Elizabeth Silva, e o mesmo tanto para cada um dos seis filhos de Amarildo. Três irmãos dele devem receber mais 100 mil cada um. A soma: 3,8 milhões de reais. Além disso, a família terá direito a uma pensão mensal equivalente a dois terços do salário mínimo (586 reais). Na sentença, a juíza diz não haver dúvida de que o pedreiro foi morto por agentes públicos que agiram como criminosos. Ao todo, 25 PMs foram acusados, mas só 12 resultaram condenados; o comandante da UPP, major Édson Raimundo dos Santos, pegou 13 anos de cadeia.

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O centro de controle da Rocinha: tecnologia de um lado e violência de outro.

                                   Os advogados que representam a família de Amarildo não ficaram satisfeitos com o resultado. Acham que a indenização foi menor do que esperavam e deixou de fora outros parentes. Na verdade, mesmo que trabalhasse sem parar a vida toda, o pedreiro jamais conseguiria reunir uma poupança como essa para a família. Mas o fato é que agentes públicos, por meio de violência, impediram que Amarildo continuasse a sustentar a casa e os filhos. O governo do Rio ainda não se pronunciou, mas é provável que não recorra da sentença.

                                   O caso de Amarildo é uma demonstração cabal de que uma polícia despreparada e violenta produz mais prejuízos do que resultados. Já passa da hora de rever a política de segurança no Rio de Janeiro. Após um sucesso inicial, o programa das UPPs afundou em abusos e corrupção. A guerra do tráfico continua intensa e os índices de criminalidade estão em alta. Vamos ver o reflexo que isso terá nas próximas eleições.   

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Tucanos articulam afastamento definitivo de Cunha. Dilma defende plebiscito e convocação de eleições. No exterior, imagem de Temer é a pior possível.

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Eduardo Cunha: todos contra ele.

 

A frente parlamentar que reúne PSDB, DEM e PPS declara guerra a Eduardo Cunha. É uma resposta às manobras de bastidores do presidente da Câmara dos Deputados, que tenta sobreviver a qualquer preço. O núcleo que comandou a oposição ao governo Dilma pretende, inclusive, procurar os adversários PT, PCdoB e Rede para derrubar Cunha de vez. A ideia é reforçar o Conselho de Ética, que não consegue julgar o deputado, e impedir um jogo regimental na CCJ que pode salvar o mandato de Cunha. Aliás, hoje (10 jun) pela manhã, o STF aceitou mais uma denúncia contra o deputado.

É curioso: esse mesmo grupo apoiou Eduardo Cunha quando se tratou de abrir o processo de impeachment contra Dilma. Resultou naquele espetáculo lamentável na Câmara, mas que serviu para revelar ao país a qualidade de nossos representantes e o real tamanho da oposição a Dilma, Lula e ao PT: de 513 deputados, 367 votaram pelo impedimento da presidente. Até aquele momento, o domingo 17 de abril, Eduardo Cunha servia aos interesses do grupo oposicionista. Agora não serve mais. Querem afastá-lo antes que o Supremo Tribunal mande prender o deputado, evitando enorme vexame para a classe política.

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Dilma dá entrevista à TV Brasil e fala em eleições diretas na emissora de Temer. Imagem TV Brasil.

Enquanto isso, a presidente afastada dá entrevista à TV Brasil, a rede pública do governo federal, fala em golpe e sugere a convocação de um plebiscito para decidir se o povo quer eleições diretas para presidente ainda este ano. Tudo isso na emissora agora controlada pela administração Temer. Parece piada: o novo governo não consiga cuidar do próprio quintal. E no exterior continua valendo a imagem de que Dilma foi derrubada por um golpe parlamentar e que Temer não apoia o combate à corrupção, já que tem acusados em seu gabinete.

O Planalto, segundo a edição online do Estadão de hoje, encomendou uma pesquisa que revelou a péssima imagem do governo no plano internacional. Essa mesma pesquisa mostra que apenas o ministro Henrique Meirelles é bem visto pela mídia mundial. E conclui: Temer deveria falar mais aos correspondentes estrangeiros, para ficar conhecido e equilibrar as informações negativas que contra ele circulam. Mas pode ser que piore, a depender do que diga o interino.

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